Mahler: Décima Sinfonia – Parte IV

Fechando o “Ano Mahler” com chave de ouro, publico aqui uma análise musical de sua Décima Sinfonia. Esta é a quarta parte de uma série que começou falando da criação da sinfonia por Mahler, depois tratou de seu renascimento e reconstrução, e por último fez um extenso comparativo entre as várias versões existentes da obra. Mas apesar de existirem várias versões, todas elas são baseadas nos rascunhos deixados por Mahler, e é em cima dessa “base comum” que a análise abaixo está montada.

A sinfonia contém cinco movimentos dispostos em perfeita simetria:

Estrutura da Décima SinfoniaSão dois grandes Adagios englobando dois Scherzos bem movimentados, tendo ao centro um minúsculo e descritivo intermezzo. Vamos então dar uma olhada em cada movimento.

I. Adagio

Ouvindo apenas o Adagio, muitos acreditam se tratar de uma continuação da Nona Sinfonia, um “adeus renovado”. Mas ao ouvirmos a sinfonia inteira, entendemos que o primeiro movimento é apenas a exposição, a apresentação de questões que só serão respondidas no final da sinfonia.

Estrutura de I. Adagio - Sinfonia n.10 de Mahler

Seu formato lembra de longe o de uma forma-sonata, com duas seções de apresentação dos temas, desenvolvimento, recapitulação e uma coda. Vale lembrar que tanto as seções de Andante (incluindo a que abre a sinfonia) quanto a seção do “Acorde da Crise” foram adicionadas depois, quando o movimento já estava praticamente pronto – o que me leva a crer que o movimento foi inicialmente concebido como forma-sonata, mas acabou distorcido pela inclusão das seções acima citadas (mais informações lá no meu primeiro post).

Apesar do título do movimento inicial ser “I. Adagio”, o movimento abre com um Andante para violas:

Mahler: Sinfonia n.10 – 1. Adagio – 01. Tema do Andante (Simon Rattle – Berlin PO):

E só depois vem o tema principal do Adagio, uma melodia ascendente cheia de grandes saltos. Outro tema importante para o movimento é a inversão do tema do Adagio (notem a melodia descendente ao final do exemplo):

Mahler: Sinfonia n.10 – 1. Adagio – 02. Tema do Adagio (Simon Rattle – Berlin PO):

A seção da “Exposição” ainda conta com versões irônicas de ambos os temas, este aqui é a versão irônica do tema do Adagio:

Mahler: Sinfonia n.10 – 1. Adagio – 03. Adagio irônico (Simon Rattle – Berlin PO):

Tema do Adagio e suas variantes

E aqui a versão irônica do tema do Andante:

Mahler: Sinfonia n.10 – 1. Adagio – 04. Andante irônico (Simon Rattle – Berlin PO):

No meio disso tudo tem até citação da Sexta Sinfonia! Compare a citação com o trecho citado do 1º mov.:

Citação da Sexta na Décima e Trecho citado da Sexta Sinfonia (Haitink – Berlin PO):

Após a primeira apresentação, todos os temas (incluindo as versões irônicas e invertida) são reapresentados porém não de forma literal, como seria de se esperar numa forma-sonata. Aqui na segunda vez, o tema do Adagio toma um tempo maior, explorando sua verve mais melancólica.

Então ouvimos o Andante nas violas pela terceira vez, e quando esperamos novamente a entrada do tema do Adagio, surge um deboche irônico:

Mahler: Sinfonia n.10 – 1. Adagio – 06. Desenvolvimento (Simon Rattle – Berlin PO):

É o início da seção de desenvolvimento, onde os temas são tratados todos com esse clima de deboche. O desenvolvimento termina com a preparação de um clímax para o retorno do tema do Adagio (reexposição) em suas duas formas, a inversão nas trompas e a original nas cordas:

Mahler: Sinfonia n.10 – 1. Adagio – 07. Reexposição adagio (Simon Rattle – Berlin PO):

Sim, durante a reexposição o tema do Andante também retorna, porém em sua versão irônica:

Mahler: Sinfonia n.10 – 1. Adagio – 08. Reexposição andante (Simon Rattle – Berlin PO):

Agora ouçam este trecho aqui: não parece que estamos nos encaminhando para o final? Soa como um apagar das luzes, como se fosse o início de uma coda:

Mahler: Sinfonia n.10 – 1. Adagio – 09. Falsa coda (Simon Rattle – Berlin PO):

