Ouvindo Beethoven (1900), pintura de Lionello Balestrieri (1872-1958)

Cá estamos no terceiro post da série sobre “música clássica”, em que pensamos se vale a pena entender essa expressão e se ela realmente consegue se referir a alguma coisa inteligível.

No primeiro post, entendemos que a idéia de uma “música clássica” não se refere a um estilo de música, mas a um gênero de música com seus próprios estilos. E no segundo e último post fomos um tanto além, entendendo que essa expressão, “música clássica”, procura descrever um aspecto da técnica que a diferencia da música popular: enquanto a técnica na música popular reproduz formas ligadas ao estilo dessa música, a técnica na música clássica manipula formas que, além de darem suporte ao conteúdo expressivo da música, carregam conteúdo elas próprias. Sim, como é um pouco difícil e abstrato de visualizar isso, este post serve pra entendermos isso NA PRÁTICA.

Na prática

Manuscrito de Beethoven contendo rascunhos para o Lied Op. 75 No. 3 e a Sonata para Piano Op. 81a

Ouviremos juntos apenas o comecinho do primeiro movimento da Sonata para Piano No. 26 em Mi bemol maior Op. 81a de Beethoven, no trecho referente à Introdução. E estaremos atrás de compreender o papel da forma nessa música, que nos faça entender que história é essa de “a forma carregar conteúdo” na música clássica.

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A música: Introdução

Começando:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 26 - 1. Trecho 01 - Lebewohl! (Nelson Freire)]: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

A música começou e tudo o que ouvimos foram três acordes descendo e tocados lentamente. Mas o último deles tem uma sensibilidade especial. Ao invés de ouvirmos isto, que seria o repouso mais esperado…

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 26 - 1. Trecho 02 - Lebewohl em Mi bemol maior (Nelson Freire)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

…nós ouvimos isto:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 26 - 1. Trecho 01 - Lebewohl! (Nelson Freire)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

É que no último acorde entrou o baixo, e o acorde se transformou no que, a quem se interessar, chama-se “cadência deceptiva”, não deixando a música acabar, mas dando uma sensação de algo pendente. Soa muito bonito, e é como se ouvíssemos uma palavra reticente, ao invés de um ponto final.

Depois:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 26 - 1. Trecho 03 (Nelson Freire)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

Surge uma figura melódica que sobe e ganha ritmo, mas o baixo continuou descendo, acompanhando o movimento de queda daqueles três primeiros acordes, e ainda nos sentimos como que diante de perguntas ao invés de chegarmos a uma resposta. Já conseguimos identificar o tempo da música, pois conseguimos contar UM-dois, UM-dois, …, o que significa que ela tem o compasso binário.

Então a frase recomeça:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 26 - 1. Trecho 04 (Nelson Freire)].

A figura daqueles três primeiros acordes (tam-tam-tammm) foi retrabalhada, e a música foi tocada uma oitava acima. Encerrando a frase, os três acordes iniciais voltaram a aparecer, só que com o último acorde apontando pra uma nova direção.

Aqui já entendemos que aqueles três primeiros acordes são a célula que tem montado a sintaxe de tudo o que estamos ouvindo. É como se aquele “tam-tam-tammm” (duas curtas e uma longa) fosse amealhado pra música montar as próprias frases. No começo da música, tivemos os três acordes e uma resposta um pouco indecisa. Agora ouvimos novamente os três acordes, e vejamos o que há pela frente:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 26 - 1. Trecho 05 (Nelson Freire)].

A música só ficou ainda mais triste, e ainda não parece ter decidido alguma coisa. Tecnicamente, a música não afirma a sua tônica nunca, ou seja, quando parece que nós vamos conhecer qual é o seu repouso, ela toca um acorde dúbio e segue pra outras direções. Vejamos como ela continua reagindo a esse dilema ainda lento e estático, pra ver se chegamos a alguma conclusão:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 26 - 1. Trecho 06 (Nelson Freire)].

