Mahler: Décima Sinfonia – Parte III

Rattle - Berliner Phil. (EMI 1999)
A gravação usada nas comparações mais abaixo: Simon Rattle, Berliner Philharmoniker (Cooke 3)

Se no primeiro post nós falamos sobre a criação da sinfonia por Mahler, no segundo nós falamos sobre a reconstrução da sinfonia por Deryck Cooke, que é a versão mais utilizada hoje em gravações comerciais. Porém Cooke não foi o primeiro nem o último a mexer com a Décima; vamos falar hoje das outras reconstruções, reservando um espaço para falar também da edição “oficial” do Adagio, aquela considerada “original” de Mahler e usada por maestros como Abbado, Bernstein e Haitink em suas gravações apenas deste movimento.

Página do mov.2 (clique para ampliar)

Um resumo da versão Cooke
Tal como vimos no post anterior, o objetivo de Cooke era apenas criar um jeito de ouvirmos o que Mahler havia escrito em seus rascunhos, e por isso o resultado final foi batizado de “versão de performance” (e não “sinfonia completada por Cooke”). Suas adições ao material de Mahler se restringem apenas às harmonias e contrapontos faltantes, coisas mínimas apenas para que a textura sinfônica se mantenha constante.

Página do mov.5 (clique para ampliar)

A partitura publicada é bem detalhada: até o terceiro movimento, as alterações de Cooke são impressas em notas menores e em itálico; do terceiro movimento em diante, uma edição “limpa” do short score é apresentada embaixo da partitura da orquestra. Além disso, ao final do livro, Cooke comenta compasso por compasso as decisões que ele tomou. Resumindo, é um trabalho completo de musicologia e respeito ao compositor.

Versão Carpenter
Clinton Carpenter (1921-2005) era um fã de Mahler que vivia no subúrbio de Chicago. Sua versão para a Décima Sinfonia começou a ser escrita em 1946, e até 1966 seis versões foram produzidas, porém mesmo na década de 1990 ele ainda continuava revisando-a.

Litton - Dallas SO (Delos 2001)
Andrew Litton, Dallas Symphony Orchestra (versão Carpenter)

Diferente de Cooke, Carpenter quis realmente completar a sinfonia e alterou muito o que Mahler havia escrito, fazendo já as revisões que só o compositor teria feito. Carpenter também adiciona muito material extra na sinfonia, alguns de sua própria invenção, outros citando trechos de outras obras de Mahler. Neste trecho do Adagio, veja se você consegue reconhecer o Adagietto da Quinta Sinfonia (ouça primeiro Cooke, depois Carpenter):

Mahler: Sinfonia n.10 – 1. Adagio comp. 65-69 (Cooke 3 x Carpenter):

Há trechos onde as adições e modificações de Carpenter funcionam muito bem, como este no Finale (ouça primeiro Cooke, depois compare com Carpenter):

Mahler: Sinfonia n.10 – 5. Finale comp. 347-355 (Cooke 3 x Carpenter):

Mas há também adições de gosto bem duvidoso, como esta transição aqui no Scherzo I (compare Cooke com Carpenter):

Mahler: Sinfonia n.10 – 2. Scherzo I comp. 150-168 (Cooke 3 x Carpenter):

Em sua partitura, Carpenter não indicou onde nem quais alterações foram feitas, muito menos o motivo: a sua intenção era apresentar a obra como “completa”, e não um trabalho de musicologia. Porém, o maior contraste em relação à Cooke está na visão do todo: se Cooke vê a sinfonia como uma obra afirmativa, com um final cheio de esperança, Carpenter viu uma sinfonia trágica, turbulenta e com uma resignação dolorosa ao final. Essa visão influenciou toda a escolha de texturas, cores, instrumentação, dinâmicas e tempos. Em geral, Carpenter prefere sempre orquestrações mais densas e instrumentações mais pesadas do que Cooke, e assim mesmo os momentos mais alegres em Cooke soam irônicos ou sarcásticos em Carpenter. Veja este trecho do Scherzo I, comparando Cooke com Carpenter:

Mahler: Sinfonia n.10 – 2. Scherzo I comp. 233-246 (Cooke 3 x Carpenter):

