Noite Transfigurada – Parte V
No primeiro post da série sobre o sexteto Noite Transfigurada de Arnold Schoenberg, conhecemos um casal que passeava à noite; no segundo post, a mulher confessou ao homem que estava grávida de outro; no terceiro post ela narrou como ficou grávida de um desconhecido apenas para sentir as alegrias da maternidade, mas agora ela se sente terrivelmente culpada. Surpreendendo-a, no quarto post o homem a perdoou, e após alguns momentos românticos, ele a faz perceber que há algo de estranho naquela noite, um brilho por tudo, um calor diferente.
Continuando a quarta estrofe do poema, o homem diz:
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Die wird das fremde Kind verklären,
Este calor transfigurará a criança do desconhecido,

Transfiguração
O violino apresenta um novo motivo, o motivo da Transfiguração. Este é talvez o motivo mais importante em toda esta parte, e ajudará a explicar o inexplicável: o processo de transformação da criança do desconhecido na criança do narrador.
Se o relato da mulher lá na segunda estrofe era mais horizontal, isto é, uma sequência de eventos e motivos, aqui o relato do homem é referente ao interior das pessoas e será centrado numa experiência mais mística e subjetiva. Schoenberg põe isto em música de uma forma “vertical”, combinando os muitos motivos que conhecemos de forma contrapontística. Muita coisa acontecerá ao mesmo tempo, portanto não se decepcionem se não conseguirem acompanhar tudo pelo ouvido.
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O desenvolvimento do motivo da transfiguração leva a um clímax, o segundo da sequência se contarmos o clímax que encerrou o post anterior. No caminho para o auge, ouvimos um fragmento do motivo na forma normal e em sua inversão, isto é, de cabeça para baixo… e ambos ao mesmo tempo. Apertem os cintos e afinem os ouvidos, a coisa vai ferver!
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Du wirst es mir, von mir gebären;
Você dará a luz a ela para mim, gerada por mim;
O violoncelo nos mostra o motivo da mulher, que no poema narrado pelo homem é você.
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Então ouvimos os motivos da maternidade (dará a luz) e da criança (a ela), seguidos do da transfiguração (para mim, a “minha” criança). Literalmente, os instrumentos estão dizendo: você dará a luz a ela para mim.
Digno de nota é o fato de que, enquanto quatro instrumentos estão com surdina (som fechado), apenas os primeiros violino e viola tocam sem surdina (com som aberto), e eles tocam justamente os motivos da maternidade e da criança. O “dará a luz a ela” é, também, um jogo de timbres.
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Repeteco do trecho que acabamos de ouvir: os motivos da mulher, da maternidade e da criança (você dará a luz a ela).
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Então focamos apenas na criança, preparando-a para seu processo de transformação. No meio de toda essa bagunça, os demais instrumentos ecoam fragmentos de outros motivos: a mulher, a transfiguração, e a inversão da transfiguração. Ao final deste terceiro clímax, vemos a criança sendo engolfada pela luz (o motivo do brilho).
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Mais ingredientes se somam para a transformação da criança: a noite e o calor, além do brilho que surge na metade do trecho. Jogue tudo no liquidificador e você tem mais um clímax, o quarto da sequência, seguido de uma breve “tomada de fôlego”.
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Para abençoar a combinação dos motivos da mulher, criança, transfiguração e calor, o violino apresenta um novo motivo, o “gerada por mim” (você dará a luz à criança gerada por mim). O quinto clímax, último e definitivo da sequência toda, inicia quando o diálogo entre o violino e o violoncelo torna-se mais acalorado.
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Tudo gira numa confusão só com os motivos da transfiguração e do calor, até chegarmos numa modulação absurda de Ré b Maior para Ré Maior:

Redução harmônica dos compassos 332 a 339
Para mim, aqui é o ponto exato da transformação da criança (se é que isso pode existir).
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Concluindo o super-clímax, os motivos “gerada por mim” e da transfiguração conduzem apaixonadamente ao motivo do perdão no 1º violoncelo, exatamente a mesma frase que abriu toda a narrativa masculina. O final feliz já está pronto e nós poderíamos acabar por aqui, mas ainda temos um pequeno epílogo pela frente.

