Rimsky-Korsakov: Scheherazade

Mariano Fortuny: Odalisque
Mariano Fortuny: Odalisque

Em 1888, o compositor russo Nikolai Rimsky-Korsakov decidiu escrever uma peça sinfônica baseada nas histórias das Mil e Uma Noites. Nascia assim uma de suas obras mais famosas, a suíte sinfônica Scheherazade Op.35.

Suíte sinfônica ou Poema sinfônico?

(Pergunta bem pertinente!) Suíte sinfônica é uma série de movimentos reunidos em torno de uma tema central, uma ideia extra-musical; já o poema sinfônico é uma obra de um movimento só que conta uma estória através da música. Quadros de uma Exposição de Mussorgsky é uma suíte sinfônica que descreve uma visita a uma exposição de dez quadros (a ideia central extra-musical); já A Bruxa do Meio-Dia de Dvorák é um poema sinfônico que conta uma estória com personagens e tem começo, meio e fim. Os dois gêneros podem ter pontos em comum, mas suas diferenças são bem relevantes ao analisarmos Scheherazade.

John Frederick Lewis: As Mil e Uma Noites (Noites Árabes)
John Frederick Lewis: As Mil e Uma Noites

A intenção de Rimsky-Korsakov era escrever uma peça que lembrasse as Mil e Uma Noites, mas não que contasse a estória do livro. Tanto que a ideia inicial era batizar os movimentos de Prelúdio, Balada, Adagio e Finale, para que o ouvinte tivesse a impressão de estar ouvindo vários contos orientais sem necessariamente relacionar a música com nenhuma estória específica. Foi ideia do amigo Anatoly Lyadov dar títulos aos movimentos, porém Rimsky-Korsakov manteve-os vagos para que o ouvinte não se apegasse demais às descrições. Posteriormente o compositor removeu os títulos, mas aí já era tarde e eles já haviam caído no gosto popular.

Então Scheherazade não conta uma estória?

Não – ou pelo menos não da forma linear como lemos nos livros. A obra soa como se, após a leitura do livro, houvéssemos sonhado com os personagens e, neste mundo onírico e exótico, todas as estórias tivessem se misturado, personagens houvessem se fundido e os relatos perdessem a ordem cronológica. Vamos conferir tudo isso na música, e então ficará mais fácil de entender por que Scheherazade é uma suíte sinfônica e não um poema sinfônico.

Rimsky-Korsakov preparou o seguinte texto para o programa de estréia da obra:

O Sultão Shahryar, convencido da falsidade e da infidelidade das mulheres, promete casar com uma nova esposa e executá-la no dia seguinte até que não existam mais candidatas. Mas a Sultana Scheherazade salva sua própria vida entretendo-o com contos que ela mesma conta durante mil e uma noites, deixando cada estória incompleta até a noite seguinte. Movido pela curiosidade, o Sultão adia constantemente a execução, e por fim abandona completamente seu plano cruel.

Muitas maravilhas Scheherazade relatou a ele, citando os versos dos poetas e as palavras das canções, tecendo conto dentro de conto e estória dentro de estória.

1. O Mar e o Navio de Simbad

A obra inicia descrevendo o personagem do Sultão obediente à sua terrível promessa:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 1a. Tema do Sultão (Seiji Osawa – Boston Symphony):

Então Scheherazade se oferece para casar com o Sultão. Durante a noite de núpcias, ela cai no choro e diz ao marido que tem uma irmã mais nova, e que gostaria de se despedir dela. Sultão manda chamá-la, e a irmã, previamente instruída por Scheherazade, diz (assim como dirá também nas noites seguintes): “Por Deus, maninha, se não estiver dormindo, conte uma daquelas suas belas estórias”. E, após a autorização do marido, Scheherazade começa a narrar seus contos:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 1b. Tema da Scheherazade (Seiji Osawa – Boston Symphony):

