Tema com Variações

A natureza também gosta de variar…

Bruno explicou a forma-sonata num post recente, pois eu continuo a missão de explicar o básico tratando hoje de uma das formas de variação que é o Tema com Variações.

Mas o que é uma variação?

Toda vez que um compositor pega um determinado tema e submete-o a uma transformação de um certo tipo, ele cria uma variação – ou seja, o resultado é algo diferente do original, mas que continua lembrando o original. Difícil de entender? Pense na natureza, quantos tipos diferentes de borboletas existem? E mesmo com toda essa variedade, nenhuma deixa de ser reconhecida como borboleta.

Pois é, assim é a variação. Mas… o que é uma transformação em música? Como um tema pode ser modificado e ainda lembrar o original?

A primeira coisa que dá pra fazer é modificar a melodia, acrescentando ou retirando sinuosidades e ornamentações, simplificando ou complicando o contorno melódico. A isso damos o nome técnico de variação melódica.

Também podemos mudar a harmonia, o acompanhamento do tema, por exemplo transformando um tema alegre num tema triste. Estas são as variações harmônicas.

Outra modificação possível pode ser feita no ritmo do tema, por exemplo transformando uma valsa numa marcha, ou uma melodia rápida num Adagio sonhador. Estamos falando aqui das variações rítmicas.

E por último existem as variações contrapontísticas, aquelas que usam o tema em formas como por exemplo a fuga e a fughetta. Claro, um compositor também pode misturar as técnicas citadas acima e criar uma variação mista – só depende da imaginação do criador.

E o tema, tem algum segredo?

Bem, geralmente é um tema simples, mas isso não é regra. Pode ser um tema original ou emprestado de um outro autor. Mas tenha certeza que ele será repetido algumas vezes, para reforçá-lo na memória do ouvinte.

Temas com variações podem aparecer como obras independentes (por exemplo, as Variações Diabelli de Beethoven, ou a Rapsódia sobre um Tema de Paganini, de Rachmaninov), porém o mais comum é aparecer como um movimento de obras maiores como sinfonias, sonatas e quartetos. Um exemplo famoso é o quarto movimento do Quinteto em Lá Maior D.667 de Schubert, uma série de variações sobre o tema da canção A truta, do próprio compositor.

Chega de bla bla bla, pode me mostrar um exemplo?

Claro! Escolhi para isso o primeiro movimento da Sonata para piano em Lá Maior K.331, de Mozart.

Mozart – Sonata K.331 em Lá Maior 1º mov – Tema (Maria João Pires):

Um tema com variações “clássico” sempre apresenta duas partes, e cada parte sempre é apresentada duas vezes. Por exemplo, se chamarmos a primeira parte de A e a segunda parte de B, a estrutura formal do tema seria AABB. Mozart não foge desse esquema, e ainda faz mais: ao final da parte B, ele retoma o tema apresentado na parte A. É como se ele quisesse dizer: memorize! Quanto mais você conseguir memorizar o tema, mais você vai entender esta peça. Mozart dá mais uma colher de chá e segue a mesma estrutura formal em todas as seis variações seguintes, então, não tem como se perder.

Caso você não esteja habituado a memorizar temas, não se preocupe: nós de Euterpe podemos dar uma mãozinha pra você. Chamamos então aqui a este palco virtual o nosso amigo: a Trompa Berrante. Ele vai tocar o tema original enquanto a pianista Maria João Pires executa as variações. Mas, atenção, ele só irá intervir nas repetições de cada parte (a segunda vez de A, a segunda vez de B), portanto, se esforce pra identificar o tema nas primeiras vezes e tente usar a Trompa Berrante apenas como “gabarito”.

Primeira Variação

Mozart – Sonata K.331 em Lá Maior 1º mov – 1ª variação (Maria João Pires e a Trompa Berrante):

A primeira variação é do tipo melódica: Mozart pega o tema e acrescenta sinuosidades, notas extras que dão um novo contorno ao tema e o enriquece porém sem alterá-lo. Como eu havia dito anteriormente, as duas partes A e B ainda estão lá, e ainda são repetidas como na primeira vez: AABB.

Segunda Variação

Mozart – Sonata K.331 em Lá Maior 1º mov – 2ª variação (Maria João Pires e a Trompa Berrante):

Na segunda variação Mozart dá uma “agitada” na música, quebrando ou o acompanhamento ou a melodia em pedaços pequenos de três notas. É um tipo de variação rítmica, mas com um certo tempero da variação melódica também.

(E aí, a Trompa Berrante está ajudando? Só não se acostume com a mordomia, pois ela não existe na vida real).

