Continuando nossa série de posts apresentando contribuições para a filosofia da música por  diversos autores das humanidades, quero chamar atenção aqui e em dois posts seguintes para as idéias musicais de Sir Karl Popper (1902-1994).

Popper: revolucionário na epistemologia, liberal na política, conservador na música.

Conhecido mais por estabelecer o critério científico do falsificacionismo (falsiability) e pela crítica rigorosa ao historicismo, Popper permitiu-se especular sobre a música de maneira indissociável à sua epistemologia – e como veremos mais tarde, mesmo sua filosofia política ressoa um tanto nas especulações musicais. Popper era um profundo conhecedor de música, vindo de uma família com diversos músicos amadores – tinha mesmo um parentesco distante com o maestro Bruno Walter –, chegando até a cogitar ser músico na juventude. Considerando-se sempre um conservador em matéria de arte, para ele o último dos grandes compositores foi Schubert (com raras exceções a alguma coisa de Brahms e Bruckner). Imaginemos então o pouco apreço que ele teve pelas vanguardas que lhe foram contemporâneas.

As idéias que nos interessam aqui foram condensadas em sua célebre autobiografia, Unended Question – traduzida no Brasil como Autobiografia Intelectual – e seguindo o próprio esquema de Popper, faço notar três sugestões que ele arriscou sobre música. Ainda que pontuais, o vienense não pode ser acusado de falta de originalidade na escolha dos temas: 1) sobre origem da música polifônica; 2) a distinção entre música objetiva e subjetiva; e 3) o problema da idéia de progresso na música. Começarei minha exposição pela segunda, a distinção entre a música objetiva – cujo ideal pode ser encontrado em Bach – e a música subjetiva – cujo ideal está em Beethoven.

Tal distinção entre Bach e Beethoven ocorreu a Popper ainda na juventude, e no momento em que escreve, décadas depois, ele mesmo não a considera mais tão rigorosa, dando-se ao trabalho de expô-la mais para revelar sobre sua evolução intelectual. Contudo, ainda assim achei interessante como uma explicação inicialmente da esfera epistemológica se aproveita da música para, ao fim, criar curiosos desdobramentos nesta. Se a idéia é de fato frutífera ou palpite diletante deixo para vocês julgarem.

Primeiramente, convenhamos que tal distinção não parece lá uma idéia muito original. Mesmo alguém ignorante em teoria musical com o hábito consegue intuir que a música de Bach é mais “cerebral” e a de Beethoven mais “passional”. Contudo, o que Popper faz é dar substância a esse lugar-comum ao mesmo tempo em que expõe seu próprio ideal de arte. Diz nosso autor que, ao contrário de Mozart, por exemplo, Bach e Beethoven são compositores que notadamente fazem suas personalidades transparecerem nas composições. Desse modo, evidenciam-se duas posições antagônicas em relação à arte: em Bach a música é um contínuo jogo de problemas e soluções similar à ciência, enquanto que para Beethoven a música é, eminentemente, um meio de auto-expressão – e para Popper, essa última postura é uma ameaça para a arte.

Beethoven: uma personalidade bipolar em música

Criticando toda a teoria da arte como expressão das emoções de seu criador (exemplificada por Croce e Collingwood), o filósofo, eminentemente anti-essencialista, dirá que a própria questão básica de tal teoria – “o que é arte?” – é desprovida de sentido. Dizer que a arte é expressão da personalidade humana não é dizer nada, uma vez que todo comportamento humano, e mesmo animal, pode se passar por expressão. Nenhuma obra de arte significativa se resume a expressar as emoções de seu criador, pois exige certas habilidades que certamente transcendem a expressão – imaginação, dedicação, gosto, quiçá virtuosismo… etc.

