Os segredos da Paixão segundo São Mateus – 9. A Crucificação

Gerard David: Cristo pregado na cruz
Gerard David: Cristo pregado na cruz

Após semanas de análise da Paixão segundo São Mateus de Bach, chegamos enfim ao capítulo da crucificação de Jesus. Quem achava que a obra tratava apenas da crucificação deve ter ficado surpreso, pois, depois de uma breve introdução geral, nós vimos Jesus ser ungido em Betânia e então tivemos a Santa Ceia. Após Jesus subir o Monte das Oliveiras para orar, ele foi traído por Judas e preso pelos guardas dos sumos sacerdotes, sendo condenado à morte por eles num julgamento de fachada. Enquanto isso, Pedro negou Jesus e Judas se enforcou. Jesus foi então levado a Pilatos, que autorizou a flagelação e a crucificação. Os soldados romanos, porém, não executaram a pena imediatamente, vejam:

53. Rezitativ (Mt 27,27-30): Da nahmen die Kriegsknechte

Bach: Paixão segundo São Mateus – 53a. Da nahmen die Kriegsknechte (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Da nahmen die Kriegsknechte
des Landpflegers
Jesum zu sich in das Richthaus,
und sammleten über ihn die ganze Schar,
und zogen ihn aus und legeten ihm
einen Purpurmantel an,
und flochten eine Dornenkrone,
und setzten sie auf sein Haupt,
und ein Rohr in seine rechte Hand,
und beugeten die Knie vor ihm,
und spotteten ihn, und sprachen:
Evangelista
Então os soldados
do governador levaram
Jesus para o palácio da justiça,
e reuniram em torno dele toda a tropa,
e o despiram e colocaram nele
um manto púrpura,
e teceram uma coroa de espinhos,
e colocaram-na sobre sua cabeça,
e uma vara em sua mão direita,
e ajoelharam-se diante dele,
e zombavam dele, dizendo:

Bach: St. Matthew-Passion - 53a. Sie legeten ihm einen Purpurmantel anA partir deste trecho do Evangelho, deixaremos de lado as tonalidades com sustenidos que marcaram os posts anteriores e vamos rumar aos poucos para as tonalidades com bemóis. Conforme eu havia explicado lá no nº 17, Bach utiliza as tonalidades com bemóis para simbolizar o sofrimento de Jesus – e sofrimento daqui por diante é o que não faltará. A narração do Evangelista também muda: ele deixa de lado aquele tom nervoso que teve destaque no último post e começa a adotar um tom de impotência diante de uma grande tragédia, cantando mais nos registros médios e graves. Agudos mesmo só para palavras chaves: Jesum (olha a hierarquia!) e Schar (tropa), indicando um grande número de soldados em volta.

Jesus havia acabado de ser flagelado ali nos nºs 50 e 51, suas feridas ainda deveriam estar sangrando quando os soldados vieram tirar sua roupa. Não é provável que eles o tenham feito com cuidado, e por isso a frase zogen ihn aus (o despiram) vem num doloroso acorde de 7ª diminuta. Purpurmantel (manto púrpura) é ascendente, desenhando o manto que é colocado (an, do verbo anlegen) sobre as costas machucadas de Jesus.

Bach: St. Matthew-Passion - 53a. Sie flochten eine Dornenkrone und setzten sie auf sein Haupt

Dornen (espinhos) é acompanhado de um horroroso acorde de 7ª diminuta em segunda inversão, e sob a outra metade da palavra composta, Krone (coroa), o baixo toca uma nota distante da de Dornen: são duas palavras tão opostas, coroa e espinhos, que não deveriam nem estar juntas. Und setzen sie (e a colocaram) segue o movimento descendente da coroa sobre a cabeça de Jesus, sem esquecer de que “sobre” (auf) fica acima da cabeça (Haupt).

Bach: St. Matthew-Passion - 53a. Sie beugeten die Knie vor ihm

Rechte (direita) vai na nota ré, que nos instrumentos de teclado como órgão e cravo fica à direita tanto da nota si bemol de Hand (mão) quanto de sol/fá# de seine (sua). Na frase seguinte, com o zigue-zague da melodia, Bach explica também onde fica o joelho (Knie), colocando-o depois no chão dos graves de vor ihm (diante dele).

