4’33”

John Cage 4'33"Até eu ver este vídeo, 4’33” era apenas uma piada sem graça.

Quatro minutos e trinta e três segundos, ou 4’33” para os mais íntimos, é uma peça “composta” em 1952 por John Cage para qualquer instrumento, qualquer número de músicos e qualquer combinação de instrumentos. São 3 movimentos, 30″,  2’23” e 1’40”, totalizando quatro minutos e trinta e três segundos de puro…

s    i    l    ê    n    c    i    o

Sim, isso mesmo. O músico (ou os músicos) entra no palco e… nada.

Estranho, não? Se a gente vai lá para ouvir música, nós poderíamos ter ficado em casa e curtido o silêncio, né não? Pois é, era assim que eu pensava, até ver este vídeo. É uma apresentação do 4’33” para orquestra completa (acho que foi a première mundial para orquestra, se não me engano). Por favor, percam 10 minutinhos de suas vidas e assistam isso.

Faz a gente pensar sobre o ato de nos deslocarmos até uma sala de concerto para ouvir uma música. Não é algo estranho? Mais estranho ainda, as pessoas segurarem para tossir apenas durante os intervalos…

E você, o que achou?

28 Respostas

  1. Leonardo T. Oliveira
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    Esse silêncio acaba incorporando muitas questões: 1) a apologia a um elemento que é fundamental pra estruturar toda música (as pausas, os silêncios), 2) a qualidade do silêncio cotidiano e a qualidade do silêncio da contemplação (daí a total diferença entre o silêncio qualquer, em casa, e o silêncio da peça, em um concerto, que sempre exige justamente o silêncio da contemplação), e 3) mesmo a diferença de um silêncio pra outro, já que a cada concerto a atmosfera será diferente, a tentação à tosse será diferente, a sensação e o contexto serão diferentes, etc. Quer dizer, a peça mostra que mesmo a interpretação do silêncio, como de toda música, pode ser um produto muito particular da ocasião.

    Mas em suma, eu acho pessoalmente que a composição em si tende a ser uma piada sem graça, apesar do vídeo ser muito divertido.

  2. Pádua Fernandes
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    Concordo com Leonardo. Acho “In futurum” de Schulhoff mais inquietante – além de anteceder a peça de John Cage.
    Um aspecto da obra de Cage bem autoritário é que, mesmo que o intérprete adote um tempo (de pausa) mais largo, a peça tem que acabar segundo o cronômetro.
    Em Schulhoff, não.
    Abraços, Pádua

  3. Leonardo T. Oliveira
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    “In futurum” é como que a interpretação de tudo o que compõe a performance do músico, menos o som. Tem por isso essa liberdade de interpretação que o Cage não tem. Mas, se é que resta alguma diferença nesses silêncios, parece que a “In futurum” concentra o seu significado no intérprete, enquanto o Cage se concentra em toda a ambiência contemplativa do concerto.

    Um vídeo com uma interpretação de “In Futurum” do Schulhoff: http://www.youtube.com/watch?v=3c5lRRaW4Jw.

    E a partitura: http://homepage1.nifty.com/iberia/score_gallery_schulhoff.htm.

  4. Pádua Fernandes
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    Obrigado pelo link, Leonardo. O ritmo da partitura de Schulhoff é complexo.
    A ideia de que, no futuro, será o silêncio, é também curiosa: será a morte da arte?
    Abraços, Pádua

  5. Tiago Arruda
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    Na minha opinião, esta obra de John Cage é um símbolo. Símbolo da decadência da música após o século XIX.
    Não que não tenha composições excelentes no século XX, pois tem, mas se compararmos com os séculos XVIII e XIX, percebemos que houve auge seguido de queda. Claro, que isso é apenas a minha opinião.

  6. Leonardo T. Oliveira
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    Uma música que traz músicos e instrumentos e “se recusa” a tocar (se é que não toca justamente uma longa pausa…) se parece muito com a idéia de um protesto mesmo, como que um símbolo decadentista da música, da arte. Acaba sendo uma interpretação inevitável que também é possível. Mas olhando para o Cage, eu não imagino que ele assumiria essa voz decadentista que enaltece o passado e desacredita no presente. Penso que a peça simboliza mais um transcender (no sentido de superar e poder ver com consciência) do ritual de contemplação da música. Ao fazer aquela que era o centro que hipnotizava todo o resto, a música, calar o seu som com uma pausa, isso provoca uma consciência inevitável de todos os outros elementos circundantes, presentes tanto no ambiente como mesmo dentro de cada ouvinte!, e mostra que esses outros elementos, afinal, também compõem o ritual de contemplação, além da música apenas. E aí, mais do que apenas lançar consciência sobre essas coisas – ruídos, tosses, quiçá outros sentidos -, a peça acaba *incorporando* esses elementos, os quais terminam verdadeiramente compondo o significado e a performance da peça. Daí eu até achar que não é bem um protesto ou um apocalipse com o silêncio, mas qualquer coisa a ver com uma incorporação de significados através dele, e talvez mesmo um símbolo do inefável também.

