Rattle - Berliner Phil. (EMI 1999)

A gravação usada nas comparações mais abaixo: Simon Rattle, Berliner Philharmoniker (Cooke 3)

Se no primeiro post nós falamos sobre a criação da sinfonia por Mahler, no segundo nós falamos sobre a reconstrução da sinfonia por Deryck Cooke, que é a versão mais utilizada hoje em gravações comerciais. Porém Cooke não foi o primeiro nem o último a mexer com a Décima; vamos falar hoje das outras reconstruções, reservando um espaço para falar também da edição “oficial” do Adagio, aquela considerada “original” de Mahler e usada por maestros como Abbado, Bernstein e Haitink em suas gravações apenas deste movimento.

Página do mov.2 (clique para ampliar)

Um resumo da versão Cooke
Tal como vimos no post anterior, o objetivo de Cooke era apenas criar um jeito de ouvirmos o que Mahler havia escrito em seus rascunhos, e por isso o resultado final foi batizado de “versão de performance” (e não “sinfonia completada por Cooke”). Suas adições ao material de Mahler se restringem apenas às harmonias e contrapontos faltantes, coisas mínimas apenas para que a textura sinfônica se mantenha constante.

Página do mov.5 (clique para ampliar)

A partitura publicada é bem detalhada: até o terceiro movimento, as alterações de Cooke são impressas em notas menores e em itálico; do terceiro movimento em diante, uma edição “limpa” do short score é apresentada embaixo da partitura da orquestra. Além disso, ao final do livro, Cooke comenta compasso por compasso as decisões que ele tomou. Resumindo, é um trabalho completo de musicologia e respeito ao compositor.

Versão Carpenter
Clinton Carpenter (1921-2005) era um fã de Mahler que vivia no subúrbio de Chicago. Sua versão para a Décima Sinfonia começou a ser escrita em 1946, e até 1966 seis versões foram produzidas, porém mesmo na década de 1990 ele ainda continuava revisando-a.

Litton - Dallas SO (Delos 2001)

Andrew Litton, Dallas Symphony Orchestra (versão Carpenter)

Diferente de Cooke, Carpenter quis realmente completar a sinfonia e alterou muito o que Mahler havia escrito, fazendo já as revisões que só o compositor teria feito. Carpenter também adiciona muito material extra na sinfonia, alguns de sua própria invenção, outros citando trechos de outras obras de Mahler. Neste trecho do Adagio, veja se você consegue reconhecer o Adagietto da Quinta Sinfonia (ouça primeiro Cooke, depois Carpenter):

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 1. Adagio comp. 65-69 (Cooke 3 x Carpenter)]: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Há trechos onde as adições e modificações de Carpenter funcionam muito bem, como este no Finale (ouça primeiro Cooke, depois compare com Carpenter):

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 5. Finale comp. 347-355 (Cooke 3 x Carpenter)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

Mas há também adições de gosto bem duvidoso, como esta transição aqui no Scherzo I (compare Cooke com Carpenter):

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 2. Scherzo I comp. 150-168 (Cooke 3 x Carpenter)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

Em sua partitura, Carpenter não indicou onde nem quais alterações foram feitas, muito menos o motivo: a sua intenção era apresentar a obra como “completa”, e não um trabalho de musicologia. Porém, o maior contraste em relação à Cooke está na visão do todo: se Cooke vê a sinfonia como uma obra afirmativa, com um final cheio de esperança, Carpenter viu uma sinfonia trágica, turbulenta e com uma resignação dolorosa ao final. Essa visão influenciou toda a escolha de texturas, cores, instrumentação, dinâmicas e tempos. Em geral, Carpenter prefere sempre orquestrações mais densas e instrumentações mais pesadas do que Cooke, e assim mesmo os momentos mais alegres em Cooke soam irônicos ou sarcásticos em Carpenter. Veja este trecho do Scherzo I, comparando Cooke com Carpenter:

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 2. Scherzo I comp. 233-246 (Cooke 3 x Carpenter)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

Carpenter também escolhe tempos mais largos do que Cooke, fazendo (por exemplo) os ländlers soarem nostálgicos. Como este aqui, no Scherzo II (ouça primeiro Cooke, depois Carpenter):

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 4. Scherzo II comp. 248-275 (Cooke 3 x Carpenter)].

