Imponência que assusta - Franz Welser-Most conduzindo a Cleveland Orchestra no Knight Concert Hall em foto de Roger Mastroianni

Será que já existe um livro sobre a história do público de concerto? Há alguns estudos mais focalizados, como Listening in Paris: A Cultural History de James H. Johnson, After the Golden Age: Romantic Pianism and Modern Performance de Kenneth Hamilton, Highbrow/Lowbrow: The Emergence of Cultural Hierarchy in America de Lawrence Levine, The Great Transformation of Musical Taste: Concert Programming from Haydn to Brahms de William Weber ou mesmo Norbert Elias e suas obras sobre a sociedade de corte e processo civilizador. A partir desse tipo de historiografia, é possível observar como em algum momento a performance musical aderiu a uma cerimônia bastante rígida e formal nas salas de concerto comparada, por exemplo, ao tipo de audiência musical promovida durante o século XVIII ou XIX na Europa. Pois se hoje um concerto comum de uma orquestra sinfônica prevê um ritual de momentos para aplaudir, ficar em silêncio, tossir, levantar e mesmo uma ordem de entrada e saída dos músicos – tudo desempenhado com o confinamento do público às suas respectivas poltronas -, em 1780 concertos em Paris ou em Viena não eram necessariamente abertos ao público em geral, mas reuniões aristocráticas em que mesmo a montagem de uma ópera em um teatro seria apenas um dos atrativos de um ambiente em que se conversava, se visitava os amigos nos seus camarotes, se jogava xadrez, se namorava nos últimos balcões, etc. (e teatros suburbanos, se não eram fechados ou aristocráticos, não diferiam nesse aspecto). Isto já foi muito bem abordado no post “Uma nota sobre as boas maneiras em concerto“ do Randau e pelo excelente artigo “Why So Serious?: How the classical concert took shape“ do Alex Ross para a The New Yorker, e é frequentemente explicado como: 1) parte de um processo civilizador da história contemporânea e suas etiquetas, 2) resultado de um sincretismo social dos teatros e de um embotado decoro pequeno-burguês em busca de status ou 3) no seu extremo, como parte de um processo de sacralização, de canonização e de engajamento com a ideia de sublime da concepção de música e do ambiente propício para se apreciá-la.

Mas o exame dessa história só faz alguns problemas surgirem com ainda maior pertinência, pois podemos passar a nos perguntar: o padrão atual de um concerto de música e as suas etiquetas se concilia bem com o comportamento do público? Vejamos uns casos reais.

Aplausos

Em dezembro do ano passado Bruno Gripp relatou os aplausos efusivos durante um concerto da OSB no meio do último movimento da Nona Sinfonia de Beethoven, após a exposição do tema da Ode à Alegria, em que uma cadência deceptiva não podia sugerir que a música de fato havia terminado. O problema do comportamento do público em concertos é sempre uma oportunidade de se repensar a recepção musical desse público, como foi feito no post, mas também pode lançar consciência sobre a própria cerimônia do concerto. Por isso sempre que o público aplaude “na hora errada”, seja no meio ou especialmente entre movimentos de uma obra que ainda não acabou, o instinto de lhe imputar uma “culpa” é, por exemplo, revisto pelos otimistas: diz-se que provavelmente se trata de um público novo aos concertos, ainda não iniciado à sua etiqueta, e que a presença de gente nova é sempre bom sinal.

Partitura para o público durante a música

Mas o evento pode causar certos constrangimentos – olhares sisudos, repreensões ou simplesmente o desconforto de se sentir em uma cerimônia formal que, com esse decoro, pode intimidar a sua espontaneidade de se deixar entusiasmar demais pela música. A partir disso alguém sempre vai além e pergunta: essas coisas eram pra ser tão graves assim?! Uma demonstração de entusiasmo deveria ser reprimida ao ponto de ser capaz de criar um clima intimidador dentro das salas de concerto? As comparações com o ambiente dos teatros do século XVIII, como vimos, tão mais espontâneos e liberais (mesmo entre nobres), apenas encorajam esse embate contra a intolerância e contra o sentido de convenções que podem gerar mal estar no público. Com base nisso, alguns podem mesmo defender os culpados pelas gafes, culpando, em uma espécie de sensibilidade pelas minorias, antes a existência das próprias convenções sociais que vitimam os desavisados, o que acho que é um erro de foco.

