Francisco de Goya (1746-1828): Caprichos: O sono da razão gera monstros (1799)

Há quem ouça uma sinfonia de Brahms procurando prestar muita atenção em aspectos formais. E há quem não preste atenção alguma nessas coisas. É provavelmente impossível definir um padrão adequado de audição: o que é, para além da pura fruição, “entender” uma obra musical? Quanto há para entender? E quanto é realmente importante entender pra que se diga que alguém de fato conhece uma música? Se já é próprio da arte arranjar os seus termos em uma ordem e em um ângulo que despertem a percepção da beleza, o sentido dessa percepção e as suas reais necessidades só serão decididos no próprio ouvinte. MÃS…

…nossa discussão nessa série de quatro posts sobre música clássica, que termina hoje, tem procurado a lição que podemos tirar em pensar o sentido da expressão “música clássica”. E a primeira lição é uma evidência: há uma qualidade intrínseca que preside a técnica com que certas obras musicais são escritas, e é para uma distinção neste ponto que as expressões “música clássica” e “música popular” servem. Como foi visto com detalhe nos dois últimos posts, na música popular a técnica, o modo de fazer a música, prevê em larga medida a apreciação de uma reprodução de formas ligadas ao estilo da música popular em questão. Na música clássica, a técnica prevê a apreciação de uma manipulação de formas escolhidas. É nessa expectativa e na tradição formada por essas posturas diante do objeto musical que os dois gêneros se formam. Mas foi aí que surgiu a questão: se na música clássica a forma é manipulada de tal forma que também carrega conteúdo em si mesma, eu vou ter que aprender a ler partitura e a me tornar um escansionista de formas musicais pra ouvi-la? Em outras palavras: qual será o grau de exigência para a percepção dessa forma musical trabalhada?

Do que eu preciso?

Aaron Copland tem um livro que já no título consegue passar algo de básico e de ambicioso ao mesmo tempo: What to listen for in music (literalmente “Ao que ouvir na música”, ou, na tradução de Luiz Paulo Horta pela Editora Artenova, “Como ouvir (e entender) música”). E o que logo de início ele elenca como a capacidade mais básica para a apreciação musical é a capacidade de reconhecer melodias:

Os “acontecimentos” musicais têm uma natureza mais abstrata, de modo que o ato de reuni-los novamente na imaginação não é tão fácil (…). Se você não pode reconhecer a melodia (…) e seguir as suas peregrinações e a sua metamorfose final, acho difícil que você possa acompanhar o desenvolvimento de uma obra. Você estará tendo uma consciência muito vaga da música. Mas reconhecer a melodia significa que você sabe onde está, em termos musicais, e tem uma boa chance de saber para onde está indo. Este é o único “sine qua non” para uma compreensão mais inteligente da música.

Questão básica mas ambiciosa de responder

Quer dizer, uma vez reconhecendo que isto:

Audio clip [Schubert - Symphony N. 9 - 1. Introdução]: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

…está presente aqui:

Audio clip [Schubert - Symphony N. 9 - 1. Coda]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

…nós já podemos começar a conversar. Senão, a prática traz essa percepcão naturalmente! O importante é que uma noção “plástica” da música, como essa de reconhecer a melodia, já representa o ouvinte diante da proposta de uma obra musical.

Isso decidido, surge aqui uma postura curiosa: a do ouvinte como aquele que busca se munir de conhecimento e de preparo para enfrentar os desafios da descoberta da beleza em uma obra musical. Tem quem veja nessa imagem algo de emocionante e animador. Tem quem veja algo de obsessivo e chato. O que eu tenho a dizer sobre isso? Duas coisas.

Arte x Beleza e Sentimentos

1) Quando descobrimos que na música clássica a forma também carrega conteúdo, essa descoberta é obviamente um atrativo, e não um fardo, que está reservado para o ouvinte na forma musical. A forma, nesse caso, organiza e amplia a comunicação do belo, e não a obstrui – é como conhecer as falas de um filme estrangeiro, ao invés de ficar com a expressão gratuita e inefável dos atores. É uma atenção comparável ao quanto a leitura de um poema ou romance predispõe o leitor a uma apreciação reflexiva, e isso o eleva a um nível mais alto do que a sensação pura que a realidade já lhe oferece diariamente com coisas perecíveis.

Caspar David Friedrich (1774-1840): O Viandante sobre o Mar de Neblina (1818) - O "wanderer" era um que, munido de uma alma sensível, saía pelo mundo desbravando o sentido do belo que podia levar consigo

2) As pessoas em geral gostam da beleza e dos sentimentos. Poucas gostam realmente de arte. Anthony Burgess, em seu livrinho de introdução à Literatura Inglesa, lembra que a construção da obra de arte dispõe o diletante à excitação da descoberta da beleza, tal como é a excitação da descoberta da verdade em outras disciplinas. Ou seja: arte, por definição, é depreensão de artifícios, e se há lugar em que nela reside o belo, esse lugar é o reconhecimento da ordem (e aqui há papel para a forma) que a torna uma expressão acabada.

Então aí vai a interpelação dramática, prepare-se: ou você é apenas um amante da beleza e dos sentimentos como sensações puras, ou é um amante da arte e assume o papel ativo de completar o sentido das conotações que ela oferece – afinal, é na atividade, e não na passividade, que surge a emoção da descoberta!

“Por que falar de música?” era uma das questões iniciais da série? Porque é animador falar do que se gosta e pra nos tornarmos ouvintes melhores. :)

Este post pertence à série:
1. Música clássica: um gênero?, um estilo?, uma prateleria de CDs?
2. Música clássica: o conteúdo da técnica
3. Música clássica: ouvindo arte (na prática)
4. Música clássica: a desumana exigência da forma
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