19abr 2017
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Direto às fontes

No post que escrevi em homenagem a Pierre Boulez, comentei de passagem sobre uma questão que, a meu ver, é de grande importância para se compreender as dúvidas que cercam a música clássica hoje. Eu falo da mudança no modo de fruição musical que se verificou ao longo do século XX. Essa mudança resultou em uma atitude em relação à música completamente diferente daquela de antes, e é sobre uma dessas mudanças que desejo me concentrar neste post: a recente ascensão da música por streaming.

A manufatura de pianos era a alta tecnologia do século XIX. E, como a tecnologia atual, ela também modificou a música.
A manufatura de pianos era a alta tecnologia do século XIX. E, como a tecnologia atual, ela também modificou a música.

As diversas revoluções tecnológicas certamente têm deixado sua marca na maneira de se ouvir música desde antes mesmo da mecanização da audição, levada a cabo ao longo da primeira metade do século XX. Com efeito, um recital de piano solo para o grande público seria impossível em um cravo ou mesmo nos pianos contemporâneos de Mozart, e mesmo os de Beethoven. Foi apenas depois do desenvolvimento da metalurgia e do uso de cordas de aço em pianos de armação de aço que o piano cresceu em volume e pôde assim, sozinho, encher um auditório.

Sem esse aporte tecnológico, jamais seria possível que um Liszt se tornasse a personalidade que foi. Dessa forma, a ascensão do culto ao virtuosismo e a personalidade do artista romântico devem, ainda que em parte, sua existência aos desenvolvimentos da revolução industrial. Ou seja, torna-se evidente que mudanças tecnológicas afetam a música desde antes de sua mecanização.

Essas são as empresas dominantes no mercado, mais estão chegando.
Essas são as empresas dominantes no mercado, mais estão chegando.

Adiantando-me no futuro, vivemos hoje uma nova mudança cultural, que é o surgimento e a dominância da música por streaming. Como muitos de meus leitores sabem, mas nem todos, imagino, os serviços por streaming são aqueles em que, ou gratuitamente, ou por meio do pagamento de uma quantia mensal, o ouvinte tem acesso a uma base de dados musicais que ele ouve diretamente do servidor, sem fazer download da música. Os serviços mais populares são o Spotify, o Deezer e, até ainda recentemente, o Rdio, que encerrou suas atividades em dezembro de 2015; mas existem mesmo diversos outros servidores, orquestras e casas de ópera que também o fazem. Mais recentemente, gigantes como a Amazon, a Apple e o Google têm se interessado nesse mercado e devem se tornar grandes concorrentes.

Não me interessa o aspecto econômico desse mercado, um assunto que já vem sendo discutido há um tempo e do qual eu tenho bem pouco de novo a acrescentar. Atrai-me muito mais as questões relativas ao efeito que esse serviço causa na própria fruição musical. E não é pequeno.

Até o surgimento da música eletrônica, na década passada, o principal meio de audição, sobretudo para a música clássica, era o de gravações que se comprava em lojas ou pela Internet. Mais do que a música popular, a música clássica dependia de gravações: enquanto a primeira vive de modas e se concentrava em um grupo pequeno de gravações e musicistas, a música clássica (da mesma forma que outros nichos, como o jazz) tem um universo muito amplo e pouco concentrado, o que diminui a atratividade de rádios, que têm que apelar para um denominador comum bastante difícil de se identificar. Isso fazia que um audiófilo médio dedicasse sempre uma porção de seu orçamento à compra de CDs.

Eu vivi essa fase ainda, e quando adolescente e jovem adulto era muito difícil se conseguir música. Até hoje lembro que demorei muitos anos para ouvir uma obra hoje simples como a Paixão segundo são Mateus de Bach. Nunca aconteciam apresentações na cidade da minha infância (BH) e eu não tinha outras chances de ouvi-la. Conhecia apenas por sua fama e, incrível de penar hoje em dia, por MIDIs que conseguia encontrar na Internet. É até impressionante, tendo em vista a enorme acessibilidade de uma obra como essa hoje, pensar que há não muito tempo ela era virtualmente inatingível.

