Rienzi, de Wagner, e seu destino infeliz

Richard Wagner

Se é possível uma introdução equivocada para a obra wagneriana, esta deve ser ouvir Rienzi, der Letzte der Tribunen (Rienzi, o Último dos Tribunos”), de 1840. Quem ouve Tristão e Isolda ou mesmo sua ópera imediatamente seguinte, O Navio Fantasma, se surpreende com a diferença: a terceira ópera de Wagner parece um ponto fora da curva ascendente de seu estilo e talento. Remete ao datado gênero da Gran Opera que fazia muito sucesso na França de começo do século XIX, com direito a marchas em profusão, coros e números musicais pautados por melodias italianizadas. Obra bastante desigual, pode não afastar todos os ouvintes, e, de fato, há mesmo quem tenha começado a se interessar por Wagner através dela. Contudo, não há nada mais enganoso quanto ao horizonte estético pelo qual o compositor se interessava e que concretizou.

Rienzi sempre despertou reações extremas. Hans von Bülow, amigo e entusiasta da música de Wagner, disse que esta era a melhor ópera de Meyerbeer, e o musicólogo Charles Rosen, para ironizar, sugeriu que era a pior ópera de Meyerbeer – aparentemente ambos não eram grandes conhecedores do compositor francês, haja vista que a obra de Wagner não soa como uma ópera daquele. Mahler, por sua vez, disse que essa ópera era nada menos que o “maior drama musical já feito”, afirmação desnorteante vindo de um compositor tão refinado, mas completamente compreensível se ele estava seguindo as regras da Bayreuth de Cosima e seguidores, para quem todas as óperas de Wagner que vieram depois eram definidas simplesmente como dramas – Rienzi ainda é um musikdrama, portanto, não fazendo parte do cânone oficial e não sobe ao palco durante o Festival de Bayreuth.

Se a música é tão distinta do estilo que Wagner adotará posteriormente, o texto pelo menos já contém algumas pistas dos temas que ele, sempre autor de seus libretos, irá explorar futuramente: herói de contornos míticos, porém incapaz de salvar um mundo fadado à destruição, amor impossível e vilões que conspiram e traem. Claro, ainda falta um dos principais, o da redenção pelo amor, de modo que a trama é quase exclusivamente política, uma vez que o protagonista é um digno celibatário completamente dedicado ao povo, e o romance fica no segundo plano por conta de sua irmã, Irene, e um membro de uma família inimiga, Adriano di Colonna – que tem a característica peculiar de ser interpretado por uma mezzosoprano.

Rienzi é tendência

Sinistro monumento a Cola di Rienzi, em Roma

Mas antes do enredo, vejamos as fontes de Wagner. Cola di Rienzi (1313-1354) foi um líder populista da Roma medieval que tentou reformar a cidade baseado numa autocracia e caiu em desgraça. Ao que se sabe era um idealista que ansiava o retorno da antiga grandeza romana e seguia Marsílio de Pádua quanto à ideia de que o Estado secular está contido na pessoa do líder e máxima autoridade, de modo que ele, e somente ele, seria a expressão da vontade popular. Não é preciso ser muito perspicaz politicamente para saber onde isso vai dar.

No começo do século XIX esse personagem histórico não muito relevante na história romana se tornou moda, sobretudo depois da publicação de um romance histórico do inglês Edward Bulwer-Lytton, em 1835, Rienzi, the last of the roman tribunes. Wagner leu a tradução alemã no verão de 1837 e sempre disse que essa foi a única fonte para a ópera, apesar de que em seu Esboço autobiográfico, de 1843, ele mencione que a novela apenas “recordou” um de seus temas favoritos para uma composição. Enfim, o sucesso do livro pode ter servido como impulso final, sendo sugestivo que o compositor tenha se inspirado também numa peça de teatro da inglesa Mary Mitford, de 1828, que igualmente teve bastante repercussão e da qual o libreto da ópera se aproxima bastante – ação em 5 atos, carreira de Rienzi como tribuno e senador unificadas numa só, dentre outras simplificações próprias para um palco. De todo modo, quando Wagner apresenta Rienzi é como uma Grand Opera um tanto original, que, diferente do Guilherme Tell, de Rossini, contém uma revolução logo no primeiro ato. Os quatro atos restantes são dedicados a descrever a queda do grande líder traído por uma elite que manipula o povo, o fracasso de um ser humano excepcional frente a um mundo que não o merece.

Sucesso e infortúnio

Barricadas de Maio de 1849, de Julius Scholtz. Wagner esteve aí.

