6. Trinado como tema

Essa é pouco conhecida mas causa grande choque em quem ouve pela primeira vez: a Bagatela para Piano Op. 119 No. 7 (1820). O tema é formado por um trinado que, repetido em diferentes registros, é o próprio tema principal:

Audio clip [Beethoven - Bagatelle Op. 119 No. 07 in C major - Allegro ma non troppo (A. Brendel - 1996)]: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Ao mesmo tempo, outras duas linhas melódicas independentes se formam, em ritmos diferentes, criando uma pequena síncope que depois se transforma em um pequeno cânone, bem ao estilo da terceira e última fase das composições de Beethoven. E o final, muito absurdo, aproveita a presença do trinado pra colocar a peça em ebulição. Trinados geralmente eram usados de maneira mais ornamental, inclusive para prolongar a sustentação das notas pelo piano. Mas em Beethoven o trinado ganha o aspecto constitutivo dos temas, como nesse exemplo e na quarta variação das Variações “Righini” WoO 65, e mesmo o papel de um pedal extático, como no último movimento da Sonata para Piano No. 30, e especialmente no último da Sonata No. 32.

7. Fuga, Sinfonia em quatro movimentos, Forma-sonata e Tema e Variações ao mesmo tempo

Rascunho de Beethoven para a Grande Fuga

Um adjetivo engraçado acaba associado à Große Fuge Op. 133 (“Grande Fuga”) (1826): “assustadora”. Uma fuga já é por natureza a forma musical que exige maior conhecimento técnico de composição; quando ela é escrita de maneira inesperadamente violenta e dissonante como nessa fuga – provavelmente a obra mais moderna de Beethoven -, junta-se o hermetismo de uma forma complexa ao ímpeto de Beethoven pra gerar essa reação engraçada de “medo” no ouvinte. Uma das coisas que mais alopram a ambição da Grande Fuga é que a sua estrutura geral parece condensar, além da forma de uma fuga dupla a quatro vozes, a estrutura de uma sinfonia em quatro movimentos – pois há quatro episódios e os internos bem que lembram um andamento lento e um scherzo -, uma forma-sonata – pois é possível enxergar uma introdução e uma coda emoldurando uma exposição, um desenvolvimento e uma reexposição – e um tema e variações – pois os episódios da fuga usam todos formas do mesmo tema. Separo o começo dela, quando depois da introdução vem o susto da exposição, com notas caindo pra todos os lados, os instrumentos entrando um por um onde parece não caber mais nada e um tema totalmente anguloso e dissonante.

Audio clip [Beethoven - String Quartet in B flat major Op. 133 'Grosse Fugue' - Exposition I (Melos Quartett - 1984)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

8. Pedal pra sempre

A Sonata para Piano No. 14 em Dó sustenido menor Op. 27 No. 2, a famosa “Sonata Ao Luar”, possuía uma indicação especial para a execução do primeiro movimento que, de tão absurda, hoje em dia ninguém segue: Beethoven escreve na partitura que “Si deve suonare tutto questo pezzo delicatissimamente e senza sordino” (“Deve-se tocar toda esta peça com grande delicadeza e sem sordino“).

Primeira edição da Sonata, por Giovanni Cappi, com a indicação na primeira página

Ou seja, o pedal de sustentação do piano, que remove os abafadores (o sordino) das cordas e lhes permite vibrar livremente, sustentando o som das notas tocadas, deveria ser acionado por toda a peça (explicações mais detidas sobre o mecanismo do antigo pianoforte em outra oportunidade). A sustentação do pedal nos pianos modernos é maior que a dos pianos do tempo de Beethoven, ao que essa idéia para os nossos pianos parece catastrófica, com as notas se sobrepondo e se “sujando” continuamente. Mas, além dos nossos intérpretes de instrumentos de época, a idéia de experimentar essa incrível proposta timbrística de Beethoven tem seduzido mesmo intérpretes de pianos modernos (que tradicionalmente sempre a ignoraram), como András Schiff:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 14 in C sharp minor Op. 27 No. 2 - 1. Adagio sostenuto (András Schiff - 2005)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

O resultado é ouvir a harmonia da peça conflitando uma na outra e criando uma atmosfera melíflua, evocativa, totalmente nova. Há muita discussão a respeito dessa indicação de Beethoven e como executá-la, especialmente em pianos modernos, e outras soluções ao problema também foram sugeridas.

9. Tema de uma nota só

Beethoven é famoso por reduzir o spin da música a um gérmen básico, uma célula muito econômica que termina gerando a música inteira. É assim com o motivo de quatro notas na Quinta Sinfonia, com o motivo exposto pelo tímpano no Concerto para Violino, com a figura puramente rítmica no último movimento da Sétima Sinfonia, e em muitas outras obras. Mas um exemplo extremo é o do segundo movimento do Quarteto para Cordas No. 7 em Fá maior Op. 59 No. 1 “Razumovsky I” (1806), o scherzo: nele, o tema principal se resume a …uma nota!

Audio clip [Beethoven - String Quartet No. 07 in F major Op. 59 No. 1 'Razumovsky I' - 2. Allegretto vivace e sempre scherzando - a. Motif (Melos Quartett - 1984)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

Partitura do violoncelo em uma das primeiras edições da obra

A partir desse motivo básico são acrescentados contra-motivos que vão ampliando e tirando tudo de dentro dessas notas repetidas e o seu ritmo, e o scherzo vai terminar sendo uma verdadeira forma-sonata, a exemplo de todos os movimentos desse quarteto (o que é bem curioso). Notem como entre as respostas do contra-motivo (derivado do ritmo do motivo de uma nota) o tema é realmente o motivo de uma nota:

Audio clip [Beethoven - String Quartet No. 07 in F major Op. 59 No. 1 'Razumovsky I' - 2. Allegretto vivace e sempre scherzando - a. First Subject (Melos Quartett - 1984)].

