Wilhelm Backhaus, um testemunho do passado e uma despedida

Wilhelm Backhaus no começo do séc. XX

Todas as épocas aprenderam a cultuar homens do passado. Uma noção de identidade está ligada a conhecer modelos predecessores, representantes de valores ideais com os quais se provou ser possível triunfar.

Na música, com o registro fonográfico no séc. XX, esse culto passou a ser realizado não apenas com compositores, mas com os músicos intérpretes, e não há nada mais comum hoje em dia do que defensores ferrenhos da versão de tal ou tal obra na gravação de algum músico inigualável.

O pianista alemão Wilhelm Backhaus (1884-1969) não foi apenas um desses intérpretes sacralizados pelo tempo, como acumulou em seus anos de carreira a fascinante autoridade de ser, em pleno séc. XX, uma importante testemunha do séc. XIX: aos 10 anos, foi levado para assistir a ambos os concertos para piano de Brahms executados por seu futuro professor, Eugen d’Albert (aluno de Liszt), com regência do próprio Brahms; aos 21, venceu a quarta edição da Anton Rubinstein Competition, deixando Béla Bartók em segundo lugar. Iniciou gravando rolos de piano, para logo ser um dos primeiros pianistas a deixarem gravações ao vivo e em estúdio (realizou a primeira gravação integral dos Estudos de Chopin, em 1928).

Em 28 de junho de 1969, os austríacos da cidade de Ossiach, em Carinthia, receberam o pianista com então 85 anos na antiquíssima abadia da cidade, em um recital em que algo aconteceu. No programa, obras de Mozart, Beethoven e Schubert.

Mozart – Piano Sonata No. 11 in A major K 331 – 1. Andante grazioso – excerpt (Wilhelm Backhaus – 1969):

Ao sentar-se ao piano, ele toca um arpejo na tonalidade da primeira obra, a Sonata No. 11 em Lá maior K. 331 de Mozart, como uma orquestra afinando os instrumentos. O tema prestes a sofrer variações do primeiro movimento da sonata, iniciada logo em seguida, soa simples e evocativo, com um leve maneirismo embalando seu ritmo pontuado.

Mozart – Piano Sonata No. 11 in A major K 331 – 2. Menuetto – excerpt (Wilhelm Backhaus – 1969):

Durante a obra, Backhaus – que já fora acusado de ser um pianista “metronômico” por seu estilo objetivo – mostra os dois aspectos que marcarão todo o recital: com 85 anos, como Horowitz diria, o pianista perde do seu lado demoníaco e ganha do seu lado angelical – mas Backhaus continua, como nas suas melhores gravações quando jovem, enfrentando os riscos de uma concepção aventureira da música, de nunca fazer concessão técnica mesmo às idéias mais enérgicas.

Mozart – Piano Sonata No. 11 in A major K 331 – 3. Alla turca. Allegretto – excerpt (Wilhelm Backhaus – 1969):

Há por isso falhas técnicas aqui e ali, como no terceiro movimento, o Rondo alla Turca.

Wilhelm Backhaus em 1907

Mas a sua linguagem, especificamente a flutuação do tempo e a liberdade de preparar cada passagem com certa independência, reflete claramente o encontro de duas eras: para nós, ouvintes do séc. XXI, sua interpretação é muitas vezes inexplicável, ora aparentemente despreocupada com preocupações musicais do nosso tempo, ora preocupada com o que hoje mal somos capazes de perceber. Essa qualidade particular de um pianista que, afinal, é do séc. XIX, que beira o anacronismo, nos coloca não somente diante do testemunho de um tempo para nós perdido, mas diante de qualidades que já mal saberíamos imitar hoje em dia. Trata-se de um caso em que o tempo, sendo incapaz de guardar certos espíritos que passam e que mudam, ao menos os registra para conhecermos possibilidades que não somos mais capazes de imaginar.

Essa bravura e essa liberdade também valem para a Sonata No. 21 em Dó maior Op. 53 “Waldstein” de Beethoven, que ele toca em seguida:

Beethoven – Piano Sonata No. 21 in C major Op. 53 ‘Waldstein’ – 1. Allegro con brio – excerpt (Wilhelm Backhaus – 1969):

E o poético Impromptu em Lá bemol maior D. 935 No. 2 de Schubert:

Schubert – Impromptu in A flat major D 935 No. 2 – excerpt (Wilhelm Backhaus – 1969):

Então vem o intervalo.

De volta, Backhaus vem ao palco para mais uma sonata de Beethoven – compositor ao qual se tornou mais marcadamente associado: a Sonata No. 18 em Mi bemol maior Op. 31 No. 3.

