Noite Transfigurada – Parte V

No primeiro post da série sobre o sexteto Noite Transfigurada de Arnold Schoenberg, conhecemos um casal que passeava à noite; no segundo post, a mulher confessou ao homem que estava grávida de outro; no terceiro post ela narrou como ficou grávida de um desconhecido apenas para sentir as alegrias da maternidade, mas agora ela se sente terrivelmente culpada. Surpreendendo-a, no quarto post o homem a perdoou, e após alguns momentos românticos, ele a faz perceber que há algo de estranho naquela noite, um brilho por tudo, um calor diferente.

Continuando a quarta estrofe do poema, o homem diz:

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Die wird das fremde Kind verklären,
Este calor transfigurará a criança do desconhecido,

Violino 1 comps. 279 a 280

Transfiguração

O violino apresenta um novo motivo, o motivo da Transfiguração. Este é talvez o motivo mais importante em toda esta parte, e ajudará a explicar o inexplicável: o processo de transformação da criança do desconhecido na criança do narrador.

Se o relato da mulher lá na segunda estrofe era mais horizontal, isto é, uma sequência de eventos e motivos, aqui o relato do homem é referente ao interior das pessoas e será centrado numa experiência mais mística e subjetiva. Schoenberg põe isto em música de uma forma “vertical”, combinando os muitos motivos que conhecemos de forma contrapontística. Muita coisa acontecerá ao mesmo tempo, portanto não se decepcionem se não conseguirem acompanhar tudo pelo ouvido.

Violinos 1 e 2 comp. 291

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O desenvolvimento do motivo da transfiguração leva a um clímax, o segundo da sequência se contarmos o clímax que encerrou o post anterior. No caminho para o auge, ouvimos um fragmento do motivo na forma normal e em sua inversão, isto é, de cabeça para baixo… e ambos ao mesmo tempo. Apertem os cintos e afinem os ouvidos, a coisa vai ferver!

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Du wirst es mir, von mir gebären;
Você dará a luz a ela para mim, gerada por mim;

O violoncelo nos mostra o motivo da mulher, que no poema narrado pelo homem é você.

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Então ouvimos os motivos da maternidade (dará a luz) e da criança (a ela), seguidos do da transfiguração (para mim, a “minha” criança). Literalmente, os instrumentos estão dizendo: você dará a luz a ela para mim.

Comps. 296 a 298Digno de nota é o fato de que, enquanto quatro instrumentos estão com surdina (som fechado), apenas os primeiros violino e viola tocam sem surdina (com som aberto), e eles tocam justamente os motivos da maternidade e da criança. O “dará a luz a ela” é, também, um jogo de timbres.

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Repeteco do trecho que acabamos de ouvir: os motivos da mulher, da maternidade e da criança (você dará a luz a ela).

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Então focamos apenas na criança, preparando-a para seu processo de transformação. No meio de toda essa bagunça, os demais instrumentos ecoam fragmentos de outros motivos: a mulher, a transfiguração, e a inversão da transfiguração. Ao final deste terceiro clímax, vemos a criança sendo engolfada pela luz (o motivo do brilho).

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Comps. 310 e 311Mais ingredientes se somam para a transformação da criança: a noite e o calor, além do brilho que surge na metade do trecho. Jogue tudo no liquidificador e você tem mais um clímax, o quarto da sequência, seguido de uma breve “tomada de fôlego”.

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Comps. 320 e 321Para abençoar a combinação dos motivos da mulher, criança, transfiguração e calor, o violino apresenta um novo motivo, o “gerada por mim” (você dará a luz à criança gerada por mim). O quinto clímax, último e definitivo da sequência toda, inicia quando o diálogo entre o violino e o violoncelo torna-se mais acalorado.

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Tudo gira numa confusão só com os motivos da transfiguração e do calor, até chegarmos numa modulação absurda de Ré b Maior para Ré Maior:

Comps. 332 a 339

Redução harmônica dos compassos 332 a 339

Para mim, aqui é o ponto exato da transformação da criança (se é que isso pode existir).

