Depois de uma introdução geral e uma análise do Vodník, o post de hoje retoma a seqüência de análises dos poemas sinfônicos de Dvorák com a Polednice, comumente traduzida por “A Bruxa do Meio-Dia” (em tradução que segue o inglês “The Noonday Witch” ou “The Noon Witch”, enquanto “polednice” mesmo seria apenas “meio-dia” em tcheco). Continuamos no universo das lendas tchecas versificadas por Karel Jaromír Erben na Kytice, e, mais uma vez, deixaremos que a própria música de Dvorák nos conte a estória de hoje.

Vale notar que, musicalmente, se no Vodník o motivo musical onipresente do Espírito das Águas gerava episódios que se alternavam à sua presença na estória, em uma estrutura musical comparável ao rondó, a Polednice é um pouco mais livre: podemos identificar, nas mudanças de andamento, um roteiro que lembra a condensação de uma sinfonia de movimentos rápido-lento-rápido-rápido, com um penúltimo episódio de ritmo ternário. Mas o que confere unidade e o que realmente importa na estrutura da obra é, de novo, a matriz comum na construção dos seus motivos musicais (tal como no Vodník, quando todos os temas eram construídos sobre três ou quatro notas repetidas) e a interação desses motivos na música, aqui um tanto mais sofisticada.

Vejamos pois!

A criança

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 01. Child (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

A obra inicia nos apresentando uma criança que brinca no canto da cozinha. Sua mãe prepara o almoço para o marido, que – perto do meio-dia – logo deve voltar do trabalho para almoçar com a família. Esse simples tema inicial, em dó maior, é um pequeno idílio, formando o motivo musical da criança:

Motivo da Criança

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Que bonitinho!

O galinho

Ké-ké-ké-kééé!

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 02. Toy cockerel (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Entre os brinquedos, a criança brinca com um galinho, que faz um barulho mais ou menos assim: “ké-ké-ké-kééé!”. A mãe, toda ocupada com o almoço, já há pouco tinha alcançado o galinho pra criança não ficar chorando por atenção enquanto ela se ocupa na cozinha.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 03. Keep playing (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Ouvimos de novo o motivo da criança, que continua brincando. O galinho volta a fazer o barulho irritante, dessa vez de um jeitinho acintoso muito próprio de criança querendo chamar a atenção…

A bronca

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 04. Mother’s Anger (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

A mãe se irrita! Ouvimos exatamente o motivo do galinho – “ké-ké-ké-kééé!” – mas em um tom autoritário nas cordas, agora em dó menor, mostrando a causa da queixa da mãe.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 05. Mother’s Roasting (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

A queixa nos leva a um motivo musical construído sobre uma pequena escala descendente e autoritária, que, notem bem…, em tonalidade maior (mi bemol maior) não deixa de soar carinhosa, conferindo bem a medida de uma bronca de mãe: impositiva, mas não violenta nem odiosa.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 06. Child crying (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

O motivo do galinho – “ké-ké-ké-kééé!” -, com o triângulo fazendo um escândalo ao fundo, volta pra nos mostrar a criança chorando pela bronca da mãe. Em seguida ouvimos uma passagem de transição: uma pequena escala cromática é tocada ora de um lado – por oboés e segundos violinos -, ora de outro lado – por flautas, clarinetes, primeiros violinos e violas -, em uma espécie de disputa que visualiza o dueto inconciliado entre a mãe dando uma bronca e a criança chorando. A criança sai do seu cantinho enquanto chora.

Vai pro cantinho!

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 07. Mother’s Roasting II (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Ao colocar a criança novamente no cantinho com seus brinquedos, conhecemos o motivo musical que será usado na obra para identificar a mãe:

Motivo da Mãe

Temos com ele um retrato completo da função de autoridade da mãe diante de todo o escândalo da criança, brigando e explicando que a criança deve ficar quietinha até o paizinho chegar e o almoço ficar pronto.

Notem como o tema completo é montado sobre essa célula bem simples, o tal motivo da mãe:

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 08. Mother Motif (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

A ameaça

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 09. Mother Threatens the Child with the Story of the Noonday Witch (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Como se a bronca não fosse o bastante contra o choro e a bagunça, a mãe apela pra uma velha lenda bem convincente: “Se você não ficar quietinho, eu vou chamar a bruxa do meio-dia!”. É que existe uma lenda tcheca (cruel como a da Cuca), muito usada pra acalmar criança, que diz que a criança que não fica quieta e não se comporta é roubada pela Bruxa do Meio-Dia. E aqui conhecemos o anguloso motivo da Bruxa do Meio-dia:

Motivo da Bruxa do Meio-Dia

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 10. The Noonday Witch motif (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Então um silêncio sinistro fica no ar, e não é por menos…:

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 09b. Silence after the Story of the Noonday Witch (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

A criança se acalma.