O Acorde da Crise
A Crise

Mas aquilo que deveria ser o clímax final é interrompido por um momento de tensão, um silêncio inesperado, como a calmaria que antecede a tempestade. E quando ela deságua, traz consigo uma terrivel dissonância, aqui batizada de “Acorde da Crise”:

Mahler: Sinfonia n.10 – 1. Adagio – 10. Acorde da Crise (Simon Rattle – Berlin PO):

Depois desse episódio, a música se desmancha, desmonta-se pouco a pouco em direção ao vazio. E quando já não temos mais nada, inicia-se a verdadeira coda:

Mahler: Sinfonia n.10 – 1. Adagio – 11. Coda (Simon Rattle – Berlin PO):

A partir deste instante, o movimento se dirige ao seu final, concluindo num celestial acorde de Fá # Maior.

II. Scherzo

O primeiro Scherzo da sinfonia é um movimento alegre com aquele brilho típico de um Finale, pois ele foi inicialmente concebido como o final de uma sinfonia simples em dois movimentos (detalhei melhor essa história lá no meu primeiro post, lembram?).

Se Mahler tivesse vivido o suficiente para reger esta sinfonia, provavelmente este movimento seria seu maior desafio como regente. O Scherzo troca de tempo a cada compasso, da mesma maneira como a Sagração da Primavera faria 3 anos depois:

Mahler: Sinfonia n.10 – 2. Scherzo I – 01. Tema do Scherzo (Simon Rattle – Berlin PO):

Em sua famosa palestra de dezembro de 1960, Deryck Cooke chama a seção seguinte de “Primeiro Trio”:

Mahler: Sinfonia n.10 – 2. Scherzo I – 02. Desenvolvimento (Simon Rattle – Berlin PO):

Permitam-me discordar: parece mais um desenvolvimento do tema inicial, apenas com uma mudança de textura. O scherzo então retorna ao seu humor original, preparando-nos para a primeira apresentação do Trio (ou “Segundo Trio”, segundo Cooke):

Mahler: Sinfonia n.10 – 2. Scherzo I – 03. Trio Ländler (Simon Rattle – Berlin PO):

Sim, é um típico ländler, uma valsa rústica de presença constante nas obras de Mahler. O tema principal é uma transformação do tema do Adagio em suas três formas: a original, a invertida e a irônica. Aliás, a transformação da versão irônica fica parecendo uma citação do 2º mov. da Quarta Sinfonia:

Mahler: Sinfonia n.10 – 2. Scherzo I – 04. Citações (Rattle – BPO e Tennstedt – LPO):

O agito do scherzo interrompe este idílio, mas não demora para surgir uma segunda apresentação do Trio. É no próximo retorno do scherzo que os dois mundos começam a se conciliar, primeiro adicionando fragmentos do ländler ao scherzo, e depois adicionando os fragmentos do scherzo à última apresentação do Trio:

Mahler: Sinfonia n.10 – 2. Scherzo I – 05. Misturando as sessões (Simon Rattle – Berlin PO):

A coda é a brilhante fusão das duas seções contrastantes, mas é a versão transformada do tema do Adagio que leva à conclusão do movimento:

Mahler: Sinfonia n.10 – 2. Scherzo I – 06. Final da Coda (Simon Rattle – Berlin PO):

Nestes dois movimentos a música pareceu sugerir um programa extra-musical, porém não havia na partitura nenhuma dica de qual poderia ser esse programa. Tudo isso muda a partir do terceiro movimento.

III. Purgatorio

O movimento central da sinfonia é um minúsculo intermezzo, curiosamente o menor movimento escrito por Mahler para uma de suas sinfonias.

Seu formato é um ABA simples, mas vale a pena notar que a seção “B” (o Trio) está não só no centro do movimento, mas também no centro de toda a sinfonia, e assim tem uma imensa importância para toda a obra.

O clima geral do Purgatorio é emprestado de uma das canções do ciclo Des Knaben Wunderhorn (A Trompa Mágica do Menino): Das irdische Leben (A Vida Celestial) – compare o início das duas obras:

Mahler: Sinfonia n.10 – 3. Purgatorio – 01. Comparação com Das irdische Leben (Rattle – BPO e Abbado – von Otter – BPO):

Na canção, uma criança faminta pede pão à sua mãe repetidas vezes, recebendo por resposta desculpas de que “amanhã iremos ceifar o trigo”, “amanhã iremos debulhar o trigo”, “amanhã iremos assar o pão”… mas quando finalmente o pão ficou pronto, a criança jazia no caixão. Tétrico, não? Pois é, este é o clima do movimento.