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Concluindo o super-clímax, os motivos “gerada por mim” e da transfiguração conduzem apaixonadamente ao motivo do perdão no 1º violoncelo, exatamente a mesma frase que abriu toda a narrativa masculina. O final feliz já está pronto e nós poderíamos acabar por aqui, mas ainda temos um pequeno epílogo pela frente.

Viola 1 comp. 345

A criança do desconhecido

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Du hast den Glanz in mich gebracht,
Você tem trazido luz para dentro de mim,

Du hast mich selbst zum Kind gemacht.
Você tem gerado um filho de mim mesmo.

Para lembrar e fixar todo o conteúdo da quarta estrofe, temos agora um “resumo” de tudo o que aconteceu. Primeiro a viola nos apresenta à “criança do desconhecido”, resultante da união do motivo masculino “genérico” com o motivo da criança. (Olha  a baita dissonância no acompanhamento, criança genérica é algo muito feio). O 1º violino voa alto, resumindo a transfiguração dela…

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Comps. 349 e 351… e no final temos a “criança transfigurada pela noite” (na verdade, o motivo da criança do desconhecido modificado pelo motivo da noite). O motivo do perdão na viola identifica claramente quem é que está recebendo a criança: este homem não é um homem qualquer, como seria com o motivo masculino genérico, mas sim aquele que perdoou a mãe da criança. E, para não deixar dúvidas, no repeteco ele (o violoncelo) recebe a criança, e ela (o violino) recebe o perdão. Legal, né?

Gustav Klimt: Grávida nua olhando à esquerda

Gustav Klimt: Grávida nua olhando à esquerda

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O motivo do perdão ainda passeia por alguns instrumentos, até um fragmento da transfiguração eclodir no violino. Mas é uma transfiguração diferente, mais calma e sólida; parece que estamos falando de algo que já aconteceu, não?

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Da mesma forma, ouvimos agora uma versão diferente do motivo da maternidade. Por fim, fragmentos da transfiguração vão aos poucos desmontando tudo o que resta, em direção ao silêncio. É o fim da narrativa masculina.

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Com todos os instrumentos em surdina (e assim ficarão até o final da obra), o violoncelo solta mais um murmúrio, o início do tema feminino, preparando o clima para a quinta e última estrofe do poema.

Falta pouco para acabar: restam ainda uma estrofe de 3 versos e 4 minutos de música, que ficarão para o sexto e último post da série. E no final de tudo, prometo deixar vocês com o poema simples sem mais bla bla bla e as músicas finais de cada um dos seis posts. Por falar nela… aí está! Direta e sem pausas, como de hábito.

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Este post pertence à série:
1. Noite Transfigurada – Parte I
2. Noite Transfigurada – Parte II
3. Noite Transfigurada – Parte III
4. Noite Transfigurada – Parte IV
5. Noite Transfigurada – Parte V
6. Noite Transfigurada – Parte VI
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Noite Transfigurada – Parte IV

Vincent van Gogh: Noite Estrelada

Vincent van Gogh: Noite Estrelada

Chegamos num momento crucial, o “ponto da virada” do sexteto Noite Transfigurada, de Arnold Schoenberg. Até aqui a música tem sido triste, dissonante e violenta, lembrem:

- no primeiro post, o poema (e por consequência a música) nos apresentou a um casal que passeava à noite por um bosque;

- no segundo post, a mulher confessou ao homem que estava grávida de outro. Antes de o conhecer, ela se sentia muito infeliz e viu na maternidade um sentido para sua vida;

-no terceiro e último post, a mulher narrou como ela se entregou a um homem desconhecido com a finalidade de engravidar, mas agora que conheceu seu grande amor, ela sente uma terrível culpa e tem absoluta certeza de que seu relacionamento irá acabar.

Assim, finalizamos o último texto com um escuro acorde de Mi bemol menor…

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Comps. 225 a 230… mas o acorde que vem na sequência, Ré Maior, nos transporta a outro mundo, com um panorama completamente diferente.

