Boas festas! (Jinglebelovsky)

Dezembro é um mês mágico. Quando chega, ele traz consigo todo aquele clima de “fim de filme”, sim, é mais uma página virada no livro de nossas vidas. Mas ao mesmo tempo traz a esperança e a alegria do Natal. É o nascimento de uma nova fase, o renascimento dos sonhos que ficaram arquivados ou não puderam ser concretizados no ano que passou. Vamos lembrar de todas as alegrias vividas neste ano de 2003, mas vamos batalhar para que elas sejam ainda maiores em 2004. Desejo a você e sua família um ótimo Natal, e que 2004 seja o melhor ano das suas vidas!

E para comemorar este mágico momento, pedi ao meu grande amigo e alter ego P.D.Q. Beethoven para que escrevesse uma música adequada para essa ocasião, algo que eu pudesse oferecer aos meus amigos em sinal de gratidão por todos os momentos felizes que eles me proporcionaram este ano. Ele, como sempre muito prolixo, acabou escrevendo um imenso quarteto de cordas; pensei em reduzi-lo, mas quem sou eu para cortar e fatiar uma obra do mestre P.D.Q. Beethoven? Então… segue anexo o Quarteto Jinglebellovsky, um presente para vocês, meus amigos. Som na caixa!

Quarteto Jinglebelovsky:

Escrevi esta piada musical no final de 2003, mas quando a enviei para os amigos, pouquíssimas pessoas a entenderam (e olha que a maioria dos amigos para quem enviei entendiam pelo menos um pouco de música clássica). Para não correr o mesmo risco novamente aqui no blog, desta vez explicarei a piada, sem medo de correr outro risco: o de que “piada explicada não tem graça”.

Beethoven-NoelAfinal, o que é o Jinglebelovsky?

É uma paródia do Quarteto de Cordas em Fá Maior Op.59 nº1 de Ludwig van Beethoven. Os três quartetos Op.59 são conhecidos por Razumovsky, pois foram dedicados ao embaixador da Rússia em Viena, o Conde Razumovsky. E o tatu aqui que vos escreve, enquanto estudava o quarteto nº1 em outubro de 2003, teve a péssima ideia de ver o que aconteceria se os temas do primeiro movimento fossem trocados para temas natalinos, como Jingle Bells, Deck the Halls, Anoiteceu, e por aí vai. Esta aventura me ensinou muitas coisas, e gostaria de compartilhar algumas delas com vocês.

Exposição – Primeiro Tema
O  Razumovsky I original abria diretamente no primeiro tema:

Beethoven: Quarteto Op.59 n.1 “Razumovsky I” – 1. Allegro – primeiro tema (Amadeus):

E desde o começo eu havia planejado substitui-lo por Jingle Bells (bate o sino pequenino sino de Belém):

Quarteto Jinglebelovsky – primeiro tema:

A tarefa parecia fácil: toda vez que eu encontrasse quatro notas subindo, era só adaptar o Jin.gle-bells para a harmonia do trecho e acertar as demais partes. Mas… e se as quatro notas fizessem parte de uma sequência de acordes? E se os acordes formassem um acompanhamento para outra coisa? E se fosse uma cadência?

Beethoven: Quarteto Op.59 n.1 “Razumovsky I” – 1. Allegro – usando o primeiro tema (Amadeus):

Primeira lição: o tema não é “só” uma melodia, ele também pode ser “fatiado” em motivos e ajudar a construir outras passagens da música (não só a melodia!).

Jinglebelovsky - Primeiro temaDuas observações importantes: aquele motivo marcado em azul, duas notas ligadas e duas em staccato, aparecia em todo o movimento, então me pareceu natural preserva-lo. E as cinco últimas notas da citação formavam uma espécie de cadência que era citada em vários momentos; no Jinglebelovsky, resolvi substituir as citações pelo “Sino de Belém” (jingle all the way) em sua versão original, como veremos a seguir.

Transição
No Razumovsky I, depois do primeiro tema seguia uma transição que não parecia estar relacionada ao tema inicial. Aproveitei para substitui-la por…

Quarteto Jinglebelovsky – transição 1:

Hallelujah (Aleluia), do Messias de Händel.

“Segundo Tema” e nova transição

Quarteto Jinglebelovsky – segundo tema:

Anoiteceu (eu pensei que, eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel). E na sequência, Jingle Bells e o Sino de Belém. Só muito depois é que eu fui perceber que o que eu chamei (e ainda chamo) de segundo tema no Razumovsky I,  na verdade, é algo totalmente derivado do primeiro tema, como um desenvolvimento natural do mesmo.

Já o trecho seguinte eram escalas em tercinas para o violoncelo; como as tercinas são recorrentes no movimento inteiro, resolvi alterá-las para…

Quarteto Jinglebelovsky – transição 2:

Adeus Ano Velho ([…] novo, que tudo se realize no ano que vai nascer, muito dinheiro no – Sino de Belém). Todas as demais tercinas do quarteto são citações do Adeus Ano Velho (até as mais simples).

Essas passagens com escalinhas rápidas para algum instrumento são muito comuns em seções de transição de sonatas e quartetos. Como a “minha” versão contém muitas notas repetidas, acabei dando uma importância muito maior a algo que deveria ser “só uma escalinha”, e então o trecho deixou de ter a característica de “transição”.