Carpenter também escolhe tempos mais largos do que Cooke, fazendo (por exemplo) os ländlers soarem nostálgicos. Como este aqui, no Scherzo II (ouça primeiro Cooke, depois Carpenter):

Mahler: Sinfonia n.10 – 4. Scherzo II comp. 248-275 (Cooke 3 x Carpenter):

É importante observar que muito do material acrescentado por Carpenter atrapalha a visão do que Mahler deixou escrito na Décima, e o estilo orquestral adotado está mais para o Mahler “vitaminado” da Terceira Sinfonia do que para aquele camerístico da Canção da Terra. É uma versão importante de se conhecer, mas é a menos indicada para um ouvinte de primeira viagem.

Versão Wheeler

Olson - Narodowa Radio SO (Naxos 2000)
Robert Olson, Narodowa Radio Symphony Orchestra (versão Wheeler)

O britânico Joseph Wheeler (1927-1977) desconhecia o trabalho de Carpenter quando criou três versões da Décima entre 1953 e 1955. A quarta e última versão veio à luz em 1965 após a descoberta das novas 44 páginas de esboços.

Operando no extremo oposto de Carpenter, Wheeler adiciona o menos possível ao que foi deixado por Mahler, menos ainda do que Cooke, e assim sua versão desnuda por completo a ausência de textura de certos trechos, bem como a falta de indicação de andamentos, dinâmicas e orquestrações. Ouça este trecho do Scherzo I e repare, primeiro, como Cooke enriquece-o variando a dinâmica e preenchendo-o a orquestração faltante, enquanto Wheeler permanece no forte e se atém ao que Mahler deixou escrito:

Mahler: Sinfonia n.10 – 2. Scherzo I comp. 31-59 (Cooke 3 x Wheeler):

Isto significa que Wheeler não adicionada nada mais? Não, claro que não; no trecho acima, os ouvidos mais atentos perceberam uma batida de pratos que não havia em Cooke. Porém estes momentos são raros; na maior parte do tempo, Wheeler prefere ouvir apenas o que Mahler escreveu e sem muitas cores de orquestração. Como este trecho no Scherzo II, onde Wheeler prefere o monocromatismo dos violinos (ouça primeiro Cooke, depois Wheeler):

Mahler: Sinfonia n.10 – 4. Scherzo II comp. 278-290 (Cooke 3 x Wheeler):

Assim, com Wheeler o movimento mais prejudicado é, sem dúvida, o que necessita de maior imaginação para ser recuperado: o Scherzo II. Compare o início do quarto movimento ouvindo primeiro Cooke, depois Wheeler:

Mahler: Sinfonia n.10 – 4. Scherzo II comp. 1-28 (Cooke 3 x Wheeler):

A simplicidade também é evidente na flutuação dos andamentos: enquanto Cooke prefere alterar os tempos seguindo o contexto, Wheeler segue sempre no mesmo embalo. Ouça este outro trecho do Scherzo II, primeiro Cooke, depois Wheeler:

Mahler: Sinfonia n.10 – 4. Scherzo II comp. 366-390 (Cooke 3 x Wheeler):

E no afã de ser fiel ao manuscrito, Wheeler abraça vários erros de Mahler, além de incluir alguns outros por enganos de leitura. Muitos destes erros foram corrigidos por Remo Mazzetti Jr,  Frans Bouwman e Robert Olson na edição de 1998, mas alguns “erros históricos” foram preservados. Como este aqui no Finale: Cooke muda de compasso 2/2 para 4/4 antes da famosa dissonância, mas Wheeler retarda a alteração para a entrada das trompas, no retorno do tema do Adagio. Resultado: em Wheeler, a dissonância passa muito mais rapidamente. Ouça:

Mahler: Sinfonia n.10 – 5. Finale comp. 264-285 (Cooke 3 x Wheeler):

Por tudo isso Wheeler é uma boa “segunda versão”, aquela para se ouvir depois de conhecer a de Cooke. Com ela é fácil de perceber o estado dos manuscritos originais deixados por Mahler, mas após algumas audições, creio que o mahleriano convicto irá gostar ainda mais do excelente trabalho de Cooke.

