Para o indizível, música e poesia (Frauenliebe und -leben, de Schumann)

Schumann em um daguerreótipo de 1850, por Johann Anton Völlner
Schumann em um daguerreótipo de 1850, por Johann Anton Völlner

Robert Schumann (1810-1856) amava tanto a poesia que mesmo algumas de suas peças para piano solo refletem arranjos perfeitamente poéticos, como as famosas miniaturas das Kinderszenen ou do Carnaval. Não é surpresa, portanto, que entre a sua produção mais relevante também estejam as canções (lieder), gênero por excelência a unir música e poesia.

Ano da canção

Particularmente o ano de 1840 é conhecido como o ano da canção na obra de Schumann, quando ele escreveu nada menos do que 168 canções, incluindo seus três famosos ciclos – os Liederkreis Op. 39, Frauenliebe und -leben e Dichterliebe. Emprestando os versos de Goethe, Heine, Byron e de poetas menos conhecidos do século XIX, a produção para voz de Schumann nos revela, entre outras coisas, a sua sensibilidade como leitor de poesia, capaz de explorar tanto aquele potencial da música em nos ensinar a ler poesia como o da poesia em nos ensinar a ouvir música.

Frauenliebe und -leben

Um perfeito exemplo de uma realização tanto musical como poética é a sexta canção do ciclo Frauenliebe und -leben (“Amor e Vida de uma Mulher”), sobre versos de Adelbert von Chamisso. Os poemas assumem a voz de uma mulher apaixonada pelo esposo, lembrando do primeiro encontro, passando pelo matrimônio, o primeiro filho, até a viuvez (que é um verdadeiro luto também no plano da música!).

Na sexta canção, ambos já estão casados e de repente a mulher está com lágrimas nos olhos, sem que o marido ainda entenda o motivo:

Schumann – Lieder ‘Frauenliebe und Leben’ Op. 42 – 6. Süßer Freund, du blickest mich verwundert an – Stanza I (Anne Sofie von Otter & Bengt Forsberg – 1996):

Süßer Freund, du blickest Mich verwundert an,
Doce amigo, olhas-me com espanto,
Kannst es nicht begreifen, Wie ich weinen kann;
não podes entender como eu posso chorar;
Laß der feuchten Perlen Ungewohnte Zier
deixa as úmidas pérolas, estranho ornamento,
Freudig hell erzittern In dem Auge mir.
tremerem felizes e brilhantes nos meus olhos.

Mas o motivo é maior do que as palavras poderiam dizer, e é nessa tensão da linguagem que música e poesia se unem para algo extraordinário. A mulher pede então para que o marido aproxime o rosto do seu peito:

Schumann – Lieder ‘Frauenliebe und Leben’ Op. 42 – 6. Süßer Freund, du blickest mich verwundert an – Stanza II (Anne Sofie von Otter & Bengt Forsberg – 1996):

Wie so bang mein Busen, Wie so wonnevoll!
Como está ansioso meu peito, como está feliz!
Wüßt ich nur mit Worten, Wie ich’s sagen soll;
Se eu apenas soubesse, com palavras, como dizê-lo…;
Komm und birg dein Antlitz Hier an meiner Brust,
Vem e esconde teu rosto aqui em meu peito,
Will in’s Ohr dir flüstern Alle meine Lust.
para que eu murmure em teu ouvido toda a minha alegria.

A partir daqui, no poema original, havia uma estrofe em que a mulher de fato dizia o motivo da sua alegria (confira aqui). Mas Schumann omite essa estrofe da canção, em um tipo de interferência que não era incomum nos empréstimos poéticos dos compositores. E agora, como saberemos o que aconteceu? Ao apenas seguir para a estrofe seguinte do poema, a explicação nos fica sendo dada não por palavras, mas pelo próprio palpitar do peito da esposa. E é uma transição do piano que nos leva até lá, onde compreenderemos o motivo das lágrimas:

Schumann – Lieder ‘Frauenliebe und Leben’ Op. 42 – 6. Süßer Freund, du blickest mich verwundert an – Stanza III (Anne Sofie von Otter & Bengt Forsberg – 1996):

Weißt du nun die Tränen, Die ich weinen kann?
Agora compreendes as lágrimas, que posso chorar?
Sollst du nicht sie sehen, Du geliebter Mann?
Não as deverias ver, homem bem amado?
Bleib an meinem Herzen, Fühle dessen Schlag,
Fica próximo ao meu coração, sente o seu bater,
Daß ich fest und fester Nur dich drücken mag.
para que eu possa mais e mais apertar-te.