  7. Frederico Toscano
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    Concordando em tese com o Tiago, acho também que há uma parcela interessante ao chamar a atenção para o valor da pausa/silêncio, como falou nosso didático Leo. Mas é, sem dúvida, estranho… Será que esse povo todo pagou ingresso para assistir a isso?! Espero que não tenha sido a única “música” do programa… Se eu estivesse naquela platéia, seria dificílimo segurar uma gargalhada! ;)

  8. Ludwig van Winkle
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    O triste é, em pleno século 21, ainda ficar lendo BS de “decadência pós-século 19″ yadda-yadda.

    Minha interpretação de 4’33” é bem simples: é o extremo da aleatoriedade em música. Ao invés de clusters semi-indefinidos, longos trechos sem métrica, partes intercambiáveis etc, que são o ferramental clássico da música aleatória, Cage optou pelo modo mais básico de se obter sonoridades imprevistas: simplesmente não se toca nada e se ouve a ambiência.

  9. Leonardo T. Oliveira
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    Boa, Ludwig.

  10. Tiago Arruda
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    O triste é no século XXI, no terceiro milênio, tantas pessoas ainda não terem respeito à liberdade de opinião. Voltaire nos ensinou sobre a liberdade de expressão no século XVIII, no entanto a arrogância e a sensação de ser especial de alguns (comum mecanismo de defesa de quem na verdade se autodeprecia) faz com que essas pessoas tenham esse tipo de postura: “minha opinião é melhor”, “eu sou superior”, “eu sou o dono da verdade”. Eu acho incompatível que pessoas com tal nível mental e mecanismos tão imaturos de relação interpessoal possam realmente entender e apreciar música erudita ou boa arte de forma geral. Por isso, é provável que eu aprecie e entenda mais da música do século XX que quem me ofende. Por isso mesmo, posso compará-la à música dos séculos anteriores e fazer juízo de valor (que pode concordar ou discordar com o de outros).
    Esse blog é tão interessante, mas a presença de tais comentaristas rebaixa-o. Talvez seja por isso que haja poucos comentários, apesar dos excelentes posts.

    Leonardo,
    Você é um escritores deste blog, não faz sentido você enaltecer comentários arrogantes e pedantes de pessoas que não têm respeito pelas opiniões alheias.
    Antes disso, você nem entendeu o que eu disse. 4’33” ser um símbolo do declínio da música no século XX é obviamente opinião minha, claro que o compositor teria outras explicações para a obra.
    A mensagem do indivíduo que desconhece Voltaire me causou risadas, mas a sua realmente me preocupou. Espero que isso tenha sido uma exceção, do contrário temo que este blog acabe como o allegro (extinto) ou como o presto (mais parecendo um largo).

  11. Felipe Cardoso
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    Acho que o grande mérito dessa obra é ir contra os costumes, contra o tradicional, e mostrar que as coisas podem ser diferentes; é um ensinamento como o de Voltaire, talvez. Mas criar ou mudar os costumes não é para qualquer um: se essa obra fosse de um compositor não aceito pela crítica ou pela academia, de um desconhecido qualquer, não teria a mesma aceitação e fama que teve. Certamente a beleza dessa obra é uma questão de autoridade e aceitação do compositor, não de qualidade: afinal, a ausência de música não é música, mas o seu contrário; e assim como a boa vista não existe na cegueira, também a qualidade musical não existe na ausência de música. Além disso, uma única e longa pausa não faz ritmo, e nessa obra não há rtimo, nota, consonância, harmonia, nada! Como pode ter beleza musical? Isso prova que o segredo do sucesso é a aceitação, antes de tudo, não exatamente a qualidade musical: de fato, muitos gigantes da arte não fizeram grande fama ou riqueza em vida, apesar de sua genialidade, como Bach, Van Gogh e Fernando Pessoa

  12. regina
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    John Cage deve ter se inspirado no Marcel Duchamp, com o urinol que ele chamou de “A Fonte”… Soa como uma manifestação de perplexidade sobre a arte: o que é? Estão seus limites definidos? E por aí… É tipo uma piadinha interna lá deles, e o mais engraçado é que as pessoas continuam executando e expondo – como num marketing genial, onde as pessoas compram…nada, e se sentem muito bem com isso.