Versão Erwin Ratz (o Adagio “oficial”)

Haitink - Berliner Phil. (Phillips 1995)
Bernard Haitink, Berliner Philharmoniker (somente Adagio, versão Ratz)

Erwin Ratz (1898-1973) é mais lembrado pelos mahlerianos como autor das Edições Críticas das sinfonias de Mahler. Ele sempre se opôs a qualquer tentativa de completar a Décima Sinfonia, pois, segundo ele, uma obra prima inacabada não deveria jamais ser retocada.

Por isso, reagindo à crescente aprovação da versão Cooke, Ratz republicou os manuscritos originais da sinfonia em 1967, como forma de mostrar o quão incompleta estaria a sinfonia. Mais ainda: ele revisou aquele primeiro fair copy do Adagio feito por Ernst Krenek e o publicou em 1964; uma segunda edição crítica foi publicada em 1969, e desde então esta versão tem sido usada em todas as gravações apenas do Adagio.

Sua visão era de que apenas o Adagio deveria ser tocado, pois foi o único movimento totalmente “completado” por Mahler. Sendo assim, sua edição é a mais fiel possível ao draft orquestral. Porém vários musicólogos duvidam desse estado “completo” do Adagio, afirmando que Mahler ainda faria várias revisões e correções na partitura. Por exemplo, há vários trechos com linhas de acompanhamento que começam mas não terminam (continuam em branco), o que Ratz converte em pausas. Como no trecho seguinte, onde Mahler anota as entradas dos instrumentos mas abandona-os no meio do caminho. Enquanto Cooke completa as pautas em branco e arma a preparação para o climax, Ratz deixa tudo como está, apenas com violinos, contrabaixos e trombones; ouça-os:

Mahler: Sinfonia n.10 – 1. Adagio comp. 135-141 (Cooke 3 x Ratz):

O radicalismo de Ratz é ainda maior nesta passagem dos compassos 170 e 171 (clique na figura para ver melhor).

Adagio comps. 169 a 172, orchestral draft e short score

No short score, há uma frase (marcada em vermelho na figura) escrita na terceira pauta, onde uma clave de sol fica subentendida. A frase se dirige aos graves, e já no compasso 170 ela invade a quarta pauta, o local dos graves, na clave de fá, retornando para a terceira pauta na metade do compasso 171. Ao que parece, ao transcrever esta frase para o orchestral draft, Mahler se confundiu e entendeu que tudo (incluindo a parte dos graves) estava escrito na clave de Sol, e assim deu a linha para um timbre agudo, os segundos violinos. Ratz ignora o erro de Mahler e preserva as duas grandes dissonâncias causadas pela troca de clave: no comp. 170 um Fá # contra Fá natural (era para ser Lá natural), e no comp. 171 um Lá # contra Lá natural (era para ser Dó #). Cooke restaura a linha original do short score entregando-a para os violoncelos (ouça primeiro Cooke, depois Ratz):

Mahler: Sinfonia n.10 – 1. Adagio comp. 169-172 (Cooke 3 x Ratz):

O erro fundamental de Ratz foi acreditar que a última versão escrita por Mahler acumularia todas as correções e melhorias das versões anteriores. Isto pode ser correto para obras completas e revisadas, como a Nona Sinfonia, mas para a Décima não. Ao levarmos em conta todo o conjunto de manuscritos existentes, percebemos o grande desserviço que Ratz prestou à sinfonia, agravado ainda mais pela popularidade que a edição ganhou. Provavelmente o tempo dará à edição Ratz o mesmo destino das primeiras edições das sinfonias de Bruckner: mera curiosidade histórica.

Versão Mazzetti

Slatkin - St. Louis SO (RCA 1994)
Leonard Slatkin, St. Louis Symphony Orchestra (versão Mazzetti 1)

Remo Mazzetti Jr (1957-) estudou 7 versões diferentes da Décima antes de criar sua própria versão, em 1985. Anos depois, Mazzetti iniciou uma segunda versão que teve sua estréia em 1999. Nesta ocasião, Mazzetti afirmou: acho que desta vez eu realmente coloquei as coisas no lugar.

