A música do Holocausto

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Ontem foi o Dia Internacional da Recordação do Holocausto, em razão da libertação de Auschwitz pelo exército soviético em 27 de janeiro de 1945. Em vista disso, apresento aqui algumas das obras que se propõem à mais difícil das missões musicais: homenagear as vítimas do holocausto, dizer o indizível.

Desconsidero aqui as composições dedicadas à guerra como um todo, como o War Requiem, de Britten. Se a Segunda Guerra teve um número de baixas civis como nenhuma outra, foi também aquela que revelou ao mundo o mais sofisticado sistema de assassinato, e essa é sua marca definitiva. Como notou Hannah Arendt, assim como o totalitarismo é, em seu ineditismo, algo que escapa às usuais categorias do pensamento político, o holocausto não consegue ser julgado pelos nossos padrões morais tradicionais graças à sua capacidade de superar todo o mal precedente na história.

Uma obra musical que pretenda lembrar as vítimas ou descrever o horror em forma de arte encontra notórias dificuldades no seu propósito. Theodor Adorno – cuja filosofia da música irá ganhar a devida atenção aqui futuramente – em frase célebre disse que depois de Auschwitz a poesia já não era possível, e o destino da música não é muito diferente. De todo modo, segue uma compilação de obras que de algum modo procuram resgatar a memória do horror.

Começo pela sombria Sinfonia n° 13 de Shostakovich, conhecida como Babi Yar, mesmo nome da localidade próxima à Kiev onde os nazistas cometeram diversos massacres contra a população judaica em 1941. É baseada em cinco poemas de Yevgeny Yevtushenko, que à época teve problemas com a censura: a origem judaica das vítimas não era admitida, mas apenas seu reconhecimento como cidadãos soviéticos vítimas do fascismo. Parece mais um ciclo de canções do que uma sinfonia propriamente dita – a referência às Canções e Danças da Morte de Mussorgsky é notória –, e creio que Shostakovich, profundo admirador da cultura musical judaica, tenha o mérito de ter sido capaz de aproveitar um momento de maior tolerância na URSS nos anos 60 e usar a edição sem censuras dos poemas de Yevtushenko. Ainda que o resultado musical pareça datado, Babi Yar segue como denúncia atemporal das conseqüências do anti-semitismo.

Lembrando igualmente as vítimas dos crimes nazistas, o curto e singelo Memorial a Lidice, de Martinu, é dedicado à cidade completamente devastada com praticamente todos os habitantes em 1942, em retaliação ao atentado contra um oficial da SS. Exilado da Tchecoslováquia, Martinu teve pressa em estrear sua obra no ano seguinte, na tentativa de lutar contra o esquecimento de toda uma população, a utopia nacional-socialista, incapaz de co-habitar o mundo com outros povos.

Mas talvez a obra mais marcante, ao menos para mim, seja a curta cantata de Schoenberg, A Survivor from Warsaw, de 1947. Parece-me sintomático o verso inicial – I cannot remember everything –, resumo da permanente inquietação de todos aqueles que sobreviveram à experiência dos campos: a dificuldade de expressar o que testemunhou, o sentimento de que a própria memória é vítima do extermínio.

Há ainda Messiaen, do qual uma das composições mais famosas é o seu Quatuor pour la fin du temps, escrito durante o cativeiro da guerra. Mas para as vítimas do conflito ele dedicou Et exspecto resurrectionem mortuorum, de 1964, resultado de sua recusa em compor um mero réquiem, preferindo transmitir sua crença inabalável na ressurreição daqueles que pereceram, numa obra de profundo teor católico.

Et j’entendis la voix d’une foule immense

Et exspecto resurrectionem mortuorum, 5° movimento

Messiaen – 13 Et exspecto resurrectionem mortuorum, for 34 winds & 3 percussion, I-47- No. 5, Et j’entendis la voix d’une foule immense:

Por fim, chamo a atenção para a música composta em Theresienstadt, que ganhou fama com a gravação de Anne Sofie Von Otter. Tentativa de campo modelo – ou pelo menos para as visitas da Cruz Vermelha –, Theresienstadt foi onde diversas famílias judaicas privilegiadas foram enviadas, e não foi pequena a produção artística do local que contava com uma orquestra e teatro. Aqui, uma composição de Ilse Weber:

01 01.- Ich Wandre Durch Theresienst:

Ich Wandre Durch Theresienst

Ich wandre durch Theresienstadt,
Eu caminho por Terezín,
das Herz so schwer wie Blei.
o coração pesado como chumbo.
Bis jäh mein Weg ein Ende hat
De repente meu caminho tem um fim
dort knapp an der Bastei.
lá próximo ao bastião.

Dort bleib ich auf der Brücke stehn
Lá fico parado sobre a ponte
und schau ins Tal hinaus:
e vejo pelo vale afora:
Ich möcht so gerne weitergehn,
Eu queria tanto seguir em frente,
ich möcht so gern nach Haus.
Eu queria tanto ir para casa.

5 Respostas

  1. Pádua Fernandes
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    Apesar das condições adversas, houve uma grande produção musical nos campos de concentração – em boa parte perdida. E ela não ocorreu apenas em Terezìn. Schulhoff, por exemplo, foi morto em Wülzburg. O pianista e maestro Francesco Lotoro tem feito um trabalho de gravar uma integral da produção remanescente, composta entre 1933 e 1945, em uma coleção de 24 discos.
    No entanto, de certas obras há várias gravações, e acho injusto dizer que a produção dos músicos mortos em Terezìn ficou conhecida a partir do disco de Anne Sofie von Otter. A Decca, por exemplo, com a coleção Entartete Musik, bem anterior ao disco da meio-soprano, gravou obras de vários desses compositores – inclusive a genial ópera “Der Kaiser von Atlantis” de Ullmann.
    Abraços, Pádua

  2. Amancio Cueto Jr.
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    Essa canção de Ilse Weber é uma das músicas mais singelas e tocantes que eu já escutei.

  3. Leonardo T. Oliveira
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    O cinema, que tanto visita o ambiente do Holocausto na II Guerra, devia lembrar mais desses casos excepcionais de artistas verdadeiros que morreram ainda criando dentro desses campos de concentração.

  4. Pádua Fernandes
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    Concordo, Amancio. A “Wiegala”, também de Ilse Weber, que ela ainda cantou com as crianças de Terezìn na câmera de gás de Auschwitz, também está na categoria singelo e tocante.

  5. Rafael
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    “(…) o holocausto não consegue ser julgado pelos nossos padrões morais tradicionais graças à sua capacidade de superar todo o mal precedente na história.”

    Seu texto é muito bem elaborado e a compilação de músicas é esplêndida, mas, como historiador, tenho que fazer uma ressalva quanto ao recorte citado. A história está cheia de exemplos iguais ou piores de massacres, só que, infelizmente, muito menos falados. A colonização espanhola da América, por exemplo, se iguala ao holocausto no quesito crueldade, mas o supera em algumas centenas de milhares de mortos. Este, sim, foi o maior genocídio da história da humanidade.

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