Noite Transfigurada – Parte I

Lesser Ury: Abend am Landwehrkanal
Lesser Ury: Abend am Landwehrkanal

Iniciarei aqui uma série de 6 posts para tratar do fantástico sexteto de cordas Verklärte Nacht ou “Noite Transfigurada” Op. 4 de Arnold Schoenberg. Todo este meu trabalho começou anos atrás, quando comprei a partitura e comecei a estudá-la. E cada vez que eu retorno a ela, mais coisas novas eu descubro, o que me deixa em dúvida: será que não estou querendo ver chifre em cabeça de cavalo? Por sorte hoje eu tenho este espaço aqui para poder compartilhar tanto as descobertas quanto as alucinações. Há anos eu sonho em conversar com alguém sobre estes devaneios, para trocar idéias sobre esta obra, e espero que esta vitrine na internet possa trazê-los até mim. Para os demais, espero que o texto possa servir de guia para esta magnífica obra. Aos não-músicos, peço que ignorem as partituras e sigam em frente, ouvindo com atenção os trechos musicais.

Estrutura

Este sexteto tem apenas um longo movimento (dura uns 30 minutos), e é baseado num poema de Richard Dehmel intitulado Verklärte Nacht, em alemão Noite Transfigurada (o poema completo estará no final do 6º post). A música segue o poema verso a verso, frase a frase, mas também se detém em vários momentos para descrever os sentimentos dos personagens. Se o poema tem 5 estrofes, a música também pode ser dividida em 5 partes, assim:

1) Descrição da cena: um casal passeando por um bosque à noite (leia mais no final deste post).

2) A mulher confessa ao homem que está esperando um filho que não é dele (será o assunto do 2º post da série) e como ela fez pra engravidar de um estranho, antes de conhecer seu companheiro atual (3º post).

3) Descrição da cena: a mulher caminha em silêncio, sentindo que seu relacionamento irá acabar (3º post).

4) O homem a perdoa e a faz notar que aquela noite tem um brilho diferente, uma energia estranha (4º post). Segundo ele, esta energia irá transformar a criança do estranho em sua própria criança, seu próprio filho (5º post).

5) Descrição da cena: o casal se beija, caminhando pela noite (6º post).

Antes de continuarmos, um pouco de informação

Egon Schiele: Retrato de Arnold Schoenberg (1917)
Egon Schiele: Retrato de Arnold Schoenberg (1917)

Em 1899, o jovem de apenas 25 anos Arnold Schoenberg escreveu este sexteto de cordas juntando dois estilos alemães considerados opostos na época: a austeridade clássica de Johannes Brahms, e o vanguardismo de Richard Wagner. Se por um lado o sexteto de cordas tem uma linguagem camerística própria de Brahms, ele traz um cromatismo próprio de Wagner. Mas se o sexteto é uma obra programática, uma espécie de “poema sinfônico” repleto de temas representando idéias, ações e personagens (tal como os leitmotive wagnerianos), os mesmos temas são tratados em frases de tamanho definido e repetidos simetricamente, à maneira da estrutura clássica (como em Brahms).

A obra teve sua estréia em 1902, e sofreu duras críticas na época. Primeiro porque o poema continha um conteúdo sexual muito explícito para a época (Schoenberg chamou-o de “repulsivo” e suavizou a parte mais imoral numa análise escrita em 1950). Segundo, na intenção de expressar o máximo possível da agonia feminina, o compositor não poupou cromatismos e duras harmonias, criando na primeira parte trechos que beiram o atonalismo – em compensação, a segunda parte é excessivamente romântica. Mas o que mais irritou os críticos foi o uso de um acorde de nona invertido até então inexistente. Na época, Schoenberg disse algo como: ah, então porque o acorde não existe a obra não pode ser tocada

Hoje ela é considerada uma peça-chave para compreensão do movimento modernista. Para mim, soa como “o mais longe onde o romantismo poderia chegar” – para a tchurma do Schoenberg, claro!

Principais temas

Bem, antes de eu começar a analisar a obra frase por frase, vou fazer aqui uma tabela geral, um índice de temas importantes que são utilizados em toda a peça e não apenas numa parte dela. Para cada tema, puxei trechos de vários momentos diferentes – primeiro porque os temas mudam muito no decorrer da obra, e segundo para facilitar sua

Violoncelo 1 comp. 3
Motivo da Noite

identificação mesmo em suas formas mais extremas.

A Noite.

Motivo da Noite – comps. 3 / 202 / 266 / 401 (Juilliard-Trampler-Ma):

Viola 1 comp. 29
Motivo masculino

Homem. Não não, não é “O homem”, mas sim qualquer figura masculina citada na história: todos eles usam o mesmo tema (Não parece coisa de expressionista?):

Motivo masculino – comps. 29 / 137 / 181 / 236 (Juilliard-Trampler-Ma):

Violino 1 comp. 34
Motivo feminino

A Mulher. Na verdade é “motivo feminino”, mas como só há uma mulher na estória… O detalhe é que muitas vezes o motivo será utilizado apenas pela metade: ou somente o início, ou somente o final.

