Dvorák: Polednice (“A Bruxa do Meio-Dia”) Op. 108

Depois de uma introdução geral e uma análise do Vodník, o post de hoje retoma a seqüência de análises dos poemas sinfônicos de Dvorák com a Polednice, comumente traduzida por “A Bruxa do Meio-Dia” (em tradução que segue o inglês “The Noonday Witch” ou “The Noon Witch”, enquanto “polednice” mesmo seria apenas “meio-dia” em tcheco). Continuamos no universo das lendas tchecas versificadas por Karel Jaromír Erben na Kytice, e, mais uma vez, deixaremos que a própria música de Dvorák nos conte a estória de hoje.

Vale notar que, musicalmente, se no Vodník o motivo musical onipresente do Espírito das Águas gerava episódios que se alternavam à sua presença na estória, em uma estrutura musical comparável ao rondó, a Polednice é um pouco mais livre: podemos identificar, nas mudanças de andamento, um roteiro que lembra a condensação de uma sinfonia de movimentos rápido-lento-rápido-rápido, com um penúltimo episódio de ritmo ternário. Mas o que confere unidade e o que realmente importa na estrutura da obra é, de novo, a matriz comum na construção dos seus motivos musicais (tal como no Vodník, quando todos os temas eram construídos sobre três ou quatro notas repetidas) e a interação desses motivos na música, aqui um tanto mais sofisticada.

Vejamos pois!

A criança

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 01. Child (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

A obra inicia nos apresentando uma criança que brinca no canto da cozinha. Sua mãe prepara o almoço para o marido, que – perto do meio-dia – logo deve voltar do trabalho para almoçar com a família. Esse simples tema inicial, em dó maior, é um pequeno idílio, formando o motivo musical da criança:

Motivo da Criança

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Que bonitinho!

O galinho

Ké-ké-ké-kééé!

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 02. Toy cockerel (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Entre os brinquedos, a criança brinca com um galinho, que faz um barulho mais ou menos assim: “ké-ké-ké-kééé!”. A mãe, toda ocupada com o almoço, já há pouco tinha alcançado o galinho pra criança não ficar chorando por atenção enquanto ela se ocupa na cozinha.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 03. Keep playing (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Ouvimos de novo o motivo da criança, que continua brincando. O galinho volta a fazer o barulho irritante, dessa vez de um jeitinho acintoso muito próprio de criança querendo chamar a atenção…

A bronca

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 04. Mother’s Anger (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

A mãe se irrita! Ouvimos exatamente o motivo do galinho – “ké-ké-ké-kééé!” – mas em um tom autoritário nas cordas, agora em dó menor, mostrando a causa da queixa da mãe.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 05. Mother’s Roasting (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

A queixa nos leva a um motivo musical construído sobre uma pequena escala descendente e autoritária, que, notem bem…, em tonalidade maior (mi bemol maior) não deixa de soar carinhosa, conferindo bem a medida de uma bronca de mãe: impositiva, mas não violenta nem odiosa.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 06. Child crying (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

O motivo do galinho – “ké-ké-ké-kééé!” -, com o triângulo fazendo um escândalo ao fundo, volta pra nos mostrar a criança chorando pela bronca da mãe. Em seguida ouvimos uma passagem de transição: uma pequena escala cromática é tocada ora de um lado – por oboés e segundos violinos -, ora de outro lado – por flautas, clarinetes, primeiros violinos e violas -, em uma espécie de disputa que visualiza o dueto inconciliado entre a mãe dando uma bronca e a criança chorando. A criança sai do seu cantinho enquanto chora.

Vai pro cantinho!

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 07. Mother’s Roasting II (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Ao colocar a criança novamente no cantinho com seus brinquedos, conhecemos o motivo musical que será usado na obra para identificar a mãe:

Motivo da Mãe

Temos com ele um retrato completo da função de autoridade da mãe diante de todo o escândalo da criança, brigando e explicando que a criança deve ficar quietinha até o paizinho chegar e o almoço ficar pronto.

Notem como o tema completo é montado sobre essa célula bem simples, o tal motivo da mãe:

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 08. Mother Motif (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

A ameaça

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 09. Mother Threatens the Child with the Story of the Noonday Witch (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Como se a bronca não fosse o bastante contra o choro e a bagunça, a mãe apela pra uma velha lenda bem convincente: “Se você não ficar quietinho, eu vou chamar a bruxa do meio-dia!”. É que existe uma lenda tcheca (cruel como a da Cuca), muito usada pra acalmar criança, que diz que a criança que não fica quieta e não se comporta é roubada pela Bruxa do Meio-Dia. E aqui conhecemos o anguloso motivo da Bruxa do Meio-dia:

Motivo da Bruxa do Meio-Dia

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 10. The Noonday Witch motif (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Então um silêncio sinistro fica no ar, e não é por menos…:

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 09b. Silence after the Story of the Noonday Witch (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

A criança se acalma.