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Die Stimme eines Mannes spricht:
A voz de um homem fala:

A quarta estrofe do poema

Violoncelo 1 comp. 231 a 233

Motivo do perdão

Das Kind, das Du empfangen hast,
Que a criança que você tenha concebido,

sei Deiner Seele keine Last,
não seja para sua alma uma preocupação,

“A voz de um homem” é aqui representada, como sempre, pelo violoncelo. E, ao contrário do que a mulher esperava, ele não a condena. Pelo contrário, ele a recebe de braços abertos com o motivo do perdão.

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Imaginando que o violoncelo é a voz masculina, e o violino a voz feminina, aqui seria como um diálogo entre os dois. Mas ela está tão surpresa com a atitude dele que mal consegue formar palavras inteiras:

Comps 236 a 239Vejam quantas pausas e interrupções há no violino: é a mulher balbuciando coisas sem sentido (neste caso, fragmentos do motivo feminino).

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Numa passagem ainda mais romântica, ela (o violino) consegue enfim dizer algo completo: o nome dele (o motivo masculino). Se fosse cena do Titanic, estaríamos vendo Kate Winslet dizendo Oh Jack, oh Jack

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O motivo da criança é tratado de maneira carinhosa (para “que ela não seja uma preocupação para você”), e desenvolve até os instrumentos fazerem uma pausa. É o homem interrompendo sua exposição e chamando a atenção para a noite à volta deles:

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o sieh, wie klar das Weltall schimmert!
Oh veja, como o universo brilha tão luminosamente!

Para mostrar a noite brilhando de maneira tão estranha, as cordas põem a surdina e tocam delicados harmônicos. A modulação para Fá # Maior também causa um efeito deveras estranho, surreal, suspensivo.

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Es ist ein Glanz um Alles her;
Há um brilho ao redor de tudo;

Du treibst mit mir auf kaltem Meer,
Você está flutuando comigo sobre um oceano frio,

Surgem aqui figuras bruxuleantes, cintilantes, representando o brilho que há ao redor de tudo. (Curiosamente, quando olhamos a partitura, o que vemos é o balanço das ondas do mar, citado no poema):

Violino 2 e Viola 1 comp. 251

"Brilho", mas parece as ondas do mar

Não sei se posso chama-lo de “motivo”, pois nos outros momentos ele reaparecerá sob outras formas  e com diferentes desenhos melódicos. O que é sempre constante, porém, é o uso de figuras rápidas e repetitivas.

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Violino 1 comps. 255 a 258

Motivo do Calor

doch eine eigne Wärme flimmert
mas um calor interno flui

Acima do oceano frio, aparece flutuando uma nova melodia no violino, o motivo do calor. E na sequência…

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von Dir in mich, von mir in Dich.
de você para mim, de mim para você.

… o calor (a melodia) flui de você (ela, o violino) para mim (ele, o violoncelo). Aos que acharam esta passagem particularmente genial, esperem para ouvir seu complemento, 10 compassos adiante.

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Com o brilho ainda fluindo no acompanhamento, os instrumentos tocam o motivo da noite no espelho (sul tasto, o oposto de sul ponticello, o que produz um som mais débil e quente). Sim, sim, é literalmente a noite se transfigurando.

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Então o fluxo de calor se inverte: de mim (ele, o violoncelo) para você (ela, a viola). O diálogo entre os instrumentos leva a um clímax, e quando este se desfaz continuamos apenas com o brilho (pois, lembrem-se, há um brilho ao redor de tudo).

Comps. 259 e 270Este foi apenas o primeiro de uma grande sequência de clímaxes. O restante eu deixarei para o próximo post que, já adianto, é de partir o coração. Fico por aqui, com todo o trecho analisado neste post sem pausas.

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Noite Transfigurada – Parte III

Edgar Degas: O Estupro

Edgar Degas: O Estupro

Continuo aqui a série de posts analisando o sexteto Noite Transfigurada de Arnold Schoenberg, que segue frase a frase um poema de mesmo nome de Richard Dehmel. No primeiro post fomos apresentados a um casal que passeava por um bosque à noite, e no post seguinte, a mulher confessou ao homem que está grávida de outro, pois viu na maternidade uma solução para a infelicidade em que ela vivia.

