Telemann, grande celebridade da música no séc. XVIII

Telemann, grande celebridade da música no séc. XVIII

Os livros geralmente apresentam Georg Philipp Telemann (1681-1767) como uma espécie de fábrica que produziu a maior quantidade de obras da história da música. E ficam apenas nisso, citando em seguida os assustadores números de seus trabalhos por gênero musical. Mas será que Telemann se restringe a uma mera curiosidade musical? De fato, ele foi um dos compositores mais prolíficos de todos os tempos, deixando um legado superior a 3.000 composições. Por outro lado, isso não pode ser visto como um indicador negativo – por normalmente ser associado ao conflito qualidade/quantidade. Definitivamente, não! Telemann, assim como o italiano Antonio Lucio Vivaldi (1678-1741), foi vítima do descaso e só começou a ser revelado – de forma muito subestimada – no início do século XX. Mais recentemente, pesquisadores sérios e intérpretes devidamente especializados em música barroca alemã passaram a mergulhar no universo de Telemann, extraindo tesouros da sua obra e atraindo reverência a esse artista inovador e empreendedor.

Telemann era, para surpresa de muitos, o compositor mais famoso de sua época e não paravam de chegar encomendas às suas mãos. É difícil se entender hoje que a música barroca era uma arte de “consumo” cotidiano e que as composições eram escritas para atender, sob medida, a clientes/contextos específicos. Tanto agradavam os resultados, que Telemann se tornava cada vez mais célebre, pois atendia em tempo hábil os seus clientes e sua arte transmitia sempre uma qualidade diferenciada.

Vivaldi, como Telemann, redescoberto somente a partir do séc. XX

Vivaldi, como Telemann, redescoberto somente a partir do séc. XX

Impressionante também era o talento do compositor como um profissional de visão de mercado: ao contrário de Johann Sebastian Bach (1685-1750), Telemann sempre buscava a publicação de suas obras e a formação de redes de contatos para distribuição (*). Sua música assim era mais facilmente difundida e conhecida em outros países. Ele também era um hábil articulador e líder: com sua influência, fundava conjuntos musicais e implantava atividades de ensino e prática musical por onde passava, sempre em contato com os maiores intérpretes europeus num valioso intercâmbio de conhecimentos, que se refletiam no aperfeiçoamento de sua própria obra. Telemann conversava tecnicamente sobre os mais diferentes instrumentos com profundidade e preocupação de valorizar individualmente cada membro da partitura.

Outro traço marcante de Telemann: sua música recebeu forte carga estrangeira. O mestre alemão ocupou cargos importantes como músico em diversas cidades de culturas distintas e teve a sábia iniciativa de captar os elementos que diferenciavam os estilos musicais de cada região. Evidentemente, a inteligência de Telemann para identificar e processar essas idéias fez a diferença, juntamente com sua ansiedade contínua em realizar experimentos musicais inéditos.

Bach, considerado o maior compositor vivo pelos poucos que o conheciam

Bach, considerado o maior compositor vivo pelos poucos que o conheciam

Telemann conseguia deslumbrar a todos demonstrando domínio ao compor no estilo italiano, no estilo francês e mais ainda: na fusão desses dois estilos, considerados pelos seus contemporâneos ilustres como duas coisas antagônicas! O compositor ainda trazia elementos do folclore polonês e do interior da Alemanha para sua música.

Em última análise – afirma Nikolaus Harnoncourt, musicólogo, violoncelista e regente alemão – o resultado do “conflito cultural” entre os estilos italiano e francês representou um enriquecimento: dele surgiu o que se chamou de les goûts réunis (os gostos reunidos), que haveria de se tornar a característica da música alemã do século XVIII: os grandes compositores alemães escreviam suítes francesas, sonatas italianas e concertos, integrando sempre elementos do gênero “inimigo”. As aberturas mais célebres de Telemann têm, além da fusão das mais diversas tradições, uma fusão de outra espécie: à disposição formal de uma abertura francesa funde-se o princípio concertante de um concerto italiano [áudio abaixo].

Abertura “Jubeloratorium für die Hamburger Admiralität” (seleção)
Akademie für Alte Musik (Harmonia Mundi)

Audio clip [Ouverture D-dur 'Jubeloratorium fur die Hamburger Admiralitat']: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Harnoncourt posiciona Telemann ao lado de Georg Friedrich Händel (1685-1759) no topo da arte da melodia barroca e o mesmo Telemann ao lado de Bach como os compositores mais avançados na busca por meios de expressão sempre novos no Barroco (“realizaram os sonhos sonoros mais audaciosos”, afirma ele), chegando a atribuir-lhes a formulação da nova linguagem que levou a música ao Classicismo.

