Beethoven com a Missa solemnis, retrato de Joseph Karl Stieler (1819)

Mais ou menos no dia 17 de dezembro de 1770, talvez ali entre a meia-noite e os primeiros minutos, nasceu Ludwig van Beethoven – o que lhe confere hoje 240 anos de aniversário! Como em nossa cultura as datas redondas nos incentivam a reforçar coisas importantes e a refletir sobre outras tantas, este post vem fazer a parte de Euterpe na homenagem.

Introdução

Um dos critérios gerais mais importantes que diferencia a mentalidade do artista do século XVIII e o do século XIX, que o vincule ao espírito clássico ou romântico, é a relação desse artista com a forma: um clássico parece separar forma e intenção – isto é, ele se expressa e cumpre suas intenções artísticas inserindo-se no repertório de formas criadas pela ocasião em que se relaciona com o público -, enquanto o romântico, pelo contrário, parece não separar forma e intenção, pois valoriza que a forma se molde como metáfora da sua individualidade, e o público que se ache no meio disso. Beethoven é um artista que atravessou um período de transição desses períodos e os extrapolou, justamente por ter a forma e os valores racionais e positivos do classicismo como princípios de linguagem, e ao mesmo tempo interferir constantemente nas formas clássicas com um ardil de tal forma inovador que desafia o sentido da convenção. E é esse ardil que manipula a forma com autoridade – e que não deixa de criar aquilo que parecia já estar germinado na própria forma – o que torna Beethoven surpreendentemente moderno: em cada obra, quando vamos olhar a partitura, encontramos uma surpresa, a busca por uma solução exclusiva. Como nem sempre nós, ouvintes de MP3 que ouvem música conversando pelo MSN, percebemos esses ardis, Euterpe brinda o aniversário de Beethoven selecionando dez momentos bizarros em sua obra – aqueles momentos surpreendentes, incomuns, mas que aliam engenho e arte, com inteligência e naturalidade. Vamos lá!

1. Recitativo em música instrumental

É sempre curioso quando a música instrumental emprega recitativos, um recurso próprio da música vocal – quando o cantor adota os ritmos da fala comum para pronunciar um texto em prosa. Um dos exemplos mais misteriosos na obra de Beethoven acontece na Sonata para Piano No. 17 em Ré menor Op. 31 No. 2 (1801), conhecida como “Tempestade”. A abertura da sonata é um arpejo da primeira inversão de Lá maior, a dominante da tônica da sonata, Ré menor:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 17 in D minor Op. 31 No. 2 - 1. Largo - Allegro - a. Arpeggio (András Schiff - 2005)]: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Quer dizer, ao invés de iniciar a sonata com uma abertura enfática da tônica, o que há é um arpejo de efeito incerto, meio transcendente, com a inversão do acorde. O arpejo ainda é repetido mais uma vez nesse começo, mas a partir daí a sonata segue em andamento rápido, como se nada tivesse acontecido. Então chega o Desenvolvimento, o arpejo volta com novas harmonias, e, quando aconteceria a Reexposição, a música começa a falar!

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 17 in D minor Op. 31 No. 2 - 1. Largo - Allegro - b. Speech I (András Schiff - 2005)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

É uma espécie de frase que a gente ouve ser pronunciada. A sonata ainda tenta seguir adiante com o tema principal…

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 17 in D minor Op. 31 No. 2 - 1. Largo - Allegro - c. Reexposition - Main Theme (András Schiff - 2005)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

…mas o ar etéreo do arpejo trazendo o recitativo, dessa vez abrindo em dó maior, ainda pronuncia mais uma vez as tais palavras:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 17 in D minor Op. 31 No. 2 - 1. Largo - Allegro - d. Speech II (András Schiff - 2005)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

É preciso exorcizar essa visão pra seguir adiante, com acordes e arpejos de bravura esfregando os olhos e despertando de uma vez:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 17 in D minor Op. 31 No. 2 - 1. Largo - Allegro - e. Exorcism (András Schiff - 2005)].

O mais assustador é que no segundo movimento é exatamente esse arpejo que aparece logo no começo, e daí pra nunca mais. O que essas passagens querem dizer pra sonata, vocês tentem me dizer!

Outros exemplos de recitativo em música instrumental em Beethoven é o da Sonata No. 31, no comecinho do último movimento, e na Sonata No. 29, a “Hammerklavier”, na introdução à fuga do último movimento.

2. Decisão final e Assassinato do tema

Beethoven consolida aquela expectativa moderna de um gran finale, pois seus finais são sempre  importantes, sempre formando um arco simétrico com a intensidade do início da obra. Há uma consciência da performance temporal da experiência musical, e a ordem dos acontecimentos é usada para criar e acumular algumas surpresas até o último instante da música. O Quarteto para Cordas No. 16 em Fá maior Op. 135 (1826), das últimas coisas que Beethoven escreveu, tem desse caráter propriamente beethoveniano de uma trajetória que só decide e resolve os seus problemas dramáticos (alegria ou tristeza?, triunfo ou danação?) no final da obra. E nesse clima de que ainda não temos nada de definitivo – clima de do-or-die -, o último movimento abre com uma introdução terrível, muito grave:

Audio clip [Beethoven - String Quartet No. 16 in F major Op. 135 - 1. a. Grave ma non Troppo Tanto (Melos Quartett - 1984)].

