Sturm und Drang em Mozart

As tendências do Sturm und Drang em obras mozartianas são abordadas na literatura em referência ao uso de tonalidades menores, como o ré menor, por exemplo, às variações de dinâmica e às figuras rítmicas ásperas.

Mozart (Joseph Hickel, 1783)
Mozart (Joseph Hickel, 1783)

As sinfonias 25 e 29, como ilustração, são vistas por alguns autores dentro de tal estilo. O primeiro e último movimentos da sinfonia 25 são impetuosos e em tonalidade menor.

1. Allegro con brio:

Mozart – Symphony No. 25 – 1. (Marriner – ASMF – Philips):

4. Allegro:

Mozart – Symphony No. 25 – 4. (Marriner – ASMF – Philips):

A primeira surpresa da sinfonia 29 é a inversão que Mozart faz da convencional abertura forte/piano: o material do início é intimista, só para cordas, em estilo de música de câmara, a repetição (forte) desse material tendo uma textura mais rica, acrescentados os oboés e as trompas.

1. Allegro:

Mozart – Symphony No. 29 – 1. (Marriner – ASMF – Philips):

A sonata para piano KV 310 é outro exemplo bem citado: é a primeira em tonalidade menor. O seu estilo trágico e ousado do primeiro movimento tem sido associado ao Sturm und Drang por autores como Cavett-Dunsby.

1. Allegro maestoso:

Mozart – Sonata KV 310 – 1. (Uchida – Philips):

John Stone e Brigitt Massin narram que, na década de 1770, Mozart se interessou por uma forma teatral em que a música se tornava inteiramente complementar à força dramática. A intenção de uma peça como Medea de Georg Benda (melodrama que teria emocionado Mozart em Mannheim), na qual a música acompanhava e intensificava uma recitação falada, era nitidamente relacionada com o Sturm und Drang literário.

É interessante que, mesmo quando ficou absorvido por essa forma teatral, Mozart continuou a reclamar da qualidade insatisfatória da composição vocal de um compositor da época chamado Schweizer. Para Mozart, manter-se apegado à coerência tonal é fundamental para a beleza auditiva e, com o abandono disso, a música deixaria de ser, propriamente falando, música.

Um requisito disto seria a precisa combinação do instrumento à idéia musical e vice-versa. Na mesma linha, disse o compositor: “a ária deve se ajustar a um cantor tão exatamente quanto um traje bem talhado”. Mozart afirmava que Schweizer não sabia compor para voz neste sentido…

Essa ambivalência, no entanto, foi logo resolvida quando Mozart decidiu abandonar Zaide (ópera incompleta que incorporou fragmentos melodramáticos em vez de recitativos acompanhados) e o estilo não foi mais adotado subseqüentemente – nem mesmo em Idomeneo, afirma John Stone.

No. 9: Melologo:

Mozart – Zaide – No. 9 – Melologo (Hollweg – Klee – Philips):

Certos especialistas, por outro lado, não admitem a aplicação do Sturm und Drang na música do séc. XVIII, restringindo-o apenas à literatura.

3 Respostas

  1. Leonardo T. Oliveira
    |

    Bem-vindo, Fredão! :D

    Também acho mais complicado falar em Sturm und Drang na música. Mas não que uma influência seja inexistente, e sim que uma definição é um pouco mais difícil. Na literatura a gente consegue ver quando o Werther do Goethe abraça a poesia de Ossian e se volta pra irracionalidade popular, ou o delineamento da personagem de Wagner do primeiro Fausto, ou a influência da filosofia de Rousseau, ou a negação do Aufklärung, etc. Mas na música, o jeito é mesmo caçar os contrastes e a tal da “tempestade e ímpeto” de que fala a expressão dessa linha estética. O risco é a falta de parâmetro: Beethoven ainda é Sturm und Drang? E Haydn, nessas décadas de 1770-80, estava sendo apenas experimental ou é de fato Sturm und Drang?

    Abraços!

  2. Pianovski
    |

    Salve, meu amigo Toscano!
    É bom ler seu texto de estréia no blog.
    Espero poder ler mais das suas aulas.
    Abs
    Pianovski

  3. Frederico Toscano
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    Leo, já era tempo! ;)
    Mas vamos tentar manter certa regularidade!
    Abração!

    Grande amigo Pianovski! Quanto tempo!
    Que grata surpresa lhe encontrar por aqui!
    Saudades dos velhos tempos, meu caro!
    Grande abraço!

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