Celibidache no Requiem de Mozart

Aqui está uma raridade muito especial no YouTube: três vídeos com o ensaio do Requiem de Mozart (KV 626) dirigido pelo grande maestro romeno Sergiu Celibidache (1912-1996). É emocionante ver como o mestre, já em idade avançada, vibra e concebe a interpretação com tanto prazer e devoção à obra. Tive a felicidade de comprar o CD da EMI com esse registro altamente recomendado. Confiram, abaixo, as três partes do documentário.

Parte 1:

Parte 2:

Parte 3:

Esta é a inspirada capa do CD com a gravação integral:

13 Respostas

  1. Frederico Toscano
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    Um momento notável é quando, no ensaio do Agnus Dei, Celibidache diz, com uma gentileza e uma verdade que vem do seu íntimo:
    “As sopranos aprenderam, mas eu tenho um pedido… Por favor, nada agressivo; unido ao todo; orando; nada impositivo; muito confiante em si mesmo…”
    Era um ser que VIVIA a MÚSICA!
    Bravissimo, Maestro!

  2. Leonardo T. Oliveira
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    Só pra constar: leeeento. XD Mas tira um som bonito dos músicos.

  3. Frederico Toscano
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    Na concepção de Celibidache, assim como na minha, o andamento mais lento favorece à contemplação, à introspecção e à oração inspirada pela obra em certos momentos. Obviamente que seções como o Dies irae exigem outra atmosfera. O mesmo pensava Karl Böhm. Leonard Bernstein também aplica essa idéia na sua gravação do Lacrimosa – o mais lento que conheço.

  4. Carlos
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    Eu acho que, em alguns momentos, como no caso do Requiem de Mozart, a interpretação de Celibidache é essencial. Da mesma forma com as sinfonias de Bruckner, que ganham uma faceta extra-musical.

    http://www.youtube.com/watch?v=7aU0Q3NTGls&feature=related

  5. Ludwig van Winkle
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    Daí voltamos ao debate “subjetivo x objetivo” que tem enriquecido este blog há algum tempo. Eu tenho dificuldade para enxergar essa “faceta extra-musical” das interpretações de Celibidache. Seria mais evidente, talvez, se ele pintasse ou dançasse no pódio…

  6. Frederico Toscano
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    É verdade, Carlos. O “extra-musical” é justamente o diferencial de Celibidache. Aproveitando sua deixa, trouxe mais algumas idéias do regente para reflexão. Em entrevista durante um festival em 1988, Celibidache disse o seguinte:

    “My God, how happy I’d be if Furtwängler was around today to show everyone what a slow tempo really is! His whole life he was tormented with ‘much too slow!’ and who was saying this? Some idiot who can only hear one third of what’s happening on stage! What does he know of third flute part? No, that’s just waste paper as far as he’s concerned. He just cares about ‘the grand line’. Jumped-up ignoramus!”

    “Tempo has nothing to do with speed, but with the wealth of variety that sounds in the here and now. Tempo is the condition within which conscious awareness makes a unity of this variety. From this comes the principle ‘the richer, the broader’. This richness depends on the music itself, but also on the particular characteristics of the instruments, the expressive capabilities of the musicians, and on the acoustic.”

    “The tempo is therefore the result of many factors, to which the conductor reacts through listening – in no way is it a physical speed stuck on to a piece from outside. The tempo isn’t determined via a metronome mark, nor by the whim of the ‘interpreter’.”

    Quanto ao Requiem de Mozart, Chelibidache informou aos seus alunos do festival que:

    “The Requiem begins with the technique of suspensions. Here is created the perspective for all the follows. The high point is already reached at the moment the basset horns exchange their seconds.”

    “What was initially lacking in the choir was an awareness of space, of spatial structure. Each entry has a spatial relationship with the previous one. This relationship is governed by the underlying intervals that frame the melodic line.”

  7. Carlos
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    É claro que em algumas obras essa relação que Celibidache tem com o tempo não funciona (ex:Concerto para Orquestra de Bartok), apesar dele sempre destacar com clareza as seções da orquestra. É possível perceber nesses vídeos que Fred postou como cada membro da orquestra é bastante cobrado para ouvir o outro. Celibidache é um verdadeiro mestre no controle do volume sonoro, lembram quando ele chama atenção da orquestra para diminuir seu volume e não ultrapassar o coro no Requiem? O resultado é perceptível.

