Noite Transfigurada – Parte IV

Vincent van Gogh: Noite Estrelada
Vincent van Gogh: Noite Estrelada

Chegamos num momento crucial, o “ponto da virada” do sexteto Noite Transfigurada, de Arnold Schoenberg. Até aqui a música tem sido triste, dissonante e violenta, lembrem:

– no primeiro post, o poema (e por consequência a música) nos apresentou a um casal que passeava à noite por um bosque;

– no segundo post, a mulher confessou ao homem que estava grávida de outro. Antes de o conhecer, ela se sentia muito infeliz e viu na maternidade um sentido para sua vida;

-no terceiro e último post, a mulher narrou como ela se entregou a um homem desconhecido com a finalidade de engravidar, mas agora que conheceu seu grande amor, ela sente uma terrível culpa e tem absoluta certeza de que seu relacionamento irá acabar.

Assim, finalizamos o último texto com um escuro acorde de Mi bemol menor…

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 225 a 230 (Juilliard-Trampler-Ma):

Comps. 225 a 230… mas o acorde que vem na sequência, Ré Maior, nos transporta a outro mundo, com um panorama completamente diferente.

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 231 a 235 (Juilliard-Trampler-Ma):

Die Stimme eines Mannes spricht:
A voz de um homem fala:

A quarta estrofe do poema

Violoncelo 1 comp. 231 a 233
Motivo do perdão

Das Kind, das Du empfangen hast,
Que a criança que você tenha concebido,

sei Deiner Seele keine Last,
não seja para sua alma uma preocupação,

“A voz de um homem” é aqui representada, como sempre, pelo violoncelo. E, ao contrário do que a mulher esperava, ele não a condena. Pelo contrário, ele a recebe de braços abertos com o motivo do perdão.

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 236 a 239 (Juilliard-Trampler-Ma):

Imaginando que o violoncelo é a voz masculina, e o violino a voz feminina, aqui seria como um diálogo entre os dois. Mas ela está tão surpresa com a atitude dele que mal consegue formar palavras inteiras:

Comps 236 a 239Vejam quantas pausas e interrupções há no violino: é a mulher balbuciando coisas sem sentido (neste caso, fragmentos do motivo feminino).

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 240 a 243 (Juilliard-Trampler-Ma):

Numa passagem ainda mais romântica, ela (o violino) consegue enfim dizer algo completo: o nome dele (o motivo masculino). Se fosse cena do Titanic, estaríamos vendo Kate Winslet dizendo Oh Jack, oh Jack

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 244 a 248 (Juilliard-Trampler-Ma):

O motivo da criança é tratado de maneira carinhosa (para “que ela não seja uma preocupação para você”), e desenvolve até os instrumentos fazerem uma pausa. É o homem interrompendo sua exposição e chamando a atenção para a noite à volta deles:

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 249 a 250 (Juilliard-Trampler-Ma):

o sieh, wie klar das Weltall schimmert!
Oh veja, como o universo brilha tão luminosamente!

Para mostrar a noite brilhando de maneira tão estranha, as cordas põem a surdina e tocam delicados harmônicos. A modulação para Fá # Maior também causa um efeito deveras estranho, surreal, suspensivo.

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 251 a 254 (Juilliard-Trampler-Ma):

Es ist ein Glanz um Alles her;
Há um brilho ao redor de tudo;

Du treibst mit mir auf kaltem Meer,
Você está flutuando comigo sobre um oceano frio,

Surgem aqui figuras bruxuleantes, cintilantes, representando o brilho que há ao redor de tudo. (Curiosamente, quando olhamos a partitura, o que vemos é o balanço das ondas do mar, citado no poema):

Violino 2 e Viola 1 comp. 251
“Brilho”, mas parece as ondas do mar

Não sei se posso chamá-lo de “motivo”, pois nos outros momentos ele reaparecerá sob outras formas  e com diferentes desenhos melódicos. O que é sempre constante, porém, é o uso de figuras rápidas e repetitivas.

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 255 a 258 (Juilliard-Trampler-Ma):

Violino 1 comps. 255 a 258
Motivo do Calor

doch eine eigne Wärme flimmert
mas um calor interno flui

Acima do oceano frio, aparece flutuando uma nova melodia no violino, o motivo do calor. E na sequência…

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 259 a 265 (Juilliard-Trampler-Ma):

von Dir in mich, von mir in Dich.
de você para mim, de mim para você.

… o calor (a melodia) flui de você (ela, o violino) para mim (ele, o violoncelo). Aos que acharam esta passagem particularmente genial, esperem para ouvir seu complemento, 10 compassos adiante.

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 266 a 269 (Juilliard-Trampler-Ma):

Com o brilho ainda fluindo no acompanhamento, os instrumentos tocam o motivo da noite no espelho (sul tasto, o oposto de sul ponticello, o que produz um som mais débil e quente). Sim, sim, é literalmente a noite se transfigurando.

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 270 a 278 (Juilliard-Trampler-Ma):

Então o fluxo de calor se inverte: de mim (ele, o violoncelo) para você (ela, a viola). O diálogo entre os instrumentos leva a um clímax, e quando este se desfaz continuamos apenas com o brilho (pois, lembrem-se, há um brilho ao redor de tudo).

Comps. 259 e 270Este foi apenas o primeiro de uma grande sequência de clímaxes. O restante eu deixarei para o próximo post que, já adianto, é de partir o coração. Fico por aqui, com todo o trecho analisado neste post sem pausas.

Schoenberg: Noite Transfigurada – compassos 229 a 278 (Quarteto Juilliard com Walter Trampler e Yo-Yo Ma):

Este post pertence à série:
1. Noite Transfigurada – Parte I
2. Noite Transfigurada – Parte II
3. Noite Transfigurada – Parte III
4. Noite Transfigurada – Parte IV
5. Noite Transfigurada – Parte V
6. Noite Transfigurada – Parte VI

Uma resposta

  1. Leonardo T. Oliveira
    |

    Esses diálogos entre violino e violoncelo são bonitos de doer.

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