Ao contrário de uma crença difundida, Wagner não queria estrear Rienzi em Paris, cantado em francês, mas em Berlim, cantado em alemão – terminou estreando em Dresden, em 1842. Ele já tentava falar aos conterrâneos pela sua obra, e nesse caso a mensagem é quase profética ao se referir à inevitabilidade do fracasso das revoluções. Ocorre que o pessimismo político do compositor chegou bem antes da derrota da revolução de que ele próprio irá participar, sete anos depois, na mesma cidade em que apresentou Rienzi pela primeira vez com retumbante sucesso.

Composta num período particularmente difícil da vida de Wagner – problemas conjugais e cobrança de credores –, a recepção entusiasmada veio em boa hora. Caindo no gosto popular pelo resto da Europa, Rienzi foi um arrasa-quarteirão para seu tempo que alavancou seu criador para o prestigioso posto de Kapellmeister da côrte de Dresden. Ao longo da vida Wagner iria renegar essa criação, considerando-a de uma “extravagância sem reservas”, tendo como único objetivo o dinheiro fácil para aliviá-lo das vicissitudes da vida. Ironicamente, em várias oportunidades ele será lembrado dela, sobretudo por meio de uma marcha que aparece na abertura e no final do segundo ato, tocada exaustivamente por bandas provincianas por onde ele passasse:

Rienzi – Sinopoli/Staatskapelle:

Entretanto, é bom jamais confiar somente nas palavras de um compositor sobre seu trabalho, principalmente se ele for um romântico, e ainda mais se for Wagner. Não se pode dizer que ele não tentou apresentar uma ópera autenticamente sua, sem concessões ao gosto burguês de então que ele desprezava e que garantia seu sustento, como ao insistir na absurda extensão de Rienzi: durou nada menos do que seis horas na noite de estreia, algo chocante para um público acostumado a dormir antes da meia-noite. Claro que era inviável continuar assim para viabilizar o sucesso, de modo que Wagner se dispôs a achar uma solução conveniente para aumentar a margem de lucro, cogitando dividir a ópera para ser apresentada em dois dias seguidos (uma espécie de ensaio para o Festival de Bayreuth?), e uma versão redux, de 1843.

Ah, mas podemos hoje ouvir alguma gravação da excêntrica versão original? Não, e a razão disso é que a obra teve um destino funesto que seu autor não poderia imaginar. Ao que tudo indica a partitura autografada com a versão original virou presente dos herdeiros de Wagner para um grande admirador da ópera, Adolf Hitler. Em verdade, ele gostou tanto da primeira vez em que assistiu uma representação em Viena, nos primeiros anos do século XX, que depois dirá que esse evento foi de suma importância para suas ideias políticas, que foi ali que tudo começou. Infelizmente é muito provavel que a partitura tenha sido destruída no bunker onde o ditador passou seus últimos dias, e até outros manuscritos se perderam do mesmo modo, uma vez que ficaram em Dresden, brutalmente bombardeada em 1945.

Ópera de Dresden, grandiosa como a ópera que viu estrear

Uma das partituras que conhecemos foi publicada por Cosima em 1890, referente à versão redux. Nos anos 70, dois pesquisadores, Reinhard Strohm e Egon Voss, conseguiram reconstruir a partir de um extenso trabalho quase arqueológico a versão mais extensa e próxima da original, porém o fato é que jamais saberemos o que o público de Dresden ouviu inteiramente na estreia em 1842. Para se ter uma ideia da perda, a gravação de Heinrich Hollreiser com a Staatskapelle Dresden, de 1976, parte da versão redux e tem apenas três horas e meia. No ano seguinte surgiu a gravaçao de Edward Downes, pretendendo ser mais autêntica, mas ainda assim a execução inteira não preenche mais do que quatro CDs.

É bom ressaltar que Rienzi não chamou só a atenção de Hitler no âmbito dos ditadores. Há indícios de que Stalin também gostasse da ópera, e, segundo um estudioso wagneriano, Helmut Kirchmeyer, as celebrações do décimo aniversário da Revolução Russa começou com sua abertura. Creio que já seja possível dizer com alguma segurança que a trajetória de Rienzi causa fascínio em líderes revolucionários. Mas, por que ela gera essa atração? Trata-se de um tema extenso, muito papel já foi gasto para discutir o zeitgeist alemão que descambou no nazismo e não pretendo me deter nisso, porém vejamos as qualidades da ópera que indicam suas afinidades com ideologias perversas.

Por mais que esse termo seja tão estupidamente usado hoje em dia, não há como não pensar que a mensagem no libreto de Rienzi é protofascista. Tudo está lá: o líder super-humano, as massas manipuladas, a ilusão de uma reconciliação comunitária em que o Estado prevalece sobre todos os âmbitos da vida e que, por fim, termina por se destruir. Contudo, ressalte-se que seu libreto espelha a imaginação social da primeira metade do século XIX, uma imaginação que privilegia a ação do homem forte e de gênio, alguém capaz de dirigir as massas descontroladas pelo ímpeto revolucionário que frequentemente retorna para atormentar a Europa. Rienzi se apoia numa solução política bastante peculiar ao romantismo de que o grande líder pode transformar a nação de maneira ordenada e eficaz.

