Euterpe tem vários objetivos, um deles é o de expandir o conhecimento de música no Brasil. Então nem sempre vamos postar textos interpretativos, vamos também cuidar de explicar o básico (inclusive caso alguém tenha ideia de um conceito aqui expresso que poderia ser melhor explicado, a caixa de comentários é útil para nós também). Começo então este post, ou série de posts, com o objetivo de clarificar o funcionamento da forma musical por excelência: a forma sonata.

A forma sonata é a forma musical que domina a música por mais de cem anos, entre ca. 1750 até 1910 a maior parte das grandes formas (sonata, quarteto, sinfonia) é moldada nesse esquema musical. Saber como é a forma básica da forma-sonata é, portanto, imperativo para se compreender a música desse período.

Retrato de Franz Joseph Haydn (1734-1809), por Thomas Hardy

Sobre as origens da forma sonata, vamos comentar em uma outra oportunidade, dedico este post especialmente para a descrição da forma sonata em sua primeira versão – a do classicismo vienense. Vou pegar como exemplo o primeiro movimento da sonata em Ré maior H. XVI no. 37 de Haydn.

A Sonata

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Este movimento foi escolhido por contar, de forma simples e clara, com todos os elementos básicos da forma, sem ser muito simplificada e consequentemente sem alguns elementos essenciais ou com complexidades que atrapalhariam o exemplo. A primeira coisa que o ouvido pode perceber é que ela tem duas partes muito claras, pois são repetidas literalmente ao longo da sonata. Comecemos pela primeira parte.

Exposição

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Essa primeira parte nós chamamos de exposição, que é uma tradução do termo alemão (pois toda essa terminologia foi criada por Czerny no século XIX) Exposition. Ela tem esse nome porque aqui todos os temas principais do movimento vão ser apresentados, aquilo que a gente pode chamar de material temático. O que é tema ou material temático? Muitos ouvintes, alguns músicos e mesmo manuais tendem a definir tema como melodia, mas é muito mais do que isso, peguemos esta sonata, aquilo que vai ser o primeiro tema é pouco mais do que uma mistura de ritmos e ornamentos:

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Então tema tem uma abrangência muito maior do que melodia e, na verdade, pode carecer totalmente de caráter melódico. Sintaticamente, na música tonal o tema pode ser comparado a um parágrafo ou estrofe de um texto ou poema, pois se reconhece nele uma unidade de sentido no discurso musical.

A exposição da sonata clássica de Mozart e Haydn tem dois temas principais, que nós chamamos de primeiro e segundo temas (posteriormente a escola francesa vai criar sonatas de três temas e Beethoven vai se apropriar desse instrumento, mas isso fica para outro dia). Nem sempre é claro ver a separação entre esses temas, mas podemos dar algumas dicas.

A principal separação entre um tema e outro é a modulação, a mudança de tonalidade, que é o elemento central de qualquer exposição. Toda forma-sonata vai conter uma modulação em seu começo – em Mozart e Haydn é sempre da tonalidade principal para a dominante (com uma exceção importante que vai ser tema do próximo post). Assim, o ouvinte com pouco conhecimento técnico pode se perguntar “como eu vou saber que modulou”? Com isso eu respondo: pelo seu ouvido! Todo efeito musical, mais do que uma invenção técnica, é uma realidade sônica que o ouvinte de bom gosto percebe, conscientemente ou não.

Vou colocar os dois temas desse movimento um junto do outro:

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Audio clip [segundo tema].

Não é fácil perceber como os dois temas têm uma cor diferente? Essa cor é a mudança de tonalidade.

Mas há outras coisas que separam um tema do outro: normalmente há uma mudança de textura, isto é, uma mudança no acompanhamento ou mesmo de instrumentação (quando aplicável, obviamente). Portanto a mudança de um tema para outro, embora seja um evento principalmente tonal, é facilmente perceptível para qualquer ouvinte que prestar atenção. Além disso, é extremamente comum entre uma e outra parte haver uma cadência – embora o nome seja técnico, isso é bem fácil de perceber, é como se fosse um ponto na frase da música, quando ela parece completa, apoiada sobre o seu repouso.

