A interpretação de época tem uma estética própria, muito disso vem do gosto pelo choque, pelo estranho – algo que compartilha nada menos do que com a estética contemporânea. A maneira de tocar “seca”, extremamente rápida, a articulação fortemente marcada, o uso de timbres diferentes, tudo isso criou no primeiro ouvinte um choque profundo, em que obras conhecidas e amadas por todos mudaram de aspecto rapidamente. Imagine qual a surpresa de um ouvinte acostumado às grandes massas de Furtwängler e Jochum no momento em que ouviu pela primeira vez a Missa em Si menor gravada por Harnoncourt? A sensação deve ser algo próxima com o estranhamento propiciado pelos pastiches de Stravinsky. Não podemos em nenhum momento esquecer da profunda iconoclastia desses primeiros regentes da HIP. E não que esse choque seja inevitável: o papel para contralto no Messias de Händel foi criado para uma mulher, a opção por um contratenor é uma claríssima atitude iconoclasta – tanto contra práticas contemporêneas, quanto contra a própria história.

E não apenas o choque, na maioria das vezes consciente, nos aproxima da estética de Stravinsky: muito da filosofia interpretativa do primeiro modernismo transparece claramente no que vemos na HIP. Stravinsky que, em uma de suas infindáveis tiradas, disse que o papel do músico era apenas o de seguir o que estava escrito – ou seja, para Stravinsky, e para a maioria de seus contemporâneos compositores, o papel do intérprete era o de se subordinar à vontade do compositor. Hindemith foi mais longe e estabeleceu, talvez pela primeira vez na história, esse dogma histórico: de que a música de Bach só pode ser realmente compreendida se voltarmos aos meios de que ele dispunha no momento de sua composição.

Foto de Paul Hindemith (1895-1963)

Aqui vemos que, longe de representar uma quebra com o pensamento musical de seu tempo, a HIP é a sua conseqüência lógica, aplicada a todas as épocas. E, ao mesmo tempo que esse discurso apregoa a fidelidade aos meios originais, ao se ater ao mais preciso literalismo à partitura, ele produz as performances mais “desoriginais” – uma vez que ignora a maior flexibilidade que o tecido musical tinha no passado.

É também uma conseqüência do modernismo a volta ao passado, nesse caso uma continuação do romantismo, mas com uma nova maneira de ver o passado. Se o Romantismo buscava os grandes gênios, e na música isso normalmente significava somente Bach, o modernismo parte do interesse museológico de compreender o passado. Se há muita influência de Bach na música entre Schumann e Brahms, a geração de Stravinsky, Prokofiev, De Falla, Poulenc, faz com que a influência da música do passado exploda em todas as direções, revolucionando a historiografia musical.

A HIP também adota muitos dos dogmas de um certo modernismo, como a negação da noção de progresso das artes, que tão arraigada era no Romantismo e no Classicismo (como a Querelle des anciens et des modernes nos mostra). A orquestra romântico-tardia não basta, deve-se buscar os instrumentos e sonoridades do passado, porque eles apresentam qualidades intrínsecas boas que foram perdidas na história. Ao negar uma evolução na construção dos instrumentos musicais e na técnica musical, a HIP encerrou definitivamente o reinado da orquestra romântica, que tornou-se no verdadeiro “órgão” da música do início do século XX.

Deste modo, vemos como a música HIP, longe de ser uma curiosidade museológica, responde a uma longa série de questões colocadas pela sociedade moderna e pode ser considerada, desse modo, um legítimo representante do nosso tempo. Eu diria que é mais por causa disso: uma reação contra a música excessivamente pesada do início do século, uma reação contra a sobrevalorização do intérprete, especialmente do cantor, uma busca por volumes menores, uma articulação mais solta, enfim, desenvolvimentos que também podem ser notados na música da segunda metade do século XX. Ela é, portanto, extremamente contemporânea, e constitui-se mesmo em uma das influências mais fortes na música hoje.

Este post pertence à série:
1. A Interpretação de Época – Parte I
2. A Interpretação de Época – Parte II
3. A Interpretação de Época – Parte III
4. A Interpretação de Época – Parte IV
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...