    Aqui segue um exemplo da maestria de Celibidache com a Missa de Bach (mesma orquestra):

    http://rapidshare.com/files/447209761/101-Mass_in_B_minor__BWV232_-_I._KYRIE_Kyrie_eleison.mp3

  8. Frederico Toscano
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    Carlos, que gravação sensacional da Missa de Bach com Celibidache! É de fato o que ele chamava de “técnica da suspensão”. O momento orquestral realmente nos prepara e nos situa no espaço. Pretendo adquirir assim que ficar disponível na loja virtual que sempre compro. Como sempre, você traz excelentes recomendações. Lembro quando você me apresentou Michelangeli em Mozart. Foi inevitável: comprei tudo dele!!! Obrigado novamente!

  9. Carlos
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    Oi Fred,

    Ótimo que esse trecho do disco de Bach com Celibidache tenha te comovido. Aliás, toda a gravação é excelente, solistas de primeira linha. Celibidache será eternamente lembrado por esses registros. Interessante você trazer o nome de Michelangeli, pois foi com ele que sai do limbo desprezível do pop-rock. Eu vagava em total perdição até esbarrar no Concerto N.3 de Beethoven com Michelangeli. Foi minha salvação. Aquela interpretação delicada, mas sem perder o vigor necessário. Foi através das mãos de Michelangeli, literalmente, que fui puxado ao mundo da música clássica.
    Mas isso é ínfimo comparado com seus textos e comentários fascinantes sobre Mozart e Haydn. Não vejo a hora de ter um livro seu comentando as obras desses mestres do classicismo.

  10. Frederico Toscano
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    Carlos, gentileza sua, meu caro! Muito obrigado pela consideração!
    Você tocou na veia: o terceiro concerto de Beethoven é o meu preferido no compositor. Michelangeli faz uma espécie de tomografia computadorizada da obra! Que transparência! A regência de Giulini é fantástica. Aliás, o que dizer desse regente com a BP nas sinfonias 40 e 41 de Mozart pela Sony?! Descobri recentemente e foi uma gratíssima surpresa, direto ao topo do ranking!
    Rapaz, o que foi isso que você me revelou agora?!?!?!?! Tive que entrar três vezes no link para acreditar! Já encomendei! Kubelik, Popp e companhia na Missa Sanctae Caeciliae de Haydn?! INDISPENSÁVEL! Eu ainda espero lançarem em breve a Missa in Tempore Belli com Bernstein gravada na mesma igreja! Já tenho Die Schöpfung dessa série. Também comprei esse recentemente:
    http://www.amazon.com/Symphonieorchester-Bayerischen-Rundfunks-Mariss-Jansons/dp/B002MUQ9YW/ref=sr_1_4?ie=UTF8&qid=1297541426&sr=8-4

  11. Riccardo
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    Celi é personalíssimo! Não gosto, por exemplo, do seu Beethoven, sai morto, mas é interessante de se descobrir… Mas a maioria esmagadora do seu trabalho é genial. E esse requiem… o do Fauré, a missa de Bach, as sinfonias de Brahms… Bruckner então… Fabuloso!

  12. Ricardovsky
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    Que bom encontrar o meu amigo mozartiano toscano falando sobre Celibidache. Adoro as gravações, ops…, interpretações de Celibidache, sem deixar de gostar também daquelas gravações de época que pensam mais na autenticidade do que em interpretações. Aliás, tenho as duas antíteses perfeitas: a Nona de Beethoven com Celibidache e com Norrington. Gosto de ambas. É claro que essa diferença é mais teórica do que propriamente um fato. Há muita interpretação nas gravações ditas autênticas, e, igualmente, há muita autenticidade nas interpretações estilizadas de Celibidache. Eu diria que ele, com seus tempos lentos, consegue explorar a partitura de uma maneira impressionante. Celibidache não deturpa a música. Na verdade, ele possui uma filosofia de como a mesma deve soar em concerto para, assim, conseguir expor de uma maneira ideal a partitura ao ouvinte. Eu diria que o regente tem o poder notável de enfatizar passagens (todas elas escritas pelo compositor) que muitas vezes são deixadas de lado por regentes não geniais.

    Aproveitando o ensejo, gostaria de dizer que ontem (26/11), comprei duas caixas da Emi com gravações de Celibidache, uma com música sacra e ópera e a outra com música russa e francesa. Cada uma possui 11 cds e o preço (sempre achei essas caixas caras) está inacreditável: apenas 26,16 dólares cada uma. A loja é a Presto Classical, que é muito boa e confiável (foi o Darly (Doctor Marianus) que me indicou e virei cliente assíduo sem nunca ter problemas e sem ter que pagar os tais 60% de imposto). O frete também é baratinho. Eis o link para as caixas do Celibidache:

    http://www.prestoclassical.co.uk/advsearch.php?&performer=celibidache&label=emi&medium=CD&page=2

    Grande abraço a todos.

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