Bach: Paixão segundo São Mateus – 53b. Gegrüsset seist du Judenkönig! (Bostridge – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Chor 1+2
Gegrüsset seist du, Judenkönig!
Coro 1+2
Salve, Rei dos Judeus!
Evangelist
Und speieten ihn an,
und nahmen das Rohr,
und schlugen damit sein Haupt.
Evangelista
E cuspiram nele,
e tomaram a vara,
e bateram com ela na sua cabeça.
Ticiano: Coroação de espinhos
Ticiano: Coroação de espinhos

Assim como na turba final do nº 36 (Weissage uns), os coros aqui cantam alternadamente zombando de Jesus à esquerda e à direita. An, de anspeien (cuspir em) carrega um trítono de humilhação, bem como das Rohr (a vara). E a última frase do Evangelista soa horrorosa de feia…

Lembram da coroa de espinhos? A intenção dos soldados ao baterem na cabeça com a vara era a de afundar a coroa para os espinhos perfurarem ainda mais fundo. Todos sabem, a cabeça é uma das áreas do corpo mais irrigadas por vasos sanguíneos, e assim qualquer corte minúsculo provoca um grande sangramento. Portanto o rosto de Jesus deveria estar quase irreconhecível com tanto sangue escorrendo…

54. Choral: O Haupt voll Blut und Wunden

E é exatamente sobre a cabeça de Jesus que comentará este coral luterano, O Haupt voll Blut und Wunden, estrofes 1 e 2 de Paul Gerhardt (1656) e melodia de Hans Leo Hassler (1601). Sim, é o mesmo coral que já ouvimos nos nºs 15, 17, 44 e ouviremos ainda no nº 62. Diferente de todos os outros corais da Paixão, aqui ouvimos duas estrofes ao invés de uma:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 54. O Haupt voll Blut und Wunden (Philippe Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

O Haupt voll Blut und Wunden,
Voll Schmerz und voller Hohn;
O Haupt, zu Spott gebunden
Mit einer Dornenkron’!
O Haupt, sonst schön gezieret,
Mit höchster Ehr’ und Zier,
Jetzt aber hoch schimpfieret:
Gegrüsset seist du mir!
Oh, cabeça cheia de sangue e feridas,
cheia de dor e cheia de desprezo;
Oh cabeça, por zombaria coroada
com uma coroa de espinhos!
Oh cabeça, antes belamente adornada
com as maiores honras e ornamentos,
agora porém tão ultrajada,
eu lhe saúdo!
Du edles Angesichte,
Vor dem sonst schrickt und scheut
Das grosse Weltgewichte,
Wie bist du so bespeit!
Wie bist du so erbleichet,
Wer hat dein Augenlicht,
Dem sonst kein Licht nicht gleichet,
So schändlich zugericht’t?
Você, nobre semblante,
ante o qual treme e se esconde
os grandes poderosos do mundo,
como você está cuspido!
Como você está pálido,
Quem, a luz dos seus olhos,
a qual nenhuma luz pode se igualar,
tão vergonhosamente apagou?

Os versos de Paul Gerhardt foram livremente inspirados num antigo hino medieval chamado Salve mundi salutare, provavelmente escrito pelo poeta Arnulfo de Lovaina (c. 1200-1250). Este hino tem a característica de se dirigir, em cada estrofe, a uma parte diferente do corpo de Cristo crucificado, e serviu de inspiração para Dieterich Buxtehude escrever em 1680 o primeiro oratório luterano da história, Membra Jesu Nostri BuxWV.75, um ciclo de sete cantatas dedicadas aos pés, joelhos, mãos, lados (costelas), peito, coração e cabeça de Jesus.

A adaptação de Gerhardt para o alemão é bastante livre, mas continuou preservando a associação direta do coral com a Paixão de Jesus Cristo. Não é à toa que Bach o utiliza várias vezes no decorrer da obra. Aqui em particular, Bach colocou as vozes num registro agudo para elevar Jesus musicalmente após sua humilhação pelos soldados romanos.