É importante observar que muito do material acrescentado por Carpenter atrapalha a visão do que Mahler deixou escrito na Décima, e o estilo orquestral adotado está mais para o Mahler “vitaminado” da Terceira Sinfonia do que para aquele camerístico da Canção da Terra. É uma versão importante de se conhecer, mas é a menos indicada para um ouvinte de primeira viagem.

Versão Wheeler

Olson - Narodowa Radio SO (Naxos 2000)

Robert Olson, Narodowa Radio Symphony Orchestra (versão Wheeler)

O britânico Joseph Wheeler (1927-1977) desconhecia o trabalho de Carpenter quando criou três versões da Décima entre 1953 e 1955. A quarta e última versão veio à luz em 1965 após a descoberta das novas 44 páginas de esboços.

Operando no extremo oposto de Carpenter, Wheeler adiciona o menos possível ao que foi deixado por Mahler, menos ainda do que Cooke, e assim sua versão desnuda por completo a ausência de textura de certos trechos, bem como a falta de indicação de andamentos, dinâmicas e orquestrações. Ouça este trecho do Scherzo I e repare, primeiro, como Cooke enriquece-o variando a dinâmica e preenchendo-o a orquestração faltante, enquanto Wheeler permanece no forte e se atém ao que Mahler deixou escrito:

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 2. Scherzo I comp. 31-59 (Cooke 3 x Wheeler)].

Isto significa que Wheeler não adicionada nada mais? Não, claro que não; no trecho acima, os ouvidos mais atentos perceberam uma batida de pratos que não havia em Cooke. Porém estes momentos são raros; na maior parte do tempo, Wheeler prefere ouvir apenas o que Mahler escreveu e sem muitas cores de orquestração. Como este trecho no Scherzo II, onde Wheeler prefere o monocromatismo dos violinos (ouça primeiro Cooke, depois Wheeler):

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 4. Scherzo II comp. 278-290 (Cooke 3 x Wheeler)].

Assim, com Wheeler o movimento mais prejudicado é, sem dúvida, o que necessita de maior imaginação para ser recuperado: o Scherzo II. Compare o início do quarto movimento ouvindo primeiro Cooke, depois Wheeler:

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 4. Scherzo II comp. 1-28 (Cooke 3 x Wheeler)].

A simplicidade também é evidente na flutuação dos andamentos: enquanto Cooke prefere alterar os tempos seguindo o contexto, Wheeler segue sempre no mesmo embalo. Ouça este outro trecho do Scherzo II, primeiro Cooke, depois Wheeler:

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 4. Scherzo II comp. 366-390 (Cooke 3 x Wheeler)].

E no afã de ser fiel ao manuscrito, Wheeler abraça vários erros de Mahler, além de incluir alguns outros por enganos de leitura. Muitos destes erros foram corrigidos por Remo Mazzetti Jr,  Frans Bouwman e Robert Olson na edição de 1998, mas alguns “erros históricos” foram preservados. Como este aqui no Finale: Cooke muda de compasso 2/2 para 4/4 antes da famosa dissonância, mas Wheeler retarda a alteração para a entrada das trompas, no retorno do tema do Adagio. Resultado: em Wheeler, a dissonância passa muito mais rapidamente. Ouça:

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 5. Finale comp. 264-285 (Cooke 3 x Wheeler)].

Por tudo isso Wheeler é uma boa “segunda versão”, aquela para se ouvir depois de conhecer a de Cooke. Com ela é fácil de perceber o estado dos manuscritos originais deixados por Mahler, mas após algumas audições, creio que o mahleriano convicto irá gostar ainda mais do excelente trabalho de Cooke.

Versão Erwin Ratz (o Adagio “oficial”)

Haitink - Berliner Phil. (Phillips 1995)

Bernard Haitink, Berliner Philharmoniker (somente Adagio, versão Ratz)

Erwin Ratz (1898-1973) é mais lembrado pelos mahlerianos como autor das Edições Críticas das sinfonias de Mahler. Ele sempre se opôs a qualquer tentativa de completar a Décima Sinfonia, pois, segundo ele, uma obra prima inacabada não deveria jamais ser retocada.

