Então você quer saber o que é uma fuga…
Ainda hoje se discute se fuga é uma forma (como a forma-sonata e o tema com variações), ou uma maneira de escrever música. Por que a discussão? Ora, pois as fugas não tem um “modelo” em comum: não existe uma fuga igual a outra em termos de estrutura. Assim… como explicar uma fuga, se cada uma é diferente da outra?
Então você quer entender uma fuga…
Em 1963, o famoso pianista canadense Glenn Gould passou pelo mesmo problema. Naquele ano, a televisão canadense CBC produziu uma série de programas sobre fugas, e no último programa, convidaram o pianista para falar sobre o assunto. Como Gould já era considerado um grande expert na interpretação de obras de Bach (o “mestre das fugas”), seria de se esperar que ele tocasse alguma coisa… mas ao invés disso, ele mostrou uma obra que ele mesmo havia composto: So You Want to Write a Fugue, “Então você quer escrever uma fuga”, para 4 vozes e piano ou quarteto de cordas. Durante a obra, os cantores explicam o processo de escrever uma fuga, ou seja, é uma música auto-explicativa… para quem entende de fugas e, claro, de inglês. Se um destes temas é seu fraco, continue lendo logo abaixo.
Então você quer conhecer o sujeito…
Toda fuga é baseada num tema principal chamado de sujeito. No caso de So You Want to Write a Fugue, o sujeito é esse aqui, ó:
Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - Sujeito (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)]: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.
So you want to write a fugue,
Então você quer escrever uma fuga,
You’ve got the urge to write a fugue,
Você sentiu o impulso de escrever uma fuga,
You’ve got the nerve to write a fugue,
Você está com coragem de escrever uma fuga,
So go ahead [and write a fugue that we can sing].
Então vá em frente [e escreva uma fuga para nós podermos cantar].
A apresentação do sujeito sempre acontece no início da fuga, na seção de Exposição. Esta seção é a única parte “obrigatória”, presente em 100% das fugas, e sempre começa com uma voz desacompanhada cantando o sujeito da fuga. Uma vez o sujeito exposto por completo, as outras vozes começam a entrar em sequência, sempre cantando o sujeito, e sempre esperando a voz anterior concluir o tema antes de entrar. No caso de So You Want to Write a Fugue, a ordem de entrada das vozes é: baixo, tenor, contralto e soprano; ouça:
Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - 01. Exposição (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.
Essa impressão de que as vozes estão fugindo umas às outras (em latim, fugere) ou caçando-se (fugare) é que deu nome ao gênero. No século XVIII, outros nomes surgiram para designar a mesma coisa: ricercare, canzona, capriccio, fantasia, contrapunctum e outros.
Espere aí! A voz que entra depois não parece cantar a mesma coisa que a primeira…
Sim, as vozes que entram depois tem uma certa liberdade, não precisam cantar exatamente a mesma coisa que a primeira. Caso contrário, se as vozes cantassem exatamente a mesma coisa, a obra seria chamada de canon, mas isto já é assunto para outro post.
Essa versão levemente modificada do sujeito tem um nome, é a Resposta. Ela é modificada porque vem em outra tonalidade que não a original; veja se você consegue perceber:
Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - Resposta (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.
O sujeito vem na tônica, e a resposta (geralmente) na dominante, mas não é uma simples mudança de tom: ela foi alterada para caber na dominante. Chamamos a isso de resposta tonal, quando o sujeito é alterado para caber na dominante; se fosse uma simples transposição, seria uma resposta real. Se é difícil entender, o mais fácil é ouvir: ouça primeiro o sujeito, depois a resposta tonal, depois como seria uma resposta real:
Audio clip [Sujeito - Resposta tonal - Resposta real]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.