55. Rezitativ (Mt 27,31-32): Und da sie ihn verspottet hatten

Bach: Paixão segundo São Mateus – 55. Und da sie ihn verspottet hatten (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Und da sie ihn verspottet hatten,
zogen sie ihm den Mantel aus,
und zogen ihm seine Kleider an,
und führeten ihn hin,
dass sie ihn kreuzigten.
Evangelista
E depois de zombarem dele,
despiram-no do manto,
e o vestiram com as roupas dele,
e o levaram
para crucificá-lo.

Bach: St. Matthew-Passion - 55. Zogen sie ihm den Mantel ausTal como no recitativo nº 53, a frase ascendente zogen se ihm den Mantel [aus] (despiram-no do manto) também desenha o manto, mas se encontra separada do fim da frase (aus, de ausziehen, despir) por um trítono. O motivo é que, a essa hora, as feridas abertas pela flagelação já deveriam ter começado seu processo natural de cicatrização, grudando-se porém no tecido do manto. Quando os soldados vieram retirá-lo, a ação deve ter reaberto as feridas, e assim o doloroso trítono que ouvimos representa as costas flageladas de Jesus.

Bach: St. Matthew-Passion - 55. Sie führeten ihn hin dass sie ihn kreuzigten

Pela distância entre as notas de ihn e hin, de führeten ihn hin (o levaram), podemos imaginar que os soldados levaram Jesus bem longe para crucificá-lo. Na verdade os arqueólogos ainda têm dúvidas de onde teria sido o local exato da crucificação, mas se admitirmos que tenha sido próximo de onde hoje é a igreja do Santo Sepulcro, a distância da caminhada dá uns 800 metros. E por fim, kreuzigten (crucificar) apresenta duas melodias cruciformes, uma na voz e outra no baixo.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 55. Und indem sie hinaus gingen (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Und indem sie hinaus gingen,
fanden sie einen Menschen von Kyrene,
mit Namen Simon; den zwangen sie,
dass er ihm sein Kreuz trug.
Evangelista
E quando eles saíram,
encontraram um homem de Cirene
de nome Simão; então eles o forçaram
a carregar a sua cruz [de Jesus].

É sempre bom lembrar, Jesus passou a noite em claro e sua última refeição foi na noite anterior, na Última Ceia. Somando as pancadas do nº 36, os ferimentos abertos pelos flagelos do nº 50 e a coroa de espinhos ali do nº 53, não é difícil imaginar que ele não teria forças e nem condições para carregar a cruz sozinho, e por isso precisou da ajuda de Simão de Cirene. A maioria das pinturas mostra Jesus carregando a cruz inteira, que deveria pesar uns 130 kg, mas hoje sabe-se que os réus condenados à crucificação só levavam consigo o patibulum, a porção horizontal da cruz, que deveria ter uns 50 kg. De qualquer forma, é um peso absurdo para se carregar por 800 m, ainda mais naquele estado em que Jesus se encontrava.

Bach: St. Matthew-Passion - 55. Den zwangen sie, dass er ihm sein Kreuz trug

A frase sie hinaus gingen (eles saíram) mostra uma partida para cima, ascendente como todas as “idas e saídas” da Paixão. Den zwangen sie (então eles o forçaram) tem um trítono e uma inversão horrorosa do acorde de 7ª diminuta no baixo: os soldados devem ter usado de muita violência para “convencer” Simão. Ele (er) e Jesus (ihm) aparecem então nos graves, desajeitados sob a pesada trave horizontal da cruz (sein Kreuz) no agudo. Além disso, o intervalo de 7ª maior entre as notas lá de ihm e sol# de sein dá uma boa idéia da dificuldade de carregar a cruz…

56. Rezitativ (Bass): Ja! freilich will in uns

E os comentários a este trecho do Evangelho são exatamente sobre isto, a dificuldade de carregar a cruz. Ouça:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 56. Ja! freilich will in uns (Henschel – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Ja! freilich will in uns das Fleisch und Blut
Zum Kreuz gezwungen sein;
Je mehr es unsrer Seele gut,
Je herber geht es ein.
Sim! claro que em nós a carne e sangue
querem ser forçadas a levar a cruz;
Tanto melhor será para nossa alma
quanto mais amargo for.

