Música Clássica e Porrada – Parte II

Correndo atrás de completar as séries de posts ainda pendentes no blog (logo vem mais Dvorák, etc.), hoje nos ocuparemos de mais música e pancadaria. As motivações e mesmo a utilidade (!) desta série sobre Música Clássica e Porrada foram expostas no post da Parte I, juntamente com bons exemplos, claro. Pra essa Parte II, conversaremos sobre mais quatro exemplos pra depois seguirmos gastando toda a surra musical nas partes III e IV. São vários exemplos e uma breve descrição do enfezamento que se passa em cada um deles, o que autoriza a leitura a ir colhendo as informações de acordo com o interesse.

5. Bartók: Allegro barbaro (1911)


László Endl

O Allegro barbaro de Bartók é quase um vandalismo escrito para o piano: a entrada é feita de acordes puros que podem parecer um acompanhamento, mas terminam sendo o próprio tema principal exposto em blocos. Além de soar elementar e primitiva, a música se apóia predominantemente sobre elementos folclóricos, e ouvimos desde a entrada o modo frígio da escala pentatônica (evocando a música folclórica húngara) e, na seção central, escalas mais cromatizadas do folclore romeno. Como pesquisador e compilador de música folclórica, Bartók não desperdiçou o conhecimento folclórico pra experimentar novas texturas harmônicas e melódicas e criar um barbarismo musical incisivo e nervoso!, que se resume em um gesto bruto de pouco mais de 200 compassos.

6. Mussorgsky: Kartinki s vystavki (“Quadros de uma Exposição”): No. 9 “Izbushka na kuryikh nozhkakh” (Baba-Yagá) (“‘A Cabana sobre Patas de Galinha’ (Baba-Yaga)”) (1874)

Viktor Hartmann: Estudo de design para um relógio na forma da cabana de Baba-Yaga

A obra mais famosa de Mussorgsky é uma homenagem póstuma, escrita após a morte do amigo Viktor Hartmann, artista e arquiteto devoto à causa do nacionalismo russo. Morto de um aneurisma em 1873, aos 39 anos, Hartmann ganhou em fevereiro e março de 1874 uma grande exposição póstuma de suas obras, organizada por Vladimir Stasov. Inspirado, Mussorgsky escreveu em apenas seis semanas uma das obras mais “incidentais” escritas para o piano: os Quadros de uma Exposição, uma suíte que descreve o passeio de um expectador (no caso, o próprio Mussorgsky) por entre dez obras da exposição de Hartmann. Os retratos musicais de cada obra de Hartmann são ligados por descrições do passeio do próprio expectador em meio à exposição, revelando o seu movimento de interesse entre os quadros, sua aproximação, sua lembrança melancólica do autor, tudo a partir do material da chamada Promenade, o movimento que abre a obra e que já descreve os primeiros passos no espaço da exposição.

Viktor Vasnetsov (1848-1926): Baba Jaga (1917)

Entre as obras de Hartmann, a penúltima retratada pelos Quadros de uma Exposição de Mussorgsky é a ilustração de um estudo de design para um relógio inspirado na lendária cabana de Baba-Yagá. De acordo com o folclore eslavo, Baba-Yagá é uma bruxa que voa sobre um pilão, varrendo seus rastros com uma vassoura de prata, e que mora em uma cabana móvel que caminha sobre patas dançantes de galinha. De caráter sinistro, as lendas costumam descrevê-la a perseguir crianças e a assumir o papel de antagonista. Porém, em lendas como as coletadas pelo analista russo Vladimir Propp, ela aparece assumindo o papel ambíguo de uma sábia que recompensa as almas puras.

Mussorgsky – Pictures at an Exhibition – 15. The Hut on Fowl’s Legs (Baba-Yaga). Allegro con brio – Andante – Allegro molto – attacca (S. Richter – Sofia, 1958):

A música de Mussorgsky, descrevendo o quadro de Hartmann e ao mesmo tempo a lenda da Baba-Yagá, é uma marcha que dá movimento à idéia grotesca da cabana a caminhar com suas patas de galinha. Podemos ainda ouvir o motivo do vôo da bruxa sobre o seu pilão e, na seção central (0’57”), os sinos do relógio. O final desencadeia a última peça da obra, o imponente Portal de Kiev (que ouviremos em outra oportunidade).

