Desmontando o Quodlibet (Variações Goldberg)

Toby Edward Rosenthal: Johann Sebastian Bach im Kreise seiner Familie (1870)

Reza a lenda (ou melhor, Forkel, o primeiro biografista do velhinho) que, quando a família Bach recebia visitas, volta e meia eles faziam uma espécie de brincadeira chamada Quodlibet, que em latim quer dizer “como você quiser” ou “do jeito que você queira”. Aliás, essa brincadeira também é conhecida como fricassée na França, misticanza na Itália e ensalada na Espanha.

Veja só o que a falta de televisão faz: primeiro, um deles começava cantando um dos corais luteranos que todo mundo conhecia e cantava no culto aos domingos. Usando o coro como base, ao mesmo tempo em que ele se desenrolava, cada um entrava cantando canções populares à época, coisa que hoje por exemplo seria Atirei o Pau no Gato, Ciranda Cirandinha ou mesmo o Trololó. A dificuldade estava em harmonizar tudo aquilo em real time, de modo que saísse algo audível e prazeroso, e com certeza a escolha desta ou daquela melodia provocava risadas incontroláveis, ainda mais se as letras das músicas fizessem algum sentido, juntas…

Acredito que todos aqui conhecem as Variações Goldberg. São um conjunto de 30 variações sobre um mesmo baixo ou base harmônica e em diversos formatos: danças, formas barrocas, exercícios virtuosísticos e canons. Pra fechar a obra, seria natural esperar uma variação grande, monumental, até mesmo uma fuga, enfim um gran finale. Mas o velho Bach nos surpreende e nos presenteia com uma minúscula jóia de apenas 16 compassos, um Quodlibet.

Goldberg Variations – Quodlibet (Ekaterina Dershavina):

É óbvio que ele queria fazer uma piada, mas os (quase) 270 anos que nos separam nos impedem de compreendê-la facilmente.

Mas, o que há dentro dela?

São apenas 16 compassos que podem ser tocados até em 30 segundos. Dentro dela, em estilo contrapontísco, existem 3 (ou até mais) melodias. A primeira é fácil reconhecer, é o tema (baixo) das Variações Goldberg, presente em todas as variações.

Quodlibet – tema das Variações Goldberg:

La Bergamasca

Das melodias populares que Bach usou, a mais famosa com certeza é uma dança originária da cidade de Bérgamo, Itália, conhecida como Bergamasca. A letra da canção é de uma bobagem só… Muitos já tentaram estabelecer alguma relação entre ela e as Variações Goldberg, mas a princípio não faz sentido algum:

Kraut und Rüben haben mich vertrieben, hätt mein’ Mutter Fleisch gekocht, wär ich länger blieben

Em bom português:

Repolhos e nabos me levaram para longe; se minha mãe tivesse cozinhado carne, eu teria ficado mais tempo.

Vários compositores já haviam escrito fantasias e caprichos em cima dela, entre eles Buxtehude e Frescobaldi. O vídeo abaixo é das variações compostas por Marco Uccellini.

Até mesmo Respighi, já no início do século XX, usou a Bergamasca em sua Suíte nº 2 das Árias e Danças Antigas. Mas de onde Bach conhecia a melodia? Ora, sabe-se que ele nutria certa paixão pelos compositores italianos,  sua biblioteca vivia forrada de manuscritos e publicações de lá. Entre elas, um exemplar da Fiori Musicali de Frescobaldi, que contém as variações sobre a melodia, bastante difíceis por sinal. Frescobaldi inclusive escreveu no título: “quem tocar esta Bergamasca não terá aprendido pouco”.  Seria o quodlibet uma homenagem do alemão ao italiano?

Quodlibet – La Bergamasca:

Curiosamente, numa obra cheia de canons, todas as aparições da Bergamasca também aparecem em forma de canons, com direito a um stretto no início da segunda parte.

A Saideira

A canção que abre o quodlibet é um enigma parcialmente resolvido. Sabe-se que sua origem está numa canção popular alemã com a seguinte letra:

Ich bin so lang nicht bei dir g’west, ruck her, ruck her, ruck her

Ou, em português:

Eu estive tanto tempo longe de você, volte aqui, volte aqui, volte aqui

Seria talvez uma referência à ária, que abriu as Variações Goldberg e que retornará após o quodlibet? Talvez… Mas esta canção também é uma Kehraus, a última dança que se tocava num baile (hoje diríamos “a saideira”). É Bach nos dizendo “a festa acabou, as variações acabaram”.