Como o ouvinte pode ter notado ao ouvir o exemplo, a exposição contém mais elementos do que aqueles que eu separei como temas. Esses outros elementos musicais são chamados por termos como “pontes” quando eles se localizam entre os dois temas ou “conclusão” quando se localiza ao fim da exposição. E essa é a passagem mais fraca dos manuais em relação à exposição, por darem um caráter irrelevante para esses trechos que, embora aparentemente insignificantes (elementos como arpejos, escalas, tercinas) muitas vezes (na maior parte delas, na verdade) vão ter um grande papel no desenvolvimento.

Toda a exposição termina, necessariamente, com uma cadência na tonalidade da dominante. É o momento em que o ouvinte sente que a música parou e está pronto para começar algo novo – na grande maioria das formas sonatas de Mozart, Haydn e Beethoven, entra aqui um ritornello que obriga a repetição de toda a exposição. Depois da repetição (ou não), começa o desenvolvimento.

Desenvolvimento

Audio clip [desenvolvimento].

Após o fim da exposição vem o desenvolvimento (Durchführung), que é o elemento mais livre do movimento. Aqui a música normalmente modula por outras tonalidades e reaproveita material da exposição. Não se trata – como vemos em alguns manuais – de uma fantasia livre, pois podemos ver alguns padrões, ordenados pela freqüência:

1. Há uma tendência de se buscar a tonalidade relativa menor (ou a paralela em alguns casos) e ela se estabelece ao final do desenvolvimento.

2. Normalmente aproveita-se o primeiro tema e os elementos de passagem referidos anteriormente, o que leva à questão desses elementos serem irrelevantes.

3. Às vezes um tema novo é introduzido nessa seção.

4. A fluência no desenvolvimento é mais rápida, normalmente traduzindo em passagens mais agitadas.

5. E o ritmo harmônico também é mais intenso, várias tonalidades são aludidas, sem nenhuma cadência fixa até o final da seção.

Esse desenvolvimento em especial, por ser muito curto, baseia-se unicamente em temas aludidos anteriormente e é fundamentalmente em si menor (a relativa menor da tonalidade principal), mas em movimentos mais longos podemos ver todos esses elementos plenamente desenvolvidos.

Todas essas características fazem do desenvolvimento o momento central no movimento, é nele que o drama todo se localiza e a tensão da separação da tonalidade principal se torna máxima. É assim na nossa sonata.

Recapitulação

Audio clip [recapitulação].

Naturalmente, essa tensão vai ser liberada de alguma forma e é na recapitulação (ou “reexposição”) do material inicial que se conclui a forma sonata. Além da repetição dos temas já tocados na Exposição, o segundo tema (assim como um eventual terceiro – isto é, os temas que apareceram depois da modulação do primeiro para o segundo tema na Exposição) passa a ser apresentado na tonalidade principal da peça – ou seja, ela perde sua “cor” própria, concluindo assim o longo movimento iniciado pela primeira modulação.

Audio clip [segundo tema reexposição].

Em comparação a:

Audio clip [segundo tema].

E como a gente deve interpretar a forma sonata como um todo? A melhor maneira que eu conheço é usando a expressão “dissonância formal”, que pode melhor ser explicada assim:

A peça começa com o estabelecimento de uma tonalidade, que é a tonalidade original e a tonalidade objetivo de todo o movimento. A introdução da segunda tonalidade insere na obra um elemento de dissonância que exige uma conclusão, uma volta – essa dissonância é acentuada no desenvolvimento, até ser concluída na reexposição. Por isso que o final do desenvolvimento e o início da reexposição são os momentos de maior tensão numa obra do classicismo, é quando a tensão (musical e não necessariamente dramática) é resolvida na conciliação de todo esse movimento com a volta à tonalidade de origem.

A forma-sonata é, portanto, uma forma simétrica – porque cada um de seus elementos é respondido com um outro a ele relacionado e que busca um equilíbrio – que é alcançado na reexposição. Nas mãos de um compositor de talento – como Haydn, Mozart, Beethoven ou Brahms –, a sonata é uma forma de poder expressivo verdadeiramente formidável.

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