Smetana: Vltava (O Moldávia)
Já que o Leonardo anda falando dos poemas sinfônicos do Dvorák, deixem-me fazer um aparte e falar de um outro conterrâneo tcheco, o compositor Bedrich Smetana (1828-1884). Poucos sabem que ele também ficou surdo, assim como Beethoven. Porém, se o mestre de Bonn desenvolveu sua surdez ao longo de aproximadamente 10 anos, a surdez de Smetana progrediu em pouquíssimos meses iniciando de uma simples infecção na garganta. Se dia 19 de outubro de 1874 ele foi à ópera à noite e ainda podia ouvir alguma coisa pelo ouvido esquerdo, no dia seguinte ele acordou já completamente surdo.
Um mês antes, em setembro, ele havia iniciado um ambicioso projeto que ele concluiria apenas 5 anos depois: um ciclo de seis poemas sinfônicos homenageando seu país, sua terra natal: Má vlast, Minha Pátria. O segundo poema sinfônico, Vltava, foi composto entre novembro e dezembro de 1874, e é hoje a obra mais famosa do compositor. Ela descreve o curso do rio Moldávia, também conhecido como Moldava ou Moldau, o mais longo da República Tcheca, com 430 km de extensão.

A fonte do Teplá Vltava (foto de Frantisek Kratky, 1880)
As Duas Fontes
O rio nasce na floresta da Boêmia, próximo à fronteira entre a República Tcheca e a Alemanha. Ele surge na unificação de dois pequenos córregos, duas fontes de água: o Moldávia Quente (em tcheco, Teplá Vltava) e o Moldávia Frio (Studená Vltava).
Audio clip [Smetana: Vltava - 1. As duas fontes (Rafael Kubelik - Boston SO)]: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.
Smetana descreve os córregos usando duas flautas e dois clarinetes, com pizzicatos nas cordas soando como pingos d’água. E no final do trecho, vemos o motivo contínuo do fluxo de água passar para os violoncelos. Nasce o Moldávia.
O Rio Moldávia
Audio clip [Smetana: Vltava - 2. Tema do rio Moldavia (Rafael Kubelik - Boston SO)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.
O famoso tema da obra na verdade é uma adaptação de uma antiga canção renascentista, La Mantovana, que depois do século 17 acabou rodando o mundo e virou até canção infantil. E vejam só como o mundo gira: em 1882 o compositor judeu Samuel Cohen adaptou uma antiga canção folclórica de sua terra natal, a Moldávia (não confunda com o rio: este país fica a leste da Romênia), e criou o Hatikvah, que anos depois se tornaria o Hino Nacional de Israel. Conseguem adivinhar qual era a origem da canção moldava?

O rio Vltava após a união dos córregos
Mas vamos voltar ao Smetana.
Os caçadores no bosque
Audio clip [Smetana: Vltava - 3. Caçadores nos bosques à margem (Rafael Kubelik - Boston SO)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.
Aqui temos caçadores, com suas tradicionais trompas de caça, divertindo-se pelos bosques à margem do rio. Só que precisamos seguir o fluxo da água, e os caçadores vão ficando pouco a pouco para trás.
Casamento de camponeses
Audio clip [Smetana: Vltava - 4. Casamento de camponeses (Rafael Kubelik - Boston SO)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.
Ao longe ouvimos o ritmo de uma polka tcheca, que aos poucos vai se tornando mais e mais clara. Quando chegamos perto, percebemos que é um casamento de camponeses, com toda a festa que o momento exige. Mas o rio não pára, e os sons da festa vão ficando lentamente para trás, até desaparecerem.
O Luar. Ninfas e criaturas noturnas
Audio clip [Smetana: Vltava - 5. Ninfas ao luar (Rafael Kubelik - Boston SO)].
Então cai a noite, e o rio continua fluindo delicadamente nas flautas e clarinetes. Com as cordas em surdina, Smetana descreve uma bela cena ao luar, com ninfas nadando e banhando-se no rio. (Pessoalmente, quando eu ouço esse trecho, eu vejo até fadas dançando no ar e animais bebendo água). Para realçar a irrealidade do momento, a música que até aqui estava ou em Mi menor ou em Sol Maior (a relativa de Mi menor), agora modula para um velado Lá bemol Maior, com uma bela passagem central em Dó menor.