Ilustração de Rene Bull para o livro das Mil e Uma Noites
Ilustração de Rene Bull para o livro das Mil e Uma Noites

Uma das estórias narradas por Scheherazade foi a de Simbad, o marujo, um homem que se tornou muito rico após sete viagens marítimas que ele passa a contar em detalhes. Todas as sete viagens seguem um mesmo padrão: Simbad sai a navegar e seu navio afunda; os náufragos (ou às vezes apenas Simbad) vão parar numa terra estranha, onde vivem aventuras das mais fantásticas; ao final, Simbad descobre um grande tesouro ou é recompensado por alguém, e então retorna para casa são e salvo… e ainda mais rico.

Rimsky-Korsakov foi oficial da marinha russa por muitos anos, e assim soube como ninguém pintar o mar em sons. Violoncelos sugerem o balançar do navio, e os pizzicatos soam como respingos da água do mar:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 1c. O Mar e o Navio de Simbad (Seiji Osawa – Boston Symphony):

O mar desempenha um papel de “vilão” nas estórias de Simbad, e talvez por esse motivo a nossa Scheherazade musical o descreva utilizando o mesma tema do Sultão, o vilão de sua própria história. Compare os dois temas:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 1d. O Sultão e o Mar (Seiji Osawa – Boston Symphony):

A narrativa de Simbad se estende por várias noites, e por isso ouvimos de tempos em tempos a voz da Scheherazade no violino solo retomando a estória. Repare que o tema é o mesmo, ele só está acelerado:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 1e. A voz da Scheherazade (Seiji Osawa – Boston Symphony):

No geral, o formato do movimento é um simples ABC-A’B’C’-A”B”C”, sem entrar nos detalhes da estória de Simbad. É dessa forma que Rimsky-Korsakov faz a música lembrar as Mil e Uma Noites, e não contar as estórias, justificando assim o título de “suíte sinfônica” ao invés de “poema sinfônico”.

2. O conto do Príncipe Kalender

Passemos para o segundo movimento onde, na noite seguinte, a irmã diz novamente: “Por Deus, maninha, se não estiver dormindo, conte uma daquelas suas belas estórias”. Ao que Scheherazade (sempre) responde, “com muito gosto e honra”:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 2a. Tema da Scheherazade (Seiji Osawa – Boston Symphony):

Muitos pensam que Kalender é um nome próprio, o nome do príncipe do conto. Porém kalandar (às vezes grafado como qalandar, kalendar ou calender) é um tipo de dervixe, uma espécie de monge muçulmano que faz voto de pobreza e leva a vida como mendigo errante. Então o título ficaria mais claro para nós, ocidentais, se fosse “o conto do príncipe mendigo”.

Georges Gasté - Portrait d'homme
Georges Gasté: Portrait d’homme

Não li ainda todas as estórias das Mil e Uma Noites, mas há pelo menos três estórias de príncipes calênderes dentro de uma estória maior, “O carregador e as três jovens de Bagdad”. Os três dervixes são cegos do olho esquerdo, e cada um conta sua própria história ao serem questionados de como perderam o olho. As narrativas são complexas demais para serem resumidas aqui (e também os detalhes são irrelevantes para a análise da suíte sinfônica), mas quem tiver mais curiosidade pode ler um resumo clicando aqui (em inglês) ou, melhor, adquirindo o Livro das Mil e Uma Noites. Recomendo a recente tradução para o português (porém ainda incompleta) de Mamede Mustafa Jarouche; o conto dos três dervixes está presente já no volume 1.

