“Debutante”, foto da série “Incarnations” de Janieta Eyre sobre personas duplas

A visita da morte personificada. A sedução maléfica de uma criança pelo rei dos Elfos. O assassinato de uma rainha por um anão (!). – em Schubert, nenhuma dessas imagens do mundo fantástico ganhou força tão seriamente perturbadora como o retrato de um homem que descobre a sua própria loucura. Semanas antes de morrer, aos 31 anos, Schubert escrevera dois conjuntos de canções sobre poemas de Ludwig Rellstab e Heinrich Heine. No ano seguinte, Tobias Haslinger reuniu o material, acrescentou uma canção do mesmo período sobre um poema de Johann Gabriel Seidl, e publicou as canções sob o título de “Schwanengesang” (Canto do Cisne). Eram as últimas criações de Schubert.

Entre os poemas de Heine, Der Doppelgänger dá voz a um homem que caminha pelas ruas de uma cidade morta.

Still ist die Nacht, es ruhen die Gassen,
Calma está a noite, as ruas sossegadas,

Schubert: Lied “Der Doppelgänger” – Parte 1:


Próxima está a casa em que uma vez morou a mulher que ele ama.

In diesem Hause wohnte mein Schatz;
Nesta casa morava outrora o meu amor;
Sie hat schon längst die Stadt verlassen,
Ela abandonou já há muito a cidade,
Doch steht noch das Haus auf demselben Platz.
Mas a casa permanece no mesmo lugar.

Schubert: Lied “Der Doppelgänger” – Parte 2:


Diante da sua janela, ele vê outro homem, que agita as mãos em agonia e sofrimento.

Da steht auch ein Mensch und starrt in die Höhe
Ali está também um homem, com olhar dirigido ao céu,
Und ringt die Hände vor Schmerzensgewalt;
E torce as mãos com o peso da dor;

Schubert: Lied “Der Doppelgänger” – Parte 3:


Sob o brilho da lua, ele o reconhece como o seu próprio doppelgänger.

Mir graust es, wenn ich sein Antlitz sehe –
Eu fico cheio de horror quando olho para a sua face –
Der Mond zeigt mir meine eigne Gestalt.
A lua mostra-me a minha própria figura.

Schubert: Lied “Der Doppelgänger” – Parte 4:


Dante Gabriel Rossetti: How They Met Themselves (1864)

Na canção de Schubert, o choque e o terror desse reconhecimento são mais do que o personagem consegue suportar. A visão de um doppelgänger, ou “duplo”, carregava no imaginário europeu os sentimentos de mau presságio – pois era como que a precipitação da própria alma desencarnada – e de ludíbrio sobre o caráter da vítima copiada – pois se acreditava que essa cópia teria índole contrária ao indivíduo original. E diante dessa mímica do seu próprio sofrimento, sobre os acordes mais dissonantes da canção, o cantor interpela o propósito dessas memórias encenadas pela sua própria loucura.

Du Doppelgänger, du bleicher Geselle!
Tu doppelgänger, tu pálido companheiro!
Was äffst du nach mein Liebesleid,
Por que imitas este amor infeliz,
Das mich gequält auf dieser Stelle
Que me torturou neste mesmo lugar
So manche Nacht, in alter Zeit?
Tantas noites, em tempos passados?

Schubert: Lied “Der Doppelgänger” – Parte 5:


A música de Schubert é feita sobre pouco mais que acordes estáticos, e a melodia é pouco mais que um recitativo. Mas há alguns elementos nessa linguagem tão econômica que nos revelam uma isomorfia surpreendente com a expressão explícita no poema.

Harmonia

A abertura da canção se dá sobre quatro acordes que serão a base, o material genético de toda a canção:

Schubert: Lied “Der Doppelgänger” – Acordes Iniciais:

Duas coisas chamam a atenção nesses acordes, cuja regularidade no decorrer da canção despertará algo de inescapável na narração. A primeira é que qualquer sensação de vagueza nesses acordes não é um efeito apenas subjetivo: eles são acordes incompletos, díades que implicam em mais de uma harmonia ao deixarem margem para o que seriam as suas terças.

