Muito bem. Lida a carta, o que significa tudo isso? O que atualmente se consegue reconstituir do que de fato aconteceu com Beethoven nesse período?

Onde Beethoven estava?

A descoberta precisa do ano da carta (6 e 7 de julho de 1812) através de análises feitas em 1950 da marca d’água do papel utilizado confirmou os dados do local em que Beethoven estava: o spa de Teplitz, na região da Boêmia (atual República Tcheca), cidade na qual Beethoven, por recomendação médica, havia chegado com dificuldades pela estrada no dia anterior, como relata logo no início da carta, e onde ainda procurava definir seu alojamento. Por protocolo, todo visitante da cidade deveria registrar seu nome no local em que fosse hospedado, o que tornou possível a confirmação do local pelos biógrafos.

A: Viena; B: Praga; C: Teplitz; D: Karlsbad (Google Maps)

Sabe-se ainda que Beethoven havia viajado para Praga no dia 1 de julho e ficado até o dia 4, quando partiu para chegar em Teplitz no dia seguinte. Por evidência do conteúdo da carta, ele e a Amada Imortal devem ter se encontrado em Praga entre esses dias, antes de Beethoven partir no dia 4 para Teplitz, e ela, presume-se, para Karslbad (referida na carta como “K.”), ambas cidades próximas e com hospedagens para seus dois famosos spas. Durante essa separação, a carta sugere que eles ainda esperavam se reencontrar em breve (“nós provavelmente nos veremos em breve”).

A carta foi enviada?

“K.” (Karlsbad?)

Pela ausência de marcas do correio e por ter sido encontrada entre os próprios pertences de Beethoven, o documento atual dificilmente foi enviado à destinatária. Embora a carta registre o esforço de Beethoven para que a Amada Imortal recebesse suas primeiras notícias, algumas discrições – como nomes de cidade abreviados, a ausência do nome da destinatária e referências apenas alusivas ao que pudesse identificá-la – sugerem uma preocupação com a sua privacidade que pode tê-lo feito desistir de enviá-la pelo correio, suspeitando da segurança até o seu destino. Ou, como veremos, Beethoven pode ter sido informado de que ela havia deixado o hotel em que estava (ou que sequer se hospedou nele). A possibilidade de se tratar de um rascunho ou de uma cópia feita por Beethoven no mesmo dia não pode ser descartada, mas não é o que o conteúdo e mesmo a caligrafia de repente apressada do final da carta (para dar tempo de enviá-la) sugerem. Tendo sido ou não enviada em algum momento, o fato de ter sido guardada em uma gaveta juntamente a outros documentos importantes é um claro símbolo para a posteridade comunicando a fidelidade que Beethoven afirma na carta (já que ele de fato nunca se casou).

Redigido em um documento único, o texto marca três momentos distintos entre a manhã do dia 6 e a manhã do dia 7 de julho. E pelo esforço registrado por agir em conformidade às informações a respeito dos dias em que o cocheiro do correio partia com as correspondências, esses três momentos mostram-se mais como os registros de uma única carta principal, seguida de dois post scripta, do que como o conteúdo de duas ou mesmo três cartas separadas, que tivessem sido enviadas em sequência.

Qual era o relacionamento de Beethoven com a Amada Imortal?

Retrato em miniatura não identificado, encontrado entre os pertences de Beethoven após sua morte

Mesmo com um conteúdo alusivo a carta deixa entrever um contexto amoroso complexo: há várias queixas inconsoláveis de uma separação da Amada Imortal, e não apenas uma separação física, mas um impedimento contra o qual Beethoven expressa uma profunda luta. Entre outras coisas, o pedido para que ela arranje um meio para que ambos vivam juntos (“faz com que eu possa viver contigo”) deixa entender que dependeria dela, provavelmente uma mulher casada, e não dele, um solteiro, que ambos pudessem viver juntos. A não ser que se tratasse da súplica de um amor não correspondido (que no entanto não é o que o conteúdo da carta nos faz pensar).