Impossível saber qual das três estórias serviu de base para Rimsky-Korsakov escrever este movimento. Provavelmente não seja nenhuma delas, já que a ideia era apenas sugerir contos orientais. De qualquer forma, eis o que nós poderíamos chamar de “tema do Príncipe Kalender”:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 2b. O Príncipe Kalender (Seiji Osawa – Boston Symphony):

No primeiro movimento, vimos o vilão da estória ser descrito com o tema do Sultão; aqui o tema do herói compartilha um trecho com o tema da Scheherazade, repare:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 2c. Scheherazade e o Príncipe Kalender (Seiji Osawa – Boston Symphony):

O tema é repetido quatro vezes com diferentes orquestrações, quando então os baixos, primeiro em pizzicato e depois com arco, nos apresentam a algum tipo de inimigo do príncipe; compare como seu tema é parecido com o tema do Sultão:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 2d. O inimigo de Kalender e o Sultão (Seiji Osawa – Boston Symphony):

Trombones e trompetes parecem chamar seus exércitos para a guerra (e realmente há uma guerra na estória do primeiro príncipe calênder):

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 2e. Chamados de guerra (Seiji Osawa – Boston Symphony):

Por duas vezes o Príncipe Kalender aparece no meio da guerra, em trechos que ora parecem recitativos, ora cadências:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 2f. Príncipe Kalender na guerra (Seiji Osawa – Boston Symphony):

Selo húngaro mostrando Simbad e o pássaro Roca
Selo húngaro mostrando Simbad e o pássaro Roca

E quando começamos a encontrar um paralelo entre a estória e a música, Rimsky-Korsakov nos dá um banho de água fria. No trecho abaixo, o próprio compositor descreveu o motivo do piccolo como “um esboço do pássaro de Simbad, a Roca”:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 2g. O pássaro Roca (Seiji Osawa – Boston Symphony):

A roca (ou roque) é um pássaro mitológico que está presente na segunda e na quinta viagem de Simbad, aquele mesmo do primeiro movimento. Mas a roca também aparece na estória do terceiro príncipe calênder. Ou seja… esqueça as estórias e curta a música! O formato geral do movimento é um ABCBA com introdução, sendo que na última seção A o tema do Príncipe Kalender é novamente repetido quatro vezes com diferentes orquestrações.

3. O jovem príncipe e a jovem princesa

Há muitas estórias de amor de príncipes e princesas nas Mil e Uma Noites. Uma das fontes consultadas diz que este movimento foi baseado no conto do príncipe Kamar al-Zanna e da princesa Budur, mas o roteiro da música é tão genérico que pode se encaixar perfeitamente em qualquer outra estória romântica. Veja: era uma vez um príncipe…

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 3a. O jovem príncipe (Seiji Osawa – Boston Symphony):

George Barbier: Sheherazade
George Barbier: Sheherazade

… que conhece uma linda princesa… (seria ela uma dançarina?)

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 3b. A jovem princesa (Seiji Osawa – Boston Symphony):

Scheherazade faz mistério e adia o final da estória para a noite seguinte. Será que eles ficarão juntos?

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 3c. A voz da Scheherazade (Seiji Osawa – Boston Symphony):

Enfim os jovens se entregam à magia do amor:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 3d. Eles se entregam ao amor (Seiji Osawa – Boston Symphony):

Casaram e viveram felizes para sempre (pelo menos até o final do terceiro movimento). Fim.

Há algumas curiosidades musicais que precisam ser citadas. A princesa é inicialmente nos apresentada em Si bemol, mas no epílogo da estória seu tema reaparece na mesma tonalidade do tema do príncipe, Sol Maior. Fica claro que eles casaram, não?

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 3e. Tema da princesa casada (Seiji Osawa – Boston Symphony):

Não ficou claro? E que tal esta passagem nos compassos finais, onde o príncipe dança com a princesa? Compare com o tema original do príncipe:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 3f. O jovem príncipe dançando (Seiji Osawa – Boston Symphony):

Interessante perceber, tal como o tema do Príncipe Kalender, o tema do jovem príncipe também possui um trecho derivado do tema da Scheherazade, repare:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 3g. Scheherazade e o jovem príncipe (Seiji Osawa – Boston Symphony):

4. Festival de Bagdad. O Mar. O navio se choca contra um rochedo encimado por um guerreiro de bronze

Depois de centenas de noites, encontramos um Sultão irritado com todas essas estórias que não tem um fim:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 4a. Sultão nervoso (Seiji Osawa – Boston Symphony):

