Noite Transfigurada – Parte II

No primeiro post da série, fiz uma introdução sobre o sexteto Noite Transfigurada, de Arnold Schoenberg, e iniciei a análise pela primeira estrofe do poema de Richard Dehmel. Basicamente a estrofe inicial apenas descreve um casal caminhando por um bosque à noite, porém, no momento em que deixei a obra, a mulher estava prestes a contar seu terrível segredo.

Viola 1 comp. 29
Motivo masculino

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 29 a 33 (Juilliard-Trampler-Ma):

O homem percebe isto, pois seu tema é apresentado pelo violoncelo neste exato momento:

E, num rompante dramático, ela lhe conta:

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 34 a 40 (Juilliard-Trampler-Ma):

Violino 1 comp. 34
Motivo feminino

Die Stimme eines Weibes spricht:
A voz de uma mulher fala:

A segunda estrofe do poema

Ich trag ein Kind, und nit von Dir,
Estou carregando uma criança, e não é sua,

Reparem que Schoenberg usa o violino como sua voz (no post anterior eu havia comentado que a voz feminina é geralmente representada pelo violino, e a masculina pelo violoncelo). Aliás, esta é a primeira vez que ouvimos na obra o tema da Mulher.

E então temos a famosa sequência com o acorde de nona invertido, tão combatido pelos críticos da época por nunca ter sido usado antes:

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 41 a 46 (Juilliard-Trampler-Ma):

Para mostrar que a história da mulher não acaba aqui, ou que a mulher não está em paz consigo mesma com essa situação, Schoenberg encadeia uma série de acordes dissonantes, incluindo “o” acorde de nona invertido e duas cadências clássicas não resolvidas.

Comps. 41 a 46A história seria diferente se ele houvesse resolvido as cadências; ouça:

Resolvendo a primeira cadência / Resolvendo a segunda cadência / Sequência original de acordes:

Lá no sexto post, 350 compassos depois, nós veremos que Schoenberg irá resolver as cadências para mostrar que a história encontrou enfim um final feliz. Por ora, continuando aqui:

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 46 a 49 (Juilliard-Trampler-Ma):

A mulher se acalma aos poucos para iniciar seu triste relato. Realçando sua tentativa de auto-controle, todos os instrumentos fazem uma pausa e colocam a surdina (ou seja, quase como uma camisa de força).

Violoncelo 1 comp. 50
Infelicidade

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 50 a 54 (Juilliard-Trampler-Ma):

ich geh in Sünde neben Dir.
Eu ando em pecado ao seu lado.

Ich hab mich schwer an mir vergangen.
Eu tenho cometido um grave delito contra mim mesma.

O violoncelo apresenta o motivo mais importante da narrativa da mulher, às vezes eu o chamo de Pecado, às vezes de Delito, às vezes de Infelicidade.

Comps. 50 e 55

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 55 a 62 (Juilliard-Trampler-Ma):

Da primeira vez ele vem acompanhado de um fragmento do motivo feminino no violino; mas da segunda vez, é o motivo masculino que o acompanha ao violoncelo. A música vai se desfazendo, esfumaceando, como se estivesse caminhando para o passado.

Neste ponto os instrumentos retiram a surdina e o passado da mulher começa a ser revelado:

Ich glaubte nicht mehr an ein Glück
Eu não acreditava mais que eu poderia ser feliz

und hatte doch ein schwer Verlangen
mas ainda tinha um forte desejo

nach Lebensinhalt, nach Mutterglück
de algo para preencher minha vida, da alegria de ser mãe

und Pflicht; […] e suas obrigações; […]

Violoncelo 1 comp. 63 – Desejo
Desejo

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 63 a 66 (Juilliard-Trampler-Ma):

O violoncelo apresenta o sinuoso motivo do Desejo, mas num formato mais lento e levemente diferente do que ouviremos na sequência. É como se aquele desejo por um sentido da vida fosse algo distante e ainda estivesse se formando na cabeça da mulher.

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 67 a 74 (Juilliard-Trampler-Ma):

A infelicidade torna-se mais torturante (e a música, mais dissonante). Enquanto isso, o desejo por algo vai fermentando no violoncelo e brota na viola, no final do trecho.

Violino 1 comps. 75 e 76
Vida sem sentido

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 75 a 78 (Juilliard-Trampler-Ma):

Este novo motivo, derivado da Infelicidade, descreve o estado de vida da mulher: ansioso, fragmentado, amargo, sem direção. Pela primeira vez desde o início da obra, o ritmo se altera de 4/4 para um 3/4, ou seja, ela está se sentindo perdida.

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 79 a 82 (Juilliard-Trampler-Ma):

Violino 1 comps. 79 e 80Com uma pausa na aflição, os motivos feminino e do desejo se combinam para mostrar que a mulher anseia por algo para preencher sua vida (o Lebensinhalt do poema). Este “algo” é tão desconhecido e confuso para ela que, mesmo num compasso ternário, o motivo é claramente binário, produzindo um momento de indecisão rítmica. Por fim, ouvimos o motivo da infelicidade, lamentando a falta do “algo”.