7. Prokofiev: Sonata para Piano No. 7 em Si bemol maior Op. 83 “War Sonata II: Stalingrado” (1943)

Prokofiev – Piano Sonata No. 7 in B flat major Op. 83 ‘War Sonata II (Stalingrad)’ – 3. Precipitato (S. Richter – 1958):

As chamadas “War Sonatas” de Prokofiev são daquelas obras vistas como o desabafo que a arte permite dar em tempos de ditadura e repressão. Em 1932, o diretor Vsevolodov Meyerhold, amigo próximo de Prokofiev, prestes a ensaiar a ópera Semyon Kotko, foi assassinado pela NKVD (a polícia secreta de Stalin). Menos de um mês depois, a polícia de Stalin foi atrás de sua esposa, Zinaida Raikh. Em meio à revolta, Prokofiev recebeu a encomenda de uma cantata para celebrar o aniversário de 60 anos de Stalin (o que resultou na Cantata Zdravitsa Op. 85).

Foi depois desses eventos, ao fim do ano de 1932, que Prokofiev começou a escrever as sonatas para piano Nos. 6, 7 e 8, conhecidas mais tarde como “Sonatas de Guerra”. São suas sonatas mais importantes e também as mais dissonantes.

Da Sonata No. 7, seu terceiro e último movimento, marcado com a indicação Precipitato, é uma tocatta de afirmação enfática e onipresente da tonalidade principal da sonata: Si bemol maior. Ouvimos por todo o movimento o baixo nervoso que resolve a base da música em oitavas que marcam Si b – Dó # – Si b, e é essa insistência cada vez mais intensa e a variedade que Prokofiev faz caber sobre ela que dá uma sensação de inevitabilidade e de coação à conclusão da sonata.

Na interpretação de Sviatoslav Richter no player acima, o que chama a atenção é como Richter forma um grande crescendo em tensão, que já no final do movimento alcança um volume de som quase insuportável.

8. Beethoven: Quarteto para Cordas No. 11 em Fá menor Op. 95 “Serioso” (1814)

Beethoven também era violento com a pena

Beethoven mereceria uma compilação de macheza só pra ele, mas é engraçado como em suas obras não há uma violência desproporcional, que não encontre dentro da própria obra uma resposta, uma solução. Pensando que Beethoven é em muitos sentidos antes um alargador do Classicismo do que um destruidor das suas convenções, a violência em suas obras pode ser extrema, mas também não escapa ao controle, ao equilíbrio caro aos clássicos, dado por uma simetria na estrutura da obra, na administração da tensão-distensão que a música percorre. Por vezes a solução a um conflito apresentado é pacificadora, otimista, como na Ode à Alegria da Nona Sinfonia, mas por vezes é uma solução trágica, como aparentemente no Quarteto Op. 131. O exemplo que separo aqui traz dramaticamente problemas que só serão resolvidos no final da obra, e não é o primeiro movimento da Quinta Sinfonia nem a Tempestade da Sexta, mas o primeiro do “Quarteto Serioso”, uma música que, a despeito da textura mais homogênea de um quarteto de cordas, tem momentos dignos de headbanging.

Exposição:

Beethoven – String Quartet No. 11 in F minor Op. 95 ‘Serioso’ – 1. Allegro con brio – I. Exposition (Alban Berg Quartett – 1979):

O incisivo primeiro tema se apóia na figura básica que servirá para montar toda a música. O segundo (cuja melodia surge em 0’35”), em contraste, é lírico e em tonalidade maior. A conclusão da exposição (0’51” até o final do player acima) retoma e já funde material dos dois temas.

Desenvolvimento:

Beethoven – String Quartet No. 11 in F minor Op. 95 ‘Serioso’ – 1. Allegro con brio – II. Development (Alban Berg Quartett – 1979):

O grande momento headbanger da música, fazendo as figuras primordiais dos dois temas da exposição renderem e passarem por um momento de instabilidade. O primeiro violino chega a rosnar! quando desenvolve a figura de oitavas quebradas em resposta ao primeiro tema.

Reexposição:

Beethoven – String Quartet No. 11 in F minor Op. 95 ‘Serioso’ – 1. Allegro con brio – III. Recapitulation (Alban Berg Quartett – 1979):

Os dois temas voltam pra casa depois da experiência caótica do desenvolvimento.

Coda:

Beethoven – String Quartet No. 11 in F minor Op. 95 ‘Serioso’ – 1. Allegro con brio – IV. Coda (Alban Berg Quartett – 1979):

Conclusão nervosa pra não deixar barato.

Este post pertence à série:
1. Música Clássica e Porrada – Parte I (Stravinsky, Bartók, Vivaldi & Verdi)
2. Música Clássica e Porrada – Parte II (Bartók, Mussorgsky, Prokofiev & Beethoven)
3. Música Clássica e Porrada – Parte III (Liszt, Tchaikovsky, Messiaen & Wagner)
4. Música Clássica e Porrada – Parte IV (Chopin, Shostakovich, Prokofiev & Messiaen)

14 Respostas

  1. Ludwig van Winkle
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    Quer mais porrada? A Sinfonia no. 3 de Roussel é uma linda pancadaria. A Sinfonia no. 2 de Holmboe também – e sua no. 5 também tem seus momentos de porrada pura. A Sinfonia “Asrael” de Suk, que já comentei aqui, tem em seu primeiro movimento alguns trechos de heavy metal. E acho que o Quarteto no. 6 de Mendelssohn faz belo par com o “Serioso” de Beethoven.