Por isso, reagindo à crescente aprovação da versão Cooke, Ratz republicou os manuscritos originais da sinfonia em 1967, como forma de mostrar o quão incompleta estaria a sinfonia. Mais ainda: ele revisou aquele primeiro fair copy do Adagio feito por Ernst Krenek e o publicou em 1964; uma segunda edição crítica foi publicada em 1969, e desde então esta versão tem sido usada em todas as gravações apenas do Adagio.

Sua visão era de que apenas o Adagio deveria ser tocado, pois foi o único movimento totalmente “completado” por Mahler. Sendo assim, sua edição é a mais fiel possível ao draft orquestral. Porém vários musicólogos duvidam desse estado “completo” do Adagio, afirmando que Mahler ainda faria várias revisões e correções na partitura. Por exemplo, há vários trechos com linhas de acompanhamento que começam mas não terminam (continuam em branco), o que Ratz converte em pausas. Como no trecho seguinte, onde Mahler anota as entradas dos instrumentos mas abandona-os no meio do caminho. Enquanto Cooke completa as pautas em branco e arma a preparação para o climax, Ratz deixa tudo como está, apenas com violinos, contrabaixos e trombones; ouça-os:

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 1. Adagio comp. 135-141 (Cooke 3 x Ratz)].

O radicalismo de Ratz é ainda maior nesta passagem dos compassos 170 e 171 (clique na figura para ver melhor).

Adagio comps. 169 a 172, orchestral draft e short score

No short score, há uma frase (marcada em vermelho na figura) escrita na terceira pauta, onde uma clave de sol fica subentendida. A frase se dirige aos graves, e já no compasso 170 ela invade a quarta pauta, o local dos graves, na clave de fá, retornando para a terceira pauta na metade do compasso 171. Ao que parece, ao transcrever esta frase para o orchestral draft, Mahler se confundiu e entendeu que tudo (incluindo a parte dos graves) estava escrito na clave de Sol, e assim deu a linha para um timbre agudo, os segundos violinos. Ratz ignora o erro de Mahler e preserva as duas grandes dissonâncias causadas pela troca de clave: no comp. 170 um Fá # contra Fá natural (era para ser Lá natural), e no comp. 171 um Lá # contra Lá natural (era para ser Dó #). Cooke restaura a linha original do short score entregando-a para os violoncelos (ouça primeiro Cooke, depois Ratz):

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 1. Adagio comp. 169-172 (Cooke 3 x Ratz)].

O erro fundamental de Ratz foi acreditar que a última versão escrita por Mahler acumularia todas as correções e melhorias das versões anteriores. Isto pode ser correto para obras completas e revisadas, como a Nona Sinfonia, mas para a Décima não. Ao levarmos em conta todo o conjunto de manuscritos existentes, percebemos o grande desserviço que Ratz prestou à sinfonia, agravado ainda mais pela popularidade que a edição ganhou. Provavelmente o tempo dará à edição Ratz o mesmo destino das primeiras edições das sinfonias de Bruckner: mera curiosidade histórica.

Versão Mazzetti

Slatkin - St. Louis SO (RCA 1994)

Leonard Slatkin, St. Louis Symphony Orchestra (versão Mazzetti 1)

Remo Mazzetti Jr (1957-) estudou 7 versões diferentes da Décima antes de criar sua própria versão, em 1985. Anos depois, Mazzetti iniciou uma segunda versão que teve sua estréia em 1999. Nesta ocasião, Mazzetti afirmou: acho que desta vez eu realmente coloquei as coisas no lugar.

Infelizmente, como eu só conheço a primeira edição, os comentários abaixo são sobre Mazzetti 1. Ah, se minha verba acompanhasse minha curiosidade musical…

Para Mazzetti, nenhuma das versões anteriores havia capturado a “essência da música de Mahler”: enquanto Cooke e Wheeler haviam sido conservadores demais, Carpenter havia passado do ponto. Por isso o que ouvimos, no geral, são adições discretas de muito bom gosto e que não chegam a incomodar tanto quanto em Carpenter. Por exemplo, em vários momentos-chave do Adagio temos ajuda da percussão, como aqui (ouça primeiro Cooke, depois Mazzetti):

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 1. Adagio comp. 55-58 (Cooke 3 x Mazzetti 1)].