Scheherazade se sente desafiada e passa a contar uma enorme estória juntando todos os personagens anteriores:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 4b. Scheherazade desafiada (Seiji Osawa – Boston Symphony):

E a essa estória ela dá o nome de Festival de Bagdad:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 4c. Tema do Festival de Bagdad (Seiji Osawa – Boston Symphony):

Bem, esta é a versão do compositor para o que aconteceu na milésima primeira noite. Como leitor, ainda não encontrei no livro nenhuma estória com este título, ou que contivesse todos os personagens numa estória só (o que beiraria ao impossível). Assim, Rimsky-Korsakov deixa a cargo do ouvinte imaginar um conto com todos estes personagens. Aqui, o Príncipe Kalender:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 4d. O Príncipe Kalender (Seiji Osawa – Boston Symphony):

Aqui, a jovem princesa do terceiro movimento (estaria ela sendo disputada pelos dois príncipes?):

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 4e. A jovem princesa (Seiji Osawa – Boston Symphony):

O jovem príncipe:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 4f. O jovem príncipe (Seiji Osawa – Boston Symphony):

Até mesmo os chamados de guerra do segundo movimento foram lembrados:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 4g. Chamados de guerra (Seiji Osawa – Boston Symphony):

Alfred Britcher: Grand Summer, Grand Manan
Alfred Britcher: Grand Summer, Grand Manan

E para encerrar o festival, Scheherazade (a musical) narra uma passagem da estória do terceiro príncipe calênder, onde este acaba perdido no mar e seu navio avista à distância uma “montanha magnética” amaldiçoada. No topo da montanha existe uma estátua de bronze retratando um cavaleiro montado sobre um cavalo, e enquanto o cavaleiro não for derrubado, todos os que avistarem a montanha se afogarão, pois o magnetismo da montanha atrai os pregos das embarcações e estas, desmontadas, são arremessadas às rochas. Por isso ouvimos novamente o tema do mar, revolto como nunca:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 4h. O mar (Seiji Osawa – Boston Symphony):

O navio se desmonta e é arremessado às rochas. Note aqui como o compositor descreve o navio afundando:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 4i. O navio afundando (Seiji Osawa – Boston Symphony):

No livro, o terceiro príncipe calênder sobrevive ao naufrágio e derruba o cavaleiro de bronze, libertando o mundo da maldição. Na música, porém, Scheherazade encerra sua última estória por aqui mesmo:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 4j. Scheherazade encerra a última estória (Seiji Osawa – Boston Symphony):

Comovido, o Sultão chora. Após mil e uma noites de estórias, ele desiste de matar a esposa:

Rimsky-Korsakov: Scheherazade – 4k. Sultão desiste de matar a esposa (Seiji Osawa – Boston Symphony):

E viveram felizes para sempre!

15 Respostas

  1. Leonardo T. Oliveira
    |

    Bravo!

    No primeiro movimento vale notar que depois do tema do mar (que é o tema do Sultão mais lento) e do tema do segundo tema (daria pra chamá-lo de tema do Simbad?), eles são tocados “ao mesmo tempo” lá pelo meio, é muito legal.

    E esse terceiro movimento é lindo demais, hein? O final principalmente, quando o tema dela vem na tonalidade dele… :~

  2. Amancio Cueto Jr.
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    Não sei se eu o chamaria de “Tema de Simbad”, porque ele reaparece depois no último movimento, na estória do guerreiro de bronze. E essa estória é do terceiro príncipe calênder; o que o Simbad estaria fazendo aqui? O tema tem de retratar alguma coisa relacionada ao mar, mas não sei exatamente o quê.

    Sugestões? :-)

  3. Leonardo T. Oliveira
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    hmmm. E na verdade nem é o segundo tema do 1o. mov., é o terceiro mesmo (o C na sua divisão), logo depois do tema da Scheherazade voltar brevemente (e que você explica como sinal da duração da estória por mais de uma noite).