Nesta fuga de Glenn Gould, o baixo e a contralto cantam o sujeito, enquanto o tenor e a soprano a resposta; assim temos sujeito – resposta – sujeito – resposta. Não precisa ser sempre assim: a Fuga nº1 em Dó Maior BWV.846 do Livro 1 do Cravo Bem Temperado de J.S.Bach tem como exposição sujeito – resposta (real) – resposta – sujeito:
Audio clip [Bach: O Cravo Bem Temperado Livro 1 - Fuga nº1 em Dó Maior BWV.846 - exposição (Glenn Gould)].
Já a Fuga nº2 em Dó menor BWV.847 do mesmo livro tem como exposição sujeito – resposta (tonal) – sujeito:
Audio clip [Bach: O Cravo Bem Temperado Livro 1 - Fuga nº2 em Dó menor BWV.847 - exposição (Glenn Gould)].
Essas respostas, elas parecem mais compridas do que o sujeito…
Você percebeu? Parabéns! Essa seção “a mais”, no final da primeira resposta, chama-se codetta, e sua função é encerrar a resposta e preparar a entrada da próxima voz. Caso você não tenha percebido do que eu estou falando, ouça apenas a codetta da Fuga em Dó menor BWV.847 de Bach, a que acabamos de ouvir logo acima:
Audio clip [Bach: O Cravo Bem Temperado Livro 1 - Fuga nº2 em Dó menor BWV.847 - codetta (Glenn Gould)].
E a codetta da fuga de Gould, bem didática na apresentação do “encerramento da resposta”:
Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - Codetta (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)].
O que as outras vozes cantam durante a apresentação da resposta/sujeito?
Temos aqui dois casos. Quando as outras vozes cantam o mesmo tema de acompanhamento para todas as entradas da resposta, damos o nome de contra-sujeito. Mas para honrar esse nome, o tema precisa ser usado com frequência no decorrer da fuga.
Há fugas com mais de um contra-sujeito, mas também há fugas sem nenhum, como é o caso de So You Want to Write a Fugue. Neste caso, as outras vozes cantam um contraponto livre, que pode ser qualquer melodia mas na maioria das vezes são fragmentos do sujeito costurados apenas para fazer um acompanhamento.
Enfim, podemos resumir toda a exposição de uma fuga num esqueminha visual prático, veja:
Ok, entendido! Siga em frente!
Como eu havia dito anteriormente, a exposição é a única parte “obrigatória” de uma fuga. Após a exposição, o compositor pode concluir a obra (e aí seria uma “pequena fuga” ou fughetta), ou reapresentar o sujeito usando alguns “artifícios” que falarei mais adiante, ou ficar alternando episódios e entradas.
Episódios são trechos musicais que modulam para outros tons, preparando para próximas entradas do sujeito. Ao contrário da exposição, o compositor aqui é livre para fazer o que quiser. De cara, Gould nos dá três exemplos de episódios:
Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - 02. Episódio (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)].
Go ahead and write a fugue that we can sing.
Siga em frente e escreva uma fuga para nós podermos cantar.
Primeiro, ele explora um fragmento extraído do acompanhamento na exposição (o tal contraponto livre), trabalhando-o em imitações como na exposição, porém sem todas aquelas regras formais. Depois:
Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - 03. Episódio (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)].
Pay no heed to what we’ve told you,
Não preste atenção ao que nós estamos te dizendo,
Give no mind to what we’ve told you.
Não dê atenção ao que nós estamos te dizendo.
O que deveria ser uma entrada do sujeito, fica pelo meio do caminho. Ou seja, num episódio o compositor também pode trabalhar com apresentações incompletas do sujeito. E por fim:
Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - 04. Episódio (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)].
Pay no mind to what we’ve told you,
Não preste atenção ao que nós estamos te dizendo,
Give no heed to what we’ve told you.
Não dê atenção ao que nós estamos te dizendo.
Just forget all that we’ve told you,
Apenas esqueça tudo o que nós estamos te dizendo.
And the theory that you’ve read.
E a teoria que você tem lido.
