O livro de hinos Graduale Aboense, exemplo de notação musical medieval (sécs. XIV-XV)

No último post nos propusemos a encontrar alguma utilidade verdadeira em se pensar o que seja “música clássica”. A primeira conclusão a que chegamos foi de que é menos importante discutirmos a expressão – se “música clássica”, “música erudita”, “música de concerto” ou “música de linguagem” –, e menos importante decidirmos se Gershwin é clássico ou popular, do que entendermos que “música clássica” não pode se referir à idéia de um estilo ao lado de outros tantos estilos de música, mas sim à idéia de um grande gênero, tal como a música popular, contendo diversos estilos subordinados a ela. Ou você faz essa distinção, ou pode ficar: 1) simplesmente surdo às diferenças de estilo de uma música de 800 anos de diversidade; e 2) simplesmente cético àquilo que torna a técnica e o tipo de audição da música clássica um pouco diferentes de toda a música popular.

Agora só falta descobrir melhor que diferença de técnica é essa (fazendo suspense para o desafio de uma generalização neste ponto), e ver se vale a pena comprar a idéia de que a música clássica pode impor uma condição de entendimento e fruição sem que isso me faça desistir de ouvi-la por ter muita preguiça.

Definição de técnica

Matthäus Merian (1593-1650): Atalanta fugiens - Emblem 15 (1617) - um oleiro aplicando sua *técnica*

Comecemos brevemente pelo que seja “técnica”. Vamos supor que a gente consiga abstrair todas as circunstâncias da música: origem, meio, finalidade, etc. O que sobra é um objeto feito de sons e silêncios. Na construção desse objeto, entra necessariamente algo chamado “técnica”. Técnica é o jeito de fazer o objeto. Há uma infinidade de maneiras de se fazê-lo, e a escolha de uma maneira define diretamente como será esse objeto em si mesmo, e como ele se apresentará para o público. Agora é só compararmos.

Música popular

Peguemos uma composição de música popular: de jazz, por exemplo, seja o bepop, o free jazz ou o cool jazz. O músico que a escreve aprendeu a criar diferentes seqüências de quatro ou oito acordes ao piano, a temperar os acordes com inversões e a improvisar melodias sobre determinadas escalas. Ou seja: ele conhece o estilo, gosta dele e aprendeu a sua técnica geral. A partir daí, a sua preocupação não será mais a escolha de uma técnica geral – pois essa escolha já foi feita –, mas a “expressão” da música criada com essa técnica. Quer dizer, uma vez escolhida a técnica, a sua preocupação terá mais a ver com a produção do conteúdo expressivo da música – a identidade dos seus temas, a beleza e a qualidade do som, a surpresa pela diversidade diante dos termos da técnica empregada – do que com qualquer outra coisa. E aqui já temos o retrato do papel da técnica nessa música: pra que a música popular, com toda a sua identidade e expressividade, venha à luz do dia, ela precisa ser confrontada a uma técnica, que o seu compositor terá escolhido e reproduzido conforme aprendeu.

John Coltrane em 1960, fotografado por Francis Wolff

Se ele tiver conhecimento de causa, ele pode manipular essa técnica? Sim, naturalmente – não há por definição esse tipo de limitação na música popular. Apenas vale lembrar que uma mudança de técnica acarreta um problema: a manipulação da técnica que ele escolher não deve chegar a transformar a música em um outro estilo de música, ou então ele estará sabotando um elemento sintático com o seu próprio público. Por isso a criação de novos estilos costuma ser fundada mais em mudanças de conteúdo expressivo (como o sincretismo do jazz fusion ou o do rock progressivo, com a incorporação de ritmos e timbres de outros estilos) do que em mudanças técnicas e formais – coisa bem mais rara de acontecer.

Claro…

E só pra deixar claro: é óbvio que esse músico de jazz, por si próprio, pode se interessar por diferentes estilos na sua carreira, aprender diferentes técnicas e escrever diferentes tipos de música – há muitos músicos cuja experiência musical mais profunda é a ambivalência de estilos, em álbuns que misturam faixas de hip-hop, blues, samba e rock. Isso apenas mostra que é a técnica que faz o músico, e não o contrário (pra que não se diga que “é música popular porque é Chico Buarque” ou “é música clássica porque é Mozart”, etc.). Agora vejamos a diferença na música clássica.

