200 anos de Franz Liszt: I. Transformação temática

Franz Liszt em fotografia de Pierre Petit, entre os anos 1860’s e 1870’s

Ontem comemoramos uma importante data redonda para a música: em 22 de outubro de 1811, há 200 anos, nascia na vila de Doborján, na atual região do estado de Burgenland (Áustria) do antigo Reino Húngaro, o compositor e pianista Franz Liszt (1811-1886), personalidade de primeira grandeza e importância no século XIX.

Introdução

Liszt incorpora algumas das questões mais relevantes pra se compreender o artista no século XIX: autoconsciente da sua originalidade, ele representou como poucos o poder da figura pública do artista, capaz de promover grandes eventos beneficentes, oferecer prestígio à fundação de academias de música e impor uma notoriedade fervorosa entre admiradores – as impagáveis anedotas da chamada Lisztmania, nome com que se batizou o fenômeno da sua popularidade, refletem o impressionante frenesi que a sua presença causava entre o público europeu. Como pianista, foi considerado nada menos do que uma lenda e as contas dos seus feitos são realmente prodigiosas, como a execução de peças difíceis inteiramente em oitavas e de desafios impostos pelo público e por rivais. Como músico, não foi apenas o defensor de todo um movimento musical progressista, mas também ajudou diversos compositores colegas, como Wagner, Berlioz, Dvorák, Smetana e Chopin, regendo e executando suas obras como forma de apoio e divulgação. Morou em Weimar, Paris, Roma e Budapeste, tendo vivido um período de constantes viagens e concertos pela Europa entre os anos 1830’s e 1840’s. E mesmo entre a sociedade vaidosa e ambiciosa com que conviveu mostrou-se uma figura generosa, que a certa altura adotou por princípio oferecer aulas apenas gratuitas, organizou concertos beneficentes e cedeu espaço à fé católica desde a sua adolescência até a velhice, quando, morando em Roma, chegou a alcançar ordenamentos menores.

Entre tantos aspectos do mundo em que Liszt viveu, o espaço para o reconhecimento do valor de sua música não pode ser diminuído: trata-se de uma obra extremamente vasta que guarda surpresas mesmo aos ouvintes mais experientes, com uma diversidade que corresponde não apenas a toda a série de formas disponíveis em sua época, mas também a formas totalmente originais (foi, por exemplo, o criador do poema sinfônico). Contra a imagem de um artista que, pela sua personalidade enérgica, teria privilegiado apenas o virtuosismo e o sensacionalismo da performance em suas composições, Euterpe fará o que mais importa neste blog: falar de música!

Hoje falaremos brevemente sobre o conceito de “transformação temática” em sua obra. Amanhã, sobre alguns aspectos de suas transcrições para piano e algumas experiências harmônicas radicais em seus últimos anos.

Transformação temática

Página do manuscrito da Sonata em Si menor

Liszt era um grande admirador da tradição clássica: em especial, a música de Beethoven e de Schubert era presença constante entre suas execuções e transcrições. Dos clássicos e do roteiro da forma-sonata Liszt herdou a noção do desenvolvimento temático, quando um tema musical já exposto é variado e fragmentado até formar uma nova seção e mesmo novos temas. A partir da noção de desenvolvimento temático, Liszt criou o conceito de “transformação temática” (“thematische Verwandlung”), em que os processos de variação do tema musical seriam explorados como fundamento da composição de toda uma obra. Um exemplo da transformação temática de Liszt é a sua obra-prima: a Sonata para piano em Si menor (1854), provavelmente a maior sonata para piano desde Beethoven. Sua estrutura ambígua permite duas leituras:

a) uma forma-sonata com Exposição de três temas, um longo Desenvolvimento, um fugato e uma Reexposição seguida por uma coda.

b) uma sonata em quatro movimentos, em que a Exposição seria o 1° movimento, o Desenvolvimento seria o 2° movimento (em andamento lento), o fugato seria o 3° movimento (o scherzo) e a Reexposição seria o 4° movimento (o finale).

Apesar de uma obra complexa, há duas coisas que garantem a sua unidade e interesse: é o material de um mesmo tema principal que constrói toda a sonata, e a verve de Liszt não a deixa perder a ação em nenhum momento.

Análise

São, na verdade, três os motivos musicais que formam o desenho do tema principal e outros dois que se juntam a eles em momentos-chave. Cada motivo ganha alguma independência durante a obra, sendo evocado, transformado e recombinado com os outros motivos para formar as diferentes seções da sonata. Para uma noção do conceito de transformação temática de Liszt, vamos ouvir os diferentes aspectos que esses cinco motivos podem assumir em diferentes passagens da obra.