Terceiro Tema e Codetta da Exposição
O Jingle Bells prepara a chegada do terceiro tema:

Quarteto Jinglebelovsky – preparação e terceiro tema:

Deck the Halls (o Natal é um lindo dia, tralalalala). Daqui até o final da exposição, vários episódios desenvolvem temas já apresentados:

Quarteto Jinglebelovsky – codetta episódio 1:

… Muito dinheiro no bolso

Quarteto Jinglebelovsky – codetta episódio 2:

… Sino de Belém (não parece, mas é ele mesmo!) …

Quarteto Jinglebelovsky – codetta episódio 3:

e Jingle Bells.

Desenvolvimento

Quarteto Jinglebelovsky – desenvolvimento 1:

O desenvolvimento começa como se fosse querer repetir a exposição, mas logo começa a viajar para outras tonalidades com muito dinheiro no bolso (as tercinas!).

Quarteto Jinglebelovsky – desenvolvimento 2:

Aqui aquele motivo de duas notas ligadas e duas staccato que eu citei no começo é explorado um pouco mais – é o “método Beethoven” de desenvolvimento: fragmentar, fragmentar e fragmentar. Ao final, mais Sino de Belém, distorcido como ouvimos na codetta.

Quarteto Jinglebelovsky – desenvolvimento 3:

Razumovsky - metamorfoses do primeiro temaEste era o trecho onde o primeiro tema virava harmonia, tratado como um coral. Nem tudo eu consegui trocar para Jingle Bells, pois o tema estava bem enraizado na composição – e foi aí que eu acordei para este tipo de utilização motívica. Pronto, estava instaurada em mim uma crise paranóica: em todo lugar, passei a enxergar 4 semínimas que “poderiam” querer representar o ritmo do tema principal. Como alterar isso? É impossível alterar essa unidade orgânica sem construir algo completamente novo. Foi a hora que quis desistir, mas já havia feito mais de metade do quarteto… então continuei. Fim da crise, mais uma lição aprendida.

Quarteto Jinglebelovsky – desenvolvimento 4:

Aqui começava uma fuga sobre um tema que não havíamos ouvido antes; por isso, substitui-o por um trecho do Hallelujah de Händel (for the Lord God omnipotent reigneth).

Quarteto Jinglebelovsky – desenvolvimento 5:

Mais um trecho construído só com fragmentos de Jingle Bells e Adeus Ano Velho.

Quarteto Jinglebelovsky – desenvolvimento 6:

Sim, é o Hallelujah de Händel. Muitas formas-sonatas eliminam transições na reexposição, simplificando a dialética na apresentação dos temas, mas Beethoven não desperdiçou ideias no Razumovsky I, e a transição acabou virando anúncio para a chegada da reexposição.

Reexposição

Quarteto Jinglebelovsky – reexposição:

A reexposição não tem segredo, e segue a mesma ordem da exposição, porém sem a primeira transição: Jingle Bells (primeiro tema), Anoiteceu (segundo tema), Adeus Ano Velho (transição 2) e Deck the Halls (terceiro tema), fechando com os episódios de Muito dinheiro no bolso e Sino de Belém.

Coda

Quarteto Jinglebelovsky – coda:

Tal como em várias obras de Beethoven, a Coda era um tanto extensa e tinha como clímax um “retorno triunfal” do primeiro tema. Apenas fiz a troca de temas, e ganhei essa apresentação magistral do Jingle Bells. Nos dez últimos acordes, uma surpresa: Beethoven já havia citado “Jingle Bells” no Razumovsky I original! Fechou com chave de ouro.

Se quiserem ouvir o Jinglebelovsky inteiro, está lá em cima, no primeiro player do post. Mas acho que vocês irão preferir a obra mestre original, o primeiro movimento do Quarteto Razumovsky I, de Ludwig van Beethoven. Som na caixa, e boas festas!

Beethoven: Quarteto de Cordas n.7 em Fá Maior Op.59 “Razumovsky” n.1 – 1. Allegro (Amadeus Quartet 1959):

4 Respostas

  1. Leonardo T. Oliveira
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    Eu, que já tinha conhecido a piada em 2003/04, achei o trabalho GENIAL, e muito me entusiasma vê-lo hoje em dia aqui no blog.

    Acho interessante que esse processo todo de substituir os temas originais de uma obra por outros me lembra muito o processo da tradução de poesia: há infinitos critérios que montam um sentido no original (significado das palavras, sonoridade das palavras, metro e ritmo dos versos, rimas internas e externas, oposições de palavras ou sentenças no significado e/ou na sonoridade, ordem e estrutura do poema, etc., etc., etc.), mas dificilmente se conseguirá manter todos eles na tradução. Exatamente como no Jinglebelovsky, não só os temas (o “léxico” na poesia) são diferentes e exigem várias invenções em relação ao original, mas também a harmonia e os motivos, as células que montam os temas e o material das transições. E foi aí que se descobriu essa coerência incrível de todo o movimento do quarteto e aquelas quatro primeiras notas que montam o primeiro tema: elas acabam aparecendo em todo o lugar, tanto melodicamente como harmônica e ritmicamente. Muito interessante isso. O resultado no Jinglebelovsky ficou bem moderno e bem engraçado.

    Um Feliz Natal em grande estilo! :)

  2. jeferson
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    Boas Festas a vcs do Euterpe. e obrigado por trazer a leigos como eu estas maravilhosas reflexões. 2011 cheio de posts e luzes!!! gostaria de ver voces ‘analisando’ algum quarteto de Scelsi.

  3. Ludwig van Winkle
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    Ficou muito, muito legal! Tem muito a ver com uma velha fantasia minha, de obras com temas trocados. Tipo a Quarta de Bruckner com os temas da Quarta de Brahms… :)

  4. Phoebe
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    Muito divertido!Adorei!
    Boas Festas e um ótimo 2011 para os queridos amigos do Euterpe!
    bjs
    Phoebe

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