Brincar sem barulho?

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 11. Reenactment (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Vamos ouvindo o pedal que ouvimos no início da obra, e então o motivo da criança é tocado novamente. Ela bem que se acalmou, mas que graça tem brincar sem fazer barulho?! Ouvimos quase toda esta cena até aqui novamente – boa oportunidade pra você revisar o programa:

– a criança brincando com o galinho barulhento

– e a mãe se zangando e lhe dando uma bronca

No finzinho dessa reencenação, prestes a surgir o motivo da mãe, começamos a ouvir uma instrumentação diferente da anterior: uma díade si-mi nos sopros graves nos leva ao motivo da mãe tocado pelos sopros, aqui…:

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 12. Mother’s Roasting III (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

O motivo da mãe nos sopros é desenvolvido e conduz a música de lá menor para lá maior. Diferente da encenação mais literal e gestual do Vodník, a Polednice encena sua estória de maneira muito mais abstrata e psicológica, expondo os motivos musicais a reagirem um com o outro.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 13. Mother’s Roasting Development (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

A criança, tendo energia demais pra brincar quietinha, continua fazendo barulho com seu galinho. Ouvimos neste ponto um verdadeiro desenvolvimento temático: primeiro com uma variação do motivo da criança, depois com a desconstrução desse motivo e por último com o motivo do galinho passando de instrumento para instrumento na orquestra.

De repente, um brusco lá bemol é tocado pelas cordas graves e pelos metais. É um gelo na espinha que faz a mãe interromper a agitação com a criança e se concentrar em ouvir um barulho estranho…

A porta…

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 14. Door being opened (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

A porta da casa é lentamente aberta… Enquanto as cordas tocam uma constante oscilação de semitons em pianíssimo e em surdina, dando o clima de suspense, o clarinete baixo toca notas de apoio meio bizarras…

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 15. The Noonday Witch (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

É inacreditável, mas uma velha pavorosa surge da porta e se aproxima lentamente da mãe. Tendo sido chamada, a Bruxa do Meio-Dia apareceu! Ouvimos um tema sinistro em lá menor tocado pelo clarinete baixo e pelo fagote.

Tema da bruxa se aproximando da mãe

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“Me dê a criança!”

“Polednice”, de Nikola Culík

Então a bruxa diz à mãe:

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 16. Mother becomes desperate (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

“Me dê a criança!”. A mãe se desespera enquanto tenta proteger o filho. O mesmo tema musical anterior, do surgimento da bruxa, é usado para mostrar a bruxa e sua ordem incisiva nos trompetes e trombones. O desespero da mãe é respondido logo em seguida nas cordas, em uma escala descendente que lembra o motivo musical usado na primeira bronca que ela dava ao filho (transformado aqui no seu avesso emocional: o medo).

Já pensando em um dos motivos unificadores da obra, é curioso notar como esse tema da ordem da bruxa tem um desenho muito parecido com o motivo da mãe, só que um pouco mais lento e com um arpejo ao invés de uma escala. Há um cruzamento de papéis nessa cena, quando agora é a bruxa quem sujeita a mãe a uma ordem autoritária.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 17. Reenactment II (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

A bruxa volta a se aproximar lentamente da mãe, e ouvimos a mesma seqüência anterior da aproximação e do pedido da bruxa à mãe e o seu desespero, mas agora a partir da tonalidade de dó menor (depois do lá menor anterior).

Pode parecer algo infantil musicar lendas sobre criaturas fantásticas que ameaçam filhos desobedientes, mas – para além das caracterizações que permitem a Dvorák uma sofisticada e verdadeira disputa de identidades no plano musical – o retrato dramático do desespero nessa passagem é um dos mais impressionantes que eu conheço. Poucas vezes o medo na música apelou tão francamente para o nosso terror diante da idéia do desconhecido. Se Erben compilou essas lendas como forma de legitimar a identidade tcheca por meio de suas tradições, Dvorák o ajuda a revelar os traços psicológicos mais ricos e mais poderosos contidos nessas lendas.

