John Sullivan, um campeão da chamada "prize fight" do final do século XIX

O primeiro post deste blog (ok, depois do proêmio) tratou de um dos problemas mais comuns entre ouvintes de música: tratar “música clássica” como um estilo de música, tanto quanto o pagode, a MPB, o funk… Foi nesse espírito que meu amigo Bruno Gripp recebeu perguntas como esta, esta e especialmente esta no seu formspring.

Naquele primeiro post havíamos visto que “música clássica” não se refere a um estilo de música, mas a um grande gênero que compreende toda uma história e estilos à parte em oposição justamente aos estilos mais conhecidos da música popular. Neste aqui pretendemos atacar mais diretamente um dos sintomas desse problema de definição: os clichês deterministas. Pois se música clássica for tratada como um estilo, bem se poderá falar de características próprias e definidas desse estilo. No caso da música clássica, as características mais lembradas são de uma decantação reflexiva, um tom pastel, uma textura equilibrada, controlada e bem pensada, que embala sempre civilizadamente o porte apolíneo do trato o mais erudito da música como a arte no seu cultivo mais refinado. Bom até pra estudar. Bom até pra dormir.

…então aumentem o som e durmam com essas daqui, ó!:

1. Stravinsky: Le Sacre du Printemps (“A Sagração da Primavera”) (1913)

Começamos com uma das obras mais importantes do século XX, e uma das mais apropriadas pra se apresentar a música clássica a quem não é muito a fim de frescura. Foi um balé encomendado por Sergei Diaghilev, quem diria, que rendeu uma das músicas não apenas mais chocantes, mas também mais austeras do século! A Sagração da Primavera encena um ritual pagão primitivo: adolescentes eleitas dançam em frente aos anciãos de uma tribo antes de serem oferecidas em sacrifício ao deus da Primavera. A terra é adorada, os espíritos dos antigos são evocados, e a imolação das vítimas depois da dança da morte é feita nesse balé de meia hora. A música de Stravinsky é um gesto radical da reprodução de ritmos, timbres e harmonias primitivas, e é surpreendente que uma obra musical tenha encontrado espaço para um resultado estético tão revelador e uma linguagem de procedimentos tão radicais inspirando-se no espírito do primitivismo. Ao mesmo tempo em que ouvimos ênfases rítmicas alusivas, um predomínio rústico da percussão e escalas diatônicas por esse lado primitivo, síncopes constantes, polirritmia, politonalidade e dissonâncias percussivas tornam as coisas realmente intrincadas para a orquestra. Destaco aqui três trechos que fazem jus ao título deste post.

1. As seqüências de ritmos diferentes que são justapostos e contrastados predominam a sintaxe da obra, mas na Adoração da Terra o ritmo rende um momento muito marcante: as cordas enfatizam o ostinato do ritmo predominante até ali, e desenham um motivo com um aspecto mais melódico, enriquecendo esse clímax com um espírito evocativo, representando a tribo a dançar e a adorar a terra da qual esperam colher os frutos concedidos pelos deuses.

Audio clip [Stravinsky - Le Sacre du Printemps - 04. Part I - L'Adoration de la Terre - 4. Rondes printanières (H. Karajan - BPO - 1977)]: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

2. Depois que os espíritos antigos são evocados, há um momento chamado “Ação ritual dos antigos”, quando a intercessão pelos espíritos alcança efeito e o ritual conta com uma autoridade numinosa para o sacrifício realizado em breve. Dos metais surge um motivo mágico e repetido, e a percussão reforça a energia desse clímax.

Audio clip [Stravinsky - Le Sacre du Printemps - 13. Part II - Le Sacrifice - 5. Action rituelle des ancêtres (H. Karajan - BPO - 1977)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

3. No final da obra, uma dança sacrificial acompanha a tomada da escolhida para o sacrifício, e digressões rítmicas formam um dos momentos mais claramente duais da obra: ouvimos de um lado a inquietação da vítima (claramente definida no libreto de Nicholas Roerich, no qual a obra foi baseada) e de outro a resolução da procissão ao seu sacrifício.

Audio clip [Stravinsky - Le Sacre du Printemps - 14. Part II - Le Sacrifice - 6. Danse sacrale (H. Karajan - BPO - 1977)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

2. Bartók: A Csodálatos Mandarin Op. 19 (“O Mandarim Miraculoso”) (1926)

No espírito dos balés mágicos e violentos, O Mandarim Miraculoso de Bartók tem momentos tão dramáticos que bem nos ajudam a apreciar o espírito brutal na música clássica. Nos posts dedicados aos poemas sinfônicos de Dvorák, temos visto como a música pode ser alusiva e dramática em apoio a um enredo. Mas aqui, essa alusão é ainda mais concreta: a música acompanha um “balé pantomima”, um misto de dança e representação teatral sem palavras. Então cada ação é refletida pela música de maneira literal e gestual. Na estória inspirada em Melchior Lengyel, temos três vagabundos coagindo uma jovem mulher a fazer o papel de uma prostituta a fim de atrair ao seu quarto vítimas a quem eles possam roubar. A atração de um estranho e obcecado mandarim acaba fugindo ao controle, e toda tentativa de fugir e de afastá-lo termina em uma insistência macabra digna de pesadelo. Separo aqui novamente três partes.