Gostar de música nessa época, para pessoas que não viviam em uma cidade de vida musical intensa, consistia em adquirir gravações, das maneiras que estavam a nosso alcance. Dessa forma, uma discoteca de volume razoável era um apêndice natural na sala de uma família comum.

Essa necessidade aquisitiva tinha consequências não completamente positivas. A primeira é que ela estimulava um comportamento colecionista que é antípoda da real fruição musical. Os discos eram comprados apenas por seu interesse de coleção: por exemplo, não se gostava de Bruckner, mas, mesmo assim, comprava-se suas sinfonias completas para completar sua coleção. Dessa maneira, muitas discotecas realmente grandes foram formadas mais como um hobby de coleção do que um real interesse musical.

A única gravação de Debussy que você vai precisar possuir!
A única gravação de Debussy que você vai precisar possuir!

A segunda consequência, talvez mais nefasta porque mais disseminada, estava na mentalidade de que a gravação era o centro da vida musical. Considerações que hoje são completamente sem sentido eram comuns há não muito tempo, por exemplo, a noção de que havia “gravações definitivas” ou “essenciais”. Falava-se no “Chopin do Rubenstein”, no “Debussy do Michelangeli” no “Puccini da Callas”, como se os intérpretes fossem apêndices naturais dos compositores. Isso faz sentido em um mundo onde não há um acesso tão fácil a essas gravações, e elas se tornam bens escassos, mas, onde eles não são mais escassos, não há motivo em falar tal tipo de coisa.

Inclusive, se examinado a contento, esse comportamento que atribui a um ou outro musicista uma proeminência absoluta não faz o menor sentido. Um texto musical tem uma multidão de leituras possíveis, e a multiplicidade avoluma e permite que conheçamos melhor essa música. Na verdade, uma boa peça musical evade completamente essa noção de “gravação definitiva”. Nesta estação natalina, ouvi diversas gravações do Messias de Händel: Pinnock, Cleobury, Beecham, Jacobs, Haim, Gardiner. Longe de conseguir achar uma que seja a melhor, eu vejo que cada uma me faz amar mais a grande obra-prima de Händel. Se eu fosse investir na aquisição dos CDs de cada uma dessas gravações, eu gastaria uma quantia acima dos 700 reais.

Com o streaming, esse comportamento não tem mais lugar. Para que gastar fortunas se você pode ter acesso a uma quantidade de música maior que a duração da sua vida por uma quantia mensal menor do que um PF no centro? CDs hoje são um tormento mais do que um prazer: ocupam espaço, acumulam poeira, estragam, enfim, se justificam apenas em casos muito específicos.

Dessa maneira, considero que o streaming tem algumas boas consequências, principalmente ligadas ao fim da fetichização da gravação. Permite ao ouvinte concentrar-se muito mais na música do que no seu veículo. No fim das contas, importa a música que você conhece e ama, e não a que está na sua estante. E isso é muito bom.

No entanto, o streaming tem consequências não tão benéficas para a audição. A primeira tem a ver com uma diminuição da importância da música. De fato, o próprio meio eletrônico que concentra a música por streaming contribui para que a música seja afastada para a periferia da concentração do ouvinte. Diante de um computador ou um smartphone, cheio de atrações e notificações, a tendência imediata é que o ouvinte vá fazer outras atividades enquanto ouve música. Dessa forma, a audição é removida para um campo periférico.

É fácil perceber, a partir daí, que a música sai barateada nesse contexto. Há uma tendência cada vez maior para ela perder o protagonismo, que possuía há 40 ou 50 anos, quando o tocador de discos era a figura central na sala e não havia tantas diversões tão explícitas a seu redor. Isso é negativo para a música porque ela se torna algo menor, apenas um acessório, uma trilha sonora para sua vida. É comum mesmo o “ouvinte” sequer perceber a mudança de autor, uma vez que sua concentração não está na música, mas sim em outra coisa.

