A Sinfonia nº6 de Mahler requer uma orquestra gigantesca, incluindo celesta, harpas, sinos de vaca, xilofone… mas sem dúvida, o instrumento mais curioso da sinfonia é o martelo.

O Martelo de Thor

Quase isso...

Martelo??

Sim! Ele aparece nos momentos mais cruciais do último movimento, e por isso acabou virando o instrumento símbolo de toda a sinfonia. Escreveu Mahler: o martelo deve ter um som breve e poderoso, mas sem brilho em ressonância, e sem uma característica metálica como a queda de um machado. Para atender estas recomendações, as orquestras geralmente providenciam um imenso martelo de madeira, e uma placa ou caixa de madeira para receber o impacto.

Curiosamente, mesmo com o golpe soando seco e sem sonoridade, o efeito é devastador. Como as orquestras geralmente tocam em palcos de madeira, a vibração do impacto é sentida por todos os músicos – alguns inclusive descrevem a experiência como um mini-terremoto.

Três golpes do destino

Foi assim que Mahler descreveu as três pancadas: “o herói recebe três golpes do destino, incluindo o terceiro que o faz cair como uma árvore”. Anos depois, Alma Mahler, esposa do compositor, iria relacioná-los com três trágicos eventos da vida do marido: a perda da filha mais velha, Maria Anna Mahler; a perda do cargo de diretor da ópera de Viena, com o consequente exílio da cidade; e o diagnóstico de um problema cardíaco que por fim o levaria à morte.

Onde estão os golpes na sinfonia?

Todos ficam no quarto e último movimento, que tem em média uns 30 minutos de duração.

O primeiro golpe acontece a mais ou menos 13 minutos, na metade do desenvolvimento:

O segundo golpe acontece ali pelos 18 minutos, na seção final do desenvolvimento, antes de voltar a introdução:

No vídeo abaixo, o pessoal montou um tablado à parte só para as marteladas:

O terceiro e último golpe (quando acontece) é lá no final da reexposição, aos 27 minutos (desculpem-me, não encontrei um vídeo apenas da martelada):

Mahler cancelou esta última pancada na revisão que ele fez da sinfonia, alegando motivos técnicos. Alma depois iria dizer que o marido era muito supersticioso, e acreditava que, como o herói da sinfonia era ele próprio, o último golpe poderia levá-lo à morte. Alguns regentes porém restituem o golpe fatídico; Leonard Bernstein, no vídeo acima, é um deles.

Leonardo que me desculpe, mas isso sim é que é porrada em música clássica! :-D