Glenn GouldNo post anterior, soubemos o que é uma fuga e entendemos os conceitos básicos do gênero, tais como sujeito, exposição, entradas, episódios e stretto, entre outros. Hoje vou falar sobre técnicas de composição que podem ajudar a enriquecer uma fuga. Estou usando So You Want to Write a Fugue de Glenn Gould como guia, mas sempre que possível estou trazendo também exemplos de outras obras e autores para ilustrar um ou outro conceito.

No ponto onde interrompemos a fuga de Gould, ele havia feito um episódio e uma preparação para a entrada de algo novo, que agora descobrimos ser um novo tema:

Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - 09. Novo sujeito (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)]: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

But never be clever for the sake of being clever.
Nunca seja genial só por querer ser genial.

Se esta fosse uma fuga normal, aqui começaria uma nova fuga com este novo sujeito. Ou seja, nós teríamos novamente uma exposição com o novo sujeito sendo apresentado desacompanhado, e viria uma resposta ao final, talvez fechando com uma codetta, e tudo o mais o que uma verdadeira exposição tem direito. Quando isso acontece, chamamos a fuga de Fuga Dupla, e ao final teríamos o sujeito anterior com o novo sujeito sendo combinados e reapresentados simultaneamente. Vou dar vários exemplos depois, mas por enquanto vou deixar só um para fixar o conceito: a fuga da Hammerklavier de Beethoven!

A Sonata para Piano nº29 em Si b Maior Op.106 de Beethoven, também conhecida como Hammerklavier, tem como último movimento uma imensa fuga que emprega quase todos os artifícios possíveis e imagináveis do gênero. Como vocês podem imaginar, ela também é uma fuga dupla; ouça o sujeito principal, depois a exposição do novo sujeito e por fim a combinação dos dois sujeitos:

Audio clip [Beethoven: Sonata para Piano nº29 Op.106 "Hammerklavier" - 4º mov - sujeito 1 - exposição 2 - fuga dupla (Maurizio Pollini)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

Por consequência, uma fuga com 3 sujeitos seria uma Fuga Tripla. Reza a lenda que o Contrapunctus 14 da Arte da Fuga de Bach era pra ser uma Fuga Quádrupla, ou seja, uma fuga com 4 sujeitos. Infelizmente, Bach faleceu quando começou a escrever o terceiro sujeito, aquele com o motivo B-A-C-H (si b, lá, dó e si na notação alemã), e a fuga ficou inacabada.

Mas voltemos à fuga de Gould. Como disse, se ela fosse uma fuga normal, ela faria uma nova exposição com o novo sujeito. Mas ao invés disso, ela começa a descrever alguns artifícios técnicos que podem ser usados numa fuga. Começando pela inversão:

Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - 10. Inversão (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

For a canon in inversion is a dangerous diversion
Para um cânon em inversão é uma perigosa diversão

Inversão é reproduzir o tema, mas de cabeça para baixo. Ou seja, se a melodia sobe, a inversão desce; se a melodia desce, a inversão sobe. Veja as bolinhas da partitura, a viola “cantando” atrasada (como em canon) e tudo exatamente invertido:

Inversão

Os mais detalhistas vão notar um "deslize" na inversão da palavra "dangerous"...

Inversões são muito comuns não só em fugas, mas também como técnica de composição em geral. Na fuga da Sonata para violino solo nº3 em Dó Maior BWV.1005, em certo momento Bach inverte não só o sujeito como o contra-sujeito também: ouça primeiro a exposição (com sujeito e contra-sujeito acompanhando a resposta), e depois como ficou tudo invertido:

Audio clip [Bach: Sonata para violino solo nº3 em Dó Maior BWV.1005 - 2. Fuga - exposição - inversão (Henryk Szeryng)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

Além de inverter, também dá pra aumentar!

Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - 11. Aumentação (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)].