Uma crítica mais realista pode ser feita não sobre a existência de uma etiqueta que condena os aplausos que atrapalham a percepção da música – que foi, afinal, o que levou as pessoas ao concerto -, mas sobre o excessivo clima de desconforto promovido pela etiqueta e os exageros das suas restrições. John Terauds, no post “It’s high time to reconsider applause at classical concerts“ do blog Musical Toronto, convida exatamente a essa reflexão depois de relatar um concerto da Sarah Chang na cidade, em que aplausos entre os movimentos das obras apresentadas foram admoestados por gestos do regente.

Reconsiderando a etiqueta

John Terauds despojando a música clássica

Segundo ele, mesmo que cada um de nós tenha nosso próprio ideal de como o ambiente de um concerto deveria ser, o fato é que nós também temos uma necessidade fundamental de responder a estímulos – o que pode ganhar aqui certa dimensão antropológica para a discussão. Os velhos exemplos históricos do século XVIII são citados por ele para comparação, mas também exemplos de outros gêneros musicais e de outro tipo de espetáculo erudito: a ópera. A etiqueta de uma montagem de ópera pode não ser tão mais liberal do que a etiqueta de concertos no que se refere a decoro e seriedade, mas ela guardou uma condescendência para os aplausos: o público pode aplaudir entre uma ária e outra, expressando o seu entusiasmo com cada cantor, e muitas vezes pode até arriscar umas vaias.

Não permitir que o público aplauda entre os movimentos de uma sinfonia ou após a execução de uma cadenza pelo solista de um concerto, segundo Terauds, pode não só ser um excesso, como não ser coerente – diante do imperativo emocional de uma grande performance, deveria ser mais importante garantir a espontaneidade do público ao fruir a experiência de um concerto ao vivo do que garantir a exigência de silêncio absoluto. De novo, não se trata aqui de defender o direito de conversas paralelas que atrapalhariam a fruição musical do vizinho ou de uma interação tresloucada do público, que aplaudiria nos momentos mais aleatórios, mas uma crítica ao controle absoluto e à intolerância de todos os meios de manifestação do que o público está sentindo, o que teria apenas criado um clima pernóstico e incompatível com as emoções de um concerto. Porque na pior das consequências esse tipo de sisudez intimidaria o público – especialmente jovem – de frequentar concertos, o que aniquila a vivacidade que um concerto deveria ter para a vida cultural de qualquer comunidade e em muito desfavorece qualquer trabalho de educação musical para um público mais amplo.

Solução-Terauds

A resposta a esses problemas dada por Terauds, como ele enfatiza no próprio título do post, é uma simples e direta revisão dessa postura, o que mudaria o ambiente dos concertos pelo menos para algo mais próximo da espontaneidade da ópera, onde o bom senso prevaleceria sobre a mumificação imposta ao público e algum benefício social seria trazido para um encorajamento mais eficiente da música clássica a novos ouvintes.

Essa crítica é muito razoável, mas não quero ir embora hoje sem contribuir com mais uma etapa nessa discussão: apontar os defeitos da crítica e sugerir mais uma solução!

Crítica da crítica

Pesadelo das salas de concerto

Alguém discorda que nada favorece mais a contemplação da música em si do que o silêncio? Há quem diga que a formação dessa sensibilidade deve muito à cultura fonográfica do século XX, em que se pôde trazer uma gravação pra casa e ouvi-la meditativamente na poltrona da sala. Mas a partir dessa pergunta uma coisa fica evidente: a crítica contra a intolerância à manifestação de entusiasmo do público durante um concerto é obrigada a ceder alguma medida dessa primazia básica, da condição do silêncio para a contemplação da música em si, para uma outra importância que ela exige que também seja reconhecida: a da interação do público com o concerto, ou seja, a sua reação mais espontânea diante de algo que é profundamente emocional, humano, e não pacato, racional, “asséptico!” (imagem que faz até mal à música clássica).