Tigres de BengalaTerceira Variação

Mozart – Sonata K.331 em Lá Maior 1º mov – 3ª variação (Maria João Pires e a Trompa Berrante):

Uma variação harmônica muito comum é a mudança da tonalidade do tema, de modo maior para modo menor ou vice-versa. Na prática, percebemos que o tema que era alegre fica triste ou o tema que era triste de repente fica alegre. É o que Mozart faz nessa variação, mudando o tom de Lá Maior para Lá menor. Em linhas gerais o tema ainda está lá, mas… que diferença! Repare que a cada nova variação o resultado parece se distanciar cada vez mais do original, e é por isso que a memorização do tema inicial é tão importante para entender esse tipo de obra.

Para evitar cacofonias e dissonâncias desagradáveis com o piano, aqui a Trompa Berrante tomou a liberdade de modular o tema original para Lá menor, por isso você vai sentir uma ligeira diferença no tema.

Quarta Variação

Mozart – Sonata K.331 em Lá Maior 1º mov – 4ª variação (Maria João Pires e a Trompa Berrante):

Mozart pega agora um rolo de macarrão e passa em cima da primeira parte do tema – é novamente uma variação do tipo melódica. As arestas são aparadas e melodia fica mais simples, pois as notas passam a soar mais “iguais”. Se você ainda tem alguma dúvida de que esta é uma variação do tema original, nas repetições a Trompa Berrante vai te ajudar, não se preocupe.

Quinta Variação

Mozart – Sonata K.331 em Lá Maior 1º mov – 5ª variação (Maria João Pires e a Trompa Berrante):

Esta é a mais complexa – e talvez a mais bela – das seis variações que compõem o primeiro movimento dessa sonata. O tema, que foi apresentado num andamento moderado, Andante grazioso, agora sofre uma grande transformação rítmica e vira um Adagio, um andamento lento. Com muito mais tempo disponível para trabalhar o tema, Mozart adiciona tantas e tantas notas que o torna irreconhecível para ouvidos pouco habituados (e para os bem habituados também!). Porém o esqueleto musical ainda está lá! Você pode comprovar com a nossa Trompa Berrante, fiel ao tema original mesmo em velocidade super-lenta.

Sexta Variação

Mozart – Sonata K.331 em Lá Maior 1º mov – 6ª variação (Maria João Pires e a Trompa Berrante):

Na sexta e última variação o tema passa por mais uma transformação rítmica e vira um Allegro em compasso 4/4. E é neste andamento rápido que chegamos à seção final do primeiro movimento, que fecha esta parte da obra de forma brilhante e efusiva.

E com a última variação, damos um “adeus e muito obrigado” à Trompa Berrante, um recurso que empregamos aqui apenas de brincadeira e para efeito didático. Na prática, porém, você precisará estar bem atento ao ouvir o tema principal e exercitar sua memória para acompanhar as variações. Quer ouvir todas as variações, sem trompas berrantes e sem pausas? Aqui está:

Mozart – Sonata K.331 em Lá Maior 1º mov (Maria João Pires):

Tarefa de casa: escute o quarto movimento do Quinteto para Clarinete e Cordas de Mozart K.581. Também é um tema com 6 variações, inclusive a sequência delas é idêntica a da sonata analisada aí em cima. Boa sorte!

20 Respostas

  1. Bruno Gripp
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    Amancio,
    Que texto GENIAL. Muito bme explicado, ótimo exemplo.
    Mas agora, que negócio é esse de TROMPA BERRANTE? Como você fez isso? Teclado? Em cima da gravação da Maria João?

  2. Leonardo T. Oliveira
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    Post definitivo sobre o tema e variações, e bem divertido de ler. Parabéns ao mestre Amancio!

  3. Amancio Cueto Jr.
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    Oi Bruno! O que eu fiz foi: primeiro, criei o tema em Midi mesmo, repetindo-o em velocidades parecidas com a da pianista. Depois exportei para .wav e juntei com o .mp3 da pianista, usando um programa de edição de áudio similar ao que usam com a Netrebko e a Osesp. :-P (vc sabe, nesses programas é fácil vc consertar desafinações e dessincronismos).

    Acho que da próxima vez eu vou fazer via teclado, que decerto dará menos trabalho…

  4. Danielle Lopes
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    Excelente texto! Bem didático e objetivo, além de divertido. Aprendi muito com ele. Parabéns!

  5. Thiago Alves
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    Textos bem escritos!!! Bravo!!! Gostaria q vcs colocassem posts abordando outros temas que fazem parte da teoria musical. Ficaria grato por esse pedido.

  6. Amancio Cueto Jr.
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    Oi Thiago! Deixa com a gente, porque Euterpe está só começando! (estamos no ar há apenas 5 meses).

    Tenho várias idéias para futuros posts, incluindo sobre Teoria Musical, mas se vc ou outro leitor quiser sugerir um tema específico, fiquem à vontade!