Infelizmente, como eu só conheço a primeira edição, os comentários abaixo são sobre Mazzetti 1. Ah, se minha verba acompanhasse minha curiosidade musical…

Para Mazzetti, nenhuma das versões anteriores havia capturado a “essência da música de Mahler”: enquanto Cooke e Wheeler haviam sido conservadores demais, Carpenter havia passado do ponto. Por isso o que ouvimos, no geral, são adições discretas de muito bom gosto e que não chegam a incomodar tanto quanto em Carpenter. Por exemplo, em vários momentos-chave do Adagio temos ajuda da percussão, como aqui (ouça primeiro Cooke, depois Mazzetti):

Mahler: Sinfonia n.10 – 1. Adagio comp. 55-58 (Cooke 3 x Mazzetti 1):

As adições são tão pequenas, discretas e numerosas que fica até difícil enumerá-las ou mesmo destacá-las. Neste trecho do Scherzo I, veja se você percebe contribuições da harpa, trompete, tímpanos, glockenspiel, trompas, flautim e clarinete (ouça primeiro Cooke, depois Mazzetti):

Mahler: Sinfonia n.10 – 2. Scherzo I comp. 320-350 (Cooke 3 x Mazzetti 1):

Mazzetti varia muito mais a orquestração se comparado com Cooke, como podemos perceber nesta simples frase do Scherzo II (primeiro Cooke, depois Mazzetti):

Mahler: Sinfonia n.10 – 4. Scherzo II comp. 60-75 (Cooke 3 x Mazzetti 1):

Mazzetti compartilha muitas ideias com Carpenter, por exemplo, os dois removem o título “Purgatorio” do terceiro movimento, para que o mesmo não seja entendido como um programa. Mais: a repetição do tema principal (o da capo) não segue a mesma orquestração da primeira parte, tal como faz Cooke (ouça-o antes de Mazzetti):

Mahler: Sinfonia n.10 – 3. Purgatorio comp. 122-153 (Cooke 3 x Mazzetti 1):

(Falaremos um pouco mais sobre o problema do da capo do Purgatorio no próximo post).

O problema desta gravação é o regente Leonard Slatkin, com sua visão fria e distante do Adagio. Além disso, há rumores de que ele alterou certas passagens da partitura e forçou Mazzetti a incorporar estas mudanças na primeira edição, porém há controvérsias se estas alterações permanecem (ou não) na segunda edição. Tudo isso só me faz redobrar a curiosidade com a única gravação existente da versão Mazzetti 2, com Jesús López-Cobos.

Versão Barshai

Barshai - Junge Deutsche (Brilliant 2001)
Rudolf Barshai – Junge Deutsche Philharmonie (versão Barshai)

Em setembro de 2001, o maestro Rudolf Barshai (1924-2010) fez a estréia de sua versão com a Junge Deutsche Philharmonie. Como regente experiente de Mahler, ele estudou todas as versões existentes para preparar a sua própria.

Barshai tinha uma visão bem diferente da Décima Sinfonia: ele via nesta obra uma “precursora do século XX”, com suas mudanças constantes de compasso (ritmo) e dissonâncias aterradoras. Assim sua versão destaca aspectos modernos, com bastante ênfase na percussão. Por exemplo, neste trecho do Scherzo II, compare Cooke com Barshai:

Mahler: Sinfonia n.10 – 4. Scherzo II comp. 219-249 (Cooke 3 x Barshai):

A orquestração de Barshai soa bem moderna, em vários momentos fugindo do lugar comum. Como aqui no trio do Scherzo I, onde ele emprega violão e um discreto tamtam (ouça primeiro Cooke, depois Barshai):

Mahler: Sinfonia n.10 – 2. Scherzo I comp. 185-203 (Cooke 3 x Barshai):

Mas às vezes a criatividade passa do ponto e Mahler deixa de soar como Mahler. Como nesta paródia tipicamente mahleriana, mais para o final do Scherzo II (ouça antes Cooke, depois Barshai):

Mahler: Sinfonia n.10 – 4. Scherzo II comp. 490-504 (Cooke 3 x Barshai):

Barshai parece sentir uma necessidade de ser diferente dos demais, pela quantidade de surpresas que sua versão traz. Por exemplo, no final do Purgatorio, ele encontrou um acorde escondido entre as notas da harpa, e resolveu de forma diferente o acidente da penúltima nota. Ficou assim (compare ouvindo antes Cooke):

Mahler: Sinfonia n.10 – 3. Purgatorio comp. 164-170 (Cooke 3 x Barshai):

Já o Adagio lembra muito a versão de Ratz, com pequenas melhorias não muito significativas. Digno de nota, porém, é a interpretação: uma das melhores que já ouvi. Só por isto já vale a pena conhecer esta gravação.