Assim, parece que a discussão lida com dois valores: a primazia das condições para a contemplação da música e a primazia de um engajamento emocional do público como resultado simultâneo e natural dessa contemplação. A primeira primazia tem algo de individual – seria a garantia de que ninguém atrapalharia a fruição do outro -, enquanto a segunda tem, por consequência ou mesmo por objetivo, uma dimensão coletiva ao olhar para a cerimônia do concerto e reconhecer o fato de que, afinal, esse evento é composto por um conjunto de pessoas que, querendo ou não, já estão interagindo entre si e com os músicos ao estarem ali, o que não tem como ser confundido com as condições de um indivíduo diante de um telão.

É claro que pensar nessa segunda primazia pode propor vantagens mesmo para a primeira: conceder que um concerto é um evento coletivo e que pessoas reunidas trazem “calor humano” pode ajudar a própria contemplação da música, criando um entusiasmo coletivo que envolva o público e os próprios músicos (gravações ao vivo atestam isso muito bem). Mas em algum ponto essas duas importâncias terão um conflito, porque o contemplar e o querer manifestar reação à contemplação, quando simultâneos, serão excludentes: aplausos antes do fim da música ocuparão o exato espaço que ainda poderia ser o da sua contemplação. Sem ficar patinando apenas nessas considerações teóricas, creio que a partir daqui a prática é que deve nos responder: afinal, o que a música tem a dizer sobre isso?

Aplausos entre movimentos

Pensemos nos aplausos entre os movimentos. Terauds diz que o primeiro movimento da Quinta Sinfonia de Beethoven foi tão esfuziante naquele concerto que o público o aplaudiu (ao que o regente sinalizou pra que os aplausos fossem contidos). Se o espaço para este tipo de manifestação de entusiasmo entre movimentos for defendido, deveríamos levar em conta pelo menos dois dados históricos e um dado musical.

Dados históricos

O primeiro dado histórico é que se você defende que aplausos tenham espaço entre os movimentos de toda obra musical, amparado seja pela espontaneidade incontível do público, seja pelo exemplo do ambiente nos teatros do século XVIII, você pode estar sendo no mínimo anacrônico com compositores que, não mais escrevendo para um público do século XVIII, escreveram para um público mais silencioso já durante o século XIX ou XX e, justamente por isso, exploraram esse ambiente silencioso oportunamente com a sua música.

Encontro de connoisseurs - Beethoven e o Quarteto Rasoumowski

O segundo dado histórico é que mesmo a generalização do padrão de concertos do século XVIII é perigosa: o cenário de entretenimento barulhento diz respeito aos teatros de óperas e de orquestras de câmara que acompanhavam eventos sociais. Mas a música de câmara mais especializada teve, por vezes, outro ambiente, o de connoisseurs reunidos para apreciá-la em salas mais privadas, como no caso dos quartetos de Haydn (e certamente Mozart e Beethoven). A música para teclado demorou para ganhar a evidência dos grandes concertos: era antes escrita com uma forte raíz didática, voltada para um mercado editorial que visava pianistas e estudantes. E a música sacra, enquanto foi vivamente cultivada dentro de uma liturgia, tinha obviamente uma audiência mais reverente do que o teatro de ópera aristocrático. Todo esse repertório terminou sendo incorporado pelo espaço do nosso concerto, mas, como podemos ver, a generalização de um cenário musical específico do século XVIII como exemplo a ser aplicado às mais diversas obras dos nossos concertos pode ser inadequada.

Dado musical

E o dado musical é que pode haver mais conteúdo entre dois movimentos do que sonha a sua filosofia: diferente da música barroca, em que um conjunto de danças em uma partita, por exemplo, poderia trazer sempre danças na mesma tonalidade principal da obra, a música do classicismo passou a explorar o sistema tonal com uma trajetória que se permitia mudar de tonalidade em cada movimento até retornar para a tonalidade inicial da obra, fechando um ciclo coerente. Isso foi facilitado pela história da afinação dos instrumentos, quando tipos de afinação temperada já permitiam que um instrumento não precisasse ser reafinado sempre que mudasse de tonalidade, até chegarmos no temperamento-igual moderno. Mas o ponto é que há um critério na mudança de tonalidade dos movimentos, e, conforme eles foram sendo explorados com cada vez mais ousadia – quando Beethoven começou a tornar essa trajetória de tonalidades cada vez mais enviesada em algumas obras -, a expressividade dessa relação tonal entre eles e a sensibilidade do ouvinte foram sendo testadas. O critério padrão da relação de tonalidades de uma obra clássica multimovimental é o círculo das quintas, mas ao invés de entrar nessa intrincada questão teórica, quero apenas dar um exemplo significativo.