Na época, não apenas a burocracia de um divórcio poderia ser um impedimento para uma mulher (especialmente da nobreza) se separar e casar novamente, mas questões judiciais envolvendo a custódia dos seus filhos, o legado e as posses de uma linhagem nobre e as condições de sua herança (problemas que se sabe terem sido discutidos entre Beethoven e Josephine Brunsvik nos anos 1804-1807, mesmo sendo ela então uma viúva, pois Beethoven era plebeu).

Após esse pedido para que ela encontrasse uma maneira de viverem juntos, escrito na carta durante a noite do dia 6, Beethoven acrescenta na manhã do dia 7, depois de ter dormido pensando no assunto, que está decidido a “vagar para longe sem rumo, até que possa voar em teus braços, e possa dizer que estou inteiramente em casa contigo”, ou seja, que está decidido a se resignar e se afastar dela, até que talvez pudessem viver juntos e definitivamente (possivelmente até que ela ficasse viúva ou que os filhos crescessem). O que, como se sabe, não aconteceu.

E foi esse quadro que levou tantos biógrafos à pergunta: que mulher se adequaria a essas características?

Quem foi a Amada Imortal?

O debate é mais atual do que se pode imaginar, e, depois de um grande virtuosismo historiográfico por parte dos biógrafos, duas candidatas permanecem em disputa mais consistentemente.

Antonie Brentano

Antonie Brentano, retrato a óleo de Joseph Karl Stieler, 1808

Em 1972, Maynard Solomon defendeu pela primeira vez a identidade de Antonie Brentano (1780-1869), sendo apoiado pelas prestigiadas biografias de Barry Cooper (2000, 2008) e Lewis Lockwood (2003), um artigo de Klaus Martin Kopitz (2001), entre outros.

Antonie pertencia a uma família dedicada ao cultivo das artes – seu pai, um diplomata austríaco, era colecionador de arte, e seu marido, o comerciante Franz Brentano, um importante mecenas. Entre 1810 e 1812, enquanto viveu em Viena, a família Brentano se tornou bastante próxima de Beethoven, que os visitava, oferecia recitais em sua residência, tocava para eles e brincava com seus filhos. Como Antonie tinha a saúde frágil e estava frequentemente doente, Beethoven costumava visitá-la e improvisava para ela ao piano, para, nas palavras dela, lhe “oferecer conforto”.

Os principais argumentos de Solomon são provenientes de fortes evidências “externas”: Antonie de fato também esteve, ainda que sempre com o marido e a filha mais nova, em Praga entre os dias 1 e 4 de julho de 1812 (chegou no dia 3 e partiu na manhã seguinte) e em Karlsbad desde o dia 5 de julho. Ela era próxima e conhecida de Beethoven e tinha previsão de deixar a residência em Viena para morar em Frankfurt – o que pode explicar parte do sentimento de urgência na carta para que eles se encontrassem e definissem o seu destino.

Contraposições à hipótese lembram que não há notícias de outras cartas ou diários em que Beethoven se refira a Antonie de maneira mais do que amistosa – e a leitura desse tipo de evidência por Maynard Solomon, como das duas misteriosas referências de Beethoven a uma “A.” (Antonie?) ou “T.” (‘Toni?) em seus diários – tem sido relativizada. Além disso, por diferentes meios sabe-se que Beethoven expressava um forte vínculo de amizade com o marido de Antonie, Franz Brentano, o que em alguma medida constrange a hipótese tendo em vista o código moral do compositor, conforme expresso em seus escritos pessoais, o que se reconhece de suas atitudes e mesmo algumas afirmações da própria carta à Amada Imortal (como “Permanece meu fiel e único tesouro” ou o reconhecimento da firme fundação do amor de ambos no céu, em “Não é nosso amor um verdadeiro edifício celeste? – Mas também tão firme, como o firmamento do céu”, etc.).

