Motivado pelo post anterior sobre a mahlermania, adianto algumas notas sobre como a música foi ganhando um “peso metafísico” inteiramente novo por parte do público, precisamente a partir do século XVIII.

Nem sempre as pessoas escutaram os concertos quietas. Pelos relatos da época, surpreendemo-nos com os hábitos indelicados do público da ópera até o século XVIII: barulhento, conversador, mais interessado na social do que propriamente no que se passava no palco – famosas jogadas de xadrez foram criadas em camarotes. Em suma, um quadro similar à cena do teatro de vaudeville em Amadeus.

Mas isso é um camarote ou uma feira?

Com a aproximação do século XIX isso mudou e cá ficamos silenciosos e ofendidos quando alguém fica agitado em seu lugar. A tese mais conhecida acerca dessa mudança diz respeito ao processo civilizador, segundo a qual teria ocorrido um ‘polimento’ – ou melhor, um disciplinamento, mas acho a palavra é bem feia – de nossas maneiras em sociedade. Basicamente, enquanto o limite da vergonha diminuía, a pressão pelo autocontrole individual aumentava, e sendo assim, foi surgindo o conjunto de normas para cada evento social – a etiqueta. Essa teoria ficou célebre através da interessante obra de Norbert Elias, importante sociólogo e historiador da sociedade de corte – autor também de uma deliciosa biografia de Mozart, a Sociologia de um Gênio.

Desse modo, começou a pegar mal admitir os excessos da multidão, e a Comédie Française, em 1782, por exemplo, decidiu instalar bancos na platéia para ver se fazia o público se comportar. Tal decisão gerou polêmica e, vejam vocês, a imprensa do momento protestou enfaticamente contra esse “atentado à liberdade de ir e vir da platéia” (?!).

Porém, o que eu gostaria de chamar atenção aqui é que não será uma metáfora indevida dizer que, conjuntamente ao hábito de simplesmente prestarem atenção na música, os espectadores foram, aos poucos, apreendendo a execução musical com uma consideração religiosa, admitindo ficarem calados para ouvir uma sinfonia como quem assiste a uma missa. Para tanto, quero recorrer a uma passagem de Listening in Paris: A Cultural History, de James H. Johnson, onde uma ouvinte revela numa carta a inédita sensação que sentiu ao prestar atenção na música – no caso, Alceste de Gluck

I took care to close myself up within my box. I listened to this new work with profound attention. (…) From the first measures I was seized by such a strong feeling of awe, and felt within me so intensely that religious impulse that penetrates those who attend the ceremonies of a revered and august religion, that without even knowing it I fell to my knees in my box and stayed in this position, suppliant and with my hands clasped, until the end of the piece.

Aqui, os primeiros compassos que arrebataram a dama, uma tal de Pauline de R.

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Perceba-se que a música, e mesmo toda a arte, ganhou progressivamente um respeito de conotação espiritual. Mobilizada para finalmente prestar atenção no que ouvia, a platéia passou a dar novos significados para o que antes era um evento de função social, e a se emocionar; daí que alguém ache mesmo que a música diz algo precisamente para si. Não surpreende que, deslumbrados com essas novas possibilidades, o romantismo do período posterior irá abusar desse aspecto até a exaustão.

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