Händel, expoente da melodia barroca

Händel, expoente da melodia barroca

Voltando à característica visionária de Telemann, ele chegou a afirmar a um colega músico sobre a sua Musique de table: “das Werk wird hoffentlich mir einst zum Ruhm gedeien” (prevendo que essa obra um dia lhe daria grande fama) – e ele se empenhou conscientemente para isso! Essa atitude valiosa, de se pensar num futuro distante, infelizmente não era comum aos mestres mais antigos – padrão inerente ao sistema de valores daquela época. Primeira providência pró-ativa do compositor-empresário, ainda antes de publicar a obra: fomentar e incentivar, com uma bela propaganda, uma vasta rede de contatos que se multiplicavam a partir dos mais próximos. Assim, um ano antes da publicação, aos 52 anos de idade, Telemann anunciou num jornal de Hamburgo:

“Die Liebhaber der Music haben im künfftigen 1733. Jahre ein grosses Instrumental-Werk, Tafel-Music genannt, von der Telemannischen Feder zu gewarten, es besteht in 9. starcken Stücken mit 7. und aus so viel schwachen mit 1. 2. 3. bis 4. Instrumenten. Man praenumeriret bey jedem Quartale . . . Die Ausgaben geschehen . . . an Himmelfahrt, Michaelis und Weynachten. Die Namen der Praenumerirenden sollen dem Wercke beygedruckt werde.”

[No ano de 1733, amantes da música podem aguardar uma grande obra instrumental intitulada "Musique de table", da pena de Telemann. Ela consiste de nove peças longas com sete instrumentos, bem como várias pequenas com um, dois, três ou quatro instrumentos. A assinatura pode ser paga trimestralmente, e a referida obra será lançada em três partes: no Dia da Ascensão, na Festa de São Miguel e no Natal. Os nomes dos assinantes serão impressos na capa.]

Grande iniciativa! A campanha de Telemann teve grande sucesso. A lista de assinantes tinha nada mais, nada menos do que quatro páginas! Eram 206 assinantes conterrâneos e estrangeiros! Estavam lá a alta sociedade, a burguesia, embaixadores, membros do clero, músicos e compositores – a relação mencionava um certo “Mr. Hendel, Docteur en musique, Londres” (sim, é o grande Händel!) e intérpretes famosos como Johann Georg Pisendel (1687-1755) e Johann Joachim Quantz (1697-1773) – este encomendou seis exemplares!

Capa da Musique de table

Capa da Musique de table

Na sua Musique de table Telemann priorizou duas idéias: primeiramente, ele projetou a música para o grande público (“para uso do homem comum” – como era diferente o homem comum…), valorizando formas claras e estruturas simples. Por outro lado, ele propagou o estilo dos “gostos reunidos”, já comentado acima. Entre os trabalhos instrumentais de Telemann, a Musique de table é, sem dúvida, a mais extensa publicação em “gostos reunidos”. Ao mesmo tempo, podemos dizer que também é (inspirado pelas tendências enciclopédicas do Iluminismo) um compêndio de música de câmara: sim, porque todas as formas de música de câmara vigentes naquela época estão nela presentes com notável variedade de instrumentos!

Nem todas as obras que formam a Musique de table foram compostas em 1733. O quarteto em Ré menor da segunda parte (ou “Produção”, como Telemann chamou cada seção) contém movimentos escritos entre 1712 e 1721 [áudio abaixo]. Como Kapellmeister, Telemann tinha que prover a orquestra com música para banquetes (a chamada Tafel-Music), aniversários e outras ocasiões festivas. A Musique de table em questão, entretanto, no dizer da professora Silke Leopold, da Universidade de Heidelberg, é “música utilitária no melhor sentido” – música que exige bastante de músicos e ouvintes. Nada tem em comum com as simples “sinfonias caldo de carne” que Telemann escrevia (e assim as chamava!) para o grupo municipal de Sorau, onde trabalhava na época.

Musique de table: Produção II
Quarteto para 2 flautas transversas, flauta doce (ou fagote ou violoncelo) e contínuo: IV. Allegro (seleção)
Direção: Nikolaus Harnoncourt (Teldec/Warner)

Audio clip [Quartet for 2 flutes, recorder (or bassoon or cello) & basso continuo, TWV43-d1]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

Louis de Caullery: Cena de banquete no interior de um palácio (detalhe)

Louis de Caullery: Cena de banquete no interior de um palácio (detalhe)

O ouvinte de hoje em dia não pode cometer o erro de entender musique de table como mera música de fundo. A professora Silke Lepold assegura que a sofisticada música de banquete, como as peças da coleção de Telemann, era tocada nas pausas entre os diferentes pratos de um jantar ou mesmo depois da refeição – e os presentes ouviam com tanta atenção quanto num concerto dos dias atuais.