A sonata abre sendo apresentada pelo Motivo I, de um clima ainda obscuro, com a nota Sol sendo marcada duas vezes seguida de uma escala descendente incompleta – primeiro uma escala em modo frígio, depois uma escala cigana húngara (ré maior com quarta aumentada):

Liszt – Piano Sonata in B minor S. 178 – 1. Motif I (Martha Argerich – 1971):

Quando o Motivo I estava sendo repetido pela terceira vez, o Motivo II irrompe:

Liszt – Piano Sonata in B minor S. 178 – 1. Motif II (Martha Argerich – 1971):

E, junto dele – o que até agora formou uma sequência lógica contínua -, o Motivo III:

Liszt – Piano Sonata in B minor S. 178 – 1. Motif III (Martha Argerich – 1971):

A partir daqui os Motivos II e III entrarão em uma espécie de disputa. Eles são expostos um após o outro mais uma vez e de maneira mais afirmativa – que é quando a tônica de Si menor é finalmente definida sem ambiguidades:

Liszt – Piano Sonata in B minor S. 178 – 1. Motif II & III apparition I (Martha Argerich – 1971):

E então são misturados:

Liszt – Piano Sonata in B minor S. 178 – 1. Motif II & III apparition II (Martha Argerich – 1971):

No ápice de uma das disputas entre o Motivo II e III surge o Motivo IV, uma espécie de coral:

Liszt – Piano Sonata in B minor S. 178 – 1. Motif IV (Martha Argerich – 1971):

E o Motivo V só vai aparecer na seção correspondente ao 2° movimento da obra, o Andante sostenuto:

Liszt – Piano Sonata in B minor S. 178 – 2. Motif V (Martha Argerich – 1971):

Toda a obra vai ser montada com a transformação e recombinação desses motivos, e todos eles estão relacionados como que com a busca da obra pela elaboração de um tema musical completo e conciliado, um tema que a sonata buscava completar no início mas que não pôde concluir, pela espécie de inconciliação entre os Motivos II e III. O aparecimento dos Motivos IV e V são, não à toa, como que dois episódios de consolação, um de otimismo (Motivo IV), o outro de placidez (Motivo V).

Como exemplos específicos do conceito de “transformação temática”, várias aparições desses motivos assumem um caráter completamente diferente em cada passagem.

O Motivo III vai se transformar por duas vezes, da célula rítmica austera que ouvimos antes, em uma melodia poética em andamento lento:

Liszt – Piano Sonata in B minor S. 178 – 1. Motif III apparition I (Martha Argerich – 1971):

Enquanto o Motivo II vai aparecer até mesmo infernizando o prosseguimento de um clímax do Motivo IV (notem como ele aparece nos baixos interrompendo a formação de uma cadência):

Liszt – Piano Sonata in B minor S. 178 – 2. Motif II apparition I (Martha Argerich – 1971):

O fugato é outro momento importante em que os motivos anteriores aparecem. O sujeito da fuga é o Motivo II seguido do Motivo III:

Liszt – Piano Sonata in B minor S. 178 – 3. Motif II & III apparition II (Martha Argerich – 1971):

Ou seja, a sonata é uma disputa de papéis entre diferentes motivos musicais que, juntos, saíram de um mesmo expediente de formação para um tema central, o qual acaba, nessa busca, dominando toda a obra, mesmo com a diversidade gritante tanto de expressividade quanto de formas que a sonata perpassa.

Essa estrutura reverbera em alguma medida o conteúdo de obras como a Große Fuge (“Grande Fuga”) Op. 133 de Beethoven, mas ainda mais explicitamente reflete o plano da Fantasia “Wanderer” para piano de Schubert, obra de forma cíclica que influenciou imensamente as composições de Liszt (ele escreveria uma versão da obra para piano e orquestra). Outras obras do próprio Liszt que exploraram a forma cíclica e a transformação temática foram a Sonata “Dante” e a Sinfonia “Fausto”.

Esse método de composição ainda influenciaria nada menos do que a escrita em leitmotive de Wagner, e a estrutura da Sonata em Si menor pode ser vista em obras como a Sinfonia de Câmera Op. 9 e o Quarteto para Cordas No. 1 de Schoenberg, o que mostra a clara importância de Liszt para além do período romântico.

Este post pertence à série:
1. 200 anos de Franz Liszt: I. Transformação temática
2. 200 anos de Franz Liszt: II. Transcrições e Experiências harmônicas

3 Respostas

  1. danny kel
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    eu adoro ouvir musica gospel online e procurando pela net cheguei nesse site. Achei muito legal..vcs estao de parabens

  2. Cássius
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    Parabenizo os autores do blog pela erudição e clareza dos textos. Descobri esse blog há pouco tempo e desde então o tenho consultado continuamente. Vida longa a todos vocês!

  3. Cleverson
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    Caramba será que só eu passei pela curiosidade que vou relatar envolvendo esse assunto? Não é lá muito importante mas…, o caso é que fui conhecer na prática o que é forma cíclica quando ainda criança e, apesar de já estudar piano clássico, ouvi pela primeira vez foi por meio do álbum Rendez-Vous de Jean-Michel Jarre e depois os trabalhos da banda de rock progressivo Pink Floid, que explorou isso em Dark Side of the Moon e no The Wall. Fui ouvir a sonata de Liszt aos 16 anos, pois morava numa cidade de interior do Paraná até os 15 anos, depois mudei-me para uma cidade média onde já havia festivais de música com professores de fora, alguns deles concertistas. Mas como eu dizia, ouvi a sonata de Liszt e aí, surpresa! Bom saber que a música clássica contribuiu até com isso… :)

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