Na última semana de julho (cerca de vinte dias após a carta ter sido escrita) sabe-se que Beethoven foi para Karlsbad encontrar a família Brentano, o que para Solomon confirma o que a própria carta diz: “nós provavelmente nos veremos em breve”, mas que para outros evidencia uma improbabilidade: é difícil imaginar que Beethoven teria tido um caso com Antonie debaixo do nariz de Franz o tempo todo (e a relação do casal parecia saudável e com declarações de respeito e estima, com Antonie tendo descoberto que estava grávida há quatro semanas no dia 3 de julho daquele ano!). Por isso Barry Cooper sugere que o amor de Beethoven por Antonie pudesse simplesmente não ser correspondido ou, ao menos, consumado.

Críticas à hipótese podem ser encontradas nos livros e artigos de Harry Goldschmidt (1977), Marie-Elisabeth Tellenbach (1983), Virginia Oakley Beahrs (1988), Gail S. Altman (1996), Rita Steblin (2007) e Edward Walden (2011), além de uma compilação de refutações no The Beethoven Journal 16/1 (Summer 2001), pp. 42-50.

Josephine Brunsvik

Josephine Brunsvik, retrato em miniatura a lápis, c. 1800

Em 1920, La Mara (Ida Marie Lipsius) defendeu a identidade de Josephine Brunsvik (1779-1821), sendo apoiada por Walter Riezler (1962), Jean & Brigitte Massin (1970), Harry Goldschmidt (1977), Marie-Elisabeth Tellenbach (1983), Virginia Oakley Beahrs (1988), Carl Dahlhaus (1991), Ernst Pichler (1994), Rita Steblin (2002, 2007, 2009), entre outros.

Josephine era filha de uma família nobre do antigo Reino da Hungria, tendo recebido educação de professores particulares em línguas e literatura clássicas e música. Depois da morte de seu pai em 1792, ela, as irmãs e a mãe foram morar em Viena, onde em 1799 Josephine começou a ter aulas de piano com Beethoven.

Sobre esse período, o próprio Beethoven teria vindo a reconhecer que suprimiu sua afeição por Josephine, especialmente quando ela foi dada em casamento a Joseph Conde Deym (1752-1804), um homem mais velho, com quem teve três filhos, mas que poucos anos depois viria a falecer.

E é aqui que começam as evidências “internas” que compõem os argumentos da hipótese sugerida desde La Mara: em 1957 foram descobertas 13 cartas até então desconhecidas de Beethoven para Josephine que compreendem os anos de 1804 até 1809/10, ou seja, logo depois da morte do seu primeiro marido, e que revelam que, entre grandes esforços por manter-se discreto, Beethoven esteve apaixonado por Josephine e, embora as cartas dela não sejam totalmente preservadas para nós, muito seguramente foi correspondido – as cartas falam em tom de reciprocidade e mesmo os diários das irmãs de Josephine confirmam a preocupação da família pela proximidade de ambos.

O fato é que essas cartas, que insistiam na busca por uma alternativa para que ambos se casassem, revelam uma linguagem incrivelmente semelhante à linguagem da carta à Amada Imortal, com expressões como: “meu tudo, minha alegria”, “apenas você – sempre você – até o túmulo apenas você”, “anjo do meu coração”, e outras declarações de fidelidade que não se conhece terem sido dirigidas por Beethoven a outra mulher.

Mas o amor dos dois ameaçava a guarda dos filhos de Josephine (por Beethoven não ser um nobre), e por isso não se cumpriu. Em 1807 ela já se afastava de Beethoven, e em 1810 se casava novamente, com o Barão Christoph von Stackelberg (1777–1841).

O que a hipótese consegue reconstruir para a ocasião da carta à Amada Imortal é que, na semana de 6 de julho de 1812, Josephine já havia sido abandonada pelo marido, que então já estava há um mês na Hungria depois de uma série de discussões em um casamento conturbado.

