Dvořák no Novo Mundo – 2. Spillville, Iowa

Spillville, Iowa (EUA), em 1895
Spillville, Iowa (EUA), em 1895

Para você leitor que acabou de chegar: estamos revivendo aqui em Euterpe a viagem do compositor tcheco Antonín Dvořák aos Estados Unidos. No post anterior nós contamos como e por que ele saiu da República Tcheca com destino à América em 1892; neste post aqui vamos narrar as suas primeiras férias de verão, entre junho e setembro de 1893.

De Vysoká u Příbramě, Boêmia (atual República Tcheca)…

(img) Josef Jan Kovařík, ou "chefe índio", como Dvořák o chamava
Josef Jan Kovařík, ou “chefe índio”, como Dvořák o chamava

Antes de mergulharmos no interior dos Estados Unidos, vamos dar um pulinho no outro lado do Atlântico, lá na República Tcheca. As irmãs da esposa de Dvořák moravam em Vysoká u Příbramě, um lugar calmo e pacífico a 68 km de Praga; quando teve oportunidade, em 1884, o compositor adquiriu uma propriedade no local e lá construiu uma modesta casa de campo para passar as férias de verão com a família. Mas à medida que o mês de maio de 1893 estava chegando, ele foi ficando cada vez mais apreensivo: ele precisava terminar sua nova sinfonia, encomendada pela Filarmônica de Nova York, mas ao mesmo tempo a saudade da sua terra natal e dos filhos que ficaram na Europa apertava cada vez mais, e ele precisava agilizar os preparativos para uma nova viagem transatlântica.

Foi seu secretário, Josef Jan Kovařík, quem trouxe uma solução bastante agradável para o problema na forma de um convite. Kovařík era descendente de imigrantes tchecos, e durante suas férias ele voltava para sua própria cidade natal, Spillville, em Iowa, para visitar os pais. Ora, Spillville era uma colônia de imigrantes tchecos, e lá Dvořák se sentiria em casa, ainda mais se a família estivesse toda reunida. Como as férias só teriam início em junho, o compositor ainda teria mais algumas semanas para terminar a sinfonia sem pressa. Foi o que efetivamente aconteceu: a sinfonia foi concluída em 24 de maio, no mesmo dia em que o navio trazendo as crianças fazia uma escala em Southampton, Inglaterra.

Mapa: NY a Spillville

… para Spillville, Iowa

Kovařík, Dvořák, sua esposa Anna e todos os seus seis filhos partiram de Nova York dia 3 de junho de 1983. A viagem de trem durou 3 dias, e eles atravessaram 2000 km até chegarem no pequeno vilarejo de 350 habitantes (hoje tem 361, não mudou muita coisa). A família ficou hospedada no prédio onde hoje funciona o Bily Clocks Museum, um museu dedicado ao compositor.

Ele adorou a vila, a natureza ao redor e os moradores que praticamente só falavam tcheco. Junto à sua família, Dvořák viveu um dos períodos mais felizes de sua vida. Parte das suas boas lembranças ficou registrada num adorável quarteto de cordas que ele escreveu ali muito rapidamente: sim, estamos falando de…

O Quarteto Americano

O compositor chegou em Spillville em 5 de junho; dia 8 ele iniciou os esboços do quarteto, e em 72 horas o esboço do quarteto inteiro estava completo. Na última página pode-se ler: “Obrigado, Deus! Completado em 10/6/1893. Spillville. Estou satisfeito. Tudo correu tão rapidamente!”. Claro, para o esboço se tornar uma obra completa ainda levaria mais 13 dias, mas mesmo assim é muito pouco tempo. Anos depois Dvořák relatou:

“Quando eu escrevi este quarteto na comunidade tcheca de Spillville em 1893, eu queria escrever pelo menos alguma coisa que fosse muito melodiosa e direta, e o querido Papai Haydn ficava aparecendo diante de meus olhos, e é por isso que tudo ficou tão simples. E é bom que tenha ficado.”

Ele não deu um nome para o quarteto, mas apenas escreveu na capa: “a segunda composição escrita na América”. Até a década de 1950 o quarteto também era conhecido como “Quarteto dos Negros”, sem conotação negativa; depois ele passou a ser conhecido como Quarteto Americano. A estréia não-oficial do quarteto foi ainda em Spillville, em junho de 1893, com Dvořák no primeiro violino, Kovařík no violoncelo, sua irmã Cecilie Kovaříková na viola e o pai Jan Josef Kovařík no segundo violino.

Quais lembranças de Spillville estão registradas no Quarteto Americano?