A segunda metade da segunda estrofe do poema descreve “como” ela fez para engravidar.

[...]; da hab ich mich erfrecht,
[...]; assim eu cometi um ato despudorado,

da liess ich schaudernd mein Geschlecht
assim, estremecendo, deixei meu sexo

von einem fremden Mann umfangen,
ser tomado por um homem desconhecido,

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Violino 2 comp. 135Ouvimos a mulher “estremecendo”, e isto será praticamente uma constante em toda esta parte. No final do trecho ouvimos o motivo masculino no violoncelo: é um dos homens que ela encontra na rua (já já eu explico melhor!).

Violino 1 comp. 138

A maternidade preencherá minha vida

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E aqui, uma versão selvagem, quase irreconhecível, do motivo da maternidade. Como o exemplo ao lado mostra, este motivo é a idéia da maternidade modelada para encaixar como sentido para a vida (ou vice-versa).

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O motivo da infelicidade reaparece aqui para assombrá-la e afastar qualquer possibilidade de desistência da parte dela.

Em outras palavras, o que estes três trechos querem dizer é: a mulher está tão transtornada pela infelicidade, e tão decidida a se tornar mãe, que agora ela se sente capaz de qualquer imoralidade para realizar seu sonho. Por isso ela saiu às ruas (assim imagino eu) para selecionar um homem desconhecido, alguém que possa ser o pai biológico de seu filho.

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A sequência anterior é repetida um pouco mais aguda: a mulher estremecendo, avaliando mais um homem na rua, sendo impelida pelo desejo de ser mãe e por sua infelicidade.

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Comps. 159 a 160Por mais duas vezes ouvimos a sequência anterior, porém numa versão mais resumida. O motivo da infelicidade não aparece aqui, um sinal de que a mulher está bem mais decidida. Vemos ela avaliando mais dois homens lá no 2º violoncelo, e ela enfim decide escolher o último.

Violino 1 comp. 161 e Viola 2 comp. 162

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Arrumando toda a coragem possível no mundo, a mulher seduz o escolhido e o leva (ou se deixa levar) até um local propício. Ela está tão fora de si que ouvimos não só a versão da maternidade como sentido da vida, como também seu inverso, isto é, o motivo de cabeça para baixo. As figuras rítmicas nos violoncelos causam um grande conflito rítmico, denunciando a enorme confusão que se passa no íntimo da mulher. E enfim:

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Comps. 171 a 172

Sexo em música clássica! :-)

Ela se entrega ao homem desconhecido. É fácil de ouvir a respiração ofegante dos dois, ela no violino e ele no violoncelo, servindo de acompanhamento aos motivos da maternidade e da criança. Ao fim do ato sexual, ela relata:

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und hab mich noch dafür gesegnet.
e eu ainda me senti abençoada por isso.

A criança foi concebida, e por isso agora ouvimos o motivo da criança. O que era para ser uma benção, revela-se um grande pesadelo:

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Nun hat das Leben sich gerächt:
Agora a vida tem se vingado:

Terminado o relato de seu passado, voltamos ao presente e reecontramos a mulher (olha lá o motivo dela) aos prantos, em estado de grande agitação nervosa. Ela conclui:

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nun bin ich Dir, o Dir begegnet.
agora eu conheci você, oh, você.

Sim: esta sequência de acordes é aquela mesma do post anterior (comp. 41 a 46), a que contém o polêmico acorde de nona invertido. Porém desta vez a tragédia é explicada pelo violoncelo, que martela repetidamente o motivo masculino: é ela dizendo “agora eu conheci você, oh você, oh você“…

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Então a mulher se cala e ouvimos apenas seus soluços em meio a prantos.

Ernst Barlach: A Dançarina

Ernst Barlach: A Dançarina

Terceira estrofe

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Sie geht mit ungelenkem Schritt.
Ela caminha com passos desajeitados.

