O melhor retrato de um herói na história da música: 1. Introdução

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Primeira versão de Napoleão atravessando os Alpes (1800), de Jacques-Louis David (1748-1825)

Atenção: tenho algo a mostrar sobre o que a música pode fazer para nos explicar o que é um “herói”.

Hoje, portanto, veremos rapidamente sobre o que é um herói e quem é o nosso herói musical. Em um segundo post, veremos a primeira cena em que ele participa de modo mais revelador. E, por fim, veremos uma segunda cena em que ele transforma o mundo! Ajeite-se por aí.

Introdução

Convivemos com heróis por toda a parte, em todas as fases da vida e por toda a história: eles habitam nossas fábulas, a religião, a filosofia, a literatura, a arte como um todo, a política e, como Thomas Carlyle tentou mostrar, até a história. Em suma, o herói está presente na síntese imaginativa que o ser humano faz do sentido do mundo, e isso desde sempre.

Mas o que é um herói?

A definição clássica de herói é daquela figura corajosa que sacrifica tudo, inclusive a si mesmo, por uma causa, um bem superior. Isso costuma colocar o herói em conflitos, mas, talvez por termos nos acostumado a super-heróis poderosos e monoliticamente perfeitos, às vezes nos esquecemos disso e imaginamos o mundo do herói como um entretenimento simplório e infantil – sim, muitos imaginam que falar em “herói” seja falar em alguma simplificação ingênua do mundo, alguma caricaturização maniqueísta, alguma idealização fabulesca que reduz a complexidade da realidade a esquemas simples em que heróis podem existir e ser perfeitos.

Orestes perseguido pelas Fúrias (1862), de William-Adolphe Bouguereau (1825–1905)
Orestes perseguido pelas Fúrias (1862), de William-Adolphe Bouguereau (1825–1905)

Mas isso se aplica no máximo a maus usos do arquétipo do herói. Na tradição mito-poética mais representativa, o herói nunca tem a sorte de se ver em um mundo simples, nem é ele próprio um sujeito perfeito que se dá bem facilmente. Pensemos na tirania e na mortalidade de Gilgamesh, na loucura de Héracles, na ira de Aquiles, na soberba de Odisseu, na busca por saber de Édipo, no orgulho de Sansão, na hesitação de Hamlet, mesmo, caso queira, no acalcamento emocional do Rambo – terminando tudo bem ou tudo mal, na tragédia ou na comédia, a figura heroica sempre se vê diante de um mundo complicado para ele.

E por quê? Justamente porque o mundo do herói, como o nosso, é um lugar cheio de contradições, e ser fiel a algum sentido superior nesse mundo é impossível sem grandes sacrifícios.

Para nós, meros mortais, a melhor maneira de sobreviver em um mundo múltiplo e paradoxal é viver sem se expor a riscos desnecessários, preservando-se o quanto possível dentro dos próprios limites. Mas o herói tem algo a sobrepor a esse instinto de sobrevivência: ele se preocupa com uma causa maior, diante da qual preservar a própria vida – que é o caminho mais eficiente para sobreviver e que todos seguimos – torna-se insignificante. Para ele, não morrer é menos importante do que a causa que ele ama.

Tanto o herói representa necessariamente essa complexidade realista que, lembremos, nem mesmo o niilismo de Nietzsche abdicou da imagem do herói com seu Übermensch, tal o poder simbólico indispensável desse arquétipo.

É, portanto, no embate com a complexidade e com as contradições do mundo – algo bem oposto a simplismo e a ingenuidade pueril – que a figura do herói pode se dar mal em alguns momentos, e é justamente nessa relação chave que se constitui o heroísmo.

Die Walküre

Já vimos no blog a respeito da importância do mito para a obra de Richard Wagner (1813-1883) em “A malícia do desejo erótico e sua nova vítima: o mito”, e tivemos uma audição teleguiada completa do primeiro ato de Die Walküre (“A Valquíria”) em “Vamos ouvir Wagner? Especial de 200 anos – Die Walküre: Ato I”. É justamente nesta obra que encontramos um dos mais poderosos retratos da essência do herói em todos os tempos!