Rienzi, artista romântico

Apesar da ideologia do libreto ser informe – um pouco liberal, um pouco socialista, um pouco nacionalista –, é fato que Cola di Rienzi seria símbolo político para muitos revolucionários na Dresden em chamas de 1849, e Wagner, dono de uma personalidade egocêntrica, se identificava com Rienzi. Em carta ao primeiro tenor que interpretou o líder populista, Josef Alois Tichatschek, o compositor dá indicações sobre o personagem, como, por exemplo, que ele teria 28 anos no momento em que começa sua carreira revolucionária como tribuno do povo de Roma. Bem, como John Deathridge lembra num artigo dedicado à tortuosa história dessa ópera, Wagner tinha 28 anos quando a escreveu e, talvez por não saber a idade precisa que Rienzi tinha quando tomou o poder em 1347, sugeriu a que coincidia com a sua. (Na verdade, ele chegou perto: o líder romano tinha 34 anos). Mais ainda: quando mandou a versão em italiano da partitura vocal para o amigo Anton Pusinelli, acrescentou uma litografia de si mesmo em pose napoleônica e no autógrafo se apresentou como “Tribuno do Povo de Dresden”. Piada? Em se tratando de Wagner, há dúvidas.

Desse modo, percebam como Rienzi provavelmente reflete mais o artista romântico que luta para prevalecer seu talento incompreendido do que utopias populistas. Muito ainda pode ser dito sobre a apropriação nazista da obra wagneriana, e ainda sobre o que nos interessa aqui, que é o que pode haver em Wagner que dê margem para essa absorção espúria. Mesmo assim, não deixa de causar algum alívio perceber que o que mais tenha chamado a atenção do líder de um atroz movimento de massas e com profundo viés anti-intelectual seja justamente um opus sem muitos momentos inspirados e sem a sutileza das óperas futuras. Não chega a ser uma tragédia para a história da música a perda da partitura original, porém convenhamos que certamente foi um destino muito indigno para o primeiro trabalho de sucesso de Wagner. Mais do que a catapulta para a fama, Rienzi teve, infelizmente, o pior destino que uma ópera pode ter: ficar enraizada em seu próprio tempo e, depois, ganhar a má fama por outro.

Para finalizar, um dos trechos mais destacáveis da ópera, a ária de Rienzi no começo do ato V, “Allmächt’ger Vater”:

5 Respostas

  1. Heber Fiori
    |

    Parabéns pelo post

  2. Pádua Fernandes
    |

    Gostei muito da análise e da verificação do protofascismo nessa ópera. Discordo um pouco apenas em pensar que Rienzi não é uma introdução tão equivocada assim; acho que os tenores wagnerianos que gostam de cantar o papel-título tem seus motivos. Um Siegfried pode cantá-lo; um Conde de Almaviva, não. A tessitura já wagneriana, e parte da música lembra o que ele faria depois, como “Allmächter Vater”, ária que foi destacada nesta publicação.
    Uma introdução bem mais estranha seria Das Liebesverbot! Essa, sim, é um ponto fora da curva que começa em Die Feen. A música é muito diferente da primeira e da terceira óperas do compositor.
    Abraços,
    Pádua

  3. Breno
    |

    Vim a conhecer o site/blog de vocês através de um outro que acesso frequentemente, e estou profundamente maravilhado pela qualidade dos textos e ensaios aqui publicados. Meus mais sinceros parabéns e admiração! Além de escrita sóbria, concisa e sofisticada, as ideias expostas são interessantíssimas. Obrigado pelo belo trabalho, que se mostra tão instrutivo para aqueles que buscam conhecer um pouco mais sobre música. Com certeza justificarei o devido respeito com a assiduidade de leitura merecida, pois tais escritos não poderiam passar despercebidos. Parabéns novamente!

  4. F. S. Monteiro
    |

    Não tem nada a ver com Wagner, mas a notícia é importante demais para passar desapercebida: faleceu hoje aos 86 anos em Dresden o compositor alemão Hans Werner Henze, um dos criadores mais interessantes do pós-guerra e uma figura humana ímpar. Boa viagem mestre, Fausto está tão feliz que já colocou um frascati na geladeira.

  5. Manoel Vigas
    |

    Saudações.
    Seu site/blog é excelente. Parabens.
    Um pedido “choroso” sobre a ÓPERA RIENZI.
    Gostaria de uma dica onde encontrar um DVD sobre a ÓPERA RIENZI…. só encontri um lixo feito em 2010, descaracterizando WAGNER, “ompletely re-written”
    Atenciosamente
    Manoel Vigas

Deixe uma resposta