Dvořák no Novo Mundo – 1. O início da jornada

Nova York, 1893. Da esquerda para a direita: Anna (esposa), Antonín II (filho), Sadie Siebert (amiga), Josef Jan Jovařík (secretário), mãe de Sadie (amiga), Otilie (filha) e o compositor Antonín Dvořak
Nova York, 1893. Da esquerda para a direita: Anna (esposa), Antonín II (filho), Sadie Siebert (amiga), Josef Jan Jovařík (secretário), mãe de Sadie (amiga), Otilie (filha) e o compositor Antonín Dvořak

Quando os compositores viajavam para outros países, muitas vezes a experiência de vivenciar uma cultura diferente rendia uma boa obra. Mas a viagem do tcheco Antonín Dvořák (1841-1904) para os Estados Unidos no final do século XIX resultou muito mais do que em obras-primas: ela alterou o próprio curso da história da música. Nesta série de posts vamos reviver a jornada do compositor, e entender a importância dela para a história da música clássica norte-americana.

O desafio de cruzar o Atlântico

Durante o século XIX a humanidade sentiu as distâncias marítimas se encurtarem: se nas primeiras décadas os barcos à vela levavam um ou dois meses atravessando o Atlântico Norte, no final do século os modernos navios a vapor levavam passageiros da Inglaterra para os Estados Unidos em pouco menos de uma semana. O desenvolvimento tecnológico também trouxe mais conforto para os passageiros, como água corrente, luz elétrica… e cabines de primeira classe. E com a expansão econômica dos países da América estimulando a formação de um público consumidor de espetáculos, em pouco tempo as companhias de balé e orquestras européias começaram a incluir o Novo Mundo em suas turnês internacionais.

Convites para artistas e compositores também começaram a se multiplicar, e aos poucos os europeus foram vencendo o medo de atravessar o oceano e encarar uma civilização diferente. Em 1891 o regente e compositor Piotr Tchaikovsky veio a Nova York para a inauguração do Carnegie Hall e passou dois meses regendo concertos em várias cidades dos Estados Unidos. Em 1903 o tenor Enrico Caruso assinou um contrato com o Metropolitan Opera de Nova York e passou a vir com frequência à cidade. E em 1908 foi a vez de Gustav Mahler iniciar as viagens transatlânticas ao assumir a regência da mesma casa de ópera.

E Dvořák, como foi parar nos Estados Unidos?

No início da década de 1890, Antonín Dvořák trabalhava como professor de composição no Conservatório de Praga, e já era reconhecido como um compositor de fama internacional. Suas obras frequentemente incluíam ritmos e melodias inpiradas em música folclórica da sua terra natal, a Boêmia, e regiões vizinhas, como a Morávia, Eslováquia e Polônia. Para que vocês tenham uma idéia de como a música dele soava ANTES da sua viagem para os Estados Unidos, ouçam no próximo vídeo a sua Dança Eslava Op.46 nº7, escrita em 1878 e baseada numa dança típica chamada Skočná:

Jeannette Thurber (1850-1946)
Jeannette Thurber (1850-1946)

Lá do outro lado do Atlântico, Jeannette Thurber (1850-1946), uma rica mecenas de Nova York, havia fundado o Conservatório Nacional de Música da América em 1884 e estava procurando, para o cargo de diretor, um nome famoso nos círculos musicais da Europa para alavancar o prestígio de sua escola. Thurber escolheu Dvořák, e em junho de 1891 ela enviou para ele um telegrama oferecendo um salário de 15 mil dólares por ano e 4 meses de férias para trabalhar 3 horas por dia, 6 dias por semana. A proposta era bem tentadora – por exemplo, o salário era 25 vezes mais alto do que o Conservatório de Praga oferecia e o compositor teria tempo de sobra para se dedicar às suas obras – mas Dvořák ainda estava em dúvida. Por fim sua família o convenceu; veja mais detalhes desta história neste link aqui (em inglês, mas é muito interessante!).

Dois meses antes da viagem, Dvořák conheceu Josef Jan Kovařík (1870-1951), um jovem americano filho de imigrantes tchecos que havia recém-concluído seus estudos de violino no Conservatório de Praga. Kovařík estava voltando para seu país, e assim que soube que o novo amigo também estava indo para os Estados Unidos, decidiu adiar sua viagem para o acompanhar. Devido ao seu conhecimento de ambas as culturas, Kovařík foi contratado pelo compositor como guia e “secretário informal”, e permaneceu junto com a família Dvořák durante todos os anos em que eles estiveram em Nova York.

Enfim, a viagem aconteceu de 15 a 27 de setembro de 1892. O compositor trouxe consigo a esposa Anna e apenas dois dos seus seis filhos: Antonín II com 9 anos de idade e Otilie, na época com 14 anos.