Brincar sem barulho?

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 11. Reenactment (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Vamos ouvindo o pedal que ouvimos no início da obra, e então o motivo da criança é tocado novamente. Ela bem que se acalmou, mas que graça tem brincar sem fazer barulho?! Ouvimos quase toda esta cena até aqui novamente – boa oportunidade pra você revisar o programa:

- a criança brincando com o galinho barulhento

- e a mãe se zangando e lhe dando uma bronca

No finzinho dessa reencenação, prestes a surgir o motivo da mãe, começamos a ouvir uma instrumentação diferente da anterior: uma díade si-mi nos sopros graves nos leva ao motivo da mãe tocado pelos sopros, aqui…:

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 12. Mother’s Roasting III (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

O motivo da mãe nos sopros é desenvolvido e conduz a música de lá menor para lá maior. Diferente da encenação mais literal e gestual do Vodník, a Polednice encena sua estória de maneira muito mais abstrata e psicológica, expondo os motivos musicais a reagirem um com o outro.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 13. Mother’s Roasting Development (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

A criança, tendo energia demais pra brincar quietinha, continua fazendo barulho com seu galinho. Ouvimos neste ponto um verdadeiro desenvolvimento temático: primeiro com uma variação do motivo da criança, depois com a desconstrução desse motivo e por último com o motivo do galinho passando de instrumento para instrumento na orquestra.

De repente, um brusco lá bemol é tocado pelas cordas graves e pelos metais. É um gelo na espinha que faz a mãe interromper a agitação com a criança e se concentrar em ouvir um barulho estranho…

A porta…

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 14. Door being opened (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

A porta da casa é lentamente aberta… Enquanto as cordas tocam uma constante oscilação de semitons em pianíssimo e em surdina, dando o clima de suspense, o clarinete baixo toca notas de apoio meio bizarras…

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 15. The Noonday Witch (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

É inacreditável, mas uma velha pavorosa surge da porta e se aproxima lentamente da mãe. Tendo sido chamada, a Bruxa do Meio-Dia apareceu! Ouvimos um tema sinistro em lá menor tocado pelo clarinete baixo e pelo fagote.

Tema da bruxa se aproximando da mãe

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“Me dê a criança!”

“Polednice”, de Nikola Culík

Então a bruxa diz à mãe:

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 16. Mother becomes desperate (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

“Me dê a criança!”. A mãe se desespera enquanto tenta proteger o filho. O mesmo tema musical anterior, do surgimento da bruxa, é usado para mostrar a bruxa e sua ordem incisiva nos trompetes e trombones. O desespero da mãe é respondido logo em seguida nas cordas, em uma escala descendente que lembra o motivo musical usado na primeira bronca que ela dava ao filho (transformado aqui no seu avesso emocional: o medo).

Já pensando em um dos motivos unificadores da obra, é curioso notar como esse tema da ordem da bruxa tem um desenho muito parecido com o motivo da mãe, só que um pouco mais lento e com um arpejo ao invés de uma escala. Há um cruzamento de papéis nessa cena, quando agora é a bruxa quem sujeita a mãe a uma ordem autoritária.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 17. Reenactment II (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

A bruxa volta a se aproximar lentamente da mãe, e ouvimos a mesma seqüência anterior da aproximação e do pedido da bruxa à mãe e o seu desespero, mas agora a partir da tonalidade de dó menor (depois do lá menor anterior).

Pode parecer algo infantil musicar lendas sobre criaturas fantásticas que ameaçam filhos desobedientes, mas – para além das caracterizações que permitem a Dvorák uma sofisticada e verdadeira disputa de identidades no plano musical – o retrato dramático do desespero nessa passagem é um dos mais impressionantes que eu conheço. Poucas vezes o medo na música apelou tão francamente para o nosso terror diante da idéia do desconhecido. Se Erben compilou essas lendas como forma de legitimar a identidade tcheca por meio de suas tradições, Dvorák o ajuda a revelar os traços psicológicos mais ricos e mais poderosos contidos nessas lendas.