O rio Vltava na cidade de Rozmberk
Os trombones, de início sutis mas depois de forma mais contundente, anunciam os primeiros raios e o nascer do sol. O dia surge por completo com a volta para Mi menor.
O Rio Moldávia
Audio clip [Smetana: Vltava - 6. O rio após o amanhecer (Rafael Kubelik - Boston SO)].
Ouvimos novamente o tema principal, pois o nascer do novo dia encontrou o rio agora em toda a sua majestade.
Corredeiras de São João Nepomuceno
Audio clip [Smetana: Vltava - 7. Correntezas de São João Nepomuceno (Rafael Kubelik - Boston SO)].
A paisagem muda de figura, a música se agita. Ouvimos o rio correndo violentamente, o rugir da correnteza, o splash das águas nas rochas. Porém, preciso dizer, este local descrito por Smetana não existe mais.

Imagem de São João Nepomuceno às margens do Vltava (Karel Liebscher, 1896)
Próximo a Stechovice, o rio se metia por entre desfiladeiros rochosos, e suas correntezas representavam um grande perigo para embarcações que rumavam a Praga. Mesmo após alguns governantes terem removido as rochas mais perigosas, muitos morreram afogados ao tentar vencer o trecho a nado ou em jangadas. Por isso, num certo trecho foi erguido uma estátua de São João Nepomuceno (em tcheco, Sv. Jan Nepomucký), padroeiro da República Tcheca e santo protetor dos nadadores. A estátua deu nome ao lugar: Svatojanské proudy, ou corredeiras de São João.
Por volta de 1950, o local foi completamente alagado devido à construção de uma hidrelétrica (existem muitas no curso do Vltava). Hoje sobraram apenas desenhos antigos do local, além de algumas fotos em preto e branco. Já a estátua do santo foi movida para a beira de uma estrada, após a construção da represa.

Ponte Carlos sobre o Vltava, em Praga
Chegada em Praga
Audio clip [Smetana: Vltava - 8. O rio chega em Praga (Rafael Kubelik - Boston SO)].
O rio segue em frente e sua chegada em Praga é uma verdadeira festa (Mi Maior). A ponte Carlos sobre o rio Moldávia é um dos cartões postais mais famosos da cidade.
O castelo Vysehrad
Audio clip [Smetana: Vltava - 9. O castelo Vysehrad (Rafael Kubelik - Boston SO)].

O castelo Vysehrad, em Praga
Quem já ouviu Má Vlast por inteiro já deve ter reconhecido este tema, que é o motivo principal do primeiro poema sinfônico do ciclo, Vysehrad. É um castelo construído no século 10, situado às margens do rio Moldávia. Dentro dele há um cemitério onde as mais importantes personalidades da República Tcheca estão enterradas, entre eles Dvorák, Smetana e os maestros Rafael Kubelik e Karel Ancerl, entre outros.
O encontro com o Elba
Saindo de Praga, próximo à cidade de Melník, o rio se encontra com o rio Elba (Labe em tcheco). O volume de água do Elba é mais de duas vezes menor do que do Moldávia, porém o curso deste último faz uma curva mais fechada, enquanto que o do Elba permanece quase inalterado. Assim, os alemães preferiram designar o rio resultante de Elba e não de Moldávia.
Audio clip [Smetana: Vltava - 10. Misturando-se com o Elba (Rafael Kubelik - Boston SO)].
Smetana descreve a foz do rio como se o fluxo de água estivesse desaparendo, misturando-se à distância com as águas do Elba. Este ainda tem um longo caminho pela Alemanha e vai desaguar pra lá de Hamburgo, no Mar do Norte. Como a missão de Smetana é mais patriótica, ele finaliza a história por aqui, ainda dentro do território tcheco, sua pátria.

O rio Vltava, ao centro, se encontra com o Elba, à esquerda (foto de Hans Weingartz).