    Mas é verdade, quando o tema do mar volta revolto como nunca no 4o. mov., ele já volta nessa forma fundida com esse tal outro tema. Pensar no porquê é uma boa questão, não sei se no 1o. mov. um dos naufrágios do Simbad não é representado (mar+Simbad?), e aí no 4o. esse mar revolto em que os navios se desmontam por causa da estátua de bronze remeteria novamente à ideia de naufrágio.

    Pensar sobre isso me faz lembrar de uma questão que sempre fica ambígua na história dessa obra: conta-se que Rimsky-Korsakov acrescentou os títulos depois de ter concluído a obra, e que depois se arrependeu mas já era tarde demais. Só que isso faz parecer que os títulos foram meros acréscimos posteriores, quando na verdade eu acredito sinceramente que, mesmo sem serem narrativas, as músicas contêm referências verdadeiras às estórias!

  4. Caio V. C. Lopes
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    Convém notar que Korsakov usa, um pouco depois do tema inicial do Sultão no primeiro movimento, um tema muito semelhante ao do início da Abertura da suíte Sonho de uma noite de verão, de Mendelssohn, não sei se sugerindo alguma intertextualidade com o conteúdo programático da mesma (http://www.youtube.com/watch?v=m0gHTNJVFtA, logo ao início, primeiro tema).

    Além do que no último movimento, exatamente no tema do Festival em Bagdad, Korsakov faz uma “quotation” de um tema do Capricho Italiano de seu compositor compatriota Tchaikovsky, parecendo até plágio (Veja http://www.youtube.com/watch?v=01SEOm9oS-k&feature=related, aos 11min26s em diante).

    O solo que sôa improvisado de violino no terceiro movimento, sugerindo continuidade do mistério do casamento dos príncipes pela Scheherazade para a noite seguinte (logo depois do seu tema), me parece bem familiar também, mas não estou me recordando agora de qual obra de outro compositor se assemelha, mas se não me engano é o final da cadência do concerto pra violino de Mendelssohn (veja http://www.youtube.com/watch?v=SJUQD6Rr2M8, aos 9min11s).

    Além do forte laço entre os movimentos (lembrando muito uma sinfonia de fato), me impressiona muito o poder de orquestração do compositor empregado nessa suíte sinfônica, bem como na óperas “Sadko” (e suas árias lindíssimas na canção da Índia e dos Vikings) e “Tsar Saltan” (e seu espetacular “vôo do besouro”), no “Festival de Páscoa Russa”, e sobretudo no seu “Capricho Espanhol”. E mais ainda, me impressiona o pouco reconhecimento de suas 3 sinfonias, apesar de todo esse dom para orquestrar que Korsakov esbanja (eu também particularmente não gosto), e como o compositor se vale de temas alheios em suas obas. Para mim Korsakov é um Mahler bem menos profundo.

  5. Amancio Cueto Jr.
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    Leonardo,

    Acho que estamos falando de temas diferentes. O “C” é o tema que aparece entre o tema do mar (B) e as aparições de Scheherazade no violino solo (A): sol-la-la-sol-la-do-do-ré-ré-do-ré-mi. Nesta mesma seção tem um outro tema diferente, que respondem à trompa solo (tema do mar) na flauta, clarinete e oboé (solos também): sib-la-ré-do-sol-la sib-la-ré-do-sol-la sib-la-ré….do…. E o tema que vc cita “misturado” com o mar me parece ser o final do tema da Scheherazade, veja as 7 últimas notas da partitura do post: Sol-si-ré-Sol-fá#-mi#-Fá#, Sol-si-ré-Fá#-fá,mi-Fá, Sol-si-ré-Fá-mi-ré#-Mi, etc. Confere?