Outras versões
Por volta de 1960, o alemão Hans Wollschläger iniciou sua versão. Algumas fontes que consultei dizem que ele desistiu de completá-la após ouvir a de Cooke, outros dizem que ele foi convencido (ou até pressionado) por Erwin Ratz. Enfim, a partitura inacabada deve estar guardada em alguma gaveta na Europa ou Estados Unidos, e ainda não há gravações dela.

Em 22 de setembro de 2001, Martin Sieghart fez a estréia da versão de Nicola Samale e Giuseppe Mazzucca, com a Vienna Symphony Orchestra. Já existe gravação comercial desta versão, mas por enquanto ela só está na minha “lista de compras”.

Yoel Gamzou passou alguns anos estudando todos os manuscritos existentes, preparando sua versão cuja estréia aconteceu em 2010.

Alguns maestros, ao reger versões da Décima, sentem-se à vontade para alterar um trecho ou outro. Em suas duas gravações (Cooke 2 com Bournemouth e Cooke 3 com Berlim), Simon Rattle adiciona tímpanos no acorde dissonante do Finale, remove a primeira batida do bumbo no mesmo movimento e altera várias instrumentações no decorrer da sinfonia. Neste trecho do Scherzo II, ele troca todos os violinos por apenas um só (compare Rattle com Wigglesworth, ambos Cooke 3):

Mahler: Sinfonia n.10 – 2. Scherzo I comp. 466-478 (Rattle (Cooke) x Wigglesworth (Cooke)):

Wigglesworth - BBC National Orchestra of Wales (BBC 1993)
Mark Wigglesworth, BBC National Orchestra of Wales (versão Cooke 3)

Por outro lado, Mark Wigglesworth remove exatamente a batida de pratos no final do Scherzo I, uma das novidades da versão Cooke 3 (compare ouvindo Rattle antes):

Mahler: Sinfonia n.10 – 2. Scherzo I comp. 511-522 (Rattle (Cooke) x Wigglesworth (Cooke)):

Mas por que há tantas versões diferentes?
Às vezes vale a pena lembrar do óbvio: Mahler escrevia suas anotações para si mesmo, e não para os outros. Isso explica a falta de exatidão na notação, os acidentes marcados incorretamente e a falta de clareza nas inserções, alterações e exclusões. Estava tudo em sua mente.

Há trechos facilmente restauráveis, mas outros são polêmicos e qualquer solução será discutível. Em certos trechos Mahler deixou alternativas para decidir depois por uma delas. No trecho seguinte do Adagio, há diferentes contratemas escritos em vários esboços, mas no orchestral draft está tudo em branco; qual teria sido a decisão final de Mahler? Ratz não tem dúvidas e deixa tudo em branco; Barshai adiciona uma flauta discreta só no final do trecho; Cooke entrega um dos contratemas para o fagote; Rattle substitui o fagote de Cooke pelo clarinete; e Mazzetti encontra outro contratema para o corne inglês. Ouça-os:

Mahler: Sinfonia n.10 – 1. Adagio comp. 162-165 (Ratz x Barshai x Cooke x Rattle (Cooke) x Mazzetti):

Não se sabe bem ao certo o significado de certas anotações, mas pelo menos uma delas pôde ser explicada pela viúva, Alma Mahler. Quando o compositor esteve hospedado em Nova York ele assistiu, do alto do 11º andar, um cortejo fúnebre de um bombeiro morto em ação. Puxando o cortejo, um outro bombeiro batia de tempos em tempos num bumbo. Tal cena é retratada no início do último movimento, mas cada editor interpreta o trecho a sua maneira. Cooke escolhe um bumbo militar com abafador, entregando a frase grave que segue a uma tuba solo. Wheeler acreditava que o Finale tentaria retomar o tempo do Scherzo anterior (Allegretto), sendo interrompido pelas batidas do bumbo. Mazzetti compartilha a frase grave entre um contrabaixo solo e uma harpa, marcando um crescendo até a próxima batida do bumbo. Mas Carpenter acreditava que, do 11º andar, as batidas do bumbo soariam fracas e indistintas, e assim anota na sua partitura. Ouça-os:

Mahler: Sinfonia n.10 – 5. Finale comp. 1-7 (Cooke x Wheeler x Mazzetti x Carpenter):

Outra tarefa particular de cada editor é preencher as vozes internas (o contraponto), e aqui é outra fonte de controvérsias entre eles. Compare o final do Scherzo I: Cooke faz apenas o necessário para soar bem, enquanto Mazzetti adiciona um pouco mais de recheio. E se Barshai adiciona uma percussão esquisita, o que dizer de Carpenter?

Mahler: Sinfonia n.10 – 2. Scherzo I comp. 492-522 (Cooke x Mazzetti x Barshai x Carpenter):

Resumindo, há versões para todos os gostos. Mas eu apenas gostaria de conhecer a sinfonia, qual versão escolho? Opte por Cooke. E não é possível completar a sinfonia com trechos de outras obras? Ouça Carpenter e me responda você. Gostaria de ouvir apenas o que Mahler escreveu: tente com Wheeler. Agora quero uma alternativa a Cooke: experimente Mazzetti. E se eu quiser saber mais? E se eu não gostar de nenhuma? Compre a partitura e nos presenteie com mais uma versão. Como disse Mahler em sua carta de demissão à Ópera de Viena:

Em vez de um todo, concluído como eu sonhei, eu deixo parte do trabalho, incompleto: assim como é o destino do homem.

Por fim, segue a lista de gravações comerciais disponíveis. Mas ainda não acabei: no próximo post, tem a análise completa da obra. Até lá!

1960 – Berthold Goldschmidt, Philharmonia Orchestra (ao vivo), versão “Cooke 0”
1964 – Berthold Goldschmidt, Philharmonia Orchestra (ao vivo), versão Cooke 1
1965 – Eugene Ormandy, Philadephia Orchestra, versão Cooke 1
1966 – Jean Martinon, Chicago Symphony Orchestra (ao vivo), versão Cooke 1
1972 – Wyn Morris, New Philharmonic Orchestra, versão Cooke 2
1979 – Kurt Sanderling, Berlin Symphony Orchestra, versão Cooke 2 / Sanderling
1980 – James Levine, Philadelphia Orchestra, versão Cooke 2
1980 – Simon Rattle, Bournemouth Symphony Orchestra, versão Cooke 2 / Rattle
1986 – Riccardo Chailly, Berlin Radio Symphony Orchestra, versão Cooke 2
1992 – Eliahu Inbal, Frankfurt Radio Symphony Orchestra, versão Cooke 2
1993 – Mark Wigglesworth, BBC National Orchestra of Wales (ao vivo), versão Cooke 3
1994 – Leonard Slatkin, St. Louis Symphony Orchestra, versão Mazzetti 1
1994 – Harold Farberman, Philharmonica Hungarica, versão Carpenter
1997 – Robert Olson, Colorado Mahlerfest Orchestra, versão Wheeler / Olson
1999 – Simon Rattle, Berlin Philharmonic Orchestra (ao vivo), versão Cooke 3 / Rattle
2000 – Jesús López-Cobos, Cincinnati Symphony Orchestra, versão Mazzetti 2
2000 – Robert Olson, Narodowa Radio Symphony Orchestra, versão Wheeler / Olson
2001 – Andrew Litton, Dallas Symphony Orchestra (ao vivo), versão Carpenter
2001 – Rudolf Barshai, Junge Deutsche Philharmonie (ao vivo), versão Barshai
2005 – Michael Gielen, SWR Sinfonieorchester Baden-Baden und Freiburg (ao vivo), versão Cooke 3
2007 – Gianandrea Noseda, BBC Philharmonic Orchestra, versão Cooke 3
2007 – Daniel Harding, Wiener Philharmoniker, versão Cooke 3
2007 – Martin Sieghart, Het Gelders Orkest (ao vivo), versão Samale/Mazzucca
2010 – David Zinman, Tonhalle Orchester Zurich, versão Carpenter
2010 – Yoel Gamzou, International Mahler Orchestra, versão Gamzou