As adições são tão pequenas, discretas e numerosas que fica até difícil enumerá-las ou mesmo destacá-las. Neste trecho do Scherzo I, veja se você percebe contribuições da harpa, trompete, tímpanos, glockenspiel, trompas, flautim e clarinete (ouça primeiro Cooke, depois Mazzetti):

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 2. Scherzo I comp. 320-350 (Cooke 3 x Mazzetti 1)].

Mazzetti varia muito mais a orquestração se comparado com Cooke, como podemos perceber nesta simples frase do Scherzo II (primeiro Cooke, depois Mazzetti):

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 4. Scherzo II comp. 60-75 (Cooke 3 x Mazzetti 1)].

Mazzetti compartilha muitas ideias com Carpenter, por exemplo, os dois removem o título “Purgatorio” do terceiro movimento, para que o mesmo não seja entendido como um programa. Mais: a repetição do tema principal (o da capo) não segue a mesma orquestração da primeira parte, tal como faz Cooke (ouça-o antes de Mazzetti):

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 3. Purgatorio comp. 122-153 (Cooke 3 x Mazzetti 1)].

(Falaremos um pouco mais sobre o problema do da capo do Purgatorio no próximo post).

O problema desta gravação é o regente Leonard Slatkin, com sua visão fria e distante do Adagio. Além disso, há rumores de que ele alterou certas passagens da partitura e forçou Mazzetti a incorporar estas mudanças na primeira edição, porém há controvérsias se estas alterações permanecem (ou não) na segunda edição. Tudo isso só me faz redobrar a curiosidade com a única gravação existente da versão Mazzetti 2, com Jesús López-Cobos.

Versão Barshai

Barshai - Junge Deutsche (Brilliant 2001)

Rudolf Barshai - Junge Deutsche Philharmonie (versão Barshai)

Em setembro de 2001, o maestro Rudolf Barshai (1924-2010) fez a estréia de sua versão com a Junge Deutsche Philharmonie. Como regente experiente de Mahler, ele estudou todas as versões existentes para preparar a sua própria.

Barshai tinha uma visão bem diferente da Décima Sinfonia: ele via nesta obra uma “precursora do século XX”, com suas mudanças constantes de compasso (ritmo) e dissonâncias aterradoras. Assim sua versão destaca aspectos modernos, com bastante ênfase na percussão. Por exemplo, neste trecho do Scherzo II, compare Cooke com Barshai:

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 4. Scherzo II comp. 219-249 (Cooke 3 x Barshai)].

A orquestração de Barshai soa bem moderna, em vários momentos fugindo do lugar comum. Como aqui no trio do Scherzo I, onde ele emprega violão e um discreto tamtam (ouça primeiro Cooke, depois Barshai):

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 2. Scherzo I comp. 185-203 (Cooke 3 x Barshai)].

Mas às vezes a criatividade passa do ponto e Mahler deixa de soar como Mahler. Como nesta paródia tipicamente mahleriana, mais para o final do Scherzo II (ouça antes Cooke, depois Barshai):

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 4. Scherzo II comp. 490-504 (Cooke 3 x Barshai)].

Barshai parece sentir uma necessidade de ser diferente dos demais, pela quantidade de surpresas que sua versão traz. Por exemplo, no final do Purgatorio, ele encontrou um acorde escondido entre as notas da harpa, e resolveu de forma diferente o acidente da penúltima nota. Ficou assim (compare ouvindo antes Cooke):

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 3. Purgatorio comp. 164-170 (Cooke 3 x Barshai)].

Já o Adagio lembra muito a versão de Ratz, com pequenas melhorias não muito significativas. Digno de nota, porém, é a interpretação: uma das melhores que já ouvi. Só por isto já vale a pena conhecer esta gravação.