Beethoven – Piano Sonata No. 18 in E flat major Op. 31 No. 3 – 1. Allegro – excerpt (Wilhelm Backhaus – 1969):

Depois de cumprir o velho ritual de iniciar a execução tocando um arpejo na tonalidade da obra, ele a segue brilhantemente (acima um trecho do primeiro movimento) até o terceiro movimento. Até que…

Beethoven – Piano Sonata No. 18 in E flat major Op. 31 No. 3 – 3. Menuetto. Moderato e grazioso – excerpt (Wilhelm Backhaus – 1969):

Wilhelm Backhaus nos anos 60

…encerrando o terceiro movimento, ele interrompe a execução do que seria o último e quarto movimento da obra e diz: “Ich bitte um eine kleine Pause” (“Peço uma pequena pausa”). O público consente se apressando em aplaudi-lo, mas todos passam a se perguntar o que aconteceu!

Senhoras e senhores, ele teve um infarto agudo! Nos bastidores, querem levá-lo ao hospital imediatamente. Mas ele diz: “Só depois de me despedir do meu público”. E volta…

É apenas anunciado que, ao invés de prosseguir com o programa previsto, ele tocará duas peças das Fantasiestücke Op. 12 de Schumann: a primeira do conjunto, “Des Abends”, e a terceira, “Warum?”.

Schumann – Fantasiestücke Op. 12 – 1. Des Abends – excerpt (Wilhelm Backhaus – 1969):

Então, mais do que o seu habitual arpejo de abertura, ele começa uma linda improvisação sobre a tonalidade da primeira peça, Ré bemol maior, e a inicia sem interrupção. Toca divinamente, e o público aplaude.

Schumann – Fantasiestücke Op. 12 – 3. Warum – excerpt (Wilhelm Backhaus – 1969):

Segue então para “Warum?” (“Por quê?”), com uma sensibilidade que só o sentimento de despedida poderia produzir.

Diante dos aplausos do público, ele ainda volta e toca um bis que é anunciado: o Impromptu de Schubert que havia tocado antes:

Schubert – Impromptu in A flat major D 935 No. 2 – excerpt II (Wilhelm Backhaus – 1969):

Retira-se e é levado para um hospital em Villach, onde morre depois de uma semana. Foi sepultado em Köln, e a gravação deste seu último recital foi publicada em LP e em CD pela Decca.

11 Respostas

  1. Carlos
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    Bonito post, Leo. Nunca estive emocionalmente envolvido com o concerto n.4 de Beethoven até ouvir a interpretação de Backhaus com regência de Karl Bohm em DVD. Tecnicamente podemos ser melhores, mas perdemos um pouco dessa beleza transcendental que encontramos em Cortot, Kempff, Backhaus entre outros mestres do passado. Não é saudosismo, pois não vivi esta época, além disso, as gravações antigas também não apresentam a claridade sonora de hoje em dia. Mas ouvir Backhaus é como ouvir algo imprevisível. As mudanças de tempo inusitadas, a sustentação do som beirando ao “erro”, o risco de enfatizar certas passagens, tudo tão ausente da nossa geração de intérpretes perfeitos e …previsíveis.

  2. Tiago Arruda
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    Leonardo, obrigado pelo sensível post.
    Muitas coisas poderiam ser discutidas aqui, mas creio que a posição do músico diante da morte – de naturalidade – e o seu empenho em completar o seu recital – como um Hércules que luta contra a morte a fim de salvar Alceste – são os pontos que mais me chamam atenção.

  3. Leonardo T. Oliveira
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    Exatamente, Carlos. Não é nem uma questão possível de saudosismo, mas gente como Edwin Fischer, Cortot, Ignaz Friedman e mesmo o próprio Rachmaninoff, nas suas gravações, nos colocam diante de algo que nunca mais vamos ser capazes de fazer. Lembro, a respeito dessa dinâmica da história, de “A Estrutura das Revoluções Científicas” do Thomas Kuhn, que contrapõe o positivismo com a perspectiva de que na história não há acúmulo contínuo de conhecimento e evolução permanente, mas seguidas quebras que, em momentos-chave, deixam um modelo de saber pra trás por outro, mais atual aos problemas atuais, e com isso deixa pra trás também parte do conhecimento e da realidade do modelo de saber anterior. Existe algo disso também no espírito das épocas e na sensibilidade manifesta por seus melhores artistas aos nossos olhos, fascinados que ficamos com essa qualidade que não pode mais ser repetida no nosso “paradigma”. Isso contribui bastante pra estabelecer artistas em um cânone realmente inigualável, pois sempre têm o que oferecer que outros nunca terão.

    Tiago, histórias de últimas gravações sempre me fascinaram, e essa é uma das mais belas que conheço. Dizem que o próprio Backhaus dizia querer morrer tocando piano, e isso acabou acontecendo de certa forma.

    Abraços!