Bruxa x Mãe

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 18. The Noonday Witch motif Development (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Então a tal sofisticação no uso de motivos musicais alcança um clímax: quando a Bruxa do Meio-Dia enfim assume sua identidade, finalmente ouvimos o Motivo da Bruxa!, aquele que havia aparecido quando a mãe ameaçava a criança contando sua estória. A passagem é em ritmo ternário (ritmo de dança) e repete o motivo da bruxa por três vezes, fazendo-o tomar cada vez mais a orquestra.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 19. The Noonday Witch motif and the Ask for the Child I (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Depois de exposto três vezes, o motivo da bruxa é exposto nos baixos ao mesmo tempo em que ouvimos um motivo agitado, formado como que da abreviação do motivo da bruxa:

“Motivo da Bruxa” + “Motivo Agitado” ao mesmo tempo

No acúmulo dessa tensão, surge novamente o tema do “Me dê a criança!” nos trompetes e trombones, com os sopros desenvolvendo uma melodia nova como acompanhamento, representando os gritos da mãe! A bruxa está avançando em volta da mãe com uma dança sinistra, e a mãe está protegendo a criança apertando-a nos braços.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 20. The Noonday Witch motif and the Ask for the Child II (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Ouvimos o mesmo padrão anterior: motivo da bruxa + motivo agitado, enquanto as trompas intervêm com um Si dissonante marcando o primeiro tempo em cada compasso em meio à agitação. No fim, mais uma vez o “Me dê a criança!” e os gritos da mãe que foge ao fundo nos sopros.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 21. The Noonday Witch motif III (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Por uma terceira vez ouvimos o padrão anterior, só que agora os mesmo motivos sofrem variações, sendo encurtados. Há um pequeno desenvolvimento que torna a redução do material musical repetitiva, mais insistente e mais persuasiva (e mais sufocante!), até a tensão chegar ao ápice. Esse padrão que foi repetido três vezes com cada vez maior agitação formou um crescendo, e a bruxa foi lançando e impondo cada vez mais os seus sortilégios.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 22. Mother collapses (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Ouvimos um tema lânguido nos violinos, descendo em semitons: a mãe, com o filho apertado nos braços, está tendo um colapso! Os sopros tocam de modo hipnotizante, como o estranho feitiço da bruxa, e não cessam de tocar enquanto a mãe vai desmaiando aos poucos…

Meio-Dia

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 23. Clock and Mother motif (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Toca o cuco acusando a chegada do meio-dia, enquanto as cordas tocam exatamente o motivo da mãe, mostrando que só ela ficou, e a bruxa desapareceu.

O pai

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 24. Father arrives (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Chega o pai para o almoço, completamente desavisado!

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 25. Father opens the door (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Ele logo vê que algo não está bem, e finalmente abre a porta da cozinha.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 26. Father tries to revive Mother (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Ao se aproximar, o oboé toca lentamente o motivo da mãe (sim!) e revela que ela está caída no chão. O pai chega junto dela rapidamente, e docemente tenta reanimá-la. Os sopros (flautas e clarinetes), oscilando semitons, dão bem o gesto da respiração que tenta ser recuperada.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 27. Mother regains consciousness (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Recuperando o ar, a mãe finalmente retoma a consciência. Musicalmente a passagem é liiinda: uma modulação de fá maior pra lá maior mostra a reanimação da mãe como uma luz que volta a acender.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 28. Child is dead! (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Ao mesmo tempo em que a mãe acorda …oh, não!, a criança ficou embaixo dela e foi esmagada! Um tema dramático representa o desespero dos pais.

Cena do filme “Kytice” (2000), dirigido por F. A. Brabec

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 29. The Noonday Witch wins (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Ouvimos, triunfante, o tema do imperativo da bruxa pela criança – o “Me dê a criança!” -, mostrando que a bruxa foi vingada por não ter tido a ordem obedecida.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 30. The Noonday Witch vanishes (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

E então o motivo da bruxa toca o seu júbilo diabólico, enquanto ela vai embora pelos campos de trigo.

Este post pertence à série:
1. Dvorák: Introdução aos Poemas Sinfônicos
2. Dvorák: Vodník (“O Espírito das Águas”) Op. 107
3. Dvorák: Polednice (“A Bruxa do Meio-Dia”) Op. 108
4. Dvorák: Zlatý kolovrat (“A Roca de Ouro”) Op. 109
5. Dvorák: Holoubek (“A Pomba do Bosque”) Op. 110
6. Dvorák: Písen bohatýrská (“Canção de um Herói”) Op. 111

12 Respostas

  1. Leonardo T. Oliveira
    |

    Uma bela dramatização das lendas da Kytice é o filme “Kytice”, dirigido por Františka A. Brabce, e podemos ver uma boa cena contando a estória da Polednice: http://www.youtube.com/watch?v=PYxVdKCaIzM. Há algumas omissões, mas a idéia básica ficou bem encenada.