13 comentários
Além de a análise estar muito acessível e legal de acompanhar, a escolha das imagens ficou de uma curiosidade imperdível! Parabéns! (Y)
“O Moldava” é, disparado, a obra “of choice” para explicar o que é poema sinfônico. E a parte das ninfas é tão linda que dá vontade de chorar. Sempre.
Muito boa apresentação e explicação. Parabéns ao site que uniu uma equipe de ponta. Estou quieto, mas estou lendo cada post. Mantenham-se nesse caminho
Parabéns pelo site e pelo ótimo post, para iniciantes e amadores. como eu, que gosta de música clássica, quando tem a oportunidade de uma explicação excelente dessa, fica 1000.
Valeu – Fã do site
Olá, amigo Amancio e os amigos na música.
Ótima análise do poema sinfônico de Smetana. Gosto muito dessa obra!
E como faço faculdade de Geografia, achei interessante essa descrição do espaço geográfico que o Moldava está inserido e moldando a paisagem que, mesmo com a antropização, mantém a singular beleza e que a música de Smetana tão bem nos “transporta” àquelas paragens!
Bom aquele mapa ilustrativo, até vou pesquisar mais sobre aquela bacia hidrográfica a qual o Moldava é parte integrante!
Na música encontramos felizes exemplos de descrições paisagísticas, é a pintura musical, e sempre integrando o Homem à Natureza, mesmo que este, muitas vezes, veja ela como sua serva e objeto.
O grande filósofo Kant, e um dos precursores dos estudos geográficos, trata dessa relação homem-espaço e o ir além do objeto pela transcendência. Não o rio pelo rio, ou a montanha pela montanha, ou a cidade pela cidade, mas aquilo que esse rio, montanha ou cidade É para o Ser humano e transforma sua vida, seu cotidiano, sua cultura, crenças e sua Arte! Uma geografia cultural que vê o homem transformando o espaço não somente físico mas que também nele encontra o lugar e território para exprimir seus sonhos, vontades, identidade,seja cristalizando pelas artes plásticas seja pela transcendência sublime da música.
Gostei demais do texto! Aliás, o do meu chará também. Descobri ambos compositores – só os conhecia de nome – em plena Praga, onde cheguei e fui presenteado por meu anfitrião de 82 anos com discos desses dois compositores para ouvir no quarto (ah, os discos em vinil, com uma vitrola velha e boa). Lembrei da ocasião ao ler os dois textos. Parabéns!
Excelente iniciativa. Parabéns. Descobri esta preciosidade por acaso. Parabéns novamente. Emocionante… a melhor qualificação.
Amâncio !
Ouvindo somente a música Vltava, já é muito bonita, conhecendo essa trajetória do rio no qual ele se baseou para compô-la, fica ainda um pouco mais bela, entretranto, se alguém estiver fazendo a narrativa, então fica fantástica.
Tem um guia turístico chamado Roberto, natural de Viena na Áustria, que circula a Europa normalmente contratato pela Iberostar, que costuma colocar o CD e fazer essa narração, é marcante. Eu estava na companhia de meu marido, e isso vai ficar em nossa memória para sempre.
Parabéns pelo seu blog
Que benção ter encontrado esse blog!! Foi por acaso, mas como dizem, “acasos não existem”…
Belíssima iniciativa que nos enriquece e nos faz apreciar ainda mais as grandes obras da música (chamada) clássica.
Parabéns ao Amâncio, realizador do blog e tb ao “meu colega” João Luiz, o Geógrafo, que postou um comentário aí em cima (na verdade, há quase um ano atrás), de maneira tão clara e poética. Me fez muito bem descobrir esse blog!
adoro ouvir músicas e imaginar algo. É um grande prazer quando se pode receber estas imagens, pinturas musicais, genuinas dos compositores.
grata e quero mais
cê falou no hatikva, engraçado…
nada que ver com as intensões do post,
mas sempre achei que n’um dos adoráveis quartetos do mendelssohn
há algo muito semelhante a melodia de uma canção popular judaica.
Aprendi a gostar dessa obra de Smetana ainda muito jovem e sempre a tive como uma de minhas prediletas. Lendo o texto maravilhoso do Sr. Amancio Cueto Jr. passei a gostar dela ainda mais. Parabéns!
Belíssimo material.
Ma Vlast sempre foi uma de minhas músicas preferidas, mas eu não conhecia outras obras de Smetana. Há dois anos quando fui a Praga,inclusive com visita ao Museu Smetana, pude ter uma visão mais ampla da grande gama de composições deste autor, com música orquestral, pianística e outras. Realmente, um compositor que merece estar entre os Grandes.