Outras versões
Por volta de 1960, o alemão Hans Wollschläger iniciou sua versão. Algumas fontes que consultei dizem que ele desistiu de completá-la após ouvir a de Cooke, outros dizem que ele foi convencido (ou até pressionado) por Erwin Ratz. Enfim, a partitura inacabada deve estar guardada em alguma gaveta na Europa ou Estados Unidos, e ainda não há gravações dela.

Em 22 de setembro de 2001, Martin Sieghart fez a estréia da versão de Nicola Samale e Giuseppe Mazzucca, com a Vienna Symphony Orchestra. Já existe gravação comercial desta versão, mas por enquanto ela só está na minha “lista de compras”.

Yoel Gamzou passou alguns anos estudando todos os manuscritos existentes, preparando sua versão cuja estréia aconteceu em 2010.

Alguns maestros, ao reger versões da Décima, sentem-se à vontade para alterar um trecho ou outro. Em suas duas gravações (Cooke 2 com Bournemouth e Cooke 3 com Berlim), Simon Rattle adiciona tímpanos no acorde dissonante do Finale, remove a primeira batida do bumbo no mesmo movimento e altera várias instrumentações no decorrer da sinfonia. Neste trecho do Scherzo II, ele troca todos os violinos por apenas um só (compare Rattle com Wigglesworth, ambos Cooke 3):

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 2. Scherzo I comp. 466-478 (Rattle (Cooke) x Wigglesworth (Cooke))].

Wigglesworth - BBC National Orchestra of Wales (BBC 1993)

Mark Wigglesworth, BBC National Orchestra of Wales (versão Cooke 3)

Por outro lado, Mark Wigglesworth remove exatamente a batida de pratos no final do Scherzo I, uma das novidades da versão Cooke 3 (compare ouvindo Rattle antes):

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 2. Scherzo I comp. 511-522 (Rattle (Cooke) x Wigglesworth (Cooke))].

Mas por que há tantas versões diferentes?
Às vezes vale a pena lembrar do óbvio: Mahler escrevia suas anotações para si mesmo, e não para os outros. Isso explica a falta de exatidão na notação, os acidentes marcados incorretamente e a falta de clareza nas inserções, alterações e exclusões. Estava tudo em sua mente.

Há trechos facilmente restauráveis, mas outros são polêmicos e qualquer solução será discutível. Em certos trechos Mahler deixou alternativas para decidir depois por uma delas. No trecho seguinte do Adagio, há diferentes contratemas escritos em vários esboços, mas no orchestral draft está tudo em branco; qual teria sido a decisão final de Mahler? Ratz não tem dúvidas e deixa tudo em branco; Barshai adiciona uma flauta discreta só no final do trecho; Cooke entrega um dos contratemas para o fagote; Rattle substitui o fagote de Cooke pelo clarinete; e Mazzetti encontra outro contratema para o corne inglês. Ouça-os:

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 1. Adagio comp. 162-165 (Ratz x Barshai x Cooke x Rattle (Cooke) x Mazzetti)].

Não se sabe bem ao certo o significado de certas anotações, mas pelo menos uma delas pôde ser explicada pela viúva, Alma Mahler. Quando o compositor esteve hospedado em Nova York ele assistiu, do alto do 11º andar, um cortejo fúnebre de um bombeiro morto em ação. Puxando o cortejo, um outro bombeiro batia de tempos em tempos num bumbo. Tal cena é retratada no início do último movimento, mas cada editor interpreta o trecho a sua maneira. Cooke escolhe um bumbo militar com abafador, entregando a frase grave que segue a uma tuba solo. Wheeler acreditava que o Finale tentaria retomar o tempo do Scherzo anterior (Allegretto), sendo interrompido pelas batidas do bumbo. Mazzetti compartilha a frase grave entre um contrabaixo solo e uma harpa, marcando um crescendo até a próxima batida do bumbo. Mas Carpenter acreditava que, do 11º andar, as batidas do bumbo soariam fracas e indistintas, e assim anota na sua partitura. Ouça-os:

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 5. Finale comp. 1-7 (Cooke x Wheeler x Mazzetti x Carpenter)].

