Lévi-Strauss e a Música – Parte I

Gostaria de apresentar aqui uma série de reflexões que alguns pensadores fizeram acerca da música. Não pretendo fazer amplas apresentações, mas apenas esboçar alguns insights interessantes que encontramos nos ensaios de antropólogos, sociólogos, filósofos, etc. Desse modo, espero sugerir algumas leituras para quem tenha aquele saudável interesse especulativo sobre a função e o sentido da música.

Cara de regente

Começo pelo etnólogo belga Claude Lévi-Strauss (1908-2009), falecido no ano passado. É impossível não perceber a centralidade que a música obteve no seu pensamento, tornando-se mesmo uma referência indissociável para a chamada análise estrutural dos mitos. Numa série de entrevistas a Didier Eribon, publicadas em livro no Brasil sob o título De Perto e De Longe, Lévi-Strauss nos conta como o gosto musical foi suscitado desde cedo nas lições de violino da infância. Posteriormente, fez tentativas mal-sucedidas de composição – chegou a escrever um libreto, e compôs até o prelúdio para a ópera. Na falta de talento para a prática, ao menos desejava se tornar regente.

Vanguardista nambiquara

Porém, por esses acasos da vida, tornou-se antropólogo. Na intenção de fazer etnografia calhou de vir ao Brasil em 1935 na missão francesa da USP, voltando definitivamente para a França quatro anos depois. Como resultado dos anos de viagem escreveu Tristes Trópicos, obra inclassificável. Entre a etnografia e memória, tal livro é uma profunda reflexão de toques simbolistas sobre a civilização ocidental. Admirador de Stravinsky, enquanto se embrenha pelo Pantanal e pela Amazônia faz associações entre a polifonia das melodias nas flautas Nambiquara e a Sagração, e entre o canto narrativo do chefe Tupi-Cavaíba e Les Noces.

Essas semelhanças que Lévi-Strauss identifica parecem espúrias, meros caprichos de antropólogo. Mas não. Primeiramente, para ele a música, assim como a matemática e a etnografia, é uma vocação autêntica do ser humano, ocorrendo a qualquer um. Elemento pré-verbal, a música é linguagem somente traduzível por si mesma, transcendendo a oposição entre o sensível e o inteligível, e não por acaso, será fonte rica de analogias no entendimento dos mitos.

Um mito não pode ser compreendido como uma seqüência contínua de acontecimentos, porém considerado “grupos de acontecimentos” – conforme uma partitura musical, onde cada frase musical só faz sentido se tomada dentro do conjunto. Tanto a dimensão sincrônica quanto a dimensão diacrônica são apreendidas.

Daí para o recurso da música em seu método é um passo: os livros que compõem a série Mitológicas não são divididos em capítulos, mas em formas musicais (sonata, fuga, rondó…), em vista da facilidade de expressar um mito. Nesse sentido, a “ouverture” de O Cru e o Cozido contém um interessante manifesto dessa estreita relação estrutural. No curto ensaio Mito e Música, Lévi-Strauss segue pontuando a estreita relação entre forma musical e pensamento mítico: música e mito acionam estruturas mentais comuns.

Um exemplo dessa intimidade é bem demonstrado pela sorte do mito no Ocidente. Segundo Lévi-Strauss o declínio da explicação mítica a partir do Renascimento condiz com a ascensão das formas musicais: “É exatamente como se, ao inventar as formas musicais específicas, a música só redescobrisse estruturas que já existiam a nível mitológico”. Em suma, a música não inventou formas, antes, apropriou-se das estruturas dos mitos.

Tal sugestão fecunda não encontrou ressonância posterior na própria obra de Lévi-Strauss e ignoro quem tenha detido sua atenção nessa relação. Não duvido que haja. Entretanto, frise-se que a perspectiva do etnólogo belga é indissociável de sua teoria estruturalista, o que dá à interpretação uma conotação muito particular.

Uma nota curiosa para concluir: Berio utilizou passagens de O Cru e o Cozido em sua sinfonia, garantindo que entendeu esse aspecto da obra de Lévi-Strauss. O antropólogo ficou lisonjeado, mas nunca entendeu a sinfonia de Berio.

Para o próximo post, ainda Lévi-Strauss, especialmente centrado no significado da obra de Wagner.

Este post pertence à série:
1. Lévi-Strauss e a Música – Parte I
2. Lévi-Strauss e a Música – Parte II
3. Lévi-Strauss e a Música – Parte III

4 Respostas

  1. Leonardo
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    Caros, uma jóia rara este blog de vocês, parabéns!

    Tenho me interessado sobremaneira por filosofia da música…

    Abraço.

  2. Daniel
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    Sim… Percebo que este blog está se definindo de maneira tal que, sem dúvida, se tornará referência para os amantes da música.

    Um abraço!

  3. Matheus
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    Onde eu posso encontrar esse ensaio “Mito e Música”? Você usou alguma outra referência bibliográfica de Lévi-Strauss além desse ensaio e “O cru e o cozido”?
    Grato!

  4. Fernando Randau
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    Olá Matheus,
    Desculpe a demora na resposta, aí vai: o ensaio “Mito e Música” está presente no livro “Mito e Significado” (do original Myth and Meaning). No mais, além da abertura de “O Cru e o Cozido” foi especialmente esclarecedora a leitura das entrevistas de Lévi-Strauss com Didier Eribon, editadas no Brasil com o título “De perto e de longe”, pela Nova Fronteira.

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