And a bit of augmentation is a serious temptation
E um pouco de aumentação é uma séria tentação

Aumentação é o processo de dobrar o valor (tempo) das notas, fazendo a melodia soar lentamente. E no trecho acima, o violoncelo parece cantar bem devagar: so… you… want, to, wri, te-a…

Aumentação

Não está escrito assim, mas é como soa

O segundo movimento do Trio de Piano e Cordas em Lá menor Op.50 de Tchaikovsky é um imenso tema com variações, e a oitava variação é justamente uma fuga. Ouça o sujeito e sua versão aumentada:

Audio clip [Tchaikovsky: Trio de piano e cordas em Lá menor Op.50 - var.8 - sujeito e aumentação (Berezovsky; Repin; Yablonsky)].

Se dá pra aumentar, também dá pra diminuir!

Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - 12. Diminuição (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)].

While a stretto diminution is an obvious solution
Enquanto um stretto em diminuição é uma óbvia solução

Diminuição é o processo de reduzir pela metade o valor (tempo) das notas, fazendo a melodia soar mais depressa. E stretto eu já havia explicado no post anterior: são entradas do sujeito antecipadas, antes do sujeito anterior terminar. Veja na figura um stretto em diminuição:

DiminuiçãoA Sonata para Piano nº31 em Lá b Maior Op.110 de Beethoven também traz como último movimento uma fuga, porém menor do que a da Hammerklavier. Além da diminuição, nesta fuga Beethoven também faz uma Dupla Diminuição, ou seja, diminuir ainda mais o valor das notas. Ouça na sequência o sujeito, a diminuição e a dupla diminuição, para depois ouvir o trecho completo da diminuição e o trecho completo da dupla diminuição:

Audio clip [Beethoven: Sonata para Piano nº31 Op.110 - 4º mov - sujeito - diminuição - dupla diminuição (Claudio Arrau)].

(Os mais atenciosos devem ter percebido que, enquanto as duas vozes graves se revezavam na diminuição, a voz aguda tocava uma aumentação. Ouça lá de novo, a partir de 0:18).

Além destes artifícios há ainda o retrógrado, que não é citado por Gould em sua fuga. Retrógrado é tocar o tema de trás pra frente, do final para o começo. Retrógrados são muito muito raros, além de serem muito difíceis de serem identificados somente pelo ouvido. Mas não fique triste, eu tenho um exemplo aqui para te mostrar: é da Sonata Hammerklavier de Beethoven. Ouça o sujeito e seu retrógrado:

Audio clip [Beethoven: Sonata para Piano nº29 Op.106 “Hammerklavier” - 4º mov - sujeito - retrógrado - (Maurizio Pollini)].

Claro, um retrógrado também pode ser invertido, aumentado e diminuído, ou mesmo apresentado em stretto; e o retrógrado não precisa ser apenas do sujeito, pode ser do contra-sujeito, e assim por diante. Há inúmeras combinações, só depende da criatividade do compositor.

E Gould agora retoma o tema do que seria o “novo” sujeito, reforçando o conselho anterior mas com uma citação, no mínimo, “enigmática”:

Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - 13. Mestres cantores (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)].

[So] Never be clever for the sake of being clever
[Assim] Nunca seja genial só por querer ser genial

For the sake of showing off.
Por querer se exibir.

Os wagnerianos devem ter reconhecido a citação; ela vem daqui, ó:

Audio clip [Wagner: Prelúdio de “Os Mestres Cantores de Nuremberg” (Rafael Kubelik; BPO)].

Sim, é o início de Die Meistersinger von Nürnberg, “Os Mestres Cantores de Nuremberg”. O final do prelúdio do 1º ato é uma grande demonstração de contraponto, juntando três ou quatro temas principais da ópera ao mesmo tempo, como numa grande fuga. Qual a relação entre Os Mestres Cantores e o conselho de Gould? Bem, aí é que… well… me diga você, aceito opiniões! Cartas para a redação, pessoal!

Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - 14. Fuga dupla (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)].

Como descrevi anteriormente, o auge de uma Fuga Dupla é quando dois sujeitos são apresentados simultaneamente, como acontece aqui neste momento: baixo e tenor cantam So You Want to Write a Fugue, e contralto e soprano cantam Never Be Clever.

Bach e Mozart

Quando um mestre aprende com o outro...

