Pintura de serviços luteranos no altar da Torslunde Kirke, Dinamarca

Alemanha

A reforma protestante foi o mais importante catalisador da sociedade alemã em toda sua história. Dão testemunho disso as grandes convulsões geradas pela revolta dos camponeses, a intensa atividade literária que se seguiu, tanto no círculo dos cantores de Nuremberg quanto em muitos outros lugares e ambientes da sociedade alemã. De um certo modo foi o grande surto nacionalista germânico, ou o seu nascimento. Apesar de um estado alemão já existir há muito tempo – o Heiliges Römisches Reich –, este era demasiado latino, ligado ao papado, e não representava a Alemanha como a nação que nascia. Como prova disso, um dito espirituoso do imperador alemão Carlos V: “Falo espanhol com Deus, italiano com as mulheres, francês com meus homens e alemão com meu cavalo” – no ambiente do Renascimento, a Alemanha não representava mais do que isso.

Apenas para ver como se sucedeu uma explosão nacionalista, antes de se afastar completamente de Roma, Lutero e seus seguidores alemães exigiam a realização de um concílio em território germânico. Se, por acaso, há interesses práticos nessa exigência – tendo em vista que as comunicações e transportes, especialmente o transporte transalpino, eram muito deficientes no século XVI – trata-se muito mais de uma questão simbólica, de valorizar a Alemanha que então nascia para o mundo.

Na verdade não chegou a nascer, os eventos subseqüentes, em especial a guerra dos trinta anos, viriam a assegurar a divisão da Alemanha em diversos territórios independentes (o método que se encontrou para preservar a reforma) e de certa forma frear esse renascimento cultural até a Aufklärung. Mas tiveram pelo menos uma grande conseqüência: o desenvolvimento da música nacional alemã.

Pois foi dois séculos antes de Bach que as bases da cultura musical alemã foram fundadas. E nela está o coral luterano, cuja importância é inestimável: ele foi fomentando a criação de músicos nas mais diversas igrejas, criando assim uma cultura de conhecedores e alimentadores de música, em especial desenvolvendo famílias ligadas à música por gerações e gerações e forjando uma cultura musical ampla e abrangente (neste período, no centro musical da época, a Itália, a atividade era desenvolvida principalmente por padres e consistia em um monopólio absoluto do Vaticano). É óbvio que a influência da música de outros lugares foi importante e que a música alemã não permaneceu isolada por dois séculos, mas a reforma gerou uma cultura musical muito diferente da cultura transalpina e que seria responsável, nos anos seguintes, pela obra de Bach e Händel – isso em uma cultura que até então fora quase completamente ignorante aos desenvolvimentos musicais transrenanos e transalpinos.

Inglaterra

Thomas Tallis (1505-1585)

Curiosamente, fato oposto aconteceu na civilização insular: a Inglaterra dos séculos XV e XVI é um dos mais importantes centros musicais do mundo ocidental, centro de várias inovações harmônicas (veja a obra de John Dunstable, por exemplo), formais e instrumentais – foi na Inglaterra que um instrumento de teclado ganhou independência e repertório próprio. É na Inglaterra desse período que vemos as obras brilhantes dos madrigalistas ingleses desafiarem a noção de dissonância da forma mais radical vista até então, é lá que vemos obras extremamente ousadas como o famoso moteto Spem in alium de Thomas Tallis exigir 40 (!) vozes. É a Inglaterra o país de compositores como William Byrd, Orlando Gibbons, John Taverner, alguns dos mais importantes de seu tempo.

Fato curioso, como na Itália, todos estes compositores estavam ligados à igreja Católica, e era a Igreja britânica a responsável pela manutenção e ensino de instrumento e canto para grande parte da população britânica e para ela trabalhava toda a elite musical de sua época: Byrd, Taverner, Tallis, etc.