Aqui nós ouvimos a música tateando e tateando ainda em busca do seu repouso, e as figuras que ela usa pra essa exploração claramente gestual é a mesma figura daqueles três primeiros acordes (tam-tam-tammm), só que invertidos, apontando pra cima, e com o ritmo quebrado. Mas parece que ela estava chegando em algum lugar, não?

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 26 - 1. Trecho 07 (Nelson Freire)].

Achou! Depois de tatear, ela encontra o acorde de Mi bemol maior, onde ela entra num forte e no que poderíamos chamar de uma gran intrata. Essa busca foi importante porque ao encontrar o acorde de Mi bemol maior, a música define a sua tônica, ou seja, define qual é o seu chão, e agora já sabe onde pisar. É como se toda essa introdução que ouvimos tivesse tido o papel de buscar uma resposta para aquela figura inicial dos três acordes, que surgiu de maneira tão dúbia e enigmática. E agora, finalmente encontrando uma resposta, a música pode, de fato, começar.

Forma do conteúdo

As nuvens às vezes também são formas que carregam conteúdo

Se pensarmos no papel da “forma” de que falávamos no post anterior, veremos que toda essa sensação de ambigüidade tonal foi dada pela manipulação das possibilidades de cada acorde: quando Beethoven percebia que a música repousaria sobre uma tonalidade, ele encontrou dentro do acorde da vez a sugestão de um novo caminho, e assim encenou uma introdução onde a tristeza expressiva que nós ouvimos do pianista é também uma “tristeza” formal de uma música que não encontra a sua tônica. Faz sentido? Ao invés de reproduzir uma forma que lhe permitisse mostrar todo o seu talento em criar belas melodias e belos contrastes, Beethoven se vê diante de uma composição que cobra dele a manipulação de uma forma que, já no seu início, precisa decidir o grave problema de como afirmar a sua tônica! A música guarda uma verdadeira estória formal, em que os termos que deveriam construir uma música enfrentam sérias dúvidas até se estabelecerem. E isso é que é a forma “carregar conteúdo”. Isso é que é a forma ser apreciável junto ao conteúdo expressivo que ela comunica. Afinal, antes mesmo de ouvirmos essa música e sermos afetados pelo seu conteúdo expressivo, é possível alguém chegar e nos contar o que acontece na sua forma, e nós saberemos que: três acordes em uma cadência deceptiva desencadeiam uma instabilidade tonal até o encontro da tônica – uma bela e reveladora estória formal já de início, apreciável em si mesma… E isso que eu não mostrei o resto, onde aqueles três acordes vão gerar a música inteira.

Pra quem ficou curioso, eis o movimento completo:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 26 in E flat major Op. 81a 'Les Adieux' - 1. Adagio - Allegro (Das Lebewohl) (Nelson Freire)].

E pra quem quer saber melhor como é que acontece essa ambigüidade toda, um post futuro deve analisar essa sonata completa, se detendo em aspectos um pouco mais técnicos.

E agora?

E agora?! Sei que não me agüentam mais falar no assunto, mas depois de Bruno Gripp ter escrito sua tetralogia, esta série também pretende ser encerrada com um quarto e último post que responda à velha questão ainda pendente:

Ok, na música clássica a forma tem conteúdo, tem quase uma estorinha mesmo…, mas será que todo mundo presta atenção nisso? E eu, pra ouvir música clássica, vou ter que ficar correndo atrás de manuais que me expliquem essas coisas? Senão não posso?! Senão “não vou entender”?! Ah…, será justa tal segregação aos ouvintes que só querem ouvir uma música legal?

Este post pertence à série:
1. Música clássica: um gênero?, um estilo?, uma prateleria de CDs?
2. Música clássica: o conteúdo da técnica
3. Música clássica: ouvindo arte (na prática)
4. Música clássica: a desumana exigência da forma
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