A ideia de que Josephine tenha estado em Praga na mesma semana que Beethoven ou em Karlsbad não conta com evidências, mas com hipóteses que não puderam ser falseadas: em seu diário do dia 8 de junho daquele ano, ela declara sua tristeza, sua preocupação financeira e com os filhos pelo abandono do marido e sua intenção de viajar para Praga no mesmo período, possivelmente para tratar de negócios: “Hoje foi um dia difícil. – A mão do destino repousa ameaçadora sobre mim. (…) Stackelberg quer me deixar sozinha. Ele é insensível a quem suplica em necessidade. (…) Quero ver Liebert em Praga. Nunca vou deixar que as crianças sejam tomadas de mim. Por causa de Stackelberg, eu me arruinei fisicamente, de modo a ter passado por tanta tristeza e enfermidade (…)”. E no diário de suas irmãs há planos de idas para Karlsbad, para onde elas de fato acabaram indo poucas semanas depois da semana de 6 de julho.

Assim, o que se presume é que Beethoven tenha encontrado Josephine em Praga, mas sem qualquer planejamento de ambos. Nesse encontro ele teria descoberto sua situação (“Tu estás sofrendo, minha mais querida criatura”) e teriam ficado juntos (ele está com o lápis dela, e alguns interpretam as palavras rabiscadas, que dizem algo como “Oh, vai com…” depois dele dizer que iria dormir, como um convite suprimido de que ela fosse com ele para a cama, significando que isso já houvesse acontecido).

Não se descarta a ida dela a Karlsbad secretamente após esse encontro – por alguns dias, residentes ficavam isentos da obrigação de se registrar, embora isso nunca se aplicasse a estrangeiros. Mas é possível que, embora tenha planejado, ela simplesmente não tenha ido para Karlsbad, embora Beethoven pareça ter entendido que ela o faria, antes de talvez descobrir (pela chegada do correio naquela mesma manhã de 7 de julho?) que ela não o fez.

Minona Stackelberg (1813-1897), a cara de Beethoven?!

Além disso, Josephine esteve grávida e deu à luz exatamente nove meses depois – estranheza que pode ter sido responsável por que o próprio Stackelberg decidisse definitivamente se divorciar dela após algumas tentativas de reconciliação.

Contraposições consideram o suporte para a hipótese de Josephine ter estado em Praga como insuficiente, e notam uma única diferença instigante nas cartas de Beethoven para Josephine e a carta à Amada Imortal: enquanto Beethoven trata a Amada Imortal pelo pronome mais íntimo “Du” (análogo ao “tu” entre os portugueses), Josephine é sempre referida como “Sie”. Embora, segundo Gail S. Altman, Antonie também dificilmente receberia uma carta de Beethoven sendo tratada como “Du”, já que manifestamente não gostava desse tratamento (chegara a se queixar quando o próprio marido, Franz, depois de dois anos de tê-la conhecido, começou a tratá-la por “Du”!).

Conclusão

A crítica anglófona parece se inclinar mais vezes à hipótese de Solomon, enquanto a europeia, especialmente alemã, pende para a hipótese de La Mara. Se acreditarmos nas evidências “externas”, Antonie tem as mais francas e comprovadas vantagens. Mas se acreditarmos nas evidências “internas” – ou, como dizem os defensores de Josephine, se acreditarmos “no próprio Beethoven” quando dizia ser ela a sua única amada -, Josephine se mostra bastante compatível com o posto de Amada Imortal. E assim o consenso permanece ainda impossível.

E o que isso teve-que ver com a música?!

Para que toda essa leitura não termine tendo se resumido a uma grande fofoca, é fundamental situarmos esse conhecimento na música de Beethoven, sendo a música a grande prioridade deste blog. E sobre isso, acreditem, veremos em um futuro post para encerrar esta série!

Este post pertence à série:
1. Sendo a “Amada Imortal” por um dia: I. Beethoven em fonte primária
2. Sendo a “Amada Imortal” por um dia: II. Desvendando o que dá
3. Sendo a “Amada Imortal” por um dia: III. Música!