Este post pertence à série:
1. Mahler: Décima Sinfonia – Parte I
2. Mahler: Décima Sinfonia – Parte II
3. Mahler: Décima Sinfonia – Parte III
4. Mahler: Décima Sinfonia – Parte IV

16 Respostas

  1. Amancio Cueto Jr.
    |

    Leitores do blog, peço desculpas pela demora na publicação da parte III (e pelo sumiço do blog também). Situações de excesso de trabalho a gente até consegue driblar, mas quando o problema é de saúde, não há muito o que fazer. Mas não se preocupem, porque já está tudo bem e aos poucos vida vai voltando ao seu normal. :-)

    E já vou avisando, a Parte IV deve sair só no final de outubro.

  2. lucio
    |

    amancio…

    tenho a versão do harding e do chailly,
    o que você me diz d’elas?
    e pergunto antes por uma questão noética
    que estética ou ‘de gosto’, como se diz.

    há tempo que esperava este post – muito bom!

    x]

  3. Amancio Cueto Jr.
    |

    Lucio, posso estar enganado, mas acho que vc quis dizer gravação do Chailly da versão Cooke 2, e gravação do Harding da versão Cooke 3, pode me confirmar?

    Não conheço a gravação do Harding, mas do Chailly eu acho meio “desconjuntada” e por vezes monótona. Mas aí o problema é mais interpretativo do que da versão utilizada.

  4. lucio
    |

    sim, isso mesmo – haha!
    um equivoco semântico…

    mas compreendo.
    de fato, quando ouço a gravação do harding
    em comparação com a do riccardão
    as frases soam um tanto mais serenas.

    deixo outra pergunta:
    de todas as gravações acima elencadas,
    por qual [ou por quais!] você nutre maior carinho?

    n’estas sociedades de salários mínimos,
    é bom ter indicações e referências,
    para não gastar a féria com comida ruim!
    como já foi ‘profetizado’, nem sempre desejo e possibilidade
    caminham na mesma proporção…
    queria ter a opinião do único mahleriano convicto que ‘conheço’.

    =/

  5. Amancio Cueto Jr.
    |

    Vc precisa conhecer mais gente! Tenho vários amigos mahlerianos convictos, não somos uma espécie rara.

    Bem, de sugestões de gravação, creio que meu texto fala por mim: das nove gravações que eu conheço, ainda fico com Simon Rattle e Filarmônica de Berlim (versão Cooke 3). Só que a Décima é o tipo de obra que vc PRECISA ter mais de uma gravação, ainda mais se for de uma versão diferente.

  6. Emerson Coelho
    |

    Amancio, já estava preocupado achando que não veria mais a continuação dessa magnífica série. Espero que sua saúde esteja ótima e que você nos brinde com pelo menos um trecho da sua versão dessa obra. alguma chance?
    A primeira vez que ouvi a décima foi através de Simon Rattle e Filarmônica de Berlim (versão Cooke 3). E ainda estou ouvindo-a. Comparando com as outras versões aqui constato que de fato ela é realmente muito boa.

  7. Caio Costa
    |

    Lamento muito pelos seus problemas de saúde, e desejo melhoras, caro Amâncio. Sobre o post, fico muito curioso para conhecer essas versões de Barshai, Gamzou, Samale/Mazzucca e a do Carpenter, e já baixei a do Wheeler.
    Você conhece algum acervo (de preferência “free”) onde eu possa encontrar as faixas de CD gravadas de tais versões?

  8. Amancio Cueto Jr.
    |

    Caio e Emerson, obrigado pelas palavras! Mas, só para esclarecer, os problemas de saúde não eram meus, eram da minha esposa. O que, no final, dá na mesma…

    Caio, para encontrar um acervo “free” tem de procurar nos Googles e blogs da vida. No site do PQP Bach ele disponibilizou as versões do Wheeler (com Olson) e Cooke 3 (com Rattle/BPO), mas a minha fonte preferida para conhecer essas versões é mesmo o site da Amazon (use a lista de gravações ali em cima para saber quem gravou qual versão).