  4. Tiago Arruda
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    Olá,

    Fugindo do tema mas não do ambiente proporcionado por este belo e comovente post, gostaria de publicamente pedir desculpas a Ludwig van Winkle pelo o que eu falei em uma querela que tivemos no passado. Você, Ludwig, pode ter falhado (o clichê “ninguém é perfeito” é bem-vindo aqui) mas minha reação foi desproporcional (do tipo “much ado about nothing”). Ultimamente, tenho lido posts euterpianos antigos e comentários seus; você é uma pessoa perspicaz e sensível nas suas apreciações, ou seja, o contrário do que eu disse anteriormente.

    Leonardo,

    Desculpe-me por fugir do tema do seu tópico e, por favor, não censure esta mensagem. Não é por acidente que aproveito uma mensagem sua para falar sobre isso, pois, na época, acabou sobrando faísca pro seu lado. Eu sei o que ocorreu: você elogiou, sem especificar trechos, o comentário de Ludwig quando obviamente você valorizava a segunda parte da mensagem enquanto eu discordava da primeira parte. Desculpas a você por isso também.

    Finalmente, abraços para todo mundo e viva a música!

  5. Leonardo T. Oliveira
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    Magina, Tiago! Você é dos nossos. :) Fico feliz que o seu comentário corresponda ao ambiente criado neste post: pra que ambiente melhor do que esse? Mas não se incomode mesmo, lembro que eu tinha respondido ao seu comentário também pedindo desculpas.

    Abraços!

  6. Leonardo T. Oliveira
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    Queria mencionar algumas últimas gravações ou apresentações de grandes músicos. Que soe “transcendente!”, mais do que mórbido…

    – A última apresentação de Heifetz, com 71 anos, foi gravada e significou algo, porque foi feita sabendo-se que era a última. Mas há um dado incomum: ela foi feita 15 anos antes da morte do violinista. Ele passava a sentir dores no ombro direito, e mesmo uma cirurgia não foi capaz de fazê-lo segurar o violino à altura adequada. Isso causou essa sua despedida dos palcos e dos estúdios, e desde 1972 ele passou a se dedicar ao ensino e a performances apenas privadas. O último recital foi lançado pela RCA Victor: http://amzn.to/j4uDq7.

    Horowitz, um pianista lendário desde a sua juventude, teve um retorno triunfal aos palcos nos anos 60, depois de se tornar recluso por mais de dez anos. A partir de então, mesmo fazendo poucas apresentações, teve uma carreira extensa, tocando até 86 anos. Suas últimas gravações foram lançadas pela Sony, e a última foi feita menos de um mês antes de sua morte. As resenhas feitas na Amazon a descrevem: http://amzn.to/iZlBLw.

    Mindru Katz (1925–1978), pianista romeno (famoso por suas interpretações de Bach e por uma bela gravação da Sonata pra Violino No. 3 de Brahms acompanhando Henrik Szeryng), morreu no palco com apenas 50 anos em um recital em Istanbul, quando tocava a Sonata No. 17 (“Tempestade”) de Beethoven (de novo Beethoven!…). Mas aparentemente esse recital não foi gravado.

    – O grande pianista russo Simon Barere (1896–1951) morreu em pleno concerto no Carnegie Hall, de uma síncope, tocando o Concerto de Grieg. Mas, segundo nosso amigo Érico Sarastro pesquisou, “sua última gravação foi em estúdio mesmo, poucos dias antes do derradeiro recital. De acordo com o filho de Barere, Boris, o pianista nem chegou a escutar tais registros: foram feitos na última semana de março de ’51, sendo que Barere faleceu no dia 2 de abril do mesmo ano. Não há edições nas gravações, pois Barere não gostava de gravar trechos pequenos, mas sim longos takes. Ele já estava padecendo de problemas cardíacos à época. Uma curiosidade: a gravação de La Campanella foi feita sem o conhecimento do pianista, que a executou a pedido do engenheiro de som (Barere não a tocava há mais de 10 anos, e pediu para que a peça não fosse gravada)”. Essa última gravação foi lançada pela Cembal D’amour: http://amzn.to/mgM1Tn.

    – A contralto Kathleen Ferrier (1912–1953) foi um talento tardio, e também encerrou sua carreira muito cedo. Em 1953, já no ano de sua morte, ela soube de problemas graves de artrite desenvolvidos por excesso de esforço nos inúmeros ensaios (de óperas e em estúdio) no auge de sua carreira. Sua última gravação é a do “Das Lied von der Erde” de Mahler com Bruno Walter, mas não a famosa, que foi feita em estúdio e lançada pela Decca, e sim uma que saiu pela Andante, ao vivo, em que a cantora omite o último “Ewig…” (“Eternamente”) da obra por estar em lágrimas.