O drama de Siegmund

Arthur Rackham - Siegmund
Siegmund, de Arthur Rackham (1867-1939)

Die Walküre, Act I, Scene 1 – ‘Motive of the Volsungs’ Woe’ & ‘Motive of Sieglinde’s Pity’ (G. Solti – VPO & Chor der Wiener Staatsoper – 1965):

Cena 1 do Ato I de Die Walküre: “Motivo do Infortúnio de Siegfried” respondido pelo “Motivo da Piedade”

No primeiro ato de Die Walküre, logo conhecemos Siegmund, um herói que vive o típico conflito heroico com um mundo paradoxal: ele ama a justiça e age corajosamente em lealdade a esse princípio, mas vive em um mundo com leis e tratados divinos que permitem vinganças sem fim, casamentos arranjados sem amor e a infelicidade dos que são subjugados pela força imposta pelos perversos. Ele ama Sieglinde, a irmã que reencontrou, mas ela é sua irmã (incesto!) e é casada (adultério!), e não há nada que ele possa fazer contra esses interditos: mesmo vendo um sentido que ultrapassa as leis do mundo, ele está em um conflito cerrado com esse mundo.

O drama de Wotan

Arthur Rackham - Wotan
Wotan, de Arthur Rackham (1867-1939)

Die Walküre, Act II, Scene 3 – ‘Motive of the Need of the Gods’ (G. Solti – VPO & Chor der Wiener Staatsoper – 1965):

Cena 3 do Ato II de Die Walküre: “Motivo da Necessidade dos Deuses”

No segundo ato vemos Wotan, o rei dos deuses, pai de Siegmund, que, como senhor dos juramentos e tratados, tem obrigação de guardar o juramento sagrado do matrimônio. Em uma profunda discussão sobre o livre-arbítrio dos mortais e a influência dos deuses, sua esposa, Fricka, pressiona-o a fazer cumprir esse papel com uma irrefutável denúncia do seu nepotismo divino: seu filho Siegmund não é um herói livre, mas o reflexo da vontade de Wotan até mesmo nas dificuldades que o deus lhe impõe para formar o seu caráter.

Preso pela sacralidade dos tratados, Wotan deve punir o próprio filho, que está a desacatar nada menos que as leis do matrimônio e da consanguinidade. Assim, Wotan ordena a Brünnhilde, a valquíria guerreira que arregimenta heróis mortos em batalhas para defenderem o Valhala, o palácio dos deuses, que vá anunciar a morte a Siegmund (!).

E é justamente a partir desse conflito cerrado que duas cenas da ópera se mostram profundamente reveladoras da natureza heroica.

Não temam: no próximo post, passaremos a abordá-las na prática (com música), evitando spoilers e tudo.

Este post pertence à série “O melhor retrato de um herói na história da música”:
1. Introdução
2. A Anunciação da Morte
3. A epifania

4 Respostas

  1. Ticiano Biancolino
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    Ah, que delícia! Passei um tempão sem ler Euterpe, e já ia me esquecendo de como é bom!!!!! Já estou ansioso pela continuação …. Parabéns, como sempre inspirador. Abraços….

  2. Heber Fiori
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    Como sempre, faço questão de seguir esses artigos magníficos, sempre muito interessante e que prendem nossa a tenção.
    Parabéns mais uma vez.

  3. Leonardo T. Oliveira
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    Amigos,

    Muito obrigado pelos comentários!

    Devo confessar que eu tinha escrito originalmente que postaria as três partes desta série em três dias consecutivos (de fato, estão quase prontas aqui nos rascunhos), mas, um pouco antes de publicar, fui mais prudente e retirei a promessa. No entanto, por algum motivo, a publicação acabou saindo com a promessa original, o que eu só percebi mais tarde! Mesmo assim ainda tentei terminar o segundo post em tempo no dia seguinte, mas acabei não conseguindo. De todo modo, aos poucos sai a continuação!

    Abraços!

  4. pedroooo
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    gosteiiiiii

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