10. Entre o céu e a terra

Thomas Mann escreveu páginas memoráveis no Doktor Faustus sobre o segundo movimento da Sonata para Piano No. 32 em Dó menor Op. 111 (1822), um tema e variações, e de fato se trata da música mais íntima, mesmo mística! que existe.

Nas três primeiras variações, o tema – simples e evocativo – vai sendo cada vez mais movimentado: as notas vão se multiplicando (é muito curioso observar na partitura os compassos se dividindo cada vez em mais notas), e o ritmo começa a ser quebrado e animado (até culminar na famosa terceira variação, muito comparada a um boogie-woogie, 100 anos antes disso existir). Mas a partir da quarta variação começa a acontecer um milagre. A quarta variação traz uma quebra drástica da movimentação ampliadora que o tema sofria até então:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 32 in C minor Op. 111 - 2. Arietta. - Var. IV (A. Brendel - 1970)].

Trata-se de uma desconstrução do material do tema, com fragmentos da melodia original em acordes, como que em suspiros, sobre essas quiálteras do baixo. E antes de terminar de variar a primeira parte do tema, a variação se mostra daquelas 2-em-1, pois já muda totalmente sua textura:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 32 in C minor Op. 111 - 2. Arietta. - Var. IVb (A. Brendel - 1970)].

Com uma escala ascendente, a música sai do registro grave anterior e vai até as estrelas, fazendo a melodia faiscar entre os acordes.

Notem, portanto, que essa quarta variação tem como que esse movimento complementar de voltar o olhar para o chão e para o céu, para a escuridão e para a luz.

Se a primeira parte do tema foi essa complementaridade do olhar, na segunda parte teremos a aplicação desse mesmo padrão. O olhar volta ao chão:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 32 in C minor Op. 111 - 2. Arietta. - Var. IVc (A. Brendel - 1970)].

…e volta ao céu…:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 32 in C minor Op. 111 - 2. Arietta. - Var. IVd (A. Brendel - 1970)].

E aqui a variação terminaria. Mas ao entregar a música para a tônica de dó maior novamente, Beethoven parte daquele olhar para as estrelas e simplesmente abandona a estrutura das variações!, e começa uma fantasia totalmente nova e poética:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 32 in C minor Op. 111 - 2. Arietta. - Free Style-a (A. Brendel - 1970)].

É como se a música ficasse com o olhar nas estrelas e não quisesse mais voltar pra realidade. Então um momento mais sério começa com um longo trinado:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 32 in C minor Op. 111 - 2. Arietta. - Free Style-b (A. Brendel - 1970)].

O trinado é tocado enquanto acontece uma disputa de espaço: embaixo, oitavas que apontam para o caminho grave dos baixos; em cima, acordes que apontam para o caminho de cima, dos agudos. Ambos são reminiscências do tema original do início do movimento, pois usam a sua mesma figura inicial. E fica uma espécie de dilema: as estrelas ou a terra?, o sonho ou a realidade? E a música começa a modular e a perder a noção da tonalidade, como se estivesse em busca de um espaço entre esses dois extremos.

De repente o trinado toma conta dos três planos!:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 32 in C minor Op. 111 - 2. Arietta. - Free Style-c (A. Brendel - 1970)].

Três trinados ao mesmo tempo, o que é algo muito novo, e o que confere ao trinado em toda a passagem uma espécie de apoteose, de função verdadeiramente existencial. Os três trinados – espécie de símbolo dos limites de um espaço contingente – desencadeiam a grande pergunta da obra:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 32 in C minor Op. 111 - 2. Arietta. - Free Style-d (A. Brendel - 1970)].

A pergunta está em a música alcançar a nota aguda máxima e a nota grave máxima, e ficar completamente suspensa. Ouvindo mais uma vez o momento suspenso específico:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 32 in C minor Op. 111 - 2. Arietta. - Question (A. Brendel - 1970)].

Quer dizer, é o dilema máximo, que surgiu desde que a música abandonou a estrutura das variações pra ficar nas alturas, e desde que essa fantasia das estrelas pairou como uma dúvida sobre aquele trinado intermediário impotente e indeciso, e que debaixo de si ainda tinha os graves, lembrando talvez da estrutura não livre mas coativa das variações. Qual será o espaço da música ou do homem entre esse céu e esse chão afinal?

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 32 in C minor Op. 111 - 2. Arietta. - Free Style-end (A. Brendel - 1970)].

O baixo e os agudos entram enfim em um longo dueto (é lindo de doer!), que vai se conciliando e se encaminhando novamente ao encontro da tônica de dó maior. E a resposta que Beethoven dá ao dilema é, com essa conciliação de extremos, fazer a música voltar à estrutura das variações!:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 32 in C minor Op. 111 - 2. Arietta. - Var. V (A. Brendel - 1970)].

…A vida é o que você traz consigo. Trazendo a doçura original (o tema original), a vida, com todas as suas exigências (a estrutura coativa de variações de um tema), pode ser bela, e pode ser enfrentada até o final.

Quem conhece a sonata completa sabe que, a partir daqui, não há final de obra mais glorioso, mais “bem resolvido” que esse. Ouvir o tema novamente, depois de passar por esse dilema, é uma sensação extraordinária.

Pronto! E vocês, pensam em outros momentos inusitados na obra de Beethoven?

Este post pertence à série:
1. 240 anos de Beethoven: 10 momentos bizarros – Parte I
2. 240 anos de Beethoven: 10 momentos bizarros – Parte II
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