  13. Leonardo T. Oliveira
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    Puxa, Tiago, me desculpe! A conversa estava boa, acabei lendo sem nem me preocupar com a relação pessoal entre elas, e só agora fui relacionar a ênfase com que uma opinião ali acabou se contrapondo especificamente à outra. Não vejo nenhum motivo pra que esse espaço de conversa e de aprendizagem cause qualquer desconforto a quem opina, e isso eu vou sempre defender.

    Mas sobre a questão, concordei especialmente com o fato de que situar essa composição do Cage dentro do projeto da música aleatória resume muito do tipo de interpretação que acabamos tendo dela: arte como expressão do próprio presente, imprevisibilidade, símbolos metalingüísticos, etc., coisas todas mencionadas na poética aleatória das artes performáticas. Aí esse dado acabou tendo um efeito sintético quando foi lembrado.

    Mas claro, como eu disse, isso que você anunciou como sua interpretação, e que até então nós discutimos nesses termos mesmo, é quase inevitável, porque a certa altura a arte começa a questionar a própria matéria que compõe a arte – desde as tintas a óleo até o som feito por instrumentos musicais -, e o efeito de um questionamento tão radical ser feito a certa altura da história da arte é no mínimo ambíguo.

  14. Leonardo T. Oliveira
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    Felipe,

    Ninguém fala em “qualidade” dessa composição, muito menos a julga no mesmo paradigma com que se julga música no sentido tradicional. Aliás, quanto mais falar em “beleza”! Portanto, ela chamar a atenção até hoje não tem nada a ver com o relativismo dos critérios que julgam a qualidade ou a beleza de uma composição musical (se é que devemos ser tão absolutamente céticos assim).

    Regina,

    Também vejo essa composição inserida nessa reflexão de quais os limites do objeto artístico diante da realidade pura e simples, e o exemplo do Duchamp é bem pertinente.

    Abraços!

  15. pataca
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    Oi. Em algum momento isso teria de ser feito, creio.

  16. Davi
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    Essa é de longe a melhor peça do John Cage, no qual o notório compositor nos liberta das porcarias que escreveu. Não sei se esse concerto foi pago, mas só gringo mesmo pra PAGAR esse tipo de porcaria.

  17. lucio medeiros
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    [tacet]

  18. Emerson Coelho
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    Confesso que pra mim essa “obra” é melhor do que qualquer obra dodecafônica que foi infelizmente já feita.
    Ademais, qual não seria nosso espanto ao comprar um livro e perceber ao folheá-lo que todas as suas folhas estão em branco? imaginem, um calhamaço de 1000 e tantas páginas com todas as folhas obstinadamente permanecidas em branco!!!

  19. Caio V. C. Lopes
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    Essa obra só se junta a todo arcabouço de ruídos sonoros que representam a música de Stockhausen, dodecafonistas, minimalistas e Cia., que mostraram que a música não é pra se apreciar, e sim para relatar uma visão particular sobre uma realidade tangível aos pensamentos do compositor. Não é para agradar o público, e sim para agradar os críticos. Por que será que o público não aprecia música erudita como antes? Arte é contexto histórico, inovação, mudanças. A música não teve mais onde se inovar, após Mahler e Debussy. Buscou-se o atonalismo como alternativa, o não som, teve que haver o divórcio com o público para a música “evoluir”. Depois de Stravinsky e Varèse nada será como antes…

    Eu me incomodo muito mais com a idéia de um quarteto para quatro helicópteros, um poema sinfônico para 100 metrônomos, a teoria do caos em Xenakis…não só uma obra composta por silêncio. Cage é um palhaço, um fanfarrão. (ouçam porém que beleza a “In a landscape” do mesmo John Cage)

  20. Caio V. C. Lopes
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    o link para “in a landscape”, do mesmo palhaço Cage…

    http://www.youtube.com/watch?v=XF1DoVdHM9M

  21. Caio V. C. Lopes
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    Eu gosto particularmente da coda do celular tocando…o canone dos ventiladores…

  22. Caio V. C. Lopes
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    Já viram pianista tocar com os cotovelos?

    http://www.youtube.com/watch?v=zrtQUQuFBlM

    Esse é modernista mas é dos bons: George Crumb, vale a pena conhecer…

  23. Matheus Antonio da Silva
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    Essa obra do Cage é a que acho mais legal dele. Ele leva ao extremo um dos conceitos musicais que ele mesmo criou (acho que foi, se não foi, me perdoem): a aleatoriedade. Nessa, nem o compositor, nem o maestro e nem os próprios músicos tem domínio sobre a música; que é feita pelo próprio ambiente onde estão inseridos.