A terceira estrofe é descritiva assim como a primeira, e ambas começam descrevendo passos com o motivo da noite. Porém, aqui os passos são pesados, “desajeitados”; a mulher sente-se culpada e envergonhada, e tem absoluta certeza de que seu relacionamento irá acabar.

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Sie schaut empor; der Mond läuft mit.
Ela olha para cima; a lua a acompanha.

Lembram do motivo da lua, lá do primeiro post? A lua acompanha a mulher, que caminha com passos desajeitados.

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Ela olha para cima, o violino dirigindo-se para os agudos.

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Ihr dunkler Blick ertrinkt in Licht.
Seu olhar triste banhado em luz.

E aqui, o violino triste representando o olhar da mulher. As cordas agudas no registro agudo, não poderia haver melhor descrição para a luz da lua. A seção se encerra com um sombrio Mi bemol menor, e o violoncelo a anunciar que o homem irá falar daqui por diante. Mas este é um assunto para o nosso próximo e emocionante post, aguardem!

Ouçam agora todo o trecho, que compreende a segunda metade da segunda estrofe, mais a terceira estrofe.

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Compositores no cinema: o exemplo de Igor Stravinsky

Infelizmente, para quem gosta de cinema na mesma proporção com que aprecia música, a vida dos compositores raramente resulta em cinebiografias muito dignas. Digo isso em vista das vidas particularmente entediantes que a maioria teve – tais como Bach e Haydn, por exemplo – bem como pelo resultado dos filmes dedicados à Beethoven, o compositor bipolar que fica surdo, protagonista ideal de herói para o drama de grandes platéias. Immortal Beloved, de Bernard Rose detém o mérito de uma bela reconstituição de época, e só. Já Copying Beethoven de Agnieska Holland é medíocre – como esquecer a cena praticamente plagiada de Amadeus?

Este último, aliás, deve ser o melhor filme a respeito de um compositor, justamente por não se pretender realista, mas por causa do texto teatral original de Peter Shaffer, e, igualmente, pela direção de Milos Forman.

De fato, é com os compositores românticos que encontramos vidas que mereçam uma película que se pretenda verossímil; o problema é, digamos assim, o açúcar. Um exemplo é A Song to Remember, de Charles Vidor, sobre Chopin, obra devidamente datada (o episódio de Chapolin sobre a vida do polonês termina sendo mais divertido). Idem para Song of Love de Clarence Brown, sobre os Schumann, apesar de que, diga-se, deve ser o melhor caso de bem sucedida “dublagem” de atores ao piano.

Portanto, a livre ficção declarada sobre a vida dos compositores tem tudo para ser mais atrativa. Sabendo disso Ken Russel chutou o balde e fez Mahler, um filme significativamente estranho que salta do sublime ao tosco em questão de segundos, ganhando o duvidoso status cult.

Revoluciono a música e ainda pego geral

Mas tudo isso é para falar do mais recente e apurado filme sobre um compositor, Coco Channel & Igor Stravinsky, de Jan Kounen, que é exatamente isso: romance e não história. Verdade que não é exclusivamente para ele, e mais verdade ainda que a protagonista é Channel (Anna Mouglalis), sem dúvida uma personalidade mais pop que Stravinsky (Mads Mikkelsen). Entretanto, diga-se que os vinte primeiros minutos são muito interessantes pela representação da estréia da Sagração da Primavera, expondo um delicioso passeio por um dos incidentes mais divulgados de nosso tempo.

Infelizmente o que se anuncia como a intensa e breve relação sobre duas figuras revolucionárias do século XX termina num filme morno e desinteressante, com cenas tórridas de paixão belucciniana, ensinamentos feministas de uma mulher à frente de seu tempo e angústias de um compositor galante entre seu casamento e uma amante excepcional como ele – e com a Sagração tocada ad infinitum entre tudo isso…

Enfim, a ausência de realismo não se justifica ali, uma vez que termina apenas por nos entediar com personagens tão pouco atraentes – o que não eram, ao menos para os seus entusiastas. Ainda não foi dessa vez.