Através do piano a música modulou para a submediante, como que elevando o nível da linguagem para uma esfera muito mais íntima, em que o indizível será cantado sem palavra alguma que o refira. A partir daqui até o tempo é diferente, com a melodia do piano tocada no baixo sobre um pulso independente das divisões do compasso. Depois do segundo verso, o piano passa a tocar sozinho, cantando linhas que caberiam à voz! É verdade que nas canções anteriores de Schubert (1797-1828), por exemplo, o piano já tinha preponderância e uma escrita de interesse próprio, mas em Schumann o piano desempenha algo novo: não se trata apenas de preponderância, mas de um papel temporariamente protagonista, “cantando” o tema principal que cabia à voz.

Como o silêncio nos contou (você entendeu?), o motivo era a gravidez do primeiro filho do casal. A omissão por Schumann da estrofe original que revelava explicitamente o motivo da alegria da esposa deu outra estrutura ao poema: a estrofe que acabamos de ouvir, no poema original, era posterior à revelação da gravidez, mas aqui se torna a estrofe da própria revelação, de maneira muito mais tácita, no próprio aproximar do rosto do amado junto ao coração da mulher. Entendemos assim que o único refúgio da linguagem para comunicar essa notícia milagrosa, para a qual apenas as palavras não fariam jus, foi o aproximar do rosto do marido junto ao peito da esposa, em que a comunicação se deu pela própria intimidade que abdica das palavras, e o que em música e poesia se torna a oportunidade por excelência do inefável: na poesia, temos a imagem de uma comunicação feita pelo íntimo ouvir do palpitar do coração ao invés de pelas palavras; e na música, temos a modulação para a submediante e o temporário protagonismo do piano, com a voz em silêncio, para elevar o significado da canção para além das palavras.

Schumann – Lieder ‘Frauenliebe und Leben’ Op. 42 – 6. Süßer Freund, du blickest mich verwundert an – Stanza IV (Anne Sofie von Otter & Bengt Forsberg – 1996):

Hier an meinem Bette Hat die Wiege Raum,
Aqui ao lado de minha cama há lugar para o berço,
Wo sie still verberge Meinen holden Traum;
onde silenciosamente se esconde meu sonho abençoado;
Kommen wird der Morgen, Wo der Traum erwacht,
a manhã chegará, quando o sonho despertará,
Und daraus dein Bildnis Mir entgegen lacht.
e de lá a tua imagem virá sorrindo ao meu encontro.

A canção termina voltando para a tônica com o sentimento do sonho abençoado da maternidade a ser concretizado. Quando o sonho se tornar realidade, ela sabe que terá no quarto a imagem do marido (“dein Bildnis”) vindo ao seu encontro – seja ele próprio a sorrir para ela, seja a própria criança, sua imagem e semelhança. Por isso Schumann faz com que a expressão seja repetida ao final, sonhadoramente: dein Bildnis… Na sequência do ciclo, outra canção mais curta expressa a alegria da criança já presente.

Creio que esta canção mostra como a música é capaz de criar e amplificar as emoções de uma experiência que se torna surpreendentemente significativa: mais do que qualquer informação que outro tipo de linguagem poderia nos dar, é como se aqui pudéssemos conhecer e experimentar o evento na vida dessa mulher (cuja ficcionalidade basta para esta experiência)! O particular ganha vida, porque a ideia universal de uma mulher qualquer que descobre que vai ter um filho não é suficiente.