  7. […] Dureza de ouvido? Problemas para distinguir uma variação harmónica de uma melódica? Ignorância musical persistente e crónica [I raise both hands]? Chame a Tromba Berrante! […]

  8. jacqueline luporini
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    Sou prof. de piano e adorei o blog.
    Parabéns!

  9. Emerson Coelho
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    Essa “trompa berrante” me fez dar boas gargalhadas, e o melhor, aprender a lição direitinho!

  10. Nilson Vieira
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    Estou iniciando no ramo da composição e estou me inscrevendo para um concurso onde se pede uma obra justamente com essa forma, e essas explicações realmente tiraram as minhas dúvidas, obrigado pelo apoio e se for classificado voltarei aqui para agradecer.

  11. Dougllas
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    Ótimo trabalho, parabéns e obrigado!

  12. Moisés
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    Olá!

    Dizem que tem uma regra para a variação da melodia, eu gostaria de saber se realmente tem e qual é.

    Grato!

  13. Amancio Cueto Jr.
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    Olá Moisés, acho que não tem não. Pela própria natureza da música clássica, se existisse mesmo uma regra, algum compositor já a teria violado para mostrar que pode haver vida inteligente (e bela!) além da regra.

  14. Leonardo T. Oliveira
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    Acho que alguns manuais expõem teoria musical dividindo-a em certos “princípios” e “regras”, mas, de fato, não se pode sair dizendo que elas existem para além das convenções do teórico.

  15. Rafael
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    Parabéns pelo trabalho, fantástico e muito didático!!!

  16. Monique
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    Olá, Boa noite!

    Gostei bastante do texto, muita coisa esta bem claro e as analogias com a natureza sempre ajudam. :)
    Mas eu tenho uma dúvida; geralmente sempre tem alguma coisa que a gente não deve fazer.
    Quais são as coisas que não devo fazer ao compor uma variação?
    Eu posso mudar a formula de compasso?

    Obrigada e parabéns

  17. Amancio Cueto Jr.
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    Olá Monique!

    Infelizmente não tenho tanto conhecimento assim para poder te dizer o que não se deve fazer numa variação, talvez um professor de composição pudesse te orientar melhor. Mas o que eu posso te dizer é que restrições assim, caso existam, são um prato cheio para compositores mais audaciosos. A história da música está cheia de exemplos de obras que desafiaram as regras impostas pela geração anterior.

  18. F. S. Monteiro
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    Oi Monique, legal que vc formula as perguntas que muita gente gostaria de fazer.

    “Mas eu tenho uma dúvida; geralmente sempre tem alguma coisa que a gente não deve fazer.”
    Em música em particular – e na arte em geral – há só uma coisa que näo se deve fazer: aborrecer.

    “Quais são as coisas que não devo fazer ao compor uma variação?”
    Veja acima a resposta. E se vc quer ver mais exemplos magistrais de variacöes, veja o excelente post do Leonardo sobre as Variacöes Diabelli para piano de Beethoven:
    http://euterpe.blog.br/historia-da-musica/240-anos-de-beethoven-10-momentos-bizarros-parte-i

    Ou ainda escute a Chacona da segunda partita para violino e a Passacalha para órgäo de J.S. Bach, o Nocturnal para violäo de Benjamin Britten ou as Variacöes-Enigma para orquestra de Edward Elgar. Ao escutar, vc vai perceber a variedade de mudancas, mutacöes, enfim: variacöes que existem, quando o compositor domina seu metier e solta seus demônios.

    “Eu posso mudar a formula de compasso?”
    Claro que pode, pode até fazer variacöes sem compasso. Seja feliz descobrindo e experimentando.

  19. Li!
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    excelente ideia a da trompa berrante, ajudou demais! valeu!

  20. Ellen
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    Sou da Literatura, ouvido zero para música instrumental (a paixão está começando, bem tardiamente rsrs). Mas me aventurei a investigar no doutorado a alegada “arquitetura musical” de um livro de poemas chamado Divina Quimera (1916), do gaúcho e simbolista Eduardo Guimaraens (1892-1928)
    Uma das partes do livro, a IV, intitula-se Sonata sentimental, e o texto do Bruno Gripp sobre a forma-sonata me ajudou imenso! Vou utilizá-lo na explicação sobre as três partes, com as devidas referências (e, se pudesse, muitos elogios! rsrs), tudo bem?

    Uma das hipóteses é que o livro como um todo se organiza como tema com variações, mas ainda preciso testar melhor este caminho. De qualquer forma, a Trompa Berrante e a explicação do Amâncio Cueto Jr. foram simplesmente sensacionais!

    Parabéns pelo blog! Vocês contribuem para aumentar o número de amantes desta arte. Vida longa e sonora ao Euterpe!

    PS. Adorei a resposta do F. S. Monteiro: a única “proibição” em arte é aborrecer!

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