Viola 1 comp. 83

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 83 a 90 (Juilliard-Trampler-Ma):

A sequência anterior é repetida, mais aguda e mais pungente, com uma pequena diferença. Uma figura de acompanhamento que antes foi ouvida no violoncelo, desta vez passa para a viola. Seria o nascimento da idéia de ter uma criança?

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 91 a 99 (Juilliard-Trampler-Ma):

A vida sem sentido passa a ser sufocante, e quando a infelicidade atinge seu auge…

Violino 1 comp. 100
Maternidade

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 99 a 102 (Juilliard-Trampler-Ma):

… ela tem a idéia de ser mãe, e de sentir as alegrias que isto proporciona. Este é um dos momentos mais mágicos de toda a obra, em parte proporcionado por uma inesperada modulação para Mi Maior.

Violino 1 comp. 102
Motivo da Criança

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 102 a 104 (Juilliard-Trampler-Ma):

Docemente surge o tema da criança, consequência da maternidade.

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 105 a 110 (Juilliard-Trampler-Ma):

E como consequência de ter uma criança, surgem as obrigações maternais, a responsabilidade de se cuidar de uma criança, aqui representada por uma terna canção de ninar. Se a maternidade já é um sonho distante (Mi Maior), as responsabilidades maternais são ainda mais irreais (compasso 9/8, ternário composto).

Violino 1 comp. 108 a 109Pela primeira vez, ouvimos o motivo da maternidade acoplado com o motivo da criança ao final. Esta formação aparecerá ainda muitas e muitas vezes no decorrer da obra.

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 111 a 114 (Juilliard-Trampler-Ma):

Cruelmente, ouvimos os motivos do “algo para preencher minha vida” e do “vida sem sentido”. Assim como os ritmos não encaixam (um binário simples no meio de um ternário composto), o sonho de ser mãe não se encaixa na vida da mulher.

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 115 a 123 (Juilliard-Trampler-Ma):

Mesmo assim, ela se permite continuar sonhando: as obrigações maternais, a maternidade, a criança… tudo isso tentando se tornar o algo para preencher sua vida.

Schoenberg: Noite Transfigurada – comp. 124 a 134 (Juilliard-Trampler-Ma):

Todas as idéias se misturam na cabeça da mulher: a vida sem sentido que ela leva, a busca por um algo a mais, e a criança. Quando a infelicidade se torna exasperante, ela solta um grito (“Basta!”) e toma a decisão mais importante da sua vida. Não é uma decisão fácil, pois para engravidar ela precisa se entregar sexualmente a alguém… mas quem poderia ser? Aguardem, estas serão as cenas do próximo post.

Edvard Munch: O Grito
Poderia ser o horror da mulher, mas é a cara do ouvinte

Antes de ouvirmos todo este trecho direto e sem pausas, preciso dizer que tenho algumas dúvidas sobre o real significado desta parte. Já escrevi no post anterior que a estréia da obra suscitou muitas críticas, principalmente devido ao conteúdo altamente imoral do poema. Por isto, na análise que Schoenberg escreveu para a obra 51 anos depois de tê-la composta, ele recomenda apreciá-la como “música pura, esquecendo do poema o qual muitas pessoas hoje [em 1950] poderiam chamar de ‘repulsivo'”. E na sequência ele narra a história do poema com uma significativa alteração: diz que a mulher estava casada com um homem que não amava, e dele engravidou, antes de conhecer seu grande amor. Seria esta análise uma tentativa de suavizar a música? Teria Schoenberg se arrepedido de ter escrito algo tão imoral? Ou ela foi escrita tendo por base essa versão já “moralizada” da história? Comments, please!

Enquanto isso, deixo vocês com a música da primeira metade da segunda estrofe do poema.

Schoenberg: Noite Transfigurada – compassos 29 a 134 (Quarteto Juilliard com Walter Trampler e Yo-Yo Ma):

Este post pertence à série:
1. Noite Transfigurada – Parte I
2. Noite Transfigurada – Parte II
3. Noite Transfigurada – Parte III
4. Noite Transfigurada – Parte IV
5. Noite Transfigurada – Parte V
6. Noite Transfigurada – Parte VI

5 Respostas

  1. JulioDito
    |

    Olá, eu não tenho muito cacife para comentarios mais aprofundados sobre esta análise de altíssimo nível, mas estou adorando este trabalho. Já consegui a partitura da obra e dua gravações diferentes do sexteto. Aguardo ansioso pelos próximos posts.
    A propósito do comentário de Schoenberg sobre a mulher ter se casado com o cara errado e tal, acho que é não é nada disso, em meu modesto entendimento o sentido do poema é o que está escancarado. Ela engravidou de outro homem enquanto já estava se relacionando com seu amado (o homem do poema). Mas aí vem a pergunta, se era tão forte o desejo de ser mãe, porque não realizá-lo com seu próprio companheiro, ao invés de se aventurar com outro não supostamente amado?