    E sua observação sobre os títulos acrescentados posteriormente me faz lembrar um dos Concertos para Juventude, com o Bernstein, onde ele apresentava Don Quixote de Richard Strauss narrando como se fosse uma história do Superman salvando um prisioneiro… Será que a música realmente faz referência às estórias, ou somos nós que colocamos as referências na música?

    Olá Caio!

    Interessantíssimo seu comentário! E pode nos render um futuro post: será que todas essas citações foram propositais (RK queria citá-las), acidentais (RK escreveu e nós que percebemos a semelhança), inconscientes (RK ouviu a obra uma vez e ficou com a melodia na cabeça, sem saber se era sua ou de outro compositor) ou arquetípicas (todo mundo usa arpejos ascendente-descendente para sugerir o balançar de alguma coisa)?

    No caso do Mendelssohn, o que une ambas as obras é o feérico do assunto, e como ambos os trechos estão no início de cada obra, é como se estivéssemos caminhando para dentro de um mundo mágico e fantástico.

    Sobre as sinfonias de Korsakov, vale lembrar que o próprio compositor tinha vergonha de sua falta de estudo formal em composição, o que ele tratou de remediar depois de se tornar professor do conservatório de São Petersburgo. Faz sentido, não?

  6. Leonardo T. Oliveira
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    Acho que é esse mesmo, Amancio! É logo depois do tema da Scheherazade voltar, e bem que é parecido com o tema dela.

    Muito legal o exemplo do Bernstein, hehehh. Em alguma medida temos que ser condescendentes com esse tipo de associação. Mas no mínimo o tema do mar, dos príncipes e da dançarina são muito convincentes, e compositores, como o próprio Tchaikovsky reconhece naquela carta que você traduziu e ilustrou, resistem muito em reconhecer a origem de suas inspirações e acabarem fechando o significado potencial da música. Então tenho essa desconfiança também.

  7. Caio V. C. Lopes
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    Muito interessante essas variadas facetas de um “quotation”. Para lançar ao ar alguns exemplos, eu sempre me indaguei sobre os seguintes:

    -1º movimento da Sinfonia n.2 de Bruckner (http://www.youtube.com/watch?v=B6Dvu44kW88, dos 6:53 aos 7:05) e Estudo Op. 25 No. 3 de Chopin em Fá (http://www.youtube.com/watch?v=x3zZWzbFVms);

    -Um caso interessante da mesma fanfarra do trompete primeiro em estilo militar, depois matrimonial, e depois funeral: 2º movimento da Sinfonia No. 100 de Haydn (http://www.youtube.com/watch?v=dnLZ1bHjY6c, dos 4:38 aos 4:44), Marcha Nupcial de Mendelssohn (http://www.youtube.com/watch?v=z0wmzoHd6yo até os 0:06) e 1º movimento da Sinfonia No. 5 de Mahler (http://www.youtube.com/watch?v=3O0xoewsKs0, até os 0:06);

    -1º movimento da Sinfonia No. 9 de Beethoven (http://www.youtube.com/watch?v=3SZ9QzGg95g, dos 13:54 aos 14:17) e 4º movimento da Sinfonia No. 6 de Bruckner (http://www.youtube.com/watch?v=Vz8dMg2V2_0, dos 6:15 aos 6:22);

    -Começo dos adágios da Sinfonia No. 9 de Mahler (http://www.youtube.com/watch?v=ag18Np_JInY, até 0:08) e da Sinfonia No. 9 de Bruckner (http://www.youtube.com/watch?v=blqpRUCWOGs, até 0:08 também);

    -2º movimento do Concerto para Violino de Brahms (http://www.youtube.com/watch?v=JWGrZgRf8wo, 0:44 a 0:52) e Bagatelle No. 11 Op. 119 de Beethoven (http://www.youtube.com/watch?v=BRcu0gLJs-8, dos 0:44 aos 0:52);

    -Scherzos da Sinfonia No. 9 de Beethoven (http://www.youtube.com/watch?v=O22ZRhsprQY, até 0:05) e Sinfonia No. 9 de Dvorak (http://www.youtube.com/watch?v=AlNNN3Elc_Y, até 0:06);