Imagem de David Løberg Code

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Em um contexto que logo se mostrará o da tônica de Si menor, o primeiro acorde ainda poderia tanto ser a tônica maior (Si-Ré#-Fá#) como a tônica menor (Si--Fá#). O segundo acorde poderia tanto ser a dominante maior (Fá#-Lá#-Dó#) como a mediante aumentada (Ré#-Fá#-Lá#). O terceiro acorde poderia tanto ser a mediante maior (Ré-Fá#-) como a tônica menor (Si-Ré-Fá#). E o quarto acorde poderia tanto ser a dominante menor (Fá#--Dó#) como a dominante maior (Fá#-Lá#-Dó#). Ou seja: tal como o aspecto duplo e ambíguo do mistério de um doppelgänger, os acordes básicos da canção já são construídos sobre uma ambigüidade dupla. Todos esses oito acordes aparecerão no decorrer da peça.

A segunda coisa é a notável ausência da subdominante nesses primeiros acordes, um grau que seria comum no estabelecimento de uma tonalidade no começo de uma peça. E no entanto, até o final da peça, a presença da subdominante irá surgir na partitura como que pulverizando a dominante, vencendo-a nos últimos compassos, como se vê no último aparecimento daqueles mesmos acordes iniciais no final da canção:

Schubert: Lied “Der Doppelgänger” – Acordes Finais:

Os três primeiros acordes são os mesmos que aqueles quatro iniciais, com o primeiro agora se deixando completar com um ré que faltava no início da peça. Mas o quarto acorde – que antes era um acorde da dominante – aqui se transforma em uma sexta napolitana (bII). E a progressão a partir dele leva a música para a subdominante (IV), o grau ausente no início, para enfim terminar no si menor original da peça. Trata-se de uma cadência totalmente inusual, que evita a dominante e busca a subdominante que havia ficado oculta no início. Desse modo a subdominante, antes oculta, termina de fato tomando o lugar da dominante, tal como a natureza dupla e mimética do doppelgänger no posto de sofrer pela amada do narrador. E tanto os acordes ambíguos do início quanto a presença do grau da dominante vs. o grau da subdominante ecoam a própria dicotomia do doppelgänger, unificada apenas nesse fim.

Melodia

A melodia do cantor – que entra sempre um tempo depois do primeiro acorde do compasso – é circular, e orbita uma mesma região de entoação:

Schubert: Lied “Der Doppelgänger” – Melodia Circular:

A nota fá# está presente em quase todos os compassos. O primeiro fortíssimo da canção se dá sobre a palavra “schmerz-” (sofrimento), quando o fá# é cantado uma oitava acima, sobre um acorde de sexta francesa.

Schubert: Lied “Der Doppelgänger” – Schmerz:

No clímax seguinte, é a palavra “gestalt” (forma), marcando a cena do reconhecimento, que inspira um novo fortíssimo na canção. E aqui, a extensão da melodia deixa o fá# para alcançar pela primeira vez um sol, sobre o doloroso acorde de sexta germânica.

Schubert: Lied “Der Doppelgänger” – Gestalt:

É o momento em que descobrimos que esse doppelgänger não vê outra reverberação do eu-poético senão no próprio cantor e intérprete.

Agora ouça a canção completa e acompanhe a letra do poema original e traduzido.

Schubert – Lieder D 957 ‘Schwanengesang’ – 13. Der Doppelgänger (D. Fischer-Dieskau & G. Moore – 1962):

Der Doppelgänger (título de Schubert)
Heinrich Heine (1797-1856)

Still ist die Nacht, es ruhen die Gassen,
Calma está a noite, as ruas sossegadas,
In diesem Hause wohnte mein Schatz;
Nesta casa morava outrora o meu amor;
Sie hat schon längst die Stadt verlassen,
Ela abandonou já há muito a cidade,
Doch steht noch das Haus auf demselben Platz.
Mas a casa permanece no mesmo lugar.

Da steht auch ein Mensch und starrt in die Höhe
Ali está também um homem, com olhar dirigido ao céu,
Und ringt die Hände vor Schmerzensgewalt;
E torce as mãos com o peso da dor;
Mir graust es, wenn ich sein Antlitz sehe –
Eu fico cheio de horror quando olho para a sua face –
Der Mond zeigt mir meine eigne Gestalt.
A lua mostra-me a minha própria figura.

Du Doppelgänger, du bleicher Geselle!
Tu doppelgänger, tu pálido companheiro!
Was äffst du nach mein Liebesleid,
Por que imitas este amor infeliz,
Das mich gequält auf dieser Stelle
Que me torturou neste mesmo lugar
So manche Nacht, in alter Zeit?
Tantas noites, em tempos passados?