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Noite Transfigurada – Parte II

No primeiro post da série, fiz uma introdução sobre o sexteto Noite Transfigurada, de Arnold Schoenberg, e iniciei a análise pela primeira estrofe do poema de Richard Dehmel. Basicamente a estrofe inicial apenas descreve um casal caminhando por um bosque à noite, porém, no momento em que deixei a obra, a mulher estava prestes a contar seu terrível segredo.

Viola 1 comp. 29

Motivo masculino

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O homem percebe isto, pois seu tema é apresentado pelo violoncelo neste exato momento:

E, num rompante dramático, ela lhe conta:

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Violino 1 comp. 34

Motivo feminino

Die Stimme eines Weibes spricht:
A voz de uma mulher fala:

A segunda estrofe do poema

Ich trag ein Kind, und nit von Dir,
Estou carregando uma criança, e não é sua,

Reparem que Schoenberg usa o violino como sua voz (no post anterior eu havia comentado que a voz feminina é geralmente representada pelo violino, e a masculina pelo violoncelo). Aliás, esta é a primeira vez que ouvimos na obra o tema da Mulher.

E então temos a famosa sequência com o acorde de nona invertido, tão combatido pelos críticos da época por nunca ter sido usado antes:

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Para mostrar que a história da mulher não acaba aqui, ou que a mulher não está em paz consigo mesma com essa situação, Schoenberg encadeia uma série de acordes dissonantes, incluindo “o” acorde de nona invertido e duas cadências clássicas não resolvidas.

Comps. 41 a 46A história seria diferente se ele houvesse resolvido as cadências; ouça:

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Lá no sexto post, 350 compassos depois, nós veremos que Schoenberg irá resolver as cadências para mostrar que a história encontrou enfim um final feliz. Por ora, continuando aqui:

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A mulher se acalma aos poucos para iniciar seu triste relato. Realçando sua tentativa de auto-controle, todos os instrumentos fazem uma pausa e colocam a surdina (ou seja, quase como uma camisa de força).

Violoncelo 1 comp. 50

Infelicidade

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ich geh in Sünde neben Dir.
Eu ando em pecado ao seu lado.

Ich hab mich schwer an mir vergangen.
Eu tenho cometido um grave delito contra mim mesma.

O violoncelo apresenta o motivo mais importante da narrativa da mulher, às vezes eu o chamo de Pecado, às vezes de Delito, às vezes de Infelicidade.

Comps. 50 e 55

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Da primeira vez ele vem acompanhado de um fragmento do motivo feminino no violino; mas da segunda vez, é o motivo masculino que o acompanha ao violoncelo. A música vai se desfazendo, esfumaceando, como se estivesse caminhando para o passado.

Neste ponto os instrumentos retiram a surdina e o passado da mulher começa a ser revelado:

Ich glaubte nicht mehr an ein Glück
Eu não acreditava mais que eu poderia ser feliz

und hatte doch ein schwer Verlangen
mas ainda tinha um forte desejo

nach Lebensinhalt, nach Mutterglück
de algo para preencher minha vida, da alegria de ser mãe

und Pflicht; [...]
e suas obrigações; [...]

Violoncelo 1 comp. 63 – Desejo

Desejo

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O violoncelo apresenta o sinuoso motivo do Desejo, mas num formato mais lento e levemente diferente do que ouviremos na sequência. É como se aquele desejo por um sentido da vida fosse algo distante e ainda estivesse se formando na cabeça da mulher.

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A infelicidade torna-se mais torturante (e a música, mais dissonante). Enquanto isso, o desejo por algo vai fermentando no violoncelo e brota na viola, no final do trecho.

Violino 1 comps. 75 e 76

Vida sem sentido

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Este novo motivo, derivado da Infelicidade, descreve o estado de vida da mulher: ansioso, fragmentado, amargo, sem direção. Pela primeira vez desde o início da obra, o ritmo se altera de 4/4 para um 3/4, ou seja, ela está se sentindo perdida.