Os primeiros meses em Nova York

Dvořák foi recebido como celebridade, e assumiu seu posto no Conservatório em 1º de outubro de 1892. Curioso como era, em pouco tempo ele absorveu a cultura e os costumes locais… mas algo passou a incomodá-lo. Ao tentar descobrir como era a música clássica norte-americana, ele ouviu obras como esta aqui, ó:

Chadwick: Abertura Melpomene (trecho) (Neeme Järvi – Detroit Symphony Orch.):

O trecho acima é da Abertura Melpomene, escrita por George W. Chadwick em 1887. Não sei o que vocês acharam, mas para mim soa como um Brahms, muito semelhante à música que os europeus escreviam na época. (Leonard Bernstein também pensava a mesma coisa). “Por que os americanos não escrevem música americana?”, devia perguntar-se Dvořák.

Harry T. Burleigh (1866-1949)
Harry T. Burleigh (1866-1949)

O conservatório onde o compositor trabalhava tinha uma política social bastante avançada para a época: mulheres e negros eram aceitos como estudantes, e os melhores alunos recebiam bolsas de estudo como incentivo. Infelizmente este não era o caso de Harry T. Burleigh (1866-1949), barítono e (futuro) compositor: para ajudar nos estudos, ele tinha que limpar as salas e corredores do conservatório. Em momentos mais à vontade, ele trabalhava cantando spirituals, canções negras religiosas; e certo dia aquela cantoria chamou a atenção do diretor Dvořák. A partir de então, com frequência o diretor chamava Burleigh em sua sala e pedia para ele cantar spirituals e canções populares americanas.

Não demorou muito para o tcheco juntar A com B. Num artigo publicado no New York Herald em 21 de maio de 1893, ele afirmou: “Nas melodias dos negros americanos eu descobri tudo o que é necessário para uma grande e nobre escola de música”. Por causa deste e de outros artigos semelhantes ele passou a receber muitas críticas vindas não só dos Estados Unidos mas também da Europa. Kovařík, o “secretário informal”, relata que ele lia e ouvia as críticas em silêncio, e a única coisa que ele dizia era: “Então esses cavalheiros acham que isto é impossível? Bem, nós vamos ver sobre isso!.

Kovařík já sabia do que se tratava: em janeiro daquele ano (1893) a Filarmônica de Nova York havia encomendado ao mestre uma nova sinfonia, obra que ele escreveu entre 10 de janeiro e 24 de maio.

Então Dvořák usou melodias populares nas suas obras americanas?

Bem, com raríssimas exceções, não. Em suas próprias palavras:

“Na verdade eu não usei nenhuma das melodias [nativas americanas]. Eu simplesmente escrevi temas originais que contêm as peculiaridades da música dos índios e, usando estes temas como motivos, eu os desenvolvi com todos os recursos de ritmos modernos, contrapontos e cores orquestrais”.

Música dos índios também? Sim! Ainda no primeiro semestre de 1893, Dvořák teve a oportunidade de assistir ao show Oeste Selvagem (Wild West Show) com o lendário Buffalo Bill. Neste show ele teve o primeiro contato com a música dos índios americanos, mais especificamente da tribo Sioux Oglala.

E que características que ele encontrou na música dos negros e dos índios? Pelo menos duas são as que mais saltam aos olhos – ou melhor, aos ouvidos. O primeiro é o uso da escala pentatônica.

A escala musical tradicional tem sete notas; a escala pentatônica remove duas destas notas, exatamente as que compõem os dois semitons da escala maior, e ficamos com uma escala de cinco notas sem semitons. Compare ambas as escalas ouvindo-as aqui::

Escala tradicional de Dó Maior – Escala pentatônica de Dó Maior:

E então as melodias são escritas usando apenas estas cinco notas da escala. Ouça alguns exemplos aqui:

Escala pentatônica – Oh! Susanna (Stephen Foster) – Quarteto Americano – Quinteto Op.97 – Sonatina Op.100 – Sinfonia do Novo Mundo (1º e 2º movs):

A segunda característica é o uso de sensíveis naturais nas escalas em modo menor, fazendo elas soarem como no modo aeólio. Explicando melhor: quando você escreve uma melodia em tom menor, você eleva a sétima nota em 1 semitom para que ela tenha a mesma característica da sétima nota do modo maior; na música negra americana isso não acontece. Ouça no player abaixo a escala escala menor com a sétima nota alterada (7ª Maior), comparando-a em seguida com a sétima nota ao natural (7ª menor) e o uso que Dvořák faz disso em suas melodias:

Escala menor com 7ª Maior e 7ª menor – Sinfonia do Novo Mundo (4º e 1º movs) – Concerto para Violoncelo – Quarteto Americano:

Estou curioso, quero ouvir um exemplo completo!