No trio, os sentimentos de Mahler parecem transbordar da partitura e, pela primeira vez, são exteriorizados em palavras junto aos temas. Aqui ele escreveu: Morte, Transfiguração:

Mahler: Sinfonia n.10 – 3. Purgatorio – 02. Trio: Morte e Transfiguração (Simon Rattle – Berlin PO):

No clímax logo em seguida: Oh Deus, por que me abandonastes?

Mahler: Sinfonia n.10 – 3. Purgatorio – 03. Trio: Oh Deus por que me abandonastes (Simon Rattle – Berlin PO):

E imediatamente depois: Seja feita a Tua vontade.

Mahler: Sinfonia n.10 – 3. Purgatorio – 04. Trio: Seja feita a Tua vontade (Simon Rattle – Berlin PO):

Curiosamente, o tema destes três excertos parece com uma das canções de Alma Mahler, justamente a que o compositor estava revisando naquele verão.

Concluído o trio, Mahler escreve apenas Da Capo e mais um compasso e meio do tema do início do movimento, deixando o restante em branco:

Mahler: Sinfonia n.10 – 3. Purgatorio – 05. Da capo (Simon Rattle – Berlin PO):

Da capo é uma expressão italiana que indica para retornar ao início da música, “repetir a primeira parte”. A partitura é muito clara nesta indicação, mas é muito improvável que Mahler repetisse fielmente a primeira parte, nota por nota, com a mesma orquestração. Ainda mais se pensarmos que o Trio, centro de toda a sinfonia, altera a obra dramaticamente, guiando-a para um novo rumo. Infelizmente não há nenhuma outra informação que possa basear os editores em suas escolhas, e assim, cada um resolveu o problema à sua maneira.

Mahler só retoma a partitura na entrada da flauta, um pouco antes do início da coda:

Mahler: Sinfonia n.10 – 3. Purgatorio – 06. Retorno e coda (Simon Rattle – Berlin PO):

Apesar de curto, Purgatorio contém o germe dos dois movimentos seguintes. As referências são bastante claras, como veremos adiante.

IV. [Scherzo]

Do Purgatorio, descemos ao Inferno do segundo Scherzo. E quem diz isso é o próprio Mahler na primeira página do movimento, onde ele escreve: O Diabo dança isto comigo. Loucura, apodera-se de mim, o amaldiçoado! Me destrói de um jeito que eu esqueço que eu existo! Que eu devo deixar de existir. Que eu des… (a palavra aqui ficou incompleta).

O movimento não tem um título nem indicação de andamento, mas tem todas as características de um scherzo, e pode emprestar seu andamento de Das Trinklied von Jammer der Erde (A Canção de Brinde pelo Lamento da Terra), a canção inicial de Das Lied von der Erde (A Canção da Terra) que é até citada no decorrer do movimento:

Mahler: Sinfonia n.10 – 4. Scherzo II – 01. Citação da Trinklied (Rattle – BPO e Klemperer – Wunderlich – PO):

Interessante notar que o trecho citado da canção é justamente quando o tenor se pergunta: Mas você, homem, quanto tempo viverá? Não tem nem cem anos para desfrutar de todas as podres futilidades desta terra! Estaria Mahler questionando seu tempo de vida? Quem sabe…

O scherzo é marcado por três acordes e uma melodia bastante angulosa, cheia de saltos assim como o tema do Adagio no primeiro movimento.

Mahler: Sinfonia n.10 – 4. Scherzo II – 02. Tema do scherzo (Simon Rattle – Berlin PO):

Em especial, há três notas que aparecem em todo o movimento e são emprestadas do Purgatorio, mas há quem note semelhança com o motivo do Rondó-Burleske, o 3º mov. da Nona Sinfonia:

Mahler: Sinfonia n.10 – 4. Scherzo II – 03. Citações (Rattle – BPO e Abbado – BPO):

Tal como no primeiro Scherzo, aqui também há um desenvolvimento que parece um trio, mas o Trio verdadeiro é este ländler aqui:

Mahler: Sinfonia n.10 – 4. Scherzo II – 04. Trio (Simon Rattle – Berlin PO):

Ao retomar o scherzo, este faz uma paródia do trio, ouça:

Mahler: Sinfonia n.10 – 4. Scherzo II – 05. Paródia do trio (Simon Rattle – Berlin PO):

Mas é na segunda apresentação do Trio que o tema sofre sua grande transformação:

Mahler: Sinfonia n.10 – 4. Scherzo II – 06. Climax do segundo Trio (Simon Rattle – Berlin PO):

O retorno ao scherzo é bastante cruel, mas é interessante perceber que esta retomada é bastante curta. Provavelmente Mahler teria esticado um pouco mais essa seção, e foi pensando assim que Clinton Carpenter re-adicionou em sua versão 8 compassos anteriormente removidos por Mahler, reapresentando o tema do scherzo por completo:

Mahler: Sinfonia n.10 – 4. Scherzo II – 07. Retomada do scherzo (Andrew Litton – Dallas SO):

Há ainda mais uma apresentação do Trio, bem curta, e um último retorno do tema do Scherzo antes da música morrer pouco a pouco na coda:

Mahler: Sinfonia n.10 – 4. Scherzo II – 08. Coda (Simon Rattle – Berlin PO):

O final do movimento é todo com a percussão, com toques de clarone e contrabaixo, e a última nota é de um grande bumbo militar com abafador, o ponto mais baixo onde se poderia chegar: seria aqui o inferno? Neste ponto Mahler escreveu: Só você sabe o que isto significa. Ah! Ah! Deus! Adeus minha lira! Adeus! Adeus! Adeus!

Mahler: Sinfonia n.10 – 4. Scherzo II – 09. Só você sabe o que isto significa (Simon Rattle – Berlin PO):

A anotação, dirigida à Alma Mahler, é uma referência a um funeral de um bombeiro morto em combate. No inverno de 1907, ambos assistiram o cortejo fúnebre em Nova York, do alto do 11º andar do hotel onde estavam hospedados, e Mahler ficou muito impressionado com o som de um bumbo batido de tempos em tempos pelo bombeiro que puxava a procissão.

V. Finale

Sem interrupção passamos ao gigantesco Finale, uma dolorosa ressurreição de forma ABA: Lento – Allegro – Lento.

O cortejo fúnebre que abre o movimento se desenrola com trechos do tema do Purgatorio, em especial aquele onde Mahler escreveu “Oh Deus por que me abandonastes”:

Mahler: Sinfonia n.10 – 5. Finale – 01. Cortejo fúnebre (Simon Rattle – Berlin PO):

Do meio das sombras surge um tema na flauta, trazendo um certo conforto.

Mahler: Sinfonia n.10 – 5. Finale – 02. Tema da flauta (Simon Rattle – Berlin PO):

O tema é desenvolvido de maneira tocante, até ser interrompido pelas batidas do bumbo e o retorno do cortejo fúnebre. É então que começa um Allegro com temas extraídos das duas seções do Purgatorio e do Scherzo II:

Mahler: Sinfonia n.10 – 5. Finale – 03. Allegro (Simon Rattle – Berlin PO):

O tema principal do Allegro, na verdade, é derivado diretamente do tema do Trio do Purgatorio:

Mahler: Sinfonia n.10 – 5. Finale – 04. Tema do Allegro (Simon Rattle – Berlin PO):

E cabe até citação do próprio tema da flauta (desta vez na trompa), ridicularizado pelo tema do Purgatorio no clarinete:

Mahler: Sinfonia n.10 – 5. Finale – 05. O tema da flauta no Allegro (Simon Rattle – Berlin PO):

Nao demora muito, surge o acorde da Crise, aquele mesmo do primeiro movimento, e como resolução da dissonância ouvimos o tema do Andante na trompa:

Mahler: Sinfonia n.10 – 5. Finale – 06. A Crise e o tema do Andante (Simon Rattle – Berlin PO):

O Andante nos devolve ao tema da Flauta, e com ela vem uma grande reflexão romântica. Não resta dúvidas de que Alma foi perdoada no final, e o compositor encontrou a salvação de sua amargura e seu desespero pelas forças do amor humano.

Na última página, no início da coda, Mahler escreve: Por você viver, por você morrer.

Mahler: Sinfonia n.10 – 5. Finale – 07. Por você viver (Simon Rattle – Berlin PO):

E nos últimos compassos, com o tema de “Oh Deus por que me abandonastes”, o apelido carinhoso pelo qual o compositor a chamava: Almschi!