Outra tarefa particular de cada editor é preencher as vozes internas (o contraponto), e aqui é outra fonte de controvérsias entre eles. Compare o final do Scherzo I: Cooke faz apenas o necessário para soar bem, enquanto Mazzetti adiciona um pouco mais de recheio. E se Barshai adiciona uma percussão esquisita, o que dizer de Carpenter?

Audio clip [Mahler: Sinfonia n.10 - 2. Scherzo I comp. 492-522 (Cooke x Mazzetti x Barshai x Carpenter)].

Resumindo, há versões para todos os gostos. Mas eu apenas gostaria de conhecer a sinfonia, qual versão escolho? Opte por Cooke. E não é possível completar a sinfonia com trechos de outras obras? Ouça Carpenter e me responda você. Gostaria de ouvir apenas o que Mahler escreveu: tente com Wheeler. Agora quero uma alternativa a Cooke: experimente Mazzetti. E se eu quiser saber mais? E se eu não gostar de nenhuma? Compre a partitura e nos presenteie com mais uma versão. Como disse Mahler em sua carta de demissão à Ópera de Viena:

Em vez de um todo, concluído como eu sonhei, eu deixo parte do trabalho, incompleto: assim como é o destino do homem.

Por fim, segue a lista de gravações comerciais disponíveis. Mas ainda não acabei: no próximo post, tem a análise completa da obra. Até lá!

1960 – Berthold Goldschmidt, Philharmonia Orchestra (ao vivo), versão “Cooke 0″
1964 – Berthold Goldschmidt, Philharmonia Orchestra (ao vivo), versão Cooke 1
1965 – Eugene Ormandy, Philadephia Orchestra, versão Cooke 1
1966 – Jean Martinon, Chicago Symphony Orchestra (ao vivo), versão Cooke 1
1972 – Wyn Morris, New Philharmonic Orchestra, versão Cooke 2
1979 – Kurt Sanderling, Berlin Symphony Orchestra, versão Cooke 2 / Sanderling
1980 – James Levine, Philadelphia Orchestra, versão Cooke 2
1980 – Simon Rattle, Bournemouth Symphony Orchestra, versão Cooke 2 / Rattle
1986 – Riccardo Chailly, Berlin Radio Symphony Orchestra, versão Cooke 2
1992 – Eliahu Inbal, Frankfurt Radio Symphony Orchestra, versão Cooke 2
1993 – Mark Wigglesworth, BBC National Orchestra of Wales (ao vivo), versão Cooke 3
1994 – Leonard Slatkin, St. Louis Symphony Orchestra, versão Mazzetti 1
1994 – Harold Farberman, Philharmonica Hungarica, versão Carpenter
1997 – Robert Olson, Colorado Mahlerfest Orchestra, versão Wheeler / Olson
1999 – Simon Rattle, Berlin Philharmonic Orchestra (ao vivo), versão Cooke 3 / Rattle
2000 – Jesús López-Cobos, Cincinnati Symphony Orchestra, versão Mazzetti 2
2000 – Robert Olson, Narodowa Radio Symphony Orchestra, versão Wheeler / Olson
2001 – Andrew Litton, Dallas Symphony Orchestra (ao vivo), versão Carpenter
2001 – Rudolf Barshai, Junge Deutsche Philharmonie (ao vivo), versão Barshai
2005 – Michael Gielen, SWR Sinfonieorchester Baden-Baden und Freiburg (ao vivo), versão Cooke 3
2007 – Gianandrea Noseda, BBC Philharmonic Orchestra, versão Cooke 3
2007 – Daniel Harding, Wiener Philharmoniker, versão Cooke 3
2007 – Martin Sieghart, Het Gelders Orkest (ao vivo), versão Samale/Mazzucca
2010 – David Zinman, Tonhalle Orchester Zurich, versão Carpenter
2010 – Yoel Gamzou, International Mahler Orchestra, versão Gamzou

Este post pertence à série:
1. Mahler: Décima Sinfonia – Parte I
2. Mahler: Décima Sinfonia – Parte II
3. Mahler: Décima Sinfonia – Parte III
4. Mahler: Décima Sinfonia – Parte IV
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