Música clássica

Na música clássica existem algumas formas tradicionais, que requerem cada uma a sua técnica – como as regras do contraponto e da imitação em uma fuga, a expectativa de modulação de tonalidade na seção de Desenvolvimento na forma-sonata, a execução das 12 notas de uma escala cromática em uma série da música serialista, etc. Há também formas que são simplesmente irreconhecíveis de antemão – como as composições que começam a receber o nome de fantasia, referindo-se a uma forma concebida exclusivamente para aquela composição. Há formas ambíguas – como as variações-sonatas (a Fantasia Wanderer de Schubert, a Sonata em Si menor de Liszt, a Sinfonia de Câmara Op. 9 de Schoenberg). E há formas simplesmente irreconhecíveis mesmo – como as últimas óperas de Wagner, as óperas de Berg, etc. Um compositor que queira escolher uma dessas formas, ou criar uma nova forma, terá que lidar com o fato de que essas formas, na sua variedade, não mudam apenas por uma questão estilística, mas mudam porque cada uma dessas formas também é apreciável em si mesma: forma-sonata, cânone, passacaglia, variações, etc. não são apenas “forma”, mas também “conteúdo”.

O quê?!

Primeira página da partitura para o "Quarteto Helicóptero" do Stokhausen - leve essa descrição a sério...

Sim, na música clássica, aquele objeto de sons e silêncios é construído com uma técnica que reflete não só uma plena consciência da linguagem musical por parte do seu autor, mas também uma manipulação (e não apenas reprodução) dessa linguagem pra que ela seja um meio de expressão válido em si mesmo. Um dos melhores exemplos disso, retomando aqui um exemplo dado no post anterior, é a estrutura com valor próprio incorporada em uma longa sinfonia de Bruckner: a estrutura que Bruckner retoma da tradição das sinfonias e que te ajuda a ordenar a massa sonora é uma verdadeira filosofia dialética, em que você vê os elementos musicais se organizando em uma verdadeira jornada de Exposição, Desenvolvimento e Reexposição, e esse conteúdo reside justamente na forma que a música assume. Quer dizer, além da música  clássica assumir um conteúdo expressivo, ela assume um conteúdo formal, em que coisas acontecem na forma e se oferecem para serem igualmente apreciadas como significado e como arte. E eis o retrato da técnica na música clássica: aqui, o jeito de fazer a música determina que a forma também vai carregar conteúdo, sempre (dos madrigais renascentistas ao Répons de Boulez). Não há muito espaço para a técnica ser simplesmente reproduzida, porque a característica da técnica da música clássica é prever uma manipulação de linguagem que torne a própria linguagem – o suporte ordenador do conteúdo expressivo – apreciável em si mesma.

E eu-qué-co?

Por fim, considerar essa diferença de técnica é considerar a postura do ouvinte de música: muitas vezes o ouvinte perde de vista a intencionalidade por trás do conteúdo expressivo da música clássica, que é o que torna essa expressão pertinente, porque não está apreciando o papel da forma, da técnica nessa música. O problema de uma audição “natural”, que não assuma jamais a responsabilidade de prestar atenção em coisas como forma e linguagem, é um problema comum dessa perda de significado do ouvinte diante da música clássica. O exemplo grosseiro do último post provocava justamente essa reflexão: onde reside a apreciação artística e formal, e não meramente sensível e passiva, da música clássica? A resposta: no conteúdo da forma.

Claro…

É claro, isso não significa que a forma não é importante na música popular, ou que o ouvinte de música popular seja sempre simplesmente passivo ao banho sonoro de ligar o som e esquecer de tudo e até de si mesmo. O conteúdo da música popular também impõe condições de apreciação, de familiaridade ao seu conteúdo expressivo. Mas o papel dado à sua forma não é o de ser um conteúdo de apreciação sempre recriável, e sim o de ter uma permanência que faz dessa forma a verdadeira afirmação da identidade de um estilo. Ou seja: é pela preservação da sua forma que um estilo na música popular prova a sua produtividade. E essa forma é uma forma que o público e os músicos já aprenderam a apreciar, e também já aprenderam a fazê-la abrigar uma gama de diversidade expressiva. Resumindo: na música popular, uma forma é reproduzida por consenso e o conteúdo expressivo é apreciado. Na música clássica, a escolha e a elaboração formal é uma constante e se alça para a apreciação junto ao conteúdo expressivo.

Próximo…

Pra um próximo e terceiro post da saga, só falta mostrar na prática o que é esse tal “conteúdo da forma”, e em seguida entendermos que essa noção aparentemente artificial de música – de atenção a uma linguagem apreciável – não é exclusividade de especialistas, não é exclusividade de leitores de manuais, e não é trabalho infantil: é só experimentar!

Até a próxima!

Este post pertence à série:
1. Música clássica: um gênero?, um estilo?, uma prateleria de CDs?
2. Música clássica: o conteúdo da técnica
3. Música clássica: ouvindo arte (na prática)
4. Música clássica: a desumana exigência da forma
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