A criança do desconhecido
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Du hast den Glanz in mich gebracht,
Você tem trazido luz para dentro de mim,
Du hast mich selbst zum Kind gemacht.
Você tem gerado um filho de mim mesmo.
Para lembrar e fixar todo o conteúdo da quarta estrofe, temos agora um “resumo” de tudo o que aconteceu. Primeiro a viola nos apresenta à “criança do desconhecido”, resultante da união do motivo masculino “genérico” com o motivo da criança. (Olha a baita dissonância no acompanhamento, criança genérica é algo muito feio). O 1º violino voa alto, resumindo a transfiguração dela…
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… e no final temos a “criança transfigurada pela noite” (na verdade, o motivo da criança do desconhecido modificado pelo motivo da noite). O motivo do perdão na viola identifica claramente quem é que está recebendo a criança: este homem não é um homem qualquer, como seria com o motivo masculino genérico, mas sim aquele que perdoou a mãe da criança. E, para não deixar dúvidas, no repeteco ele (o violoncelo) recebe a criança, e ela (o violino) recebe o perdão. Legal, né?

Gustav Klimt: Grávida nua olhando à esquerda
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O motivo do perdão ainda passeia por alguns instrumentos, até um fragmento da transfiguração eclodir no violino. Mas é uma transfiguração diferente, mais calma e sólida; parece que estamos falando de algo que já aconteceu, não?
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Da mesma forma, ouvimos agora uma versão diferente do motivo da maternidade. Por fim, fragmentos da transfiguração vão aos poucos desmontando tudo o que resta, em direção ao silêncio. É o fim da narrativa masculina.
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Com todos os instrumentos em surdina (e assim ficarão até o final da obra), o violoncelo solta mais um murmúrio, o início do tema feminino, preparando o clima para a quinta e última estrofe do poema.
Falta pouco para acabar: restam ainda uma estrofe de 3 versos e 4 minutos de música, que ficarão para o sexto e último post da série. E no final de tudo, prometo deixar vocês com o poema simples sem mais bla bla bla e as músicas finais de cada um dos seis posts. Por falar nela… aí está! Direta e sem pausas, como de hábito.
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… mas o acorde que vem na sequência, Ré Maior, nos transporta a outro mundo, com um panorama completamente diferente.
Vejam quantas pausas e interrupções há no violino: é a mulher balbuciando coisas sem sentido (neste caso, fragmentos do motivo feminino).

Este foi apenas o primeiro de uma grande sequência de clímaxes. O restante eu deixarei para o 
Ouvimos a mulher “estremecendo”, e isto será praticamente uma constante em toda esta parte. No final do trecho ouvimos o motivo masculino no violoncelo: é um dos homens que ela encontra na rua (já já eu explico melhor!).
Por mais duas vezes ouvimos a sequência anterior, porém numa versão mais resumida. O motivo da infelicidade não aparece aqui, um sinal de que a mulher está bem mais decidida. Vemos ela avaliando mais dois homens lá no 2º violoncelo, e ela enfim decide escolher o último.





A história seria diferente se ele houvesse resolvido as cadências; ouça:


Com uma pausa na aflição, os motivos feminino e do desejo se combinam para mostrar que a mulher anseia por algo para preencher sua vida (o Lebensinhalt do poema). Este “algo” é tão desconhecido e confuso para ela que, mesmo num compasso ternário, o motivo é claramente binário, produzindo um momento de indecisão rítmica. Por fim, ouvimos o motivo da infelicidade, lamentando a falta do “algo”.


Pela primeira vez, ouvimos o motivo da maternidade acoplado com o motivo da criança ao final. Esta formação aparecerá ainda muitas e muitas vezes no decorrer da obra.