Que tipo de comunicação vai ter uma música que é enviada para as laterais do seu mundo? Ela pode gerar muito dinheiro, mas, em termos de importância, ela é menor do que a que possui em uma tribo africana, onde pessoas se reúnem para ouvir recitações poético-musicais. Por mais que uma Lady Gaga seja aparentemente famosa e influente, isso não se dá por sua música, mas apenas pela máquina de publicidade que a circunda.

Não obstante, mesmo quando o ouvinte encontra-se concentrado na música, ele ainda experimenta um certo barateamento da audição. As opções são muitas, e é difícil se concentrar nelas. Tive um exemplo disso com meu carro, que, mais velho, aceita um número restrito de CDs. Por uma época, eu não tive muito tempo de modificar o conteúdo do changer e fiquei uns dois meses com o mesmo grupo de CDs. A consequência dessa restrição foi muito positiva, eu acabei conhecendo muito bem a música e aprendendo a amá-la mais. Muitos estilos exigem que se acostume com suas idiossincrasias, e uma audição repetida é uma forma de se ir depurando o gosto. Com o streaming não há essa oportunidade, é mais fácil voltar-se para outra coisa do que tentar educar seu gosto para um estilo estranho. Paradoxalmente, a grande oferta tende a diminuir a capacidade de se gostar de estilos diferentes, favorecendo o ouvinte a ficar em seus redutos confortáveis.

Há questões ainda mais centrais, onde tanto a audição por gravação, quanto a audição por streaming concordam. Falo da questão de até que ponto ouvir gravações isolado em casa é um modo natural e esperado de se ouvir música. Isso, entretanto, deve ser assunto para outro post.


Este post tem 11 comentários.

11 respostas para “Direto às fontes”

  1. Texto bastante bom, mas voce esqueceu de mencionar a qualidade pobre do áudio do streaming. Na música popular, é conhecido o termo “loudness war”, em que os estúdios têm abusado cada vez mais de compressores e delimiters com o fim de torná-las devidamente “enlatadas” para serem ouvidas em caixinhas de som de computador, com todo o empobrecimento sonoro que isso acarreta. Pelo que sei, tal tem acontecido também no universo clássico, conquanto seja menos freqüente.

    Há ainda o problema da compressão, em que até músicos famosos da moda popular têm se posicionado pela volta dos formatos não-comprimidos de arquivo.

    Enfim são essas coisas, no restante parabéns.

  2. Caro Bruno,
    Sou um dos dinossauros apaixonados por bolachas, porque ,em minha juventude, era o canal. Cá no interior do Rio Grande, não chegava sequer a Radio MEC, hoje sucateada pelo pop-governo, apenas a fraquíssima Radio da UFRGS.
    Adquiri um prazer em manusear LPs nas grandes lojas do mundo. Depois, os CDs e DVDs. Adquiri o hierático gozo de sorver a música em espaços acústicos de uma cripta em minha casa….Algo como uma biblioteca doméstica que resiste ao livro virtual? Mais ainda, por motivos reverberantes que porventura afligiam a família e os vizinhos.
    Você tem muita razão ao final, falando que o acervo físico , mais que o streaming, facilita a repetição e digestão de uma obra mais pesadinha. Eu sempre proclamava: Não podemos emitir opinião sobre um trabalho musical antes de 3 audições.
    Enfim, você tem muita razão em tudo. Guardadas as minhas sexagenárias idiossincrasias e a natural aversão à virtualidade, seu artigo está simplesmente magistral . Parabéns pela lucidez!

  3. A tecnologia tende a evoluir e com isso a forma de se comercializar música, há pouco tempo atrás, m,eu pai tinha um toca CD no carro, e quando ele estava ouvindo música e passava por uma lombada, o toca CD parava de tocar por uns segundos e depois voltava, hoje em dia é tudo digital não se usa mais CDs, mais arquivos de audio no formato mp4, em smartphone, celular e afins, isso é uma evolução boa se pensar por esse ângulo.
    Outro coisa a se observar: uma pessoa que não tem conhecimento musical, que ouve a música por que achou bonita a letra ou o cantor, ele só preta atenção na letra, no cantor bonitão, enquanto faz outras coisas simultaneamente, mas como não tem conhecimento musica, jamais vai prestar atenção na mudança de tom, na mudança de intérprete, na mudança do antecedente para o consequente, na cadência, na modulação, só quem conhece essas coisas vai perceber isso. A busca pelo conhecimento musical, a busca pelo bom gosto, é muito baixa, a grande massa não quer ir a um teatro por exemplo, não quer ouvir Mozart no carro, não quer ouvir Handel no radio de casa, quer ouvir o funk o axé, o forró…..

