Precisamos falar sobre Pierre Boulez

Pierre Boulez (1925-2016)
Pierre Boulez (1925-2016)

Eu já havia esboçado este post antes mesmo de saber da morte de Pierre Boulez. É uma pena que tenha que terminá-lo trocando os tempos verbais, falando de um compositor, agora, do passado. Neste ano que passou, Pierre Boulez completou 90 anos de vida. Hoje em dia, Boulez, para o ouvinte médio, talvez seja mais conhecido como maestro e musicista do que pela atividade que o consagrou e à qual dedicou boa parte de suas energias: a composição.

Minha relação de ouvinte com a obra de Boulez, é preciso ser sincero, nunca foi exatamente de total aceitação. Quando adolescente, empolgadíssimo com a música contemporânea, eu tive um impacto profundamente positivo pela sua obra. Uma característica central da música de Boulez são as paisagens sonoras que ele cria: seu uso do timbre e da textura musical (mesmo em obras para solistas, como a Segunda Sonata para piano) é capaz de criar paisagens únicas na história da música, e o primeiro impacto é verdadeiramente revigorante. Poucas coisas são mais fascinantes do que ver a riqueza textural de uma obra como, por exemplo, Pli selon Pli (“dobra sobre dobra”). Mas as audições repetidas de Boulez me trouxeram um certo cansaço: sua música, em profundo contraste com a música de Messiaen (ambos se conheceram, tinham inclusive o costume de conversar no metrô de Paris), não tem nenhum objetivo simbólico, não busca emocionar o ouvinte. Não quero dizer, com isso, que ela não comunique, ela comunica de outra maneira, por meio das texturas, das harmonias da estrutura da obra. Recentemente, ouvindo a obra de Boulez, eu tenho sido capaz de identificar seus pontos positivos, mas não é uma música para se ouvir constantemente (mas também, que música é?).

Pensando-se sobre o seu legado, apesar dessa fama recente como maestro e suas aventuras (muito bem sucedidas) no meio da produção cultural (Boulez é responsável pela criação da Philarmonie de Paris, do Ensemble Intercontemporain, um importante grupo dedicado à música contemporânea, do IRCAM, um centro de pesquisa musical, etc.) e também na filosofia da música, toda essa atividade, no fundo, converge para sua música, para a composição. De certo modo, mesmo a atividade de Boulez como regente funcionou como uma “propedêutica” para a música moderna. Com efeito, em toda a sua carreira, ele se dedicou quase exclusivamente à tradição musical que ele via desembocar na sua música: Wagner (ele tem gravações famosas do Anel e de Parsifal), Mahler, Stravinsky, Debussy, Bartók e os compositores vienenses e Messiaen. É difícil julgar estilos de regência, mas Boulez certamente é um dos intérpretes mais considerados de boa parte desses compositores (com exceção de Wagner e Mahler, onde sua regência tende a ser mais controversa). Seu estilo de regência era curioso não apenas por não usar batuta, mas também por soar seco em compositores da tradição romântica: o matemático Boulez sempre teve a tendência a examinar a música mais pelo seu viés estrutural do que pelo viés emocional.

Dessa forma, é inegável que Boulez se enxergava como membro de uma tradição musical viva. De todos os compositores que lhe foram contemporâneos – e infelizmente todos eles já morreram: Berio, Stockhausen, Maderna, Ligeti -, certamente foi ele o autor mais voltado ao passado. Dentre eles, também é de Boulez a carreira que mais se aproximou da música do repertório tradicional, tendo voltado ao passado em busca de inspiração, e não de pura referência intermusical (como acontece na obra de Berio, por exemplo).

De certa maneira, essa visão da música como uma evolução diacrônica morre com ele. Os caminhos da música nos últimos anos se afastaram daquela posição tão bem encarnada por Arnold Schoenberg e teorizada por Adorno, de que a música possuía um caminho claro e cabia ao artista enfrentar e levar à frente essa tradição, em busca da obra de arte ideal, do futuro. Essa, podemos considerar, é a posição modernista por excelência. Não quero dizer com isso que a vanguarda acabou, longe disso, mas sim que ela não se enxerga mais como o elemento de uma história da música unitária.