  9. lucio
    |

    staff euterpe:

    vocês já pensaram em adicionar algum gadget
    de comentários recentes?

    creio que seja uma ótima ferramenta…

    abraços, o/

  10. Carlos
    |

    Caro Amancio,

    Excelente e elucidativo post.

    A questão sobre qual a “porcentagem” de Mahler nesta sinfonia parece ficar cada vez mais evidente quando ouvimos tantas versões aqui mostradas. Além disso, o problema da defesa dos músicos que geram uma “escola” da décima é um ponto crucial. As referências para comparação estão ainda sendo formadas. Grandes mahlerianos com Bernstein, Abbado, Kubelik, Tennstedt não executaram essa obra, seja qual versão, pois não acreditavam nela. Essa grande lacuna deixam os ouvintes também céticos.

    Eu sou cético de mente aberta, pois como você bem mostrou, mesmo não sendo 100% Mahler, ainda sim temos um Mahler, que nos nossos dias de vacas magras, significa muito. Não podemos esquecer que Mahler escrevia suas sinfonias em tempos muito curtos (em geral nas suas férias), pois boa parte da sua vida foi dedicada a dirigir óperas e conduzir orquestras pelo mundo. Desta forma, os rascunhos de Mahler da décima sinfonia dificilmente seriam completamente refeitas. É claro que o “ponto final” das versões carecem da força das sinfonias anteriores, a décima sinfonia não é uma obra-prima. Mas a sensação de observarmos Mahler pairando sobre uma película quase transparente, pronto para se revelar em sua última sinfonia é imperdível.

    Carlos

  11. IvanRicardo
    |

    É impressionante o fato de uma obra tão incompleta instigar a imaginação e o interesse de tantos estudiosos. Isso é outra façanha de Mahler, sem dúvida. E pelo que aprendi aqui, chega a superar, e muito, o interesse dos musicólogos pelos próprios esboços da décima sinfonia de Beethoven. Ou eu estou enganado?

  12. Leonardo T. Oliveira
    |

    Sem dúvida nenhuma, Ivan. Até porque a “Décima” de Beethoven é apenas um rascunho pra dois temas do primeiro movimento e talvez um outro de um scherzo, é um material frugalíssimo.

  13. Amancio Cueto Jr.
    |

    Como o Leonardo explicou, são duas obras deixadas em estágios bem diferentes de composição. O material da Décima de Beethoven deve ocupar meia página de rascunhos. Já a Décima de Mahler tem 165 páginas, e o fluxo de música está contínuo, do começo ao fim, sem interrupções. Qual obra é mais fácil de completar? :-)

  14. Emerson Coelho
    |

    Caro Amancio, o fim de outubro já se foi e nada da 4ª e última parte dessa magnífica e esplendorosa análise à décima de Mahler, mas não se incomode, continuarei esperando ansiosamente. E quando vê-la sei que serei recompensado com um belíssimo post chave de ouro.

  15. Amancio Cueto Jr.
    |

    Não se preocupe, o fim está próximo! (risos)
    E, acredite, se eu pudesse eu viveria apenas escrevendo artigos para o blog. Mas como não vivo disso (e dinheiro não dá em árvore), só consigo me dedicar à música nas horas vagas.

  16. Rosa
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    Grata de coração, Senhor Amancio! Seus blogs inspiram e maravilham os felizardos que se apaixonam pelo tema. A propósito, vejo a décima (ou os fragmentos dela) como significativamente distinta das demais sinfonias de Mahler e, em alguns trechos da parte “oficial” – mesmo que isso possa soar exagero – até superior a elas, como se o talento já imenso de Gustav ganhasse um impulso adicional. A febre por contribuições à décima evocam as numerosas discussões sobre a efetividade de esforços de um grupo sobre o que é gerado por um só indivíduo. Tenho ouvido com frequência a versão Cooke 3 (Gianandrea Noseda, 2007), acessível pelo Youtube: é, quando menos, um excelente trabalho que provavelmente o próprio Mahler incensaria.

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