  4. Sou o Joãozinho do Passo Errado. Sem dúvida ,a tecnologia nos traz muita coisa boa. Não mais suporto uma ópera em baixa definição e som seco, quando temos um DVD em Blue Ray e DTS 7.1. Sei que há rabichos do notebook para um sistema Surround e que pastilhas na orelha fazem inaudita estereofonia. Imagino até que , na próxima década,a juventude defenderá órgãos eletrônicas e filarmónicas por sintetizador, muito mais baratas e acessíveis do que centenas de instrumentistas e um regente medalhão que fatura como um “Ronaldo”.
    Amigos me pedem emprestada uma determinada música que tocou não sei onde. Levam um ano para devolver o CD. Não encontram, antes de um ano, ocasião para ouvir um CD ,seja onde ou como for. Mesmo assim, acho precipitado que os sacerdotes do smartphone e da internet convidem o Planeta para os funerais do livro e do disco. Olha, existem os fanáticos pelo vinil. Não mais sou um deles, embora concorde com a insubstituível sonoridade analógica. A mídia é vulnerável e esquizoide demais.
    Não podemos, porém, explicar a um sertanejo o que a poesia de um Pessoa nos invoca. Assim, fica difícil mostrar a um jovem o que significa ler Dostoievski com um livro no colo, ou “fruir” Bruckner em paredes levemente reverberantes.
    Não direi eu, o antediluviano, o que está certo ou errado, nem em termos de acústica, nem de custos, nem de curtição, oportunidades, apetites, cacoetes, efeitos colaterais, ou pluralidade de sentidos ,eis que música não se frui apenas com a audição. Nem por isto, suponho, preciso proclamar que somente a virtualidade está correta. Portanto, todos temos razão. Precisamos, sim, aproveitar o que a tecnologia nos oferece, principalmente por questões de economia. Ou entender os que só buscam mídias virtuais, tanto quanto compreender os datados fetiches.

  5. “Isso faz sentido em um mundo onde não há um acesso tão fácil a essas gravações, e elas se tornam bens escassos, mas, onde eles não são mais escassos, não há motivo em falar tal tipo de coisa.”

    Não entendi esse raciocínio, não vejo relação clara entre a antiga inacessibilidade das gravações “definitivas” e sua fama. Eu diria que “isso” — ou seja, a noção de interpretação “definitiva” — fazia sentido era quando havia menos gravações excelentes de peças importantes do repertório que servissem de comparativos e opções. Ou seja: é indiferente a acessibilidade das gravações “definitivas”, mas importante a acessibilidade das gravações concorrentes.

  6. Realmente, um não decorre necessariamente do outro. Contudo, apenas em um mundo escasso há esse necessidade de eleger uma gravação acima das outras, dado que, na escolha entre uma série de gravações para comprar, era preciso gastar seu dinheiro da melhor maneira possível. Por isso, eu acho que, sim, um mundo escasso fomenta essa cultura de eleger uma gravação “essencial”. Não imagino que nos anos 80 ou 90 havia poucas gravações de obras importantes (na verdade, elas são quase as mesmas de hoje, não tenho dados certos, mas acho que o número de gravações diminuiu sensivelmente nos últimos anos).

  7. Quanto ao número das boas gravações antigamente, é possível, ou provável, que eu tenha dito bobagem — o hábito é velho e arraigado. De toda maneira, concordas que a atual acessibilidade das boas gravações EM GERAL, e não especialmente das “definitivas”, é que tenha feito a diferença. Para mim está bom.