Isso não quer dizer Boulez fosse ingênuo e preso a uma concepção passadista, nada mais longe disso. Sua obra não se limita ao serialismo total, como os ouvintes menos informados costumam pensar sobre sua música. O serialismo integral consiste nas adoções de “matrizes seriais”, à maneira das matrizes do dodecafonismo da Segunda Escola de Viena, para todos os elementos da música – isto é, além de séries de alturas, há séries de ritmos, timbres, dinâmicas, etc. Mas, apesar da fama, não é toda a obra de Boulez que se filia a essa visão, que aparece conspícua em peças como Explosante… fixe, e Le Marteau sans Maître. Ao longo de sua vasta carreira, apesar de não tão vasta produção, Boulez se apropriou de talvez todas as grandes descobertas musicais dos últimos sessenta anos.

Graças à enorme influência que a poesia de Mallarmé teve sobre seu pensamento, e também graças a toda uma corrente de pensamento musical, a sorte tem uma influência em sua obra. Decerto não falamos de extremos, como o caso de John Cage, mas peças como a Terceira sonata para piano (cuja composicão se iniciou nos anos 50 e nunca foi completada, apesar do compositor ter dedicado muito tempo a ela) tem elementos estruturais aleatórios. Aliás, cabe a Pierre Boulez o batismo do termo “música aleatória”, em uma série de artigos sobre esse conceito.

Derivada da mesma ideia, a noção da apresentação musical como um ritual, um evento único, foi constantemente trabalhada pelo compositor. Répons, obra já mais recente, foi um trabalho que explora, em parte, a aleatoriedade, em outra parte, a disposição dos músicos no espaço (basicamente a orquestra se encontra no centro e os solistas em círculo ao redor da plateia) e os choques de textura entre esses jogos sonoros.

Uma consequência dessas duas noções está no fato de que a música, como ficou bem claro para muitos compositores do pós-guerra, não é um elemento fechado e imutável. Do contrário, ela é incessantemente recriada a cada apresentação, em que o compositor não se comunica para um ouvinte isolado, mas sim para um grupo de pessoas que se predispôs a estar lá.

Curiosamente, a evolução da história da música se deu no contratempo dessas descobertas: pouco a pouco a música tornou-se, graças à gravação, cada vez mais fixa e seu contexto cada vez mais atomizado. A música hoje é muito menos aleatória e ritualística do que era nos anos 50. Cada vez menos ouve-se música coletivamente, feita na hora, e cada vez mais se consome música gravada, no isolamento não mais sequer de casa, mas de seus fones de ouvido.

Cada vez mais, nesse contexto de indústria cultural, o papel de compositores de vanguarda como Boulez se torna obsoleto, a ponto de nos perguntamos se haverá outro enfant terrible capaz de chocar com suas idéias e sua música o establishment musical. Temo que não, e uma mostra dessa crescente irrelevância está no fato de que até hoje o compositor é mais conhecido por suas obras de juventude, como a Segunda Sonata para pianoPli selon Pli e Le Marteau sans Maître, a despeito de recentes composições mais refinadas, que lembram um Debussy pós-moderno, como a já citada Répons, e como Sur Incises e outras.

Tudo isso mostra que Boulez foi uma epítome do compositor do século XX, tanto por ter reunido diversos pensamentos e tendências, quanto por sua posição emblemática de pensador e divulgador. Com sua morte, podemos decretar o fim do modernismo musical.

10 Respostas

  1. Bruno Melo
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    Bem, ótimo post como sempre, gosto do modo como o euterpe em seus posts nos apresentam figuras da música erudita de uma forma tão suave fazendo-nos entender o trabalho de cada uma dessas figuras, falo desta forma pois não conhecia muito os trabalhos de Boulez apenas havia assistido algumas gravações com o mesmo, mais uma vez perdemos uma personagem de nome em nosso meio e tal me faz pensar se a música erudita está trilhando um caminho para seu declínio já que tantos nomes da música se foram dos anos 90 até aqui, é claro que reconheço alguns nomes que também emergiriam neste mesmo período a maioria desconhecida aqui no Brasil mas de carreira na Europa, concordando com Adorno creio que a música tem sim um caminho talvez não tão claro hoje já que passamos por tempos nebulosos onde cada vez mais a música é massificada e transformada contudo creio no poder da música clássica, por fim quero deixar minhas condolências a Boulez mesmo não conhecendo seu trabalho profundamente como já disse, e creio que enfrentaremos esses tempos em que vivemos sem grandiosos compositores e teatros lotados nas maiorias das cidades para assistirem a um concerto.