    -Prelúdio No. 4 de Chopin (http://www.youtube.com/watch?v=ef-4Bv5Ng0w, até 0:10), Concerto para piano de Ravel (http://www.youtube.com/watch?v=JoW0_85JaWk&feature=fvst, até 0:20)e Concerto para dois pianos de Poulenc (http://www.youtube.com/watch?v=K8JRBuQ56yI, dos 5:56 aos 6:02);

    -Novamente 1º movimento da Sinfonia No. 5 de Sibelius (http://www.youtube.com/watch?v=AK8NEiGJQ00, dos 5:05 aos 5:10) e Prelude a l’aprés midi de Debussy (http://www.youtube.com/watch?v=9_7loz-HWUM, até 0:08);

    -1º movimento da Sinfonia No. 5 de Sibelius (http://www.youtube.com/watch?v=AK8NEiGJQ00, dos 7:57 aos 8:10) e Fantasia em Si bemol de Telemann (http://www.youtube.com/watch?v=OY-prpoWbxY, até 0:13);

    -Sinfonia Alpina de Strauss (http://www.youtube.com/watch?v=N2VOr-XYcnw&feature=related, de 25:30 aos 25:36) e o intermezzo da ópera Cavalleria Rusticana de Mascagni (http://www.youtube.com/watch?v=jDVFaheqQAg, de 1:32 aos 1:37);

    -Segunda Barcarolla de Rubinstein em Lá menor (lá pelo meio, não consegui achar videos no youtube, contudo está num cd maravilhoso http://itunes.apple.com/us/album/rubinstein-solo-piano-music/id309247758, quinta faixa) e o coro “Non parti? Finora e al campo” da ópera Norma de Bellini (http://www.youtube.com/watch?v=7ZRwoEcoaJY, 2:30 a 2:45);

    Isso sem citar as técnicas de quotations propositais de Ives, Bério e Bartók (que satirizava muito Shostakovich), e os trechos copiados entre as sinfonias de Bruckner (o primeiro tema da segunda sinfonia aparece no primeiro movimento da terceira sinfonia, um dos temas do finale da quarta sinfonia é o tema principal da sexta sinfonia, etc.)

    Em muitos casos o trecho copiado parece proposital, uma espécie de homenagem, em outros é acidente, e em outros eu que acho parecido mas na verdade é coincidência…não é?

  8. Fernanda Gatto
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    Adorei!
    Minha professora de violoncelo me passou O jovem príncipe a a jovem princesa para tocar e estou encantada!
    A suite Scheherazade é linda!

  9. Marcel Passos
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    Parabéns pelo blog! Explicação bem detalhada desta linda composição.

  10. Flavio J. Morsch
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    Acho que a questão “suíte x poema” nos traz muitos condicionamentos. Estamos acostumados a “poemas” de um movimento porque assim foram eles desenvolvidos por Liszt. Já as suítes nos lembram as peças barrocas com danças após uma abertura, ou uma coletãnea sinfônica de trechos de ópera ou ballet. Assim, pensamos que 4 movimentos são afins com a sinfonia ou a suíte.
    Eu diria que menos importa o nome. Para as obras românticas, porém, prefiro “Poema” a “Suíte”.
    Conheço todas as óperas de Rimsky, que considero chatas. Sheherazade representa,a meu ver, toda a sua habilidade de instrumentação, sem prolixidade. Não há profundidade, tampouco, mas uma habilidade e sabor que colocam a peça entre os melhores “Poemas Sinfônicos”,como talvez Liszt tivesse desejado alcançar.
    No alto romantismo, muitos foram os “poemas” com vários movimentos e com intenções programáticas. Aqui reside a maior proximidade com “poesia” do que com “suíte de retalhos”. Eu jamais chamaria de suíte Haroldo na Itália, o Manfredo de Tchaikovsky e muitas obras de R.Strauss em vários movimentos, que, assim, se aproximam da sinfonia, nao fosse o distanciamento da forma sonata. Não vejo diferença grande entre a estrutura de D Quixote e da “sinfonia”Alpina, ou entre a “Domestica” e “Zaratustra”. São todos “poemas”, a meu ver.
    Sheherazade,então, pelo conteúdo ultra-programático, sem a menor dúvida….