    E quanto ao título, “Polednice” é um nome que remonta a uma lenda eslava de diferente reverberações, mas que basicamente diz respeito a uma bruxa cujo aparecimento está ligado ao meio-dia. Em muitas versões ela é uma bruxa jovem, e daí também o nome “Lady Midday”: http://en.wikipedia.org/wiki/Lady_Midday.

  2. Ludwig van Winkle
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    Linda análise, parabéns!

  3. Amancio Cueto Jr.
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    Bravíssimo!

  4. Daniel
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    Excelente!
    Pode parecer meio bobo mas caí na gargalhada quando a mãe deu a bronca pela primeira vez! :-)

  5. Américo Neto
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    muito bacana ilustrar as passagens da música! Podemos aprender de forma bem interessante! mas só consegui ouvir os 2 primeiros trechos… os demais estão com problema

  6. Leonardo T. Oliveira
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    Oi, Américo! Devia ser um momento ruim do servidor! Às vezes ele não ajuda, mas normalmente os players funcionam (ainda bem!, pois sempre dá trabalho separar tudo).

    Um abraço!

  7. Emerson Coelho
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    Belíssima análise. A música é tão bela quanto a do poema anterior. Neste, o tema é pegajoso, no bom sentido.

    Otto Maria Carpeaux não era muito fã de música de programa, e parece-me que isso não era exclusividade sua. Ainda hoje vejo que muitos tem como que um preconceito mesmo quanto à música programática. É como o gênero policial em literatura. o que você acha?

    p.s.:
    o “Ké-ké-ké-kééé!” furioso me lembrou o tema da 5ª de beethoven!!! rrsrsrsrsr.

  8. Leonardo T. Oliveira
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    Emerson,

    A rejeição à música de programa tem mesmo raízes profundas no quanto a música pode ou não ser enriquecida quando faz o seu sentido depender de uma alusão externa à própria linguagem musical. Seria o resultado algo inferior? Mesmo infantil? (no sentido de desapropriar a linguagem musical da sua apreciação puramente musical e adequá-la à imaginação pura e simples de coisas e estórias). Mas, ao mesmo tempo, o poder alusivo da música não seria um elemento não só irresistível como inevitável? E será que a alusão necessariamente destitui a música da sua auto-suficiência? Etc.

    Um post que tratou quase que exclusivamente do assunto foi “A objetividade e a subjetividade na música – Parte II”. A carta de Tchaikovsky comentando a inspiração da sua Sinfonia No. 4, que o Amancio traduziu e ilustrou aqui, também é um bom exemplo de como o compositor lida com essa questão. O resultado do dilema, muito discutido no séc. XIX quando fundamentou poéticas e manifestos, foi que os compositores passaram a experimentar esse gênero muitas vezes sem sequer divulgar um programa para a música (ficando apenas o título sugestivo da obra), mas deixando que a música e o seu poder alusivo fiquem completamente abertos e mesmo facultativos ao público (por exemplo, a “Canção de um Herói” do Dvorák é um poema sinfônico mas não teve nenhum programa divulgado pra sabermos exatamente o que é aludido – a interpretação da alusão fica a cargo da subjetividade de quem quiser). Nesses casos, de um lado, não se pode reclamar que a obra é insuficiente em si mesma, porque o compositor não força o público a enxergar seu sentido em um programa externo (e de quebra essas composições ainda apresentam uma organização formal apreciável em si mesma); enquanto, de outro, a possibilidade de uma interpretação alusiva que ilumine aspectos extramusicais da composição continua válida a quem se interessar pela relação da obra e sua inspiração revelada no título.

    Mas o resultado dessa rejeição e desconfiança com a música “não-absoluta” alcança também a situação em que o seu programa é de fato divulgado, pois muitas vezes sabemos que essa divulgação é feita com grande hesitação pelo compositor. É como se, depois da obra ser escrita, se tornasse tentador apresentar os seus méritos como puramente musicais e a sua inspiração como geral e abstrata, ao invés de reduzi-la a uma inspiração particular e figurativa. Também deve ser tentador apresentar a obra mais aberta a interpretações do que reduzi-la a uma referência mais especificada. Mas ora, essa é a graça do jogo nesse gênero, como nós vemos nessas obras do Dvorák.