  2. Heber Fiori
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    Excelente post, grato por dividir conosco esse artigo.

  3. Bosco
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    Interessante post e praticamente concordo com quase tudo. Estava lendo recentemente sobre o desinteresse de críticos e compositores com relação à música de Haydn no século XIX, e como, de certo modo, os textos que Schumann, Berlioz, entre outros, escreviam sobre os aspectos “pouco profundos” daquela música ligada ao iluminismo era uma necessidade inerente ao próprio nascimento do romantismo. Os músicos românticos não suportavam a claridade e o refinamento de Haydn, mas nunca negaram sua maestria. Já o modernismo do século XX usou as mesmas armas do passado mas na direção contrária. Mesmo assim Boulez nunca foi tão radical quanto seus textos de juventude. Na verdade, sua principal realização foi a criação de uma tradição moderna. Concertos dedicados exclusivamente aos grandes mestres do século XX.
    Sobre a qualidade de suas composições eu tenho receio de julgar, não sei dizer se são obras ricas ou vazias (hoje, ouço muito pouco), mas não posso usar uma concepção com parâmetros numa música sem parâmetros. Só posso dizer, concordando com Bruno, que sua escola de composição morre com ele, nada daquilo que ele pregava nos anos 50 e 60 sobreviveu. Mas a tradição moderna fica.

    p.s.: noutro post gostaria de citar um pequeno texto do Aldous Huxley sobre música, bem profético (o livro é Música na Noite – Ed L&PM).

  4. Bosco
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    O texto do Huxley é chamado de “Arte e o óbvio”. O texto cai como uma luva para a escola de Darmstadt e a arte contemporânea.

    Segue uma colagem de frases (perdão, Huxley):

    “Todas as grandes verdades são verdades óbvias…(aqui Huxley citar inúmeros exemplos do como o monstro da obviedade é tratado por ótimos e péssimos artistas)…em alguns dos artistas mais sensíveis e constrangidos da nossa época (moderna), esse estado de coisas (o avassalador crescimento da indústria cultural, quase sempre vulgar) teve um efeito curioso e sem precedentes. Eles passaram a ter medo de todas as obviedades, tanto das grandes quanto das pequenas…Os excessos da arte popular os fizeram ficar tomados de um terror do óbvio…mas nove décimos da vida são formados precisamente pelo óbvio. Isso significa que existem sensíveis artistas modernos que são obrigados, por sua aversão e seu medo, a se limitar à exploração de apenas uma minúscula fração da existência.
    Quase tudo o que é mais ousado na arte contemporânea é, assim, visto como sendo fruto do terror- o terror, numa era de vulgaridade sem precedentes, do óbvio… Se os jovens artistas realmente desejam oferecer uma prova de sua coragem, eles deveriam atacar o monstro da obviedade e tentar conquistá-lo, tentar reduzi-lo a um estado de domesticação artística, e não covardemente fugir dele. Porque as grandes verdades óbvias estão na nossa frente – são fatos… Ao fingir que certas coisas não estão na nossa frente quando de fato estão, grande parte da arte moderna mais bem-sucedida está se condenando à incompletude, à esterilidade, a uma prematura decrepitude e morte.”

  5. flavio j. morsch
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    Excelente, Bosco, o texto de Huxley. Vale para todas as formas artísticas ,bem como para certas coisas mais.

  6. F. S. Monteiro
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    Pierre Boulez chega na porta do Paraíso, meio sem jeito, ele que sempre foi contra autoridades. São Pedro, bem velhinho, assim que o percebe, logo se levanta e vai recebê-lo:

    SP: Rapaz, que alegria ver você por aqui! Não via mais a hora de te encontrar, sabe que eu sempre fui seu fã de carteirinha? Eu já tinha me aposentado, esse negócio de ficar aqui apertando a mão de cada um que entra, com o reumatismo… E a minha vista também já foi melhor. Mas assim que soube que você morreu, fiz questão de vim pra cá de novo, te receber.