    Yeah! \m/

  2. Leonardo T. Oliveira
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    Muito boas as sugestões, Ludwig. Exemplos desse uso de porrada mais percussiva do Roussel eu guardava mais pra frente, e apesar de não conhecer o Holmboe e ainda não ter encontrado a Sinfonia No. 2, ouvi outras coisas e a musculatura orquestral dele parece fazer impacto também por um colorido e uma percussão mais enfáticos. A Sinfonia Asrael que você citou eu já consegui ouvir e já anotei pra um dia falar de alguns autores menos canônicos, porque é mesmo uma obra incrível, quem conhece logo percebe. E finalmente do quarteto do Mendelssohn, é o melhor exemplo de que nas obras avançadas ele ainda era capaz de fazer tanta música empolgante como quando era garoto. Amo mutcho.

    Abraço.

  3. Paulo Egídio
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    O Serioso é sacanagem. Um nervosismo incontido, mas conciso. O primeiro movimento é curtíssimo, você postou-o inteiro, mas acontece tanta coisa que leva quase mais tempo pra ler o que você escreveu do que ouvindo a música. :)
    Saudade de te ver, Léo. Precisamos marcar um bate-papo.
    Abraço.

  4. Leonardo T. Oliveira
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    É verdade, Paulo! Tem a transição pro segundo tema que sai “de dentro” do primeiro, e cada figura que ele desenvolve sempre retomando o que apareceu na exposição.

    Vamos nos preparando pra um bate-papo já pra uma próxima oportunidade! E também não vamos desistir do The Art of Violin um dia. :)

    Abraço!

  5. Bruno Rausch
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    Parabéns pelo blog !
    Pancadaria mesmo é o 2o Mov. da Sinfonia n9 de Bruckner (Bewegt, lebhaft !) – derruba qualquer Metallicazinho a nocaute, da um espaço pra uma respirada e quando menos se espera, tome porrada novamente.
    Abs !

  6. Leonardo T. Oliveira
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    É mesmo! Ali tem umas pancadas bem insistentes. Legal saber dessas lembranças!

    Abraço!

  7. Ludwig van Winkle
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    Bruno, muito bem lembrado! O scherzo da Nona de Bruckner é porrada mesmo. Daniel Barenboim disse certa vez que chegava a parecer Shostakovich. E é verdade.

  8. Bruno Rausch
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    Fui apresentado a este movimento numa cena de “Sarabande”, último filme de Bergman – Bruckner é fantástico.

    Lembrei também da sensacional “Dança Selvagem Guerreira”, trecho da Floresta Amazônica do grande Villa Lobos ! Quem disse que brasileiro tambem não desce o cacete??

    Acho que esse tema ainda pode render bastante. Ggde abraço !

  9. Bruno Rausch
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    Outro trecho pancado é o Interludio de Romeu e Julieta de Prokofiev (7o mov.) Tudo parece ir bem até que por volta de 10 segs o céu cai sobre as nossas cabeças…Pra ser ouvido em último volume, claro. Felizmente tudo melhora depois numa dancinha, ainda assim tensa….

    Abs !

  10. William Castro
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    E ainda tem muita gente que diz que música clássica é só valsinha… É mole?! ~:{

  11. Emerson Coelho
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    Estou pensando em fazer uma compilação em cd só com essas porradas, pra ouvir quando estiver raivoso. Normalmente nesses momentos ouço wagner! rsrsrs
    Aguardo a continuação da série, e espero que você não a deixe fazer aniversário de um ano!!! rsrsrsrs

    Grande Abraço.

  12. Leonardo T. Oliveira
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    Emerson, aqui nos rascunhos essa série já está quase concluída. Só estou me certificando de não ter sido muito injusto deixando alguns exemplos de lado, e mesmo buscando alguns menos óbvios.

    E eu já fiz esse CD! E já usei contra alguns vizinhos. XD

    Abraço!

  13. Marcus V X Oliveira
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    Gostaria de citar mais dois exemplos bem interessantes a meu ver: Rudepoema do Villa Lobos e Cancoes e Dancas da Morte, de Mussorgsky, em especial O Marechal de Campo.

  14. Flavio J. Morsch
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    Leo,
    Não li toda a série ainda, mas, a julgar pelos autores nos cabeçalhos, permito-me acrescentar as sinfonias de Simpson(principalmente a 4), as de Schnittke e a “Gótica” de H.Brian. Ah, e a “Nórdica” de H.Hanson.

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