Manuscrito de Beethoven com as palavras "Muss es ein?"

Beethoven escreveu sob as primeiras notas desse tema as palavras “Muß es sein?” (“Deve ser isso?”). As palavras se encaixam no ritmo das primeiras notas, então é como se pudéssemos ouvir o cello e a viola cantando “Muuuß es seeein?”. Sempre a essa frase, os violinos cantam um lamento, até que chega um ponto em que começam a soltar como que gritos estridentes de desespero! Há uma oposição clara entre cello e viola (graves) x violinos (agudos).

Mas depois desse período inicial do movimento em que a gravidade põe em risco uma resolução mais otimista para a obra, surge um tema novo, mais rápido e aberto:

Audio clip [Beethoven - String Quartet No. 16 in F major Op. 135 - 1. b. Allegro (Melos Quartett - 1984)].

Manuscrito de Beethoven com as palavras "Es muss ein!"

Sob essas primeiras notas Beethoven escreve “Es muß sein!” (“Deve ser isto!”), e ouvimos o violino saindo e cantando “Es muuuß sein!” quase como Arquimedes saindo pelado da banheira gritando “eureka”. É o verdadeiro “ser ou não ser” da música, e a partir daqui sabemos que o tom da conclusão da obra terá outro rumo, um rumo conquistado depois de uma difícil decisão. Esse tipo de dilema dramático e existencial também acontece em obras como a Quinta Sinfonia, o Quarteto “Serioso” e a Nona Sinfonia, nesta última com as idéias sendo literalmente negociadas na frente do ouvinte, quando os contrabaixos vão rejeitando os temas anteriores da obra até brindarem o Tema da Alegria.

Voltando ao nosso quarteto, o tema dramático da introdução ainda vem receber um tratamento especial: ele volta no Desenvolvimento, e é literalmente rabiscado, anulado pelos violinos!

Audio clip [Beethoven - String Quartet No. 16 in F major Op. 135 - 1. c. Muss es ein x Es muss ein (Melos Quartett - 1984)].

É como se aos gritos o terror pudesse ser dissipado, e o “Es muß ein” agarrado com uma esperança indobrável. No fim não resta dúvida: é o “Es muß sein!” quem dá a última palavra (ufa!) para a conclusão da obra.

3.Variação-silêncio, Variação-acompanhamento e Notte e giorno faticar

Beethoven teve novas maneiras de pensar a variação musical, pois não tratou a variação meramente como ornamento à música, mas como transformações de toda ordem, desde o sentido de uma ampliação até o de uma desconstrução do tema. Eu considero as 33 Variações Diabelli Op. 120 (1823) a obra de Beethoven mais difícil de ter seu sentido entendido pelo ouvinte, porque cada variação tem atitiudes puramente musicais que, por mais radicais, exigem ouvidos que ouvem música, mais do que o efeito dos sons. Mas vou destacar três variações que fazem coisas absurdas o bastante pra serem reconhecidas.

A primeira é a Variação No. 13, em que Beethoven transforma o tema original escrito por Anton Diabelli:

Audio clip [Diabelli - Waltz (excerpt)].

…em silêncio!:

Audio clip [Beethoven - Diabelli Variations Op. 120 - Variation 13 (M. Pollini - 1998)].

O tema escrito por Diabelli é propositalmente muito simples, de muitas notas repetidas. E aqui, ao invés de Beethoven repetir as notas, ele repete é o silêncio mesmo, fazendo as notas saírem do pulso do compasso pra dar espaço às pausas (notem na partitura como ele repete a figura das pausas como se fossem notas). E o resultado é extremamente irônico, claro, fazendo parte das variações que “parodiam” o tema original.

Na Variação No. 20, o tema é reduzido de tal maneira que a sua estrutura harmônica é colocada a nu, e o que sobra é apenas o acompanhamento do tema!

Audio clip [Beethoven - 33 Variations on a Waltz by Diabelli Op. 120 - Variation 20. Andante (D. Barenboim - 1997)].

O resultado é algo estático e enigmático, é como se dissecássemos a música e experimentássemos vê-la com fascínio por dentro. Mas mesmo com a escolha de reduzir um tema ao acompanhamento, há variação, pois a harmonia é bastante deformada, desafiando a percepção monótona dos acordes. Mesmo tendo sido escrita em 1823, parece até experiência de música moderna, e tenho até o receio de que, destacando esses exemplos a quem não conhece a obra, ela pareça “vanguardista” e “experimental” no sentido mais formalista e menos verdadeiro artisticamente, quando na verdade são variações que seguem com muita naturalidade uma continuidade musical, e que soam muito espontâneas na seqüência da obra. Ao mesmo tempo, se há tamanha ironia com o tema é justamente porque na parte dessas variações a obra atravessa uma relação de “conflito” com ele, atacando-o com paródioas e com reduções.

