Na última sexta, aconteceu o concerto de encerramento do ano da temporada da OSB. A orquestra tocou trechos da Carmen seguidos da Nona Sinfonia de Beethoven. Os primeiros movimentos passaram muito bem, em uma boa e sólida regência de Minczuk. E à parte problemas com a soprano, o último movimento correu muito bem até uma determinada passagem.

A passagem era o final das variações do tema principal para o coro, em que o coro canta “Vor Gott” naquilo que parece uma modulação para Lá maior (a dominante), mas, na última repetição, a orquestra faz uma cadência de engano e termina em fá natural (!) seguida de uma pausa. E, exatamente nesse ponto, parte do público explodiu em aplausos, um dos membros até gritou um “bravo”.

Audio clip [Beethoven - Symphony No. 9 in D minor Op. 125 - 4. Cadence (N. Harnoncourt - The Chamber Orchestra of Europe - 1991)]: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

A meu ver, essa reação do público demonstra pelo menos dois problemas, o primeiro é de educação. Há uma gana do público brasileiro em se mostrar efusivo e caloroso que faz com que ele, ao menor estímulo, dispare em aplausos. Ou seja, o interesse do público é mais de exprimir uma alegria (ou satisfação) do que em meditar naquilo que ouviu – não há uma ideia contemplativa da arte, ela deve ser imediatamente respondida com aplausos porque esta é a única maneira de se responder. Isso faz parte da personalidade brasileira e creio até ser difícil mudar.

O outro problema é talvez mais grave. A passagem em questão não era um fim formal, ela terminava em uma função tensa, uma cadência de engano, sexto grau, que indica que não há conclusão musical. A música pedia uma continuação e ela logicamente seguia no alla marcia (que comentamos há mais tempo). O público que aplaudiu nesse momento demonstrou ou uma extrema falta de sensibilidade musical ou que simplesmente não prestava atenção no que estava sendo tocado.

E aqui não se trata de conhecimentos musicais avançados, o ouvinte não precisa saber o que é uma cadência de engano, basta sentir uma conclusão musical. E qualquer pessoa que tenha ouvido uma música tonal antes (e, no caso deles nunca terem ouvido antes nenhum exemplo, o Bizet que precedeu deu suficientes exemplos de cadências IV-V-I para o público se acostumar com essa linguagem) iria perceber que o procedimento estava “errado”. Acho que se eu tocar ao piano qualquer sequência de cadências, qualquer pessoa que aplaudiu ali iria perceber que na cadência de engano faltava algo.

O que isso revela é que o público não estava nem prestando atenção na música, a pausa foi a “entrada” para os aplausos, mas aquilo que tocava lá não lhe dizia nada. O que imagino que não seja da maior motivação para os músicos, e nem sequer para o público que ali estava.

Em suma, faz-se necessário uma real educação musical do público brasileiro. Para que ele realmente tenha gosto na música, e não frequente por fama, afetação de erudição ou status social, e infelizmente esse parece o principal motivo para muito do nosso público.

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