  9. lucio
    |

    depois da ‘descoberta’ da subjetividade, individualidade e afins,
    tornou-se tarefa difícil dar resposta as coisas…
    outrora nos bastava saber que tudo era vontade de deus.
    mas hoje em dia se deseja adentra-las,
    e em seu íntimo notamos miriades de opiniões, às vezes em
    absoluta divergência, em outras não…

    mas que importa se pensam que a música pode ser algo de somenos
    no momento em que se dá a certas alianças,
    com outros ‘algos’ que não ela mesma?
    em parte, isso não passa de uma questão sensorial:
    uns gostam e outros não gostam.
    não obstante a música continuará a ser…

    mas isso que digo não é nenhuma conclusão,
    e trago, antes, mais uma questão:

    este sentimento que nos nasce quando temos contato com alguma ‘revelação’
    d’este tipo – saber o que se urde d’trás de acordes ‘programados’ – de…
    digamos… encanto, contemplação, não sei?!
    este sentimento não seria ‘em si’ uma espécie de desdém que não se sabe;
    que não se chama ‘desdém’, e que PASSA A admirar algum opus somente depois
    que seu conteúdo não-intrínseco é apreendido?
    como que uma obra assim talhada – para ser programática – estivesse fadada
    a ser uma ‘esfinge’ que desvia os viandantes de seu caminho ou apreciação.
    e nosso ‘édipo’ aqui é o ‘script’ [lícito chamar assim?]… abrindo a passagem
    para uma nova forma de sentir – antes impossível! – aquela música.

    enfim, digo isso apenas devido a esta emoção,
    que creio, seja a de quase todos de quando deparados
    com estes ‘mistérios’ silenciosamente narrados e ocultos
    na música que cruza continentes…

    então penso:

    – ‘já ouvi estes poemas sinfônicos anteriormente.
    aliás, foram uma das primeiras composições com que tive contato
    em meus primeiros passos no salão da musica erudita.
    não me impressionaram muito… mas agora que sei de seu ‘teor simbólico’
    devo por ele me encantar imediatamente e projetar este opus para
    elevadas escalas de meu gosto? [e a grande questão em seguida…]
    nunca olharia com bons olhos para os poemas de dvo?ák se não soubesse
    de sua riqueza narrativa? bem provável que sim… nunca!
    como soariam estas mudanças repentinas de ambientação?,
    estes contrastes de motivos?, este ké-ké-ké-kééééé?
    decerto que algo bem confuso ou até desinteressante…’

    dúbio preconceito?
    desprezo devido a ignorância?
    limitação d’este tipo de composição?

    façam suas apostas…

  10. José Farias
    |

    Bom. Muito bom. Diante de material tão precioso, se torna constrangedor exigir mais. Mas, talvez, ao avisar, esteja eu de alguma forma ajudando. (Ou não!) Estou me referindo aos 3 links seguintes desta série:
    4. Dvorák: Zlatý kolovrat (“A Roca de Ouro”) Op. 109
    5. Dvorák: Holoubek (“A Pomba do Bosque”) Op. 110
    6. Dvorák: Písen bohatýrská (“Canção de um Herói”) Op. 111
    Meus respeitos e gratidão, por poder ler coisas tão boas.
    J.Farias-PE

  11. José Farias
    |

    Como é bom, e belo, não apenas apreciar os sons deste Poema. Mas entender cada passagem, cada movimento, cada sequência. Isso é mais que ouvir música, é viver a própria fantasia do poema. Me pergunto se alguém que tenha lido o texto a cima e tenha ouvido na íntegra (como eu, pois tenho o CD), a Opus 108 completinha executada pela Filarmônica de Berlin e conduzida por Simon Rattle, não tenha criado um quadro mental onde aparece a mãe, a criança, a bruxa… E, até mesmo o ambiente. Pelos deuses! Espero viver mais 50 anos, e desejo que os organizadores do Blog vivam o dobro disso.
    J.Farias-PE

  12. Leonardo T. Oliveira
    |

    Caro José Farias,

    Fique tranquilo, você apenas ajuda nos lembrando da pendência dessas séries! Acho inaceitável que esta não tenha sido terminada até hoje.

    Nos próximos dois meses vou tentar produzir algo pra ir concluindo essas séries pendentes do blog, e espero enfim poder “cumprir minha palavra” desde que elas foram anunciadas.

    Obrigado e abraços!

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