Mahler: Sinfonia n.10 – 5. Finale – 08. Almschi (Simon Rattle – Berlin PO):

Este post pertence à série:
1. Mahler: Décima Sinfonia – Parte I
2. Mahler: Décima Sinfonia – Parte II
3. Mahler: Décima Sinfonia – Parte III
4. Mahler: Décima Sinfonia – Parte IV

13 Respostas

  1. lucio
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    aêeeeeeeeeeeeeeeeeee ! \o/

  2. Emerson Coelho
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    Belíssimo trabalho, Amancio. Valeu a pena esperar.

  3. Alberto Augusto
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    Excelente análise, com uma boa síntese da matéria. Felicitações!

  4. Heber Fiori
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    É, Mahler amava sua esposa, mesmo depois que ela o traiu, isso o fez sofrer, sim, mas, serviu de grande inspiração para compor a décima sinfonia, o que amor não faz…..rs…….

    Mas fico contente em saber que Mahler no final, perdoou sua esposa, mas, eu gostaria de saber, o que ela achou disso tudo, aceitação, menosprezo, indiferença, por que ela havia o traído, ela não o amava?

    A análise ficou muito boa, parabéns…….

  5. Amancio Cueto Jr.
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    Obrigado amigos pelas palavras!

    Heber, é difícil para qualquer um tecer comentários sobre a vida íntima de outra pessoa, independente dela ser um compositor famoso ou o vizinho do apartamento ao lado. Nós não vivemos a vida dela nem estamos lá para saber o que o casal passa (ou passava) no dia a dia, e mesmo se soubéssemos, a personalidade de cada um influenciaria muito na resposta. Ao casar com o compositor, Alma teve de renunciar a muitas coisas para viver com ele; Mahler só percebeu o quanto ela sofria com isso muito, muito tarde, mas não podemos imaginar o quanto ela era feliz ou infeliz com essa situação.

    Os fatos objetivos que nós temos sobre o assunto são: ela não o abandonou para ficar com o Gropius, e ficou ao lado do compositor até seus últimos dias; por isso a gratidão dele está tão estampada na partitura. Para o trair com Gropius, ela deve ter encontrado no amante alguma espécie de atenção que Mahler não dava a ela – e precisamos levar em consideração o estado frágil em que ela estava por ter perdido a filha, e que ela sempre teve uma personalidade “namoradeira”. É difícil dizer que “ela não o amava”; o fato de ter conservado o sobrenome dele mesmo após tantos outros companheiros posteriores diz muita coisa.

  6. Leonardo T. Oliveira
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    Ela era jovem quando se casou com Mahler, tinha – o que é pouquíssimo enfatizado – sérias aspirações como compositora, e dizia ter se sentido profundamente sozinha ao lado de Mahler, que aparentemente não a incentivava como compositora, pois esperava dela o papel mais dedicado de esposa. A certa altura é que Mahler procurou Zemlinsky pra ser professor de composição dela, mas ele, que já havia se apaixonado pela Alma, não aceitou. Nas palavras dela, ela também não se identificava com a música de Mahler.

    Mas o que eu queria ressaltar em tudo isso é, como o Amancio disse, a dificuldade de termos um quadro claro dessa situação em especial por um problema musicológico tão sério que recebeu até nome de batismo: o Problema Alma. Como ela sobreviveu mais de 50 anos ao marido, se tornou naturalmente uma autoridade no estudo de sua vida e música. Mas à medida que os dados que ela forneceu foram sendo cotejados às evidências, uma série de incongruências não levou a outra conclusão senão a de que ela de fato não foi uma testemunha muito favorável à reconstituição da vida de Mahler. Pra ficar apenas na correspondência trocada por ela e Mahler, das mais de 350 cartas que Mahler teria escrito pra ela, sabe-se que 200 ela simplesmente destruiu. E das que restaram, sabe-se que ela efetuou alterações ainda hoje difíceis de serem todas rastreadas. Há vários exemplos bastante práticos e sérios que marcaram o nosso entendimento da música de Mahler por vários anos por conta do testemunho dela, como a ordem dos movimentos e as marteladas da 6a. Sinfonia, mas que depois tiveram que ser revertidos. Mais dados podem ser lidos neste resumo: http://en.wikipedia.org/wiki/Alma_Problem. O que nos faz pensar que, mais do que a diferença natural de perspectiva, provavelmente muito do que nós sabemos sobre o relacionamento dos dois passou por esse crivo profundamente subjetivo dela, o que torna tudo AINDA mais difícil de ser avaliado quando passamos pra esse nível tão pessoal.