  24. Leonardo T. Oliveira
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    Matheus, o conceito em si não foi criado por ele, mas é um conceito importante pra situar essa obra. A discussão aí em cima, especialmente no começo, falou um pouco disso e de um outro exemplo anterior a ele.

    Abraço.

  25. Matheus Antonio da Silva
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    Desculpe, é que John Cage é tão associado a aleatoriedade para mim que acabou escapulindo. Desculpe também a demora no comentário.

    A obra de Schulhoff também é interessante, pois usa as combinações de pausas para dar mais atenção ao intérprete em si, enquanto a de Cage remete mais ao ambiente, é como se tudo e todos estivessem executando a obra, que nunca mais se repetirá por uma série de motivos.

    Creio que essa obra não marca decadência da música, apenas a transformação da mesma, onde elementos básicos da música são sumariamente ignorados, para que se volte a atenção para um outro elemento (seja ele a interpretação ou o som do ambiente); muito do período contemporâneo tem como base expandir o que conhecemos por arte, e é exatamente o que a obra remete.
    Sempre gostei muito do contemporâneo e suas idéias, esse período mudou fortemente o que se entende por música (ao meu ver, mais que os outros).

  26. José Farias
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    Com referência aos 4,33 mostrado no vídeo, diante de sua sugestão de perdermos 10 “minutinhos” de nossas vidas para assisti-lo, devo dizer que não os perdi. Mas sim, os ganhei. E, atendendo ao vosso pedido de darmos nossa opinião sobre… a minha é a seguinte. Somente o imprevisível e o inesperado surpreende. O novo, o diferente, são verdadeiros balsamos para almas peregrinas.
    Mais uma vez, externo meus agradecimentos pelo bom conteúdo do blog, e pelo trabalho gratuito de seus organizadores, trazendo informação, diversão e beleza aos nossos olhos e ouvidos.
    J.Farias-PE

  27. AndréPT
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    O maior mérito de 4’33” é também seu maior defeito: consiste no fato de que 4’33” não é só 4’33”, mas a combinação e expressão das ideias artísticas e filosóficas de Cage que antecedem qualquer execução de tal peça. Definitivamente, 4’33’ não vai ser tão apreciada por quem “cai de pára-quedas” na sala de concerto e sim por aqueles que têm certa noção sobre silêncio, aleatoriedade e ‘filosofia’ na obra de Cage. Não que eu domine esses assuntos – não, com certeza.

    Acho que 4’33’ pode ser devidamente apreciada por qualquer pessoa, sim, desde que ela vá à sala sem saber do que se trata, sem expectativas, sem conhecimento. Sem, digamos, ‘spoilers’, rs.
    Até.

  28. flavio j. morsch
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    Amâncio e demais comentaristas. Passei boa parte de minha vida explicando a amigos que muitas obras artísticas, talvez até as melhores, foram incompreendidas em seu tempo porque estavam à frente de seu tempo. Vale para literatura, cinema, pintura, música. Porém, o fato de Kokoshka,Mahler, Chagall e Beethoven terem sido compreendidos 50 anos depois da morte não significa ,como pensam algumas cocotas, que a “ARTE” mais ABSTRATA é seguramente profundeza para o próximo século entender. Logo, cabe-nos cultuar de joelhos a “instalação visionária”, porque tal artista poderia ser um Beethoven ou Chagall, fora de (nosso) seu tempo…
    Eu tive o “privilégio” de assistir em 1988, em Colônia,Alemanha, à estreia de uma obra de Stockhausen, com presença do próprio e do governador do Estado, em que o piano era tocado apenas com o traseiro no teclado e com tapas na madeira.
    Houve alguns aplausos por educação”futurista”, como houve aqui em 4.33.
    Imaginem uma vernissage com uma Tela em Branco (já deve ter havido) e não faltariam madames a desmaiarem com “Síndrome de Stendhal”.
    Há de tudo neste mundo. Viva a pluralidade! Mas, por vezes, é necessária certa caretice para não perder o senso…

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