Sobre reduzir a música ao acompanhamento, Beethoven ainda experimentaria algo parecido em uma das variações do Quarteto para Cordas No. 14 em Dó sustenido menor Op. 131.

E finalmente na Variação No. 22 Beethoven faz mágica: ele transforma, sem fugir da estrutura da variação, o tema do Diabelli em outra música, a primeira ária do Leporello na ópera Don Giovanni de Mozart, “Notte e giorno faticar”:

Audio clip [Beethoven - 33 Variations on a Waltz by Diabelli Op. 120 - 23. Variation 22. Allegro molto, alla 'Notte e giorno faticar' di Mozart (D. Barenboim - 1997)].

4. Mosaico

Por falar em variação, a Sonata para Piano No. 30 em Mi maior Op. 109 (1822) também termina com um belíssimo conjunto de tema e variações. Destaco a segunda delas, que mais parece um mosaico:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 30 in E major Op. 109 - 3. Andante molto cantabile ed espressivo - Variation II (A. Brendel - 1970)].

Os registros vão se alternando de tal maneira que o cérebro tem que montar a música ligando o que na prática está desligado. É uma espécie de ilusão sonora. Ao mesmo tempo, as notas que ficam em cima e as que ficam embaixo formam grupos coerentes, que cantam cada um motivos de sensibilidade. Além da criatividade mosaica, essa é uma das curiosas variações 2-em-1, pois assim que acaba a textura mosaica começa uma nova textura mais estável, com trinados e acordes. Tudo isso variando rigorosamente um tema comum de duas partes.

5. Acorde bizarro, Tema novo no Desenvolvimento, Seis acordes insistentes e Trompa errada

Manuscrito da "Eroica" com rasura de Beethoven apagando a dedicatória a Bonaparte

A Sinfonia No. 3 em Mi bemol Maior Op. 55 “Heróica” (1804) deve ser a sinfonia mais bizarra que existe. Ela é estranha mesmo dentro da produção da obra de Beethoven. O que destaco dela rapidamente são quatro instantes, todos do primeiro movimento.

- Um acorde quase inclassificável (!) que aparece no Desenvolvimento (depois de uma seqüência de sétimas diminutas que já tornava a passagem totalmente instável, vem esse pequeno monstro com um acorde da primeira inversão de Fá maior com sétima):

Audio clip [Beethoven - Symphony No. 3 in E flat major Op. 55 - 1. Allegro con brio - Unkown Chord (N. Harnoncourt - Europe Chamber Orch. - 1991)].

- Um tema completamente novo (!) que brota no Desenvolvimento (e volta na Coda) na enviesada tonalidade de mi menor (a tônica da obra é mi bemol maior). O Desenvolvimento é o lugar na forma-sonata em que o material da Exposição é desenvolvido, e não para temas novos. É quase uma Afrodite nascendo do …enfim, pois é um tema lindo (separo no player ambas as aparições dele no gigante Desenvolvimento):

Audio clip [Beethoven - Symphony No. 3 in E flat major Op. 55 - 1. Allegro con brio - New Theme (N. Harnoncourt - Europe Chamber Orch. - 1991)].

- Depois de uma seqüência de acordes sincopados, bem desencontrados com o ritmo ternário do movimento (tentem contar UM-dois-três, UM-dois-três pra ver se aqui as notas encaixam), vem uma seqüência de seis acordes dissonantes repetidos insistentemente no final da Exposição (e Reexposição), que parecem duas pessoas discutindo até polarizarem a discussão, cada uma para um lado, sem acordo (Amancio quem me lembrou disso):

Audio clip [Beethoven - Symphony No. 3 in E flat major Op. 55 - 1. Allegro con brio - Repeated Chords (N. Harnoncourt - Europe Chamber Orch. - 1991)].

- E uma passagem hilária: a trompa entrando “errado” na música. O Desenvolvimento estava acabando e chegaria a hora da música reexpor o tema principal. Mas enquanto a música ainda está na sétima da dominante, se preparando pra voltar à tônica de mi bemol maior, Beethoven escreve pra trompa entrar um pouco antes do resto da orquestra, criando esse eco adiantado e deslocado que surpreende muita gente:

Audio clip [Beethoven - Symphony No. 3 in E flat major Op. 55 - 1. Allegro con brio - Wrong Horn (N. Harnoncourt - Europe Chamber Orch. - 1991)].

O deslocamento é tão surpreendentemente radical que correções chegaram a ser propostas para uma rearmonização da passagem, tentando adequar melhor o papel dessa trompa “errada”. Acredito que essa tenha sido uma releitura extremamente original da chamada “Reexposição falsa“, um ardil muito usado por Haydn e pelo próprio Beethoven, mas aqui com o tema principal entrando na tonalidade certa no momento errado, ao invés de voltando na tonalidade errada no momento certo.

No primeiro movimento da Sonata para Piano No. 32 Op. 111 Beethoven ainda faria algo parecido, mas sem o efeito hilário.

E amanhã tem os outros cinco momentos bizarros!

Este post pertence à série:
1. 240 anos de Beethoven: 10 momentos bizarros – Parte I
2. 240 anos de Beethoven: 10 momentos bizarros – Parte II
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