  2. Leonardo T. Oliveira
    |

    Acho que a estória do poema é de que ela procurou entre diferentes homens um parceiro exclusivamente para gravidar, depois conheceu o namorado atual. E a aliviada de Schoenberg foi dizer que ela engravidou não de um qualquer, mas de um namorado anterior, a quem no entanto não amava, antes de namorar o atual. Saca?

    Sobre comprar essa estória do Schoenberg, eu imagino que se a música abrigasse qualquer oposição entre namorado-que-ela-não-ama e namorado-que-ela-ama, cada um deles poderia ter um motivo à parte à altura dos seus papéis na estória. Mas, ao invés disso, a música tem simplesmente um motivo para “homem”, e quando ela sai à busca de um parceiro esse motivo aparece várias vezes, como se ela procurasse entre diferentes homens. Mas acho que essa passagem ainda está por vir. :)

    Go, Amancio, go!

  3. Amancio Cueto Jr.
    |

    Obrigado pelos comentários! Deixe-me tentar ser mais claro:

    O poema diz que a mulher queria ser mãe, mas ela não tinha nem marido nem namorado, por isso engravidou de um desconhecido qualquer. Se hoje a idéia já é meio “avançadinha”, imaginem em 1896! Dehmel foi processado por obcenidade e blasfêmia, e a corte condenou seu livro a ser queimado (a história está na Wikipedia). O poema é muito claro nesse aspecto, é impossível interpretar de maneira diferente (vcs verão isso no próximo post, que irá ao ar na próxima terça 24, mas já podem consultar o poema completo clicando aqui.).

    Schoenberg musicou o poema em setembro de 1899, e o sexteto teve sua estréia em março de 1902, gerando as controvérsias e polêmicas que eu já citei no texto. Foi só em 1950 (meio século depois) que o compositor escreveu a tal análise da obra, falando que a mulher engravidou do marido, o qual ela não amava. O que me faz pensar em duas hipóteses:

    (1) Schoenberg musicou o poema como ele estava escrito (“ela engravidou de um desconhecido”), recebendo a condenação da crítica pelo conteúdo imoral. Quando pediram para ele escrever as notas do programa para uma apresentação do sexteto em 1950, ele “amenizou” o poema e disse que a mulher engravidou do marido, o que pareceria menos imoral. Por que ele faria isso? Bom, não sou especialista na biografia do compositor, mas é fácil notar que naquela época ele morava nos Estados Unidos, era a época do Baby Boom e das perseguições do McCarthismo. Casar cedo estava na moda (aliás, “casar” estava na moda), e qualquer um com um pensamento diferente do normal já seria tachado de comunista, como assim foram Leonard Bernstein, Aaron Copland e Hanns Eisler (famoso aluno de Schoenberg), todos compositores. Que segurança Schoenberg teria, apresentando algo imoral para uma sociedade “careta”?

    (2) Na outra hipótese, Schoenberg teria considerado o poema muito obsceno já em 1899, e teria escrito a música imaginando que a mulher estava casada com alguém que não amava, e só depois de engravidar ela teria conhecido seu grande amor. A grande maioria das análises que eu tenho lido por aí (pra não dizer TODAS) usam esta versão, mas como elas não se aprofundam muito, a música não chega a contradizer a estória. No nível em que eu cheguei, sim, a música contradiz essa versão e vários trechos não encaixam. Pra não falar da estória em si (por exemplo, o que teria acontecido com o marido? qual o problema de uma viúva estar grávida? etc).

  4. Leonardo T. Oliveira
    |

    Amancio,

    E o fato de não haver um motivo musical pro ex-marido e outro pro novo namorado, mas sim um único motivo para “homem”? E a maneira como esse motivo ainda é trabalhado na cena em que a mulher procura entre diferentes homens um companheiro pra engravidar?

  5. Amancio Cueto Jr.
    |

    Leonardo,

    Sim, de fato eu identifiquei um único motivo para “homem”, que tanto pode ser usado para o ex-marido quanto para os desconhecidos ou o novo namorado. Me pareceu coisa de expressionista pois o movimento estava mais interessado nas emoções cruas das pessoas, perdidas e imersas no mundo moderno. O poema em si também não cita nomes, é generalista ao citar “um casal”, “uma mulher” e “um homem” – então tudo se casa perfeitamente.

    A procura do homem desconhecido, o que vai servir de pai biológico para a criança, está melhor explicado no meu próximo post, a parte III. É a única parte que não consigo encaixar na “hipótese 2”. Com o restante da obra é até um pouco fácil: vc muda o nome de um motivo aqui, outro ali e voilà!, ela vivia infeliz com um marido e dele engravidou, não restaria dúvida. Eu poderia até enxergar o ex-marido no 2º violoncelo e o namorado atual no 1º violoncelo… mas aí eu teria de abrir mão da proposta expressionista (que me pareceu tão óbvia) de gêneros humanos, masculino e feminino. E lá na parte V, o motivo da “criança do desconhecido” não faria sentido algum.

Deixe uma resposta