  8. Concordo com Cleverson sobre o empobrecimento sonoro dos compactos virtuais; Eu sou um careta que ainda comete a aberração de “viajar” em casa ao lado de uma garrafa de vinho, mirra, imaginação ,caixas acústicas e discos sem poeira.
    Concordo com Glhrm sobre interpretações definitivas e (in)acessibilidade.
    Concordo com Bruno sobre a valorização do artigo escasso. Isto,a escassez, é uma lei da economia. Hoje são escassos os filmes europeus, a ponto que , quase sempre, os americanos infelizmente se tornam definitivos. Nosso paladar tem muito a ver com semântica ,escassez e acesso. Penso que a tônica de Bruno é essa imensa transformação de hábitos e fontes.
    Nos últimos dez anos me lambuzei no Amazon,a dólar baixo. Sim, obsoletas bolachas.
    Meus ancestrais eram cultos e musicais para o contexto gaúcho-provinciano. Com o advento da TV, os elepês e as rádios argentinas passaram a segundo e terceiro plano. A TV tornou-se uma mídia muito imediata e (des)agregadora da família. O Rádio, sem imagem, era mais flexível , na verdade, para a gente ouvir enquanto cozinhava. Mas, fora das capitais centrais ,não havia rádios eruditas, muito menos filarmônicas que tocassem algo melhor que Suppé. A TV surgiu como a maravilha aúdio-video, para logo se banalizar na programação demasiado democrática.
    Concordo também com Heber sobre, apesar da acessibilidade da erudição, a galera de Pindorama só desejar Funk, por ser gregário: É o nivelar por baixo!
    Concordo com aqueles que só podem ouvir música no metrô, entre Vergueiro e Jabaquara, portanto dispensam discos.
    Ainda bem que, de algum modo, se ouve música no Brasil popular, antes do Armaggedon e antes que a música culta pague CPMF.

  9. Adeus, mestre Nikolaus, e muito obrigado por tudo que nos ensinou, e pelas alegrias e descobertas que tivemos com suas interpretacöes.

  10. Falo de Recife. Temos aqui a mais antiga orquestra sinfônica do Brasil perecendo a anos pela falta de sensibilidade dos entes públicos que precarizam a cultura. Aqui a fonte de usufruir da música é mesmo a gravação e raramente um concerto ou outro. Nos últimos três anos resolvi experimentar algo que simplesmente mudou meu modus operandi na escuta musical: comparar a música comprimida dos mp3 com o generoso som analógicos dos vinis. Desde a adolescência (atualmente tenho 31 anos) tenho comigo alguns cd’s (Bach, Stravinsky, Villa Lobos ou qualquer outra coisa barata que eu conseguisse comprar do selo Naxos com meu orçamento nulo de estudante). Atualmente tenho a oportunidade de importar pelo Ebay ou em alguns achados do Mercado Livre ou sebos locais, verdadeiras pérolas da época de ouro da gravação de música clássica – Selo London, Decca ou EMI prensados na Inglaterra entre a década de 60 e 70, quando não havia o risco de reduzirem a qualidade do som com maquinário digital. Longe do colecionismo, aprecio cada gravação e aproveito que os títulos de música clássica ainda não são tão caros quanto, por exemplo, o jazz, onde a relação da baixa oferta e procura por um público com dinheiro no bolso encarece a bolacha. É incomparável escutar um vinil bem gravado, obra da melhor engenharia de som da época, com uma boa agulha (isso faz muita diferença na escuta analógica), percebendo todas as nuances e texturas da música, contra a pobreza da escuta de um mp3 comprimido para economizar bits ou via streaming onde se perde boas partes dos sons mais graves também devido à compressão. Ainda escuto mp3 dando preferências aos arquivos de 320 Kbps, não perco a oportunidade de conhecer obras ao alcance de um click, aproveito as facilidades que temos. Mas superando todo esse debate, a reflexão primordial já foi incitada por Glenn Gould: a apreciação no conforto de casa, traz algum prejuízo ao intento da obra? Particularmente creio que não e quando escuto obras barrocas do século XVII, a imaginação faz o favor de suprir a ausência do campo e da dança provocando uma nova satisfação na apreciação.

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