Bruxa x Mãe

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 18. The Noonday Witch motif Development (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Então a tal sofisticação no uso de motivos musicais alcança um clímax: quando a Bruxa do Meio-Dia enfim assume sua identidade, finalmente ouvimos o Motivo da Bruxa!, aquele que havia aparecido quando a mãe ameaçava a criança contando sua estória. A passagem é em ritmo ternário (ritmo de dança) e repete o motivo da bruxa por três vezes, fazendo-o tomar cada vez mais a orquestra.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 19. The Noonday Witch motif and the Ask for the Child I (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Depois de exposto três vezes, o motivo da bruxa é exposto nos baixos ao mesmo tempo em que ouvimos um motivo agitado, formado como que da abreviação do motivo da bruxa:

“Motivo da Bruxa” + “Motivo Agitado” ao mesmo tempo

No acúmulo dessa tensão, surge novamente o tema do “Me dê a criança!” nos trompetes e trombones, com os sopros desenvolvendo uma melodia nova como acompanhamento, representando os gritos da mãe! A bruxa está avançando em volta da mãe com uma dança sinistra, e a mãe está protegendo a criança apertando-a nos braços.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 20. The Noonday Witch motif and the Ask for the Child II (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Ouvimos o mesmo padrão anterior: motivo da bruxa + motivo agitado, enquanto as trompas intervêm com um Si dissonante marcando o primeiro tempo em cada compasso em meio à agitação. No fim, mais uma vez o “Me dê a criança!” e os gritos da mãe que foge ao fundo nos sopros.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 21. The Noonday Witch motif III (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Por uma terceira vez ouvimos o padrão anterior, só que agora os mesmo motivos sofrem variações, sendo encurtados. Há um pequeno desenvolvimento que torna a redução do material musical repetitiva, mais insistente e mais persuasiva (e mais sufocante!), até a tensão chegar ao ápice. Esse padrão que foi repetido três vezes com cada vez maior agitação formou um crescendo, e a bruxa foi lançando e impondo cada vez mais os seus sortilégios.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 22. Mother collapses (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Ouvimos um tema lânguido nos violinos, descendo em semitons: a mãe, com o filho apertado nos braços, está tendo um colapso! Os sopros tocam de modo hipnotizante, como o estranho feitiço da bruxa, e não cessam de tocar enquanto a mãe vai desmaiando aos poucos…

Meio-Dia

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 23. Clock and Mother motif (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Toca o cuco acusando a chegada do meio-dia, enquanto as cordas tocam exatamente o motivo da mãe, mostrando que só ela ficou, e a bruxa desapareceu.

O pai

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 24. Father arrives (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Chega o pai para o almoço, completamente desavisado!

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 25. Father opens the door (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Ele logo vê que algo não está bem, e finalmente abre a porta da cozinha.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 26. Father tries to revive Mother (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Ao se aproximar, o oboé toca lentamente o motivo da mãe (sim!) e revela que ela está caída no chão. O pai chega junto dela rapidamente, e docemente tenta reanimá-la. Os sopros (flautas e clarinetes), oscilando semitons, dão bem o gesto da respiração que tenta ser recuperada.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 27. Mother regains consciousness (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Recuperando o ar, a mãe finalmente retoma a consciência. Musicalmente a passagem é liiinda: uma modulação de fá maior pra lá maior mostra a reanimação da mãe como uma luz que volta a acender.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 28. Child is dead! (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Ao mesmo tempo em que a mãe acorda …oh, não!, a criança ficou embaixo dela e foi esmagada! Um tema dramático representa o desespero dos pais.

Cena do filme “Kytice” (2000), dirigido por F. A. Brabec

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 29. The Noonday Witch wins (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

Ouvimos, triunfante, o tema do imperativo da bruxa pela criança – o “Me dê a criança!” -, mostrando que a bruxa foi vingada por não ter tido a ordem obedecida.

Dvorák – The Noonday Witch Op. 108 – 30. The Noonday Witch vanishes (Rafael Kubelik – Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks – 1974):

E então o motivo da bruxa toca o seu júbilo diabólico, enquanto ela vai embora pelos campos de trigo.

Este post pertence à série:
1. Dvorák: Introdução aos Poemas Sinfônicos
2. Dvorák: Vodník (“O Espírito das Águas”) Op. 107
3. Dvorák: Polednice (“A Bruxa do Meio-Dia”) Op. 108
4. Dvorák: Zlatý kolovrat (“A Roca de Ouro”) Op. 109
5. Dvorák: Holoubek (“A Pomba do Bosque”) Op. 110
6. Dvorák: Písen bohatýrská (“Canção de um Herói”) Op. 111