Aqui Gould trabalha com um tema que não havíamos ouvido antes, algo completamente novo. É um trecho fantasioso, quase como um coral, e que curiosamente contém um erro proposital, uma quinta paralela.
Quintas paralelas acontecem quando duas vozes se movem na mesma direção, saindo de um intervalo de quinta e chegando num outro intervalo de quinta. É um dos erros mais crassos na teoria da harmonia e contraponto. Aliás, um dos motivos de duvidarem da autoria da famosa Toccata e Fuga em Ré menor BWV.565 (sim, aquela mesma!) é que Bach era muito experiente em evitar quintas paralelas, mas a Toccata e Fuga está cheia delas. Aqui em So You Want to Write a Fugue, é apenas um alerta bem humorado que Gould nos dá para o que pode acontecer caso nos esqueçamos da teoria…
Entradas são reapresentações completas do sujeito, porém em outros tons que não a tônica/dominante. Olha uma aqui:
Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - 05. Entrada (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)].
For the only way to write one,
O único jeito para escrever uma,
Is just to plunge right in and write one,
É só mergulhar de cabeça e escrever uma,
So just forget the rules and write one,
Então apenas esqueça as regras e escreva uma,
Have a try, have a try, have a try.
Faça um teste, faça um teste, faça um teste.
Mesmo durante as entradas, o sujeito nunca é reapresentado sem acompanhamento (salvo uma exceção que veremos no próximo post). Não é necessário aparecer em todas as vozes, e as vozes que entram não precisam esperar o sujeito anterior terminar, veja:
Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - 06. Stretto (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)].
Esse tipo de passagem é chamada de Stretto: quando a resposta entra antes do sujeito terminar, causando uma sensação de pressa (as vozes parecem se atropelar). Neste stretto, apenas duas das quatro vozes participam; um Stretto Maestrale é quando todas as vozes entram em stretto. Quer ver um exemplo? A Fuga nº5 em Ré Maior BWV.874 do Livro 2 do Cravo Bem Temperado de Bach é cheia de strettos maravilhosos, mas só o último é um maestrale. Ouça-o logo depois da exposição:
Audio clip [Bach: O Cravo Bem Temperado Livro 2 - Fuga nº5 em Ré Maior BWV.874 - exposição e stretto maestrale (Glenn Gould)].
Não conseguiu ouvir? Então vou apresentar novamente o stretto maestrale mais quatro vezes, destacando uma voz diferente em cada uma das apresentações, ouça:
Audio clip [Desmontando um stretto maestrale].
Continuando com a fuga de Gould, temos mais um stretto a duas vozes:
Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - 07. Episódio (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)].
For the only way to write one,
O único jeito de escrever uma,
Is to plunge right in and write one.
É mergulhar de cabeça e escrever uma.
Just ignore the rules and try,
Apenas ignore as regras e tente,

"John Sebastian"
And the fun of it will get you,
E a diversão dela vai te pegar,
And the joy of it will fetch you,
E a alegria dela vai te buscar,
It’s a pleasure that is bound to satisfy.
É um prazer que é obrigado a satisfazer.
So why don’t you try?
Então por que você não tenta?
You’ll decide that John Sebastian
Você decidirá que “João Sebastião”
Must have been a very personable guy.
Deve ter sido um cara bem apessoado.
Neste segundo stretto, o tenor faz uma melodia de acompanhamento que depois é usada em imitações como numa exposição. Porém não se engane: estamos em mais um episódio, e como a seção aqui é livre, dá pra inventar coisas bem interessantes, tais como…
Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - 08. Brandenburgo (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)].
Uma citação do Concerto de Brandenburgo nº2, homenageando o tal “João Sebastião”! Não reconheceu? Ouça o original:
Audio clip [Bach: Concerto de Brandenburgo nº2 em Fá Maior BWV.1047 - início do 1º mov (I Musici)].