Mais ainda: tal teoria expressionista termina sugerindo que as melhores obras, sendo expressões das emoções de seus compositores, serão completamente desprovidas de critérios formais e procurarão incessantemente “transgredir”, desconsiderando, portanto, toda a tradição anterior e procurando recriar a música a cada nova composição. É, em suma, o ímpeto vanguardista. Para Popper, o fato é que podemos encontrar facilmente grandes obras que não são necessariamente originais, enquanto obras criadas com o propósito de serem revolucionárias dificilmente são grandes obras. Tentar ser original, transgredir, e ainda por cima com a intenção de imprimir sua marca particular numa composição é, no mínimo, uma ameaça à integridade da composição (imaginemos o horror de Popper ao escutar uma sinfonia de Mahler). Eis o ponto principal de nosso autor: o compositor não deve se impor, mas servir à composição e às suas regras.

Bach: compositor sério, praticamente um cientista.

Mas o que significa isso? Voltando aos nossos compositores antíteses, Popper também crê que a personalidade de Bach transpareça em suas obras, mas não da mesma maneira que Beethoven. Quando aparece, é de maneira inconsciente, pois Bach esquece a si mesmo no projeto de uma composição. Citando o autor das Paixões, Popper lembra que para este luterano convicto toda música deveria somente servir à glória de Deus. Isso não acontece em Beethoven, constantemente preocupado em passar sua “mensagem”, até o cúmulo de inserir um coro em sua última sinfonia.

Não se trata aqui de opor música sacra à música secular, absolutamente, nem dizer que a música de Bach é desprovida de emoção – para tanto basta ouvir a Paixão segundo São Mateus. Ocorre que esse oratório não começou sendo escrito com o propósito de efeitos dramáticos – algo muito diferente da Missa Solemnis de Beethoven, notoriamente composta “do coração para o coração”.

Portanto, a diferença está em aspectos técnicos, como no uso do elemento dinâmico, de piano para forte, por exemplo. Óbvio que isso existe em Bach, mas não será a marca essencial de suas obras, nem sua música se fundamenta inteiramente nessas altercações. Enquanto em Beethoven, diz Popper, basta uma audição da Appassionata para perceber que o elemento dinâmico é tão importante quanto o harmônico. Em suma, Beethoven procura criar estímulos para dar vazão à sua personalidade tempestuosa, enquanto Bach se dirige à prudência da razão.

Então voltamos à vaga idéia de que o compositor não deve se impor, mas servir à sua obra. Nas Invenções, Popper repara o uso didático que Bach transmite dessas músicas, permitindo ao executante se disciplinar nas regras formais ao mesmo que o encoraja a ter suas próprias idéias musicais – e aqui eu gostaria que os tecladistas que podem tocar essas Invenções se manifestassem.

Com isso chegamos ao ponto mais fundamental da visão de Popper: música e ciência são semelhantes na medida em que ambas lidam com resolução de problemas que permanentemente são apresentados, resolução essa que passa por regras formais que são nada menos que o conhecido processo de tentativa e erro.

Isso não significa dizer que a boa arte seja desprovida do componente emocional – e é ao tentar lidar com esse fato inescapável que Popper mais corre riscos. Para tanto, explica que seu interesse está em limpar o terreno das visões românticas da arte: o compositor, e o artista em geral, não devem ser movidos pela tentativa de criar impacto emocional, este deve ser conseqüência, e é precisamente isto que diferencia a música objetiva da subjetiva.

Para dar respostas satisfatórias a essa questão, Popper terá de entrar num vasto campo que transcende a esfera musical, o da relação entre arte e emoções humanas. Espero voltar a ele no próximo post juntamente com sua exposição do problema da idéia de progresso na música. Por hora, faço notar algumas questões problemáticas que as afirmações do austríaco trazem: será que obras que foram propositalmente revolucionárias na música não são grande música? Melhor dizendo, será que uma composição com o propósito emocional é inerentemente ruim? Nesse sentido, será mesmo que Bach não quis criar efeitos dramáticos em nenhuma de suas obras? E Beethoven, cujo estereótipo de herói romântico é aceito por Popper, impõe sua visão de mundo em tudo que toca desconsiderando toda a tradição clássica que lhe foi anterior?

Este post pertence à série:
1. Karl Popper e a Música – Parte I
2. Karl Popper e a Música – Parte II
3. Karl Popper e a Música – Parte III