1. A obra começa com um prelúdio que reproduz os sons agitados das ruas, antecedendo ainda o abrir das cortinas do balé, e antecipa o espírito do que teremos pela frente, como toda boa introdução. O trecho que seleciono é um clímax de intensidade que parece não ter fim: os sopros completamente histéricos, os metais em motivos de fôlego curto imitando a melhor trilha dramática, e um tema sombrio surgindo nos baixos, antecipando que o destino daquela noite não estava pra pouco.

Audio clip [Bartók - The Miraculous Mandarin Op. 19 (Pantomime in one act) - 01. Beginning (C. Abbado - LSO & Ambrosian Singers - 1983)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

2. Neste trecho, a jovem corre do mandarim, que já a persegue com um olhar fulminante de desejo depois de vê-la dançar. O tema agitado é meio cigano, e tem um momento de histeria de tirar o fôlego com as cordas. É quando ele a agarra.

Audio clip [Bartók - The Miraculous Mandarin Op. 19 (Pantomime in one act) - 09. She flees from him; he chases her wildly (C. Abbado - LSO & Ambrosian Singers - 1983)].

3. E aqui, no quarto ao qual o mandarim deveria ser atraído e roubado, ele e a jovem começam a lutar, até que ela consegue sufocá-lo com um travesseiro. Os metais tocam com excitação, enquanto as cordas tocam uma figura escapolindo do tema dos metais, representando a luta dos dois. Depois aquele tema cigano é tocado novamente e de maneira predominante, com uma participação alucinante da percussão. Já ao final do trecho a respiração do mandarim vai esmorecendo enquanto ele gira os braços para o ar.

Audio clip [Bartók - The Miraculous Mandarin Op. 19 (Pantomime in one act) - 10. They fight. She suffocates him with pillows (C. Abbado - LSO & Ambrosian Singers - 1983)].

A música não acaba por aqui e essa quadrilha ainda teria muito trabalho, o que é um convite para se conhecer a obra completa. Mas, por ora, passemos adiante em busca de mais música e selvageria.

Reprodução de "A Prize Fight" (1823), da série "The National Sports of Great Britain", de Henry Thomas Alken (1785-1851)

3. Vivaldi: Concerto em Sol menor “L’Estate” RV 315 (1723)

A famosa série de concertos das Quatro Estações de Vivaldi também tem um momento digno de violência, e violência natural. Esses concertos foram escritos e publicados por Vivaldi em uma coletânea chamada Il cimento dell’armonia e dell’inventione (“A disputa da harmonia e da invenção”), reunindo concertos para violino que de alguma maneira aludem a imagens, não ficando apenas no caráter abstrato e absoluto da música. Para cada um dos concertos que representa uma estação, Vivaldi se apoiou em respectivos sonetos (escritos, acredita-se, por ele próprio), de onde um ou outro procedimento musical se torna iluminado por uma imagem precisa, como os latidos de cães no 2o. movimento da “Primavera”, o cansaço causado pelo calor no 1o. movimento do “Verão” ou os bêbados caindo de sono no 2o. movimento do “Outono”. O momento que destaco é o 3o. movimento do “Verão”, marcado como “Presto”: o soneto descreve que um caminhante, exausto pelo calor, começa a temer uma tempestade que se anuncia pelos clarões do céu. E não dá outra: cai um pau d’água que fere o chão. A música simplesmente parece um cão rosnando!

Audio clip [Vivaldi - Concerto No. 02 in G minor 'L'estate' RV 315 - 3. Presto (F. Biondi - Europa Galante - 2000)].

4. Verdi: Requiem (1874)

E por fim, destaco um dos exemplos mais famosos quando o assunto é música clássica e pancada: o Dies Irae (“Dia de Ira”) do Requiem de Verdi. Como diz a capa do livro “Os Sapos de Ontem” de Bruno Tolentino: “É pau puro!”. Ouçam e acompanhem a letra:

Audio clip [Verdi - Requiem - 02. Dies irae (J. E. Gardiner - Orch. Revolutionnaire et Romantique & Monteverdi Ch. - 1992)].

Dies iræ! dies illa
Dia de ira! Aquele dia
Solvet sæclum in favilla:
dissolvirá o século em cinzas:
Teste David cum Sibylla!
assim testificam Davi e Sibila!

Quantus tremor est futurus,
Quanto tremor haverá,
Quando iudex est venturus,
Quando o juiz vier,
Cuncta stricte discussurus!
para com rigor julgar todas as coisas!

Notem que esses exemplos não servem pra levantar meras exceções a um preconceito geral: servem mesmo é pra mostrar que a função da expressão “música clássica” não é a de descrever um estilo com peças que obedeçam a prescrições em comum, como se fossem uma mesma coisa e não uma história longa e profundamente variada. E daí podermos encontrar qualquer característica (até porrada!) nessa diversidade de tantos séculos e formas. Para uma discussão completa sobre isso, já sabem, é só começar por aqui.

E já que essa compilação está aí, quero convidar os leitores a darem sugestões de obras em que o bicho pega, bem como convidar os colegas que quiserem a convocarem outras obras.

Este post pertence à série:
1. Música Clássica e Porrada – Parte I (Stravinsky, Bartók, Vivaldi & Verdi)
2. Música Clássica e Porrada – Parte II (Bartók, Mussorgsky, Prokofiev & Beethoven)
3. Música Clássica e Porrada – Parte III (Liszt, Tchaikovsky, Messiaen & Wagner)
4. Música Clássica e Porrada – Parte IV (Chopin, Shostakovich, Prokofiev & Messiaen)
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