Um dos exemplos mais famosos de fuga dupla acontece no final da Sinfonia nº41 em Dó Maior K.551, a “Júpiter” de Mozart. O quarto movimento é uma forma-sonata bem contrapontística, mas a fuga mesmo acontece só num trecho bem curto no final. Ouça o primeiro tema, o segundo tema, e a fuga dupla do final:

Audio clip [Mozart: Sinfonia nº41 em Dó Maior K.551 "Jupiter" - 4º mov - primeiro tema - segundo tema - fuga dupla (Jaap Ter Linden; MAA)].

Na verdade a expressão correta para o trecho seria Fugato, ou seja, uma breve passagem em estilo fugado dentro de uma forma maior, como a forma-sonata. Mas Mozart aqui é tão genial que eu não me importo de chamá-la, mesmo incorretamente, de fuga dupla.

Estamos chegando ao final e agora precisamos, quase que literalmente, botar o pé no freio!

Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - 15. Ponto Pedal (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)].

Ponto Pedal é o termo usado quando o baixo fica sustentando uma nota por bastante tempo, como que freiando as demais vozes e trazendo todos para a tônica. Esse nome surgiu porque no órgão é mais fácil sustentar notas graves pisando num pedal, enquanto as mãos ficam livres para tocar outras coisas. Como o cravo tem um som mais curto e não pode ser sustentado por muito tempo, o efeito de ponto pedal é conseguido repetindo-se as notas graves. Doooom, doooom, doooom; ouça lá em cima novamente.

Ponto Pedal Invertido acontece quando o ponto pedal não é ouvido no baixo, mas numa voz mais aguda. Quer um exemplo? A Cantata Gottes Zeit ist die allerbeste Zeit BWV.106, também conhecida como Actus Tragicus, foi uma das primeiras cantatas que Bach escreveu, e termina com uma fuga dupla. Lá pelas tantas, a soprano entoa o sujeito durch Jesum Christum em aumentação, esticando o Amen final e fazendo dele um ponto pedal invertido; logo em seguida o baixo fica repetindo as notas do Amen Amen num ponto pedal de verdade para concluir a fuga; ouça:

Audio clip [Bach: Cantata "Gottes Zeit ist die allerbeste Zeit" (Actus Tragicus) BWV.106 - coro final - sujeito - diminuição e pedal (Pieter Jan Leusink)].

Antes de concluir sua fuga, Gould tem algumas palavras finais a dizer:

Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue - 16. Final (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)].

And when you’ve finished writing it,
E quando você tiver terminado de escrevê-la,

[It's rather awesome, isn't it?]
[É um tanto impressionante, não é?]

I think you’ll find great joy in it (hope so)…
Eu acho que você encontrará muita alegria nela (assim espero)…

Well, nothing ventured nothing gained they say…
Bem, quem não arrisca não petisca, dizem…

But still it is rather hard to start.
Mas ainda é um pouco difícil de começar.

(Well?) Let us try. Right now?
(Bem?) Vamos tentar. Agora mesmo?

Yes. (Why not?) Now we’re going to write a fugue.
Sim. (Por que não?) Agora vamos escrever uma fuga.

We’re going to write a good one!
Estamos indo escrever uma boa!

We’re going to write a fugue right now!
Estamos indo escrever uma fuga agora mesmo!

Quer uma sugestão? Ouça novamente toda a fuga de Glenn Gould, relembrando tudo o que foi exposto aqui nestes dois tópicos. É uma fuga “fácil”, didática, e que pode ser compreendida apenas ouvindo; outras fugas podem exigir muito mais atenção, concentração e, na maioria dos casos, acesso e estudo da partitura. Confirmo a vocês, a fuga não é um gênero fácil de entender. Com as outras três ou quatro formas básicas, uma vez entendido o conceito, basta aplicar e ser feliz. Mas com a fuga, você pode demorar anos até perceber que aquela melodia que você tanto gostava, na verdade era só uma aumentação da melodia principal…

Então, aqui está ela: de Glenn Gould, So You Want to Write a Fugue.

Audio clip [Gould: So You Want to Write a Fugue (Benson-Guy; Darian; Bressler; Gramm; Juilliard String Quartet)].

PS: Apesar do título, eu não recomendo escrever fugas a ninguém que não saiba realmente o que está fazendo. Saiba o porquê num de meus próximos posts.

Este post pertence à série:
1. Então você quer saber o que é uma fuga…
2. Então você quer entender o que tem numa fuga…
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