Não era uma música simples, já falei da ousadia harmônica que caracteriza toda a escola, de Dunstable levando à frente o uso de resoluções em terças, de trítonos e sétimas menores nos madrigalistas, no uso de uma polifonia cada vez mais refinada em Thomas Tallis. Era também uma música de muita ornamentação e de uma riquíssima tradição instrumental – basta comparar que tal tradição instrumental só viria a vingar do outro lado do Canal muitos anos depois, quase um século.

A reforma inglesa começou como um incentivo para a criação de novas obras – uma vez que todo o hinário teve de ser traduzido, e muitas vezes recomposto, para a liturgia anglicana e o inglês –, mas iria ter efeitos muito mais profundos. O primeiro é que, como foi dito, a elite musical era católica e, com algumas poucas exceções, permaneceu fiel a seu credo, o que fez com que, ainda que compondo música anglicana por obrigação, seus maiores esforços ou se concentrassem na silenciada liturgia católica ou migrassem para outras formas de música. Num momento seguinte, com o fim da geração que viveu a reforma, a música inglesa migrou quase que completamente para a música profana: é no teclado, no madrigal, nas canções que vemos o gênio de Gibbons, Dowland e Bull florescer, não na música anglicana, que já estava em completa decadência, mal havia surgido.

Mas o pior estava por vir, no período da guerra civil e da Commonwealth of England a fúria dos puritanos contra aquilo que viam como parte dos excessos do catolicismo foi radical e os coros das igrejas foram dissolvidos, os órgãos silenciados e qualquer tipo de música completamente banido. A música que experienciara um tímido impulso pela liturgia anglicana agora estava proscrita das igrejas.

O resultado foi óbvio e imediato e significou o fim absoluto de qualquer forma de música na Inglaterra, ainda que não houvesse proibição de música profana, todas as formas de ensino e propagação foram interrompidas com o fim da tradição musical religiosa e com isso uma brilhante tradição de dois séculos foi devidamente encerrada. Logo depois da restauração, ainda que houvesse casos raros, podemos apenas interpretá-los mais como espasmos do sistema antigo, como, por exemplo, a brilhante obra de Purcell. Mas daí em diante, a Inglaterra ficou praticamente muda por século inteiro.

Oliver Cromwell (1599-1658), por Samuel Cooper

É inestimável o que se perdeu com a aventura de Cromwell, e isso significou o fim completo da música britânica, o que, de certa forma, perdura até hoje. Houve depois de Purcell alguns bons compositores, veja compositores como Elgar e Britten, mas comparado com qualquer outro país da Europa continental, a tradição musical britânica é quase nula. Aquilo em que a Inglaterra especializou-se, e até hoje é uma de suas especialidades, é no patrocínio e financiamento de compositores e instrumentistas continentais, e só pelo incentivo a Händel, J. C. Bach, Mozart, Haydn, Mendelssohn, Brahms, Dvorák, entre muitos outros, que a Inglaterra exerceu alguma importância histórica.

A música faz parte da história religiosa e esta tem uma profunda influência no surgimento e na criação da música. Não apenas ela deriva de práticas religiosas, como estas influenciaram por quase 1000 anos seu desenvolvimento. Poderia prosseguir, comentar como na Rússia o desenvolvimento de uma música clássica foi retardado pela liturgia ortodoxa – não que a música ortodoxa seja irrelevante (não é, pelo contrário) e muito menos que não tenha grande utilidade litúrgica (talvez até mais do que o madrigal de 40 vozes do Thallis), mas a sua fixação e simplicidade são como um empecilho para o desenvolvimento de outras formas de música. Na Rússia a música se desenvolve com a influência da corte ocidentalizada de Pedro II e, principalmente, de Catarina, a Grande, que criou um teatro fixo de ópera, trouxe compositores como Cimarosa, Hasse e muitos outros; ela surge como uma influência ocidental, e vai continuar sempre uma música profana.

Nesses casos,  vemos como a história pode determinar de maneira decisiva a cultura de todo um país.