Na Sonata para Piano No. 29 em Si bemol maior Op. 106 “Hammerklavier” de Beethoven, nós temos um primeiro movimento em si bemol maior, um segundo também em si bemol maior, mas um terceiro – o seu longo adágio – em fá sustenido menor, que é uma tonalidade muito distante da tônica si bemol maior da obra (sendo enarmônica de sol bemol menor, seria a \flatvi (submediante bemol menor) da tônica). Sair da sensação de repouso da tônica de si bemol maior instaurado pela obra nos seus dois primeiros movimentos e entrar em fá sustenido menor é certamente um acontecimento musical legítimo em si mesmo. Ouça o que é sair de repente de si bemol maior para fá sustenido menor:

Audio clip [B flat major - F sharp minor]: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Mas tanto essa transição entre os dois movimentos é significativa musicalmente que Beethoven, manipulando o choque dessa transição, não inicia o terceiro movimento direto com um acorde de fá sustenido menor, mas com uma ambiguidade tonal: em duas notas (que ele acrescentou depois da obra estar pronta), a música inicia como se estivesse na tonalidade de lá maior, preparando a entrada no campo do acorde em fá sustenido menor. A transição entre o segundo e o terceiro movimento fica assim:

Audio clip [Beethoven - Piano Sonata No. 29 in B flat major Op. 106 - Transition between movs. II and III (M. Pollini - 1977)]: to listen to it, download the Adobe Flash Player.

É a entrada em um mundo completamente diferente, com a mudança de tonalidade auxiliando isso diretamente, e o que ele vai ter que fazer pra voltar a si bemol maior no quarto movimento é outra história fascinante. Mas com isso o exemplo chega a ser grosseiro de que, é óbvio, aplausos neste ponto não só ocupariam o espaço de um momento que pode ser contemplado musicalmente, como principalmente dissolviriam a sensação tonal do seu ouvido construída pela obra até aqui – e esse é um ponto que a etiqueta, de alguma forma (às vezes entre umas tosses), ao menos se dispõe a preservar. A musicóloga Susan McClary, legitimando indiretamente a questão, afirma que o efeito de uma modulação para a submediante bemol pode representar um “estado onírico de fuga”.

É certo que nem sempre a relação tonal entre os movimentos de uma obra terá uma atitude notável, mas ainda vejo valor na preservação da sensação que a tônica impõe aos nossos ouvidos como o “repouso” da música e tudo o que acontece sobre ele durante a obra. E é claro que até mesmo para conferir que não há uma atitude inusitada na sensação tonal entre os movimentos de uma obra você terá que ouvi-la! A escolha dessas tonalidades também pode ter motivos mais meramente técnicos: elas podem ser escolhidas para favorecer o registro de um instrumento que será mais explorado em determinado movimento. Mas essa escolha já costuma ser preparada desde o começo da obra (então se um movimento tem uma tonalidade muito distante, é porque isso se justifica no seu efeito tonal mesmo).

Fora a questão tonal, é preciso dizer que fragmentar uma obra entre aplausos tende a não ser uma boa ideia em qualquer sentido – o que seria a experiência de uma sinfonia de Mahler toda fragmentada em aplausos? Um idealista poderia dizer que os aplausos entre movimentos poderiam ficar por conta do bom senso do público e não em casos tão inapropriados, mas, como eu disse, eu não acredito que esse momento exista e não vejo a possibilidade do bom senso ser instituído: quando o assunto é comportamento social a tendência são os padrões. Já obras com outras estruturas mais ininterruptas pelo menos não sofrem tanto esses riscos.