Motivo feminino – comps. 34 / 294 / 320 – início no 34 / 278 / 311 – final no 34 / 50 / 79 / 236 (Juilliard-Trampler-Ma):

Violino 1 comp. 100
Maternidade

Maternidade, ou a alegria de ser mãe. Com frequência, o motivo da maternidade aparecerá junto com o motivo da criança (veja a seguir).

Motivo da maternidade – comps. 100 / 108 / 138 / 169 / 297 / 360 (Juilliard-Trampler-Ma):

Violino 1 comp. 102
Motivo da Criança

A criança (o motivo parece curto e incompleto porque a criança ainda não nasceu, ok?).

Motivo da criança – comps. 102 / 109 / 125 / 244 / 303 / 345 (Juilliard-Trampler-Ma):

Vou apresentar os demais temas à medida que eles forem aparecendo – mas, importante notar, muitos deles são derivados destes básicos aqui.

A primeira estrofe do poema

Eis o primeiro verso do poema:

Zwei Menschen gehn durch kahlen, kalten Hain;
Duas pessoas caminham por um desfolhado, frio bosque;

Pra vocês terem uma idéia de como a música é descritiva, vejam só como a música começa:

Comps. 1 a 4

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 1 e 2 (Juilliard-Trampler-Ma):

Primeiro ouvimos os passos de duas pessoas caminhando, uma viola e um violoncelo.

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 3 a 6 (Juilliard-Trampler-Ma):

E então vemos o homem caminhando pela noite. Em muitos trechos da obra, Schoenberg usa os instrumentos graves para representar o homem (geralmente um violoncelo) e os agudos para representar a mulher (geralmente um violino). Aqui em especial, uma viola e um violoncelo entoam o tema da noite de maneira fria e solene, afinal estamos num frio e desolado bosque.

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 7 a 10 (Juilliard-Trampler-Ma):

A mulher aparece caminhando com os dois violinos, também com o tema da noite. No final do trecho, o 2º violoncelo denuncia que, pela “alteração” de seus passos, há algo de errado com ela.

O verso seguinte continua descrevendo a cena:

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 11 e 12 (Juilliard-Trampler-Ma):

der Mond läuft mit, sie schaun hinein.
a lua os acompanha, eles olham para ela.

Ambos os “personagens” olham para ela: primeiro o violino (ela) e depois a viola (ele) se dirigem para os agudos, para cima, onde está a lua.

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 13 a 21 (Juilliard-Trampler-Ma):

Eles continuam caminhando (escute os passos no 2º violoncelo), mas percebemos que há realmente algo de muito errado com um deles (a gente sabe, é com a mulher).

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 22 e 23 (Juilliard-Trampler-Ma):

Agora temos uma pausa para podermos apreciar a lua.

Viola 1 comp. 22
Motivo da Lua

Der Mond läuft über hohe Eichen,
A lua caminha sobre altos carvalhos,

kein Wölkchen trübt das Himmelslicht,
nenhuma nuvem oculta a luz do céu,

in das die schwarzen Zacken reichen.
dentro da qual os galhos negros se estendem.

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 24 a 28 (Juilliard-Trampler-Ma):

Mas há algo de urgente nos passos da mulher, os tremolos, os suspiros na viola, ela não aguenta mais guardar o segredo que tanto a atormenta. Ela está prestes a explodir.

Ainda falta mais um verso para terminar a primeira estrofe, mas é melhor que ele fique junto com a estrofe seguinte, no próximo post. Enquanto isso, que tal ouvir toda a primeira estrofe desde o início e sem pausas?

Schoenberg: Noite Transfigurada – compassos 1 a 28 (Quarteto Juilliard com Walter Trampler e Yo-Yo Ma):

Este post pertence à série:
1. Noite Transfigurada – Parte I
2. Noite Transfigurada – Parte II
3. Noite Transfigurada – Parte III
4. Noite Transfigurada – Parte IV
5. Noite Transfigurada – Parte V
6. Noite Transfigurada – Parte VI

5 Respostas

  1. Leonardo T. Oliveira
    |

    Viva! Essa vai ser a série de maior fôlego do blog até agora, e a seqüência de posts não deve demorar pra ser publicada. É importante destacar que o trabalho de análise do Amancio foi feito no braço, uma verdadeira pesquisa inédita ao mesmo tempo que extremamente ilustrativa da obra.

  2. Daniel
    |

    Ôba!
    Já providenciei a minha partitura aqui! E já estou ouvindo a obra pra me inteirar…

  3. Rodrigo
    |

    Ouço esse sexteto quase que diariamente, nas minhas longas viagens de ônibus. Na verdade, nunca o associei ao poema que serviu de inspiração, mas achei seu gesto de interpretação bastante interessante, e digo que nunca estamos vendo chifre em cabeça de cavalo — ou sempre estamos, o que no fim dá na mesma. Acho que a intenção do criador da obra não é o mais importante, mas o sentido que damos ao ouvirmos. No fundo, acho que a gente é q dá o sentido pra tudo que nos cerca… Nada tem um sentido a priori.

  4. Suzete Garcia
    |

    Que belo trabalho! Obrigada por ajudar em minha escuta…

  5. Mariana
    |

    Muito bom!!! Obrigada

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