São várias, vamos lá.

Dvořák amava trens, adorava passear nas estações para vê-los partir, e sempre conversava com os maquinistas para entender as novidades tecnológicas. “Eu daria todas as minhas sinfonias se eu pudesse ter inventado a locomotiva”, ele teria dito certa vez. No último movimento do quarteto alguns dizem ouvir o barulho da locomotiva que levou a família até Spillville:

Dvořák: Quarteto de Cordas nº12 em Fá Maior Op.96 “Quarteto Americano” – 4. Finale (início) (Quarteto Amadeus):

Enquanto viajava pelo interior dos Estados Unidos, ele pôde ver da janela do trem os enormes espaços vazios de um continente que ainda estava sendo povoado lentamente. A solidão – e também a saudade de casa – evocada pelos campos sem fim parece estar retratada no segundo movimento, ouça:

Dvořák: Quarteto de Cordas nº12 em Fá Maior Op.96 “Quarteto Americano” – 2. Lento (início) (Quarteto Amadeus):

Quando chegou em Spillville, Dvořák passou a seguir a mesma rotina diária de quando ele tirava férias em Vysoká: ele acordava bem cedo, e saía para caminhar pela natureza. E às margens do Turkey River, ele ouvia o canto insistente de um passarinho local, o sanhaçu escarlate (scarlet tanager, para os americanos):

Scarlet Tanager

De tanto ouvir o canto, ele anotou-o num rascunho e acabou usando-o num trecho do terceiro movimento. Ouça:

Dvořák: Quarteto de Cordas nº12 em Fá Maior Op.96 “Quarteto Americano” – 3. Molto vivace (trecho) (Quarteto Amadeus):

Dvorak at SpillvilleApós a caminhada diária, ele seguia para a igreja para assistir à missa e acompanhar o coral dos moradores locais ao órgão. É por isso que, no meio daquela correria toda do último movimento, de repente os instrumentos se aquietam e, de modo reverente, tocam isto:

Dvořák: Quarteto de Cordas nº12 em Fá Maior Op.96 “Quarteto Americano” – 4. Finale (desenvolvimento) (Quarteto Amadeus):

No começo soa como alguém tocando órgão, mas depois parece um coral cantando com a voz dos sopranos bem destacada. Conseguiu ouvir?

Deixando os Estados Unidos de lado, no terceiro movimento há uma curiosidade técnica muito interessante. É um scherzo em ABA, então a seção central deveria ter um tema contrastante diferente do tema da seção inicial. Bem… o contraste está lá, mas o tema na verdade é o mesmo. Compare:

Dvořák: Quarteto de Cordas nº12 em Fá Maior Op.96 “Quarteto Americano” – 3. Molto vivace (inicio e trio) (Quarteto Amadeus):

Mas, enfim… vamos ouvir o quarteto por inteiro? Está aqui, divirta-se!

O Quinteto de Cordas Op.97

Após terminar o quarteto, ainda durante as férias Dvořák escreveu sua terceira obra americana, o Quinteto de Cordas nº3 em Mi b Maior Op.97. O quinteto teve seus primeiros esboços anotados apenas 3 dias depois de completar o quarteto, porém levou mais de um mês para ficar pronto. Esta obra guarda outra recordação de Spillville: o contato do compositor com os índios iroqueses.

Diariamente, um grupo de índios iroqueses ia à cidade para vender artesanato e ervas medicinais. Para chamar a atenção, eles tocavam e dançavam músicas típicas da tribo, e isso despertou tanto a curiosidade do Dvořák que, dizem os biógrafos, ele não perdeu um único show enquanto esteve em Spillville. Podemos ter uma idéia do que ele viu assistindo ao vídeo abaixo:

Agora reparem na semelhança com o início do segundo movimento: não parece o índio cantando ao som da percussão primitiva?

Dvořák: Quinteto de Cordas nº3 em Mi b Maior Op.97 – 2. Allegro vivo (inicio) (Músicos de Marlboro):

Assim como os índios cantavam com voz desacompanhada, uma das características encontradas neste quinteto é o emprego de melodias nuas, sem contraponto, ou apenas com pouco ritmo embaixo. Por exemplo, o quinteto começa assim, ó:

Dvořák: Quinteto de Cordas nº3 em Mi b Maior Op.97 – 1. Allegro non tanto (inicio) (Músicos de Marlboro):

Não parece uma voz humana cantando sozinha? Isso é significativamente diferente da música de câmara européia da época, harmonicamente complexa e cheia de contrapontos. Outro exemplo dessa simplicidade está no trio do segundo movimento, onde a viola solista canta novamente quase solitária:

Dvořák: Quinteto de Cordas nº3 em Mi b Maior Op.97 – 2. Allegro vivo (trio) (Músicos de Marlboro):

Esta é uma das mais longas melodias de Dvořák, com 38 compassos. Muitos vêem aqui novamente a solidão dos enormes prados sem fim do interior da América, como no segundo movimento do Quarteto Americano.