Exemplos de como a música nos ensina a ler poesia e de como a poesia nos ensina a ouvir música são algo que me interessam muitíssimo, sendo eu também, como Schumann, um amante das duas artes, e espero poder explorar essa relação mais vezes. Mas por ora ouça a seguir a canção completa acompanhada do poema de Chamisso sem as minhas interrupções e depois envie o post para a sua mãe neste domingo:

Schumann – Lieder ‘Frauenliebe und Leben’ Op. 42 – 6. Süßer Freund, du blickest mich verwundert an (Anne Sofie von Otter & Bengt Forsberg – 1996):

Süßer Freund, du blickest Mich verwundert an,
Doce amigo, olhas-me com espanto,
Kannst es nicht begreifen, Wie ich weinen kann;
não podes entender como eu posso chorar;
Laß der feuchten Perlen Ungewohnte Zier
deixa as úmidas pérolas, estranho ornamento,
Freudig hell erzittern In dem Auge mir.
tremerem felizes e brilhantes nos meus olhos.

Wie so bang mein Busen, Wie so wonnevoll!
Como está ansioso meu peito, como está feliz!
Wüßt ich nur mit Worten, Wie ich’s sagen soll;
Se eu apenas soubesse, com palavras, como dizê-lo…;
Komm und birg dein Antlitz Hier an meiner Brust,
Vem e esconde teu rosto aqui em meu peito,
Will in’s Ohr dir flüstern Alle meine Lust.
para que eu murmure em teu ouvido toda a minha alegria.

Weißt du nun die Tränen, Die ich weinen kann?
Agora compreendes as lágrimas, que posso chorar?
Sollst du nicht sie sehen, Du geliebter Mann?
Não as deverias ver, homem bem amado?
Bleib an meinem Herzen, Fühle dessen Schlag,
Fica próximo ao meu coração, sente o seu bater,
Daß ich fest und fester Nur dich drücken mag.
para que eu possa mais e mais apertar-te.

Hier an meinem Bette Hat die Wiege Raum,
Aqui ao lado de minha cama há lugar para o berço,
Wo sie still verberge Meinen holden Traum;
onde silenciosamente se esconde meu sonho abençoado;
Kommen wird der Morgen, Wo der Traum erwacht,
a manhã chegará, quando o sonho despertará,
Und daraus dein Bildnis Mir entgegen lacht.
e de lá a tua imagem virá sorrindo ao meu encontro.

Este post pertence à série “Música e Poesia”:
1. A canção mais assustadora de Schubert
2. Para o indizível, música e poesia (Frauenliebe und -leben, de Schumann)
3. A música e a experiência do infinito (“Feldeinsamkeit”, de Brahms)

5 Respostas

  1. Frederico Toscano
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    Grande iniciativa, Leo!
    Como sempre, um magnífico trabalho.
    Abraços comemorativos!

  2. nadia soares
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    Lindo o texto, fiquei realmente emocionada ao escutar a música.
    O site é incrível parabens !

  3. Rosemberg
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    To conhecendo o blog aos poucos, muito bom trabalho.

  4. marcos gabriel e maikon
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    Muito bom!!!!
    Parabéns!!!
    Que vc faça sucesso!!!!!!

  5. flavio j, morsch
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    Caro Leo,
    Schumann é o excelso representante da velha e noturna Alemanha pré-Bismarck, que não mais voltaria. Uma espécie de rival de Liszt e Wagner que,embora ainda não estivessem no II Reich wilhelmino, se opuseram à tradição da música alemã “fragmentada e formal”.
    Schumann ,nos Lieder, praticamente se iguala a Schubert. Na música pianística pós Beethoven, eu diria que ele reina soberano. Seus devaneios noturnos são como as pinturas de Caspar Friedrich , suas viagens semi-sadias são como E T A Hoffmann. A música para piano chega a recantos nunca dantes conhecidos. Ainda hoje ouvi um estojo de Liszt e pensei no quanto Schumann evita o comercial, o prosaico, o entretenimento enérgico-sentimental, em favor da abstração ,ao mesmo tempo zen-universal e tão nobremente alemã.

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