Claro, você tem todo o direito!

A Sonatina para violino e piano Op.100 foi escrita entre 19 de novembro e 3 de dezembro de 1893, em Nova York. Sonatina, como o nome diz, é uma “sonata pequena”: Dvořák compôs a obra visando desenvolver as habilidades musicais de seus dois filhos, a Ottillie (que aos 15 anos estava aprendendo piano) e Antonín II (que com 10 anos estudava violino com Kovařík). É por isso que a primeira página da partitura diz: “Dedicada às minhas pequenas crianças”. Aliás, elas mesmas fizeram a estréia privada da obra, tocando-a para o pai.

No próximo post teremos a continuação da jornada: iremos para Spillville, Iowa! Até breve!

Este post pertence à série “Dvořák no Novo Mundo”:
1. O início da jornada
2. Spillville, Iowa
3. A sinfonia e seu legado
4. O retorno à Europa

6 Respostas

  1. Cleverson
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    Primeiro, ótimo que tenham voltado a publicar.

    Esta história mostra que, bem ou mal, não foi só o Brasil e países da América Latina que mantiveram uma arte altamente eurocêntrica durante muito tempo após a independência política das metrópoles… e é interessante saber que um europeu os ajudou a despertar para os elementos nacionais próprios deles.

  2. Heber Fiori
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    Muito bom o artigo, como sempre, parabéns!!!

  3. Max Evangelista
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    Eu, embora lendo guias de ouvintes, não entendo o que seja um trio além de uma formação de 3. O que seria como parte de uma música?
    Sobre o video de Berstein, ouvi que ele falara de Brahms de Wagner, mas eu não entendo o inglês falado. Poderia ao menos parafrasear o que ele considera?

    Obrigado pelo excelente artigo.

  4. Amancio Cueto Jr.
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    Olá Max!

    Vc também está certo: “trio” é uma formação de 3, e também uma música escrita para 3 instrumentos. Nas danças do século XVIII, a parte central da música era tradicionalmente tocada por apenas 3 instrumentos ou 3 partes, e por isso ganhou o nome de Trio. Lembre do movimento final do Brandenburgo nº1 de Bach, que é um Menuetto: o “Trio nº1” é interpretado por dois oboés e um fagote, e o “Trio nº2” é para duas trompas e oboés. No minueto da Sinfonia nº40 de Mozart, uma boa parte da seção central é escrita para flauta, oboé e fagote. No Scherzo da Sinfonia nº9 de Beethoven, a seção central começa com oboé, clarinete e fagote. Há vários outros exemplos, mas o fato é que o nome pegou, e em várias partituras o próprio compositor denomina como “Trio” a seção central das formas A-B-A, mesmo quando a música não é mais escrita para 3 vozes.

    Já o que o Bernstein fala no vídeo pode ser lido aqui (em inglês): http://www.leonardbernstein.com/ypc_script_what_is_american_music.htm . Traduzindo mais ou menos:

    “Naquele tempo os poucos compositores americanos que tínhamos estavam imitando os compositores europeus, como Brahms e Liszt e Wagner e todos aqueles. Nós podemos chamar aquele o “período do jardim de infância” da música americana; nossos compositores então estavam como crianças inocentes e alegres no jardim de infância. Por exemplo, nós tivemos um compositor muito bom chamado George W. Chadwick, que escreveu música profissional, e também com música com sentimentos profundos, mas você quase não pode dizer que ela é diferente da música de Brahms, Wagner ou outros europeus. Como esta abertura dele. Ouçam.”

  5. F. S. Monteiro
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    Grande Amancio, obrigado pela iniciativa de postar sobre a aventura americana do Dvorak, um fantástico compositor ainda desconhecido em parte, principalmente no Brasil. Eu mesmo demorei a descobri-lo, mas agora sou fanzoca. Como näo quero estragar sua festa de mostrar a música que ele compôs nos EUA, mando um link de uma obra bem anterior, uma de minhas favoritas:

    https://www.youtube.com/watch?v=DTAMISjMLS0

    O Andante, pra mim, é filho legítimo do imortal Adagio da Gran Partita K 361 de Mozart. E essa turma que toca näo é das piores. Gravado no palácio Sansouci, em Potsdam. Bom domingo a todos e abs.

  6. Gabriel B. Boeira
    |

    Magnífico, não possuia conhecimento de tal blog! É muito prazeroso encontrá-lo! Quanto ao post, simplesmente esplêndido! Com certeza serei um frequente leitor!

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