  11. Amancio Cueto Jr.
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    Olá Flávio! Penso que a diferença entre suíte sinfônica e poema sinfônico reside muito mais no conteúdo (idéia extra-musical x estória) do que na forma (quantidade de movimentos). Mas eu não levaria essas definições muito a sério, porque definições na música clássica só existem para serem desafiadas e quebradas. Pois, veja: se algum dia alguém definiu “sinfonia” como “obra escrita exclusivamente para orquestra sinfônica”, rapidinho surgiu um alemão que adicionou coral à orquestra e continuou chamando a obra de “sinfonia”. Da mesma forma, um quarteto de cordas era “obra escrita para quatro instrumentos de cordas” até aparecer um austríaco que adicionou uma soprano ao conjunto… E “concerto” era pra ser algo com solista e orquestra, mas há um tal Concerto Italiano escrito para instrumento solo, e certo compositor francês escreveu um belíssimo concerto para piano, violino e quarteto de cordas.

    Cá para mim, tenho que a “música clássica” é a arte de eternamente se perguntar “por que tenho de seguir esta regra”. É interessante entendermos as diferenças entre poema e suíte, mas eu não perderia noites de sono tentando criar uma definição exata e abrangente para cada uma delas mesmo porque, uma vez a definição esteja criada, já surgiria um compositor desafiando-a.

  12. Leonardo T. Oliveira
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    O batismo das peças musicais pode ser entendido à luz da linguagem: é mais uma questão de marcar um conceito do que de seguir uma regra exclusiva de critérios para a definição de formas musicais. Por isso é curioso entender o que um compositor queria dizer ao batizar sua obra de “suíte” ou “poema sinfônico”, mas tentar partir dos critérios desse batismo pra uma discriminação de como todas as outras obras da história da música se definem nunca funciona perfeitamente (assim como na nossa língua podemos dar nomes às coisas sem abrir mãos de sinônimos, e mesmo as palavras que usamos podem mudar de significado com o tempo).

  13. Flavio J. Morsch
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    Caríssimos Amancio e Leonardo:
    Concordo “ipsis literis” com a relatividade semântica e era este apenas o meu escopo. É que entrei aqui há uma semana. Li hoje o “Sheherazade” de 2012, cujos detalhes talvez vocês pouco lembram. Havia ali, em algum lugar, uma polêmica sobre o trabalho de RK ser poema ou suíte…..Somente isso.

  14. Leonardo T. Oliveira
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    Flavio,

    As reflexões que nós três acabamos de escrever foram todas em tom concordante! É um tema muito interessante esse do batismo das formas musicais, e quando o Amancio diz que é bobagem se preocupar com a definição dos nomes dados às obras musicais ele está relativizando aquela mentalidade exclusivista que às vezes se tenta aplicar para esses nomes na música, e isso é justamente o que os comentários de nós três contribuíram para frisar.

    Abraços!

  15. Amancio Cueto Jr.
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    Oi Flavio, não se preocupe, é isso mesmo que o Leonardo respondeu: nós três estamos apenas complementando as respostas uns dos outros e concordamos com o assunto. A propósito: o assunto poema x suíte está logo no início do texto, bem lá em cima.

    E não se preocupe em comentar textos que escrevemos anos atrás. Primeiro porque estes textos são todos atemporais, eles continuarão úteis e interessantes mesmo daqui a 10 anos; e segundo que, mesmo que tenhamos esquecido o que escrevemos, ué, é só ler de novo que a memória já volta. Fique à vontade e sinta-se em casa!

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