    PB: Puxa, São Pedro, é muita gentileza sua, acho que nem mereço, porque minha música não é pra qualquer um…

    SP: Eu sei, eu sei, mas não é por ser São Pedro que eu teria um gosto careta, né? Sempre adorei sua postura, desafiante, inovadora, cheia de ideias e coragem, sempre se reinventando e incomodando o establishment. É disso que eu gosto!

    PB: É mesmo? Sinceramente, não calculei que teria muitos fãs por aqui, fico lisonjeado, é muita honra…

    SP: Nada disso, rapaz, você merece, e muito mais. Sabe de uma coisa? Vamos fazer um selfie juntos, pra eu mostrar pra santalhada toda, eles vão morrer de inveja quando me verem com o David Bowie…

  7. Rodrigo CV Silva
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    Descobri este blog hoje e me fascinei por sua escrita e o respeito que tem pela música.

    Lendo o que escreveu sobre Boulez, me veio à cabeça um compositor que gostaria de sugerir para, quem sabe, uma próxima matéria sua.
    Conhece Frank Zappa? Ele é mais conhecido no meio da música popular e visto geralmente com desdém por aqueles da tal “música séria”. Mas os seus trabalhos orquestrais, no mínimo, merecem uma boa analisada por aqueles que entendem e sabem falar, de fato, sobre música clássica.
    Existem materiais em parceria com Zubin Mehta, Kent Nagano e inclusive o próprio Boulez.
    Recomendo (se é que já não conhece..hehe) o álbum The Yellow Shark, tocado pela Ensemble Modern, conduzido em maior parte por Peter Rundel. Existe a gravação completa de uma das performances ao vivo em vídeo no YouTube.

    E, de novo, que ótimo blog, cara!!

  8. eleandro
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    sensacional esse post.. continua escrevendo pra gente por favor abraço…

  9. Luciano Fleming
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    Como sempre muito bom o texto, obrigado e parabéns!Contudo,mesmo correndo o risco de cair no óbvio, gostaria de salientar um aspecto da relação entre Boulez e Messiaen que não foi destacado no texto: eles não apenas “se conheceram e conversaram muito”: Messiaen foi professor de Boulez no Conservatório de Paris,e costumava comentar em suas aulas que os dodecafonistas da Segunda Escola de Viena, apesar de serializarem as alturas,mantinham em suas obras uma abordagem tradicional quanto ao ritmo e a dinâmica. Estas idéias de Messiaen resultaram na obra “Modos de Valores e Intensidades”, a qual ele estreou num Seminário que ministrava em Darmstad em 1949, e que teria impressionado Boulez e Stockhausen, que participavam do Seminário.Foi a partir da escutae (presumo), da análise desta obra, que Boulez partiu em direção a estruturação do serialismo integral ,que estendia a serialização a todos os parâmetros possíveis do som , e não sòmente à suas alturas, como havia feito Schoenberg em seu ,por ele mesmo intitulado, “método de compor com doze sons relacionados entre si”

  10. Flávio J. Morsch
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    Sou um jurássico consumidor de bolachas prateadas e bolachões pretos. Peço licença para uma recomendação discófila:
    PIERRE BOULEZ CONDUCTS SCHOENBERG: Sony 2013, estojo com 11 CDs, por 11 dólares no Amazon. Mais 14 de frete, são 25 dolares ou 80 reais. A Receita voltou a nao tributar abaixo de 50 dólares.
    As interpretações de Boulez são sempre íntimas de Schoenberg.
    Aqui estão Gurrelieder, Erwartung, Pierrot, Moses und Aron, Escada de Jacó, Chamber Symphony 1-2, Begleitmusik op 34, 4 Songs op 22, Suite op 29, Noite Transfigurada, Peças para Coro op 27, op 28 e op 35, Dreimal Tausend Jahre op 50, Psalm 130, Moderner Psalm, Warsaw Survivor, Die Glueckliche Hand op 18, Variações op 31, Friede auf Erden op13, Kol Nidrei op39, 6 Folksongs for Mixed Chorus, Serenade op 24 for Male Voice and 7 instruments, 5 peças orquestrais op 16, Ode a Napoleão op 41, texto de Byron.

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