  7. Heber Fiori
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    Com base nos comentários de Leonardo T. Oliveira e Amancio Cueto Jr, fica evidente que Alma Mahler o amava, acho que errei no meu comentário que fiz sobre a vida do casal, peço desculpas ao leitores e aos autores do euterpe………

  8. Amancio Cueto Jr.
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    Nem se incomode com isso, estamos aqui mesmo para discutir e comentar. :-) Se tiver mais comentários como esse, pode trazer pra cá.

    E, Leonardo, obrigado por trazer o “Problema Alma” à tona!

  9. Caio Costa
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    Amâncio, já pensou em publicar um livro sobre A Décima?

    Você se dedicou muito a estudar em profundidade os detalhes contextuais e especulações históricas que orbitam tal sinfonia, tem embasamentos teóricos e históricos a respeito, sob os mais diversos pontos de vistas de vários musicólogos, inclusive o seu. Acredito que faria muito sucesso! Por esse trabalho mais do que merece um retorno financeiro.

    Por muito menos, pessoas pouco talentosas que ficaram famosas a custa da sorte unicamente, e publicaram livros de sucesso.

    Perfeitas suas 4 dissertações nesse blog. Parabéns.

    Só queria ressaltar aqui minha admiração pela coda do primeiro Scherzo, é das coisas mais alegres e conciliadoras que já ouvi em Mahler, reforçada pela adesão tão oportunamente coerente do seu tema principal e do tema de um dos trios, em um desfecho tipicamente Mahleriano.

  10. Amancio Cueto Jr.
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    Oi Caio! Obrigado!

    Em relação à música clássica, eu sempre fui um leitor voraz e um colecionador de informações, coletadas apenas para meu próprio deleite. E sei o quanto é ruim vc procurar por algo (seja na internet, seja em livros) e não encontrar o que deseja. Para mim já é uma alegria muito grande eu ter esse blog, esse espaço aqui na internet, onde eu possa compartilhar algumas coisas e, talvez, servir de fonte de informações para um outro Amancio em potencial por aí. (Meu objetivo é ser a fonte de informações que eu sempre quis encontrar e nunca achei).

    O formato de blog é interessante pois posso juntar imagens e sons, escrevendo pontualmente sem esgotar o assunto e nem deixar de fazer o meu trabalho do dia a dia. Já com um livro eu não poderia contar com exemplos sonoros, sem falar de que eu teria de me dedicar bastante para que o resultado fosse algo relevante. Ainda acho que a internet, nesse caso, é o veículo mais apropriado para a divulgação dessa cultura que gira em torno (e faz parte) da música clássica.

    PS.: Eu também gosto muito do final do Scherzo I. Acho que eu o citei mais de uma vez, entre os posts III e IV, não? :-)

  11. Caio Costa
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    Sim é verdade, o grande sucesso e diferencial deste blog são, sem dúvida, os exemplos sonoros e imagens! Eu não fiz nenhum curso de música, e pude aprender o que é contraponto e fuga por aqui! E não esperava ser tão fácil…haha.
    Eu também procuro ávido a informação dentro do âmbito da música erudita, como um leopardo feroz em busca de uma presa, e aqui tem uma manada de gnus… Ainda bem que esse blog existe!

    Voltando à coda do Scherzo da décima, sim você citou bastante mesmo =D, eu me lembro de um momento muito semelhante na Serenata para cordas em dó maior, de Tchaikovsky. Caminhando para a coda do último movimento, o ‘tema russo’, existe uma reexposição do tema principal do primeiro movimento, e então esse tema é trabalhado e variado até se transformar milagrosamente no tema principal do próprio quarto movimento! É feito de tal forma que fica surpreendentemente belo. Uma conclusão tão bem resolvida quanto uma arietta da sonata No. 32 para piano de Beethoven…

  12. Spartaco Nottoli
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    Amancio, tudo bem?

    Excelentes os posts sobre a décima sinfonia de Mahler. Que tal nos brindar agora com uma análise da nona sinfonia, que é uma de minhas favoritas composições de Mahler?

    Fico no aguardo.

    Abração.

  13. Amancio Cueto Jr.
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    Olá Spartaco! A Nona também é uma das minhas favoritas, vou colocar na fila (se já não estiver). Obrigado!

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