Em dezembro do ano anterior (1892), logo que o compositor chegou aos Estados Unidos, ele reparou que o país não tinha um hino nacional: em cerimônias oficiais era usada a canção patriótica My Country, ‘Tis of Thee cuja melodia era idêntica ao hino britânico God Save the Queen (King). Dvořák achou isso um tanto constrangedor, e resolveu escrever ele próprio um hino nacional usando o mesmo poema da canção patriótica. Não se sabe exatamente por que o projeto não foi concluído… porém o esboço da canção acabou sendo usado no tema com variações do terceiro movimento do quinteto:

Dvořák: Quinteto de Cordas nº3 em Mi b Maior Op.97 – 3. Larghetto (parte 2 do tema) (Músicos de Marlboro):

Foi só em 1931 que a canção patriótica The Star-Spangled Banner passou a ser o hino nacional dos Estados Unidos.

Vamos ouvir o quinteto? É uma belíssima obra, clica aí:

Os últimos dias em Spillville

Em meados de agosto, chegou à cidade um grupo de tchecos de Chicago à procura do compositor. Nos dias seguintes haveria um “Dia Tcheco” como parte das festividades da Feira Mundial de Chicago, e eles queriam que o compositor fosse para lá para reger algumas de suas obras. Bem… e lá foi Dvořák atender os conterrâneos. Ele voltou à Spillville no início de setembro, mas pouco ficou por lá: no dia 16, ele e a família retornaram para Nova York, levando consigo lembranças de um verão inesquecível.

No próximo post nós iremos continuar a historinha, narrando agora como aconteceu a estréia da (agora) famosa Sinfonia do Novo Mundo. Até logo!

Este post pertence à série “Dvořák no Novo Mundo”:
1. O início da jornada
2. Spillville, Iowa
3. A sinfonia e seu legado
4. O retorno à Europa

4 Respostas

  1. Cleverson
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    Bacana. Depois seria interessante buscar a história de algum compositor estrangeiro que tenha vivido no Brasil e dado demonstrações de amor a nosso país, como fez Dvorak para com os EUA. Talvez ajude a instigar um pouco algum amor de nossa parte pelo Brasil, em tempos de tantos problemas políticos, económicos e sociais por aqui…

    Abraços.

  2. Amancio Cueto Jr.
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    Olá Cleverson, de cabeça lembro apenas do Gottschalk (https://pt.wikipedia.org/wiki/Louis_Moreau_Gottschalk) e do Milhaud (https://pt.wikipedia.org/wiki/Darius_Milhaud). Mas com certeza tem mais.

  3. Luan M. Silveira
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    Caro Amancio, nos trouxe mais uma verdadeira jóia.
    Dvořák pode até ser considerado meu compositor favorito (embora eu não goste de classificar compositores num podium). Mas há uma traço sinceridade, de veracidade na obra de Dvořák que acaba ressoando no ouvinte, pois, como vens demonstrando tão bem, o compositor reagia, em suas obras, ao contexto em que vivia. Desde as mágicas Danças Eslavas até a fase do Novo Mundo, passando também por suas obras sacras (que tanto aprecio, o Stabat Mater e o Réquiem), ele é sempre original; e o mais importante: Dvořák se superou muito mais que uma vez. Além disso, suas melodias são tão profundas que descem dos tímpanos direto para o coração. Destaco a minha favorita, que não paro de cantar, Als die alte Mutter (quarta canção do Cigánské melodie).
    Enfim, todo esse discurso aparentemente afastado do contexto apenas para dizer que seu texto é um verdadeiro luxo, e o considero um presente (aliás, todo o Euterpe). Aguardo fielmente a próxima parte.

  4. ludovico betto
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    Belíssimo texto, Amancio e o Euterpe sempre nos deleitando, só podemos agradecer.
    Quanto a Dvořák, é primorosa sua sinergia com o meio onde convivia e se maravilhava a cada descoberta, é fascinante como ele nos transmite sua percepção, impressões e sensações. Muitíssimo obrigado e já ansioso pela sequencia da série.

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