Todas as três partes (“Produções”) da Musique de table se baseiam no mesmo princípio formal: uma abertura em estilo francês é seguida por diversos movimentos de danças ou peças de caráter, que são encerrados por uma “Conclusão”, que une diferentes peças associadas pela tonalidade e estrutura às aberturas com suítes que abrem cada Produção. Entre a introdução e a conclusão de cada uma das três partes entram um quarteto, um concerto, um trio e uma sonata para solista [áudios abaixo]. Enquanto as peças longas têm a função de pilares demarcadores, as peças menores fazem um efetivo contraste.

Musique de table: Produção I
Quarteto para flauta, oboé, violino e contínuo: II. Vivace (seleção)
Direção: Nikolaus Harnoncourt (Teldec/Warner)

Audio clip [Quartet for flute, oboe, violin & continuo in G major (Tafelmusik Book 1 No. 2)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

 
Musique de table: Produção I
Sonata para flauta transversa e contínuo: IV. Allegro (seleção)
Direção: Nikolaus Harnoncourt (Teldec/Warner)

Audio clip [Solo Sonata in B minor for flute and continuo, TWV 41-h4]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

 
Musique de table: Produção II
Concerto para 3 violinos, cordas e contínuo: I. Allegro (seleção)
Direção: Nikolaus Harnoncourt (Teldec/Warner)

Audio clip [Concerto for 3 violins, strings & continuo in F major (Tafelmusik Book 2, No. 3), TWV 53-F1].

 
Musique de table: Produção III
Concerto para 2 trompas, cordas e contínuo: II. Allegro (seleção)
Direção: Nikolaus Harnoncourt (Teldec/Warner)

Audio clip [Concerto for 2 horns, strings & continuo in E flat major (Tafelmusik Book 3 No. 4), TWV 54-Es1].

 
Musique de table: Produção III
Trio para 2 flautas transversas e contínuo: I. Andante (seleção)
Direção: Nikolaus Harnoncourt (Teldec/Warner)

Audio clip [Trio for 2 transverse flutes & continuo in D major (Tafelmusik, Book 3, No. 4), TWV 42-D5].

Telemann concebia suas obras seguindo a seguinte máxima: “Dê a cada instrumento o máximo que ele suporta. / Então o músico tocará com toda satisfação / e você terá o máximo prazer de ouvir”. A Musique de table demonstra de forma convincente esse princípio e o prazer do próprio Telemann pela variedade e pelo contraste: cada uma das aberturas com suítes é instrumentada de forma diferente [áudios abaixo] – e dentro de uma Produção a instrumentação variada ressalta a diferente estrutura dos movimentos individuais.

Musique de table: Produção I
Abertura para 2 flautas, cordas e contínuo: I. Lentement-Vite-Lentement (seleção)
Direção: Nikolaus Harnoncourt (Teldec/Warner)

Audio clip [Overture for 2 flutes, strings & continuo in E minor (Tafelmusik Book 1 No. 1), TWV 55-e1].

 
Musique de table: Produção II
Abertura para oboé, trompete, cordas e contínuo: Aria III. Presto (seleção)
Direção: Nikolaus Harnoncourt (Teldec/Warner)

Audio clip [Overture for oboe, trumpet, strings & continuo in D major (Tafelmusik Book 2 No. 1), TWV 55-D1].

 
Musique de table: Produção III
Abertura para 2 oboés, cordas e contínuo: VII. Menuet (seleção)
Direção: Nikolaus Harnoncourt (Teldec/Warner)

Audio clip [Overture for 2 oboes, strings & continuo in B flat major (Tafelmusik, Book 3, No. 1), TWV 55-B1].

Autobiografia de Telemann

Autobiografia de Telemann

Cada uma das três Produções oferece um modelo de programa de concerto, contendo toda a variedade esperada na época de Telemann. O compositor escreveu em sua autobiografia: “as pessoas me falavam que eu mostrei o meu melhor nesse trabalho”. A Musique de table representa um compêndio único para os gêneros e diferentes formas de expressão da música de câmara que foi característica da primeira metade do século XVIII, consolidando a reputação do grande Telemann como um dos maiores mestres que a Alemanha produziu.

Ver a lista completa das três Produções da Musique de table.

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(*) Para mais detalhes sobre a fascinante atividade editorial e mercadológica de Telemann, consultar a tese do professor Steven Zohn da Universidade de Temple, divulgada no Journal of the American Musicological Society (vol. 58, nº 2, 2005). voltar
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