Quodlibet – Ich bin so lang nicht bei dir g’west:

O problema é que não há outros registros dessa canção, além do quodlibet e de citações na Cantata dos Camponeses BWV.212. Aliás, a cantata inteira parece compartilhar da mesma atmosfera “popular” do quodlibet, pois a cada esquina notamos uma frase ou outra das canções. O trecho abaixo é do final do primeiro recitativo:

Cantata BWV.212 – Ich bin so lang nicht bei dir gewesen?:

Muitos já tentaram reconstruir a canção, mas o problema é que não se sabe muito como ela continua a partir da 10ª nota. O áudio abaixo é do grupo Café Zimmermann, numa das tentativas de reconstrução – e ao melhor estilo Kehraus!

Ich bin solang (Café Zimmermann – Kehraus improvisé):

E tem mais ainda?

Provavelmente sim, pois uma análise rápida da partitura nos mostra outros trechos que, às vezes, se parecem com o Ich bin so lang, às vezes não se parecem com nada.

Quodlibet – canções desconhecidas:

Como já dizia o bom velhinho: quaerendo invenietis (procure que você encontrará)!

7 Respostas

  1. Leonardo T. Oliveira
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    Quer dizer, em um quodlibet na casa da família Bach, primeiro alguém começava cantando um coro luterano, depois os outros iam entrando na cantoria, um por um, experimentando canções populares da época, pra ver o que saía, certo? E daí vem a dificuldade em se limitar o quodlibet das Variações Goldberg: é certo que o baixo do tema da obra – usado na mesma função do tal coro luterano – está ali desde o começo. Também a bergamasca é fácil de reconhecer desde que é citada, e continua sendo trabalhada em forma de cânone por toda a variação. Agora, o Ich bin so lang está mais difícil de reconhecer, e talvez tenham ainda outras citações no meio desse quodlibet. É isso? Gostei bastante dos áudios que destacam esses temas. :)

    Abraços!

  2. PQP Bach
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    PQP Bach e a pessoa que leva seu apelido na vida civil têm preenchido alguns de seus largos espaços de ignorância em seus passeios pelo Euterpe.

    Obrigado.

  3. Amancio Cueto Jr.
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    PQP, é uma honra recebê-lo por aqui! :-)

    Leonardo, quase isso! Vc resumiu bem o texto, mas quanto ao “Ich bin so lang”, suas aparições no quodlibet são bem fáceis de serem identificadas. O problema está em localizar (ou reconstruir) a canção original, visto que ninguém sabe como ela continua. Talvez a resposta esteja até mesmo dentro do quodlibet, mas, quem é que vai ter certeza…

  4. Bruno Gripp
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    Amancio,
    Questâo técnica: como você conseguiu fazer esses áudios. Foi no sibelius (ou finale) e mandou aumentar o volume da linha que você queria?

  5. Amancio Cueto Jr.
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    Também dá certo!

    Eu tenho o midi de todas as Variações Goldberg aqui (há anos eu me divirto separando as vozes nos canais esquerdo e direito do fone de ouvido). Então cortei o quodlibet e mandei aumentar o volume dos trechos que eu queria (eu usei o Digital Orchestrator Pro, mas poderia ter usado qualquer programa de edição de midi ou partitura). Aí converti tudo pra MP3 usando um soundfont decente(*) e publiquei.

    (*) Já tive vários problemas em mandar midis pras pessoas executarem, e quando chega lá o computador transforma num som horrível de doer. Agora já aprendi a lição, só mando MP3 que eu confio! :-)

  6. Leonardo T. Oliveira
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    Agora vocês entendem o porquê daquela frase final na página de Autores.

  7. Gabriel Galvão
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    Excelente! Não imaginava que havia tanto conteúdo dentro do final das Variações Goldberg! Como PQP falou, é a(o?) Euterpe pavimentando espaços de ignorância com informação da maior qualidade.

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