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Violino 1 comps. 79 e 80Com uma pausa na aflição, os motivos feminino e do desejo se combinam para mostrar que a mulher anseia por algo para preencher sua vida (o Lebensinhalt do poema). Este “algo” é tão desconhecido e confuso para ela que, mesmo num compasso ternário, o motivo é claramente binário, produzindo um momento de indecisão rítmica. Por fim, ouvimos o motivo da infelicidade, lamentando a falta do “algo”.

Viola 1 comp. 83

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A sequência anterior é repetida, mais aguda e mais pungente, com uma pequena diferença. Uma figura de acompanhamento que antes foi ouvida no violoncelo, desta vez passa para a viola. Seria o nascimento da idéia de ter uma criança?

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A vida sem sentido passa a ser sufocante, e quando a infelicidade atinge seu auge…

Violino 1 comp. 100

Maternidade

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… ela tem a idéia de ser mãe, e de sentir as alegrias que isto proporciona. Este é um dos momentos mais mágicos de toda a obra, em parte proporcionado por uma inesperada modulação para Mi Maior.

Violino 1 comp. 102

Motivo da Criança

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Docemente surge o tema da criança, consequência da maternidade.

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E como consequência de ter uma criança, surgem as obrigações maternais, a responsabilidade de se cuidar de uma criança, aqui representada por uma terna canção de ninar. Se a maternidade já é um sonho distante (Mi Maior), as responsabilidades maternais são ainda mais irreais (compasso 9/8, ternário composto).

Violino 1 comp. 108 a 109Pela primeira vez, ouvimos o motivo da maternidade acoplado com o motivo da criança ao final. Esta formação aparecerá ainda muitas e muitas vezes no decorrer da obra.

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Cruelmente, ouvimos os motivos do “algo para preencher minha vida” e do “vida sem sentido”. Assim como os ritmos não encaixam (um binário simples no meio de um ternário composto), o sonho de ser mãe não se encaixa na vida da mulher.

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Mesmo assim, ela se permite continuar sonhando: as obrigações maternais, a maternidade, a criança… tudo isso tentando se tornar o algo para preencher sua vida.

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Todas as idéias se misturam na cabeça da mulher: a vida sem sentido que ela leva, a busca por um algo a mais, e a criança. Quando a infelicidade se torna exasperante, ela solta um grito (“Basta!”) e toma a decisão mais importante da sua vida. Não é uma decisão fácil, pois para engravidar ela precisa se entregar sexualmente a alguém… mas quem poderia ser? Aguardem, estas serão as cenas do próximo post.

Edvard Munch: O Grito

Poderia ser o horror da mulher, mas é a cara do ouvinte

Antes de ouvirmos todo este trecho direto e sem pausas, preciso dizer que tenho algumas dúvidas sobre o real significado desta parte. Já escrevi no post anterior que a estréia da obra suscitou muitas críticas, principalmente devido ao conteúdo altamente imoral do poema. Por isto, na análise que Schoenberg escreveu para a obra 51 anos depois de tê-la composta, ele recomenda apreciá-la como “música pura, esquecendo do poema o qual muitas pessoas hoje [em 1950] poderiam chamar de ‘repulsivo’”. E na sequência ele narra a história do poema com uma significativa alteração: diz que a mulher estava casada com um homem que não amava, e dele engravidou, antes de conhecer seu grande amor. Seria esta análise uma tentativa de suavisar a música? Teria Schoenberg se arrepedido de ter escrito algo tão imoral? Ou ela foi escrita tendo por base essa versão já “moralizada” da história? Comments, please!

Enquanto isso, deixo vocês com a música da primeira metade da segunda estrofe do poema.

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Este post pertence à série:
1. Noite Transfigurada – Parte I
2. Noite Transfigurada – Parte II
3. Noite Transfigurada – Parte III
4. Noite Transfigurada – Parte IV
5. Noite Transfigurada – Parte V
6. Noite Transfigurada – Parte VI
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