Pra não me alongar demais, vamos deixar para amanhã para falarmos dos vários artifícios que podem ser usados para enriquecer uma fuga: aumentação, diminuição, inversão, retrógrado, fuga dupla… Aguardem!

No meio do contraponto livre, Gould soletra um sinônimo de fuga...
15 comentários
Legal, Amancio; mas “subject”, nesse caso, não se traduz como tema? Subject pode ser assunto, súdito, até sujeito, mas acho que, nesse contexto, é tema.
Também pode ser, Pádua. É que já me acostumei a chamar o tema principal de “sujeito”, desligando a palavra de seu significado original (ou melhor, adicionando mais um significado a ela).
Para escrever estes dois textos (o de hoje e o de amanhã) eu tive de fazer um trabalho sério de pesquisa, e o que eu acabei descobrindo é que mesmo os maiores especialistas e estudiosos no assunto não chegaram num consenso com relação à denominação e fechamento do conceito de vários elementos da fuga. O que um chama de entrada é episódio para outro, a fuga com dois sujeitos de Fulano é fuga dupla para Ciclano, e por aí vai. É, realmente, um assunto bem espinhoso.
Post genial, Amancio! Parabéns!
E “sujeito” de fuga já faz parte da terminologia em português, já virou convenção.
Fala-se, em português, “sujeito” da fuga mesmo. E o texto está incrível. Parabéns!
Fiquei surpreso com o quanto você analisou a obra do Gould em si. Ela realmente contém muitas piadas se a gente ouve bem.
parabéns, esse post está incrível.
é um assunto muito delicado, e realmente pode causar algumas discordâncias entre varias vozes. haha. Glenn e Bach são grandes homens que em vida transmitiram a ligação entre consciencia, ciencia, Arte e Deus. vou compartilhar no Facebook e com os amigos. um abraço!
desculpem a brincadeira, mas vejam esse video!
http://www.youtube.com/watch?v=tgDcC2LOJhQ
Olá Ludwig, Leonardo e Caio, obrigado pelas palavras!
Caio, esse vídeo eu já publiquei num post meu com mais duas outras fugas “diferentes”, veja aqui.
E Leonardo, o post continua amanhã com mais piadas como as de hoje. Acho que Gould era mais personable guy do que o John Sebastian. :-)
você está virando gênio, Amâncio, cada vez o admiro mais.
Tenho uma coleção de uns 20 dvds aqui de Glenn Gould e a disponibilizo para você, caso não tenha. É uma série feita pra TV canadense. Será um prazer enorme.
Abração.Paulo
Ôpa, obrigado Paulo! Gostei muito da oferta, vou reservar um tempo para passar na sua loja e aí vamos conversar! :-)
É bem capaz que, entre os DVDs, tenha exatamente o vídeo da estréia dessa fuga analisada no texto.
Amâncio, muito obrigada por toda sua pesquisa e dedicação para com esse post, valeu muitíssimo =)
Aprendi muitas coisas e esclareci duvidas!
Foi procurando pela definição “Fughetta” que encontrei o site, e como disse no twitter, fiquei muito contente mesmo!
Pois um site desse “naipe”, com seriedade, materiais interessantes e ainda por cima disponível à todos, é muito difícil de se encontrar.
Ósculos!
Adorei o blog!!
Parabéns!!!
Muito esclarecedor, Amâncio. Faz três meses que comecei a estudar violoncelo e meu professor comentava sobre este tema. Muito obrigada!
Fantástico, texto bastante esclarecedor…
Excelente blog!
Grato.
Caro Sr. Amâncio,
Fiquei muito feliz em encontrar seu blog, pois estou preparando uma semana de homenagem a esse incomparável compositor na escola onde leciono artes. Embora tenha estudado a arte da fuga nas disciplinas de contraponto, seu método de exposição me ajudará bastante, pois pretendo intervir em algumas audições para comentar sobre as formas de composição adotadas por Bach. Sua apresentação está excelente, mesmo para um público leigo. Adicionei aos favoritos!