    Lucia Popp (1939–1993), já doente, gravou “As Quatro Últimas Canções” de Richard Strauss com a Sinfônica de Londres regida por Michael Tilson Thomas. A gravação mostra claramente a cantora fragilizada pela doença…

    – Nada menos do que Felix Mottl e Joseph Keilberth morreram regendo o segundo Ato de Tristão e Isolda, após o dueto de amor. Conforme nosso amigo Pádua Fernandes uma vez nos informou, Karajan, preocupado, encomendou pesquisas a respeito: “meu coração bate normalmente a 67 ou 68 pulsações por minuto, mas constatamos que, em uma passagem lenta precedendo um ponto culminante, ele pode atingir até 170 pulsações” (KARAJAN, Herbert von. Une vie pour la musique: entretiens avec Richard Osborne. Trad. Gérard Gefen. Paris: Éditions de l’Archipel, 1999, p. 125). Daí o risco!

    Dinu Lipatti (1917–1950) foi um famoso pianista romeno que morreu aos 33 anos pelo Linfoma de Hodgkin. No mesmo livro anterior citado pelo Pádua, Karajan, que o acompanhou em sua última apresentação, do Concerto para Piano No. 21 de Mozart, em Lucerna, diz: “Sabíamos todos que Lipatti só tinha mais algumas semanas de vida. Ele tocou o Concerto em Dó Maior K 467 de Mozart – uma interpretação maravilhosa, tão plena de vida e de beleza. O som é ruim, mas o espírito da música está presente” (p. 97). A gravação, que também traz o Concerto para Piano de Grieg, foi lançada mais amplamente pela EMI Classics: http://amzn.to/jLSlhQ.

    Maria Callas teve muita coisa gravada – de recitais e óperas a masterclasses. Sua última gravação foi feita em sua própria casa, poucos meses antes dela morrer, e são apenas frases da ária do segundo ato da “Forza del Destino”. Dizem que sua voz estava boa, mas sem força pra sustentar a ópera toda.

    – O regente grego Dimitri Mitropoulos (1896–1960) morreu em um ensaio da Terceira Sinfonia de Mahler em Milão, em um ponto que alguém foi capaz de reconhecer com precisão: o compasso 89 da obra!

    – Finalmente, Giuseppe Sinopoli, famoso regente italiano, morreu muito inesperadamente de um enfarte fulminante em 2001 durante o terceiro ato de Aida, em uma montagem em Berlim.

  7. Amancio Cueto Jr.
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    No caso do Mitropoulos, sabe-se que foi no compasso 89 do primeiro mov porque o fagotista anotou em sua partitura: In questa misura è morto il maestro Mitropoulos.

  8. Leonardo T. Oliveira
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    Pra constar: excelente e vigorosa gravação do Backhaus em 1937 tocando a Sonata para Piano No. 32 em Dó menor Op. 111 de Beethoven – http://www.youtube.com/watch?v=JoeseZdKWYg.

  9. Luisa Figueira
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    Bom dia,
    Peço o favor aos melómanos aqui presentes de me esclarecerem sobre um comentário que ouvi ainda agora na Antena 2-Portugal, que o maestro Giusseppe Sinopoli morreu enquanto regia o adaggieto de Maller,sinf. nº 5.
    Tentei confirmar isso e o google remete para outro maetro a morte quase em palco mas relativamente a um outro compositor.
    Alguém me pode esclarecer sobre este assunto?
    Obrigada
    Luisa Figueira

  10. Amancio Cueto Jr.
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    Bom dia Luisa!

    Realmente a informação não está 100% completa. Sinopoli morreu regendo, sim, mas não o Adagietto da Quinta de Mahler e sim a ópera Aída de Verdi. Sinopoli estava no terceiro ato da récita, quase a iniciar o dueto entre Aida e Radamés, quando “caiu como uma árvore”, segundo relatos. Procurando no Google “Sinopoli Aida” é possível encontrar vários artigos falando do assunto, mas o que eu mais gostei foi o do Norman Lebrecht, que fala não só do Sinopoli mas também de outros regentes que morreram no pódio. Aqui o artigo:
    http://www.scena.org/columns/lebrecht/010425-NL-healthconductors.html

  11. Flavio J. Morsch
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    Leonardo e Amâncio,
    Eu nao sabia que K. Ferrier “nao aguentasse” a beleza do “Ewig” da Canção da Terra. Isso é Síndrome de Stendhal, catalogada pela Medicina. Já a morte de Sinopoli em Aída me parece fortuita.
    A menção de N. Lebrecht me lembrou o livro dele sobre vários regentes que ele demoniza, principalmete Karajan, o que me fez supor que ele, Lebrecht, fosse também uma jararaca interesseira…ainda que diga algumas coisas verossímeis. Mas o jet-set é esse mesmo:os que perdem sucesso atacam os que o conquistam.

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