Preço da interação

A ideia de interação do público com aplausos entre movimentos ou em cadenzas de solista acompanha a noção de se querer interagir especificamente com o momento que causou entusiasmo ao invés de guardar a sua manifestação para o final da obra (daí essa lógica funcionar à parte na ópera, que traz números que podem ser bem mais independentes (lembremo-nos do significado de “ópera”: “obras”)). Mas acho que, como foi mostrado, há motivos de se aproveitar melhor o recheio da experiência musical, ou ao menos guardar esse direito aos outros. Também creio que os motivos espontâneos pra se aplaudir, mais do que por entusiasmo, também podem ser menos nobres…, como um espírito tanto de pura afobação em celebrar os músicos sem nem mesmo ter contemplado a música quanto por esnobismo em interagir com o espetáculo – nesse sentido, a etiqueta dos aplausos ao menos tenta concentrar todos esses motivos, nobres ou não, para o final.

Atacando o inimigo errado

Creio que o ataque à etiqueta dos concertos seja o exercício de uma crítica insatisfeita especialmente com a imagem sisuda e afrescalhada da música clássica. Adriano Brandão, com quem conversei sobre este assunto e que divulgou o post do John Terauds, mostra esta imagem como a afetação indesejável ligada à música clássica pela qual o ambiente dos concertos pode ser um pouco responsável. Creio que essa seja uma consequência cultural mais ampla do que o formato do concerto, e atacar ou mesmo eliminar o que esse formato tem de razoável na tentativa de ajudar essa imagem da música pode ser muito radical. Mas o que poderia ser feito então?

Solução

Minha primeira resposta é: desatemos um pouco, pelo menos um pouco, os nós doutrinadores de sonhar em determinar como as pessoas entendem a música clássica no mundo. O que acontece nas salas de concerto pode nos dizer respeito quando afeta o cultivo do que gostamos ou a nossa própria experiência em um espetáculo, mas o sentimento de sermos membros de um clube superior irmanados pela música clássica, aptos a decidir sobre os rumos da instituição moderna do concerto, pode inspirar certas frustrações totalitárias.

Mais pluralidade nos concertos (Richard Fox - Concert)

E a segunda é: ok, seria bom se houvesse o que fazer pra que concertos fossem uma experiência mais ampla no seu potencial. No meu mundo ideal o concerto silencioso não precisaria ser eliminado em nome das críticas que são feitas a ele – e eu nem acho que essa etiqueta, apesar de ordenadinha, seja tão austera assim, convenhamos. Mas acho que um dado histórico que poderia nos inspirar, ao invés do barulho puro e simples dos teatros aristocráticos, é a pluralidade de formatos de um concerto.

O concerto padrão atual é mesmo profundamente especializado no seu formato e pressuposto de todos os concertos do mundo, mas se olharmos para o passado veremos concertos em que Liszt oferecia uma urna pra que o público colocasse bilhetes com pedidos de música (o que dizem que era divertido, porque muitas vezes surgiam mais piadas do que pedidos de música), concertos de madrugada (!) feitos por Berlioz ou os desafios e duelos entre instrumentistas virtuoses. Temos alternativas ao concerto padrão, como concertos a céu aberto – que apenas são geralmente pouco interessantes e bregas, mas bem mais relaxados -, concertos didáticos – o público fica à vontade com o diálogo e satisfeito em sentir que aprendeu -, concertos abertos a pedidos – Gabriela Montero, ao final dos seus concertos, tem pedido ao público por temas pra improvisar -, e creio que uma riqueza de formatos para experiências com a música clássica é o que poderia abrigar tanto esse desejo de espaço para a manifestação do entusiasmo do público, quanto o espaço para uma contemplação mais solene, entre outras ideias e interesses.

O incentivo a essa pluralidade de eventos e experiências musicais, portanto, é o que eu vejo ser possível vislumbrar nessa esfera de formatos de concerto para atingir a cultura musical – iniciativas bastante criativas já têm sido empreendidas, o que é animador.

Alguém pode finalmente imaginar que nem toda cultura (a brasileira, por exemplo) abrigaria a dimensão dessa pluralidade: o investimento em propostas de concertos alternativos poderia simplesmente ficar sem público. Mas não é assim que se descartam boas ideias e acho que não seria algo tão difícil assim: grandes orquestras fazerem concertos didáticos?, músicos fazerem recitais abertos a pedidos?, com uma boa divulgação? A música popular já mostra que isso pode ser bastante natural há um bom tempo, então que a música clássica resgate a sua pluralidade também.

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