Bach: St. Matthew-Passion - 56. Ja! freilich will in uns das Fleisch und BlutO recitativo começa bem bonitinho em Fá Maior, sim, claro que levamos a cruz, topamos qualquer parada! Mas Blut (sangue) já carrega as primeiras dissonâncias, um trítono e um acorde de 7ª diminuta; zum Kreuz (a cruz) tem um salto grande para a voz, ôpa, é mais pesada do que eu pensei. E o acorde de 7ª diminuta de herber (amargo) nos faz sentir o quanto realmente é difícil levarmos a cruz, concluindo num amargo Ré menor.

57. Aria (Bass): Komm, süsses Kreuz

Amargo mesmo? Ou doce?

Bach: Paixão segundo São Mateus – 57. Komm süsses Kreuz (Henschel – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Komm, süsses Kreuz, so will ich sagen,
Mein Jesu, gib es immer her!
Wird mir mein Leiden einst zu schwer,
So hilf du mir es selber tragen.
Venha, doce cruz, assim eu quero dizer,
Meu Jesus, dê-a para sempre para mim!
Se meu sofrimento se torna muito pesado,
você me ajuda a suportá-lo.

Bach: St. Matthew-Passion - 57. Komm, süsses Kreuz

Jheronimus Bosch: Cristo carregando a cruz
Jheronimus Bosch: Cristo carregando a cruz

O acompanhamento desta ária é feito apenas por uma viola da gamba e o baixo contínuo. A parte da viola da gamba é terrivelmente difícil, e pode muito bem expressar a dificuldade em carregar a cruz. O baixo contínuo caminha em colcheias, às vezes parando como se caminhasse com grande dificuldade. Já a voz do solista tenta passar a doçura de se levar a cruz de Jesus, uma idéia meio contraditória, não acham?

Curiosamente as primeiras notas do baixo contínuo são as mesmas da melodia O Haupt voll Blut und Wunden, o coral-símbolo da Paixão que acabamos de ouvir ali no nº 54. Não percebeu? Ouça aqui uma montagem com as duas melodias:

Montagem de Komm süsses Kreuz com O Haupt voll Blut und Wunden:

Como se trata de um coral sobre a Paixão de Cristo, a associação da melodia com a cruz é imediata e óbvia. Outra associação óbvia, pelo menos para os alemães da época de Bach, está no uso da viola da gamba, um instrumento antigo frequentemente usado em cantatas fúnebres e que assim carregava uma sonoridade associada a seriedade e sofrimento. Nas primeiras versões da Paixão segundo São Mateus, o acompanhamento desta ária era feito por um alaúde; na revisão de 1742, Bach o substituiu pela viola da gamba para simbolizar o sofrimento de Jesus na cruz, e lá atrás nos nºs 34 e 35 (Geduld) substituiu o violoncelo pela gamba para simbolizar o sofrimento perante os sumos sacerdotes.

Bach: St. Matthew-Passion - 57. Wird mir mein Leiden einst zu schwerNa parte central da ária, reparem como as palavras Leiden (sofrimento) e tragen (suportar) são cantadas em motivos longos. Leiden, porém, tem notas cromáticas e dolorosas, bem diferente das notas de tragen, mais melodiosas. Schwer (pesado) sempre cede para baixo, como se estivesse mesmo pesando.

Aos que ficaram curiosos com a viola da gamba, cliquem aqui e assistam um vídeo de um professor mostrando Komm süsses Kreuz aos seus alunos. É sensacional!

58. Rezitativ (Mt 27,33-44): Und da sie an die Stätte kamen

Giovanni Gerolamo Savoldo: Cristo na cruz
Giovanni Gerolamo Savoldo: Cristo na cruz

E então chegamos ao recitativo principal da crucificação de Jesus. Preciso confessar a vocês, nestes últimos meses tenho folheado e mergulhado direto em cada uma das páginas desta partitura, e não há nada, NADA, parecido com as páginas deste recitativo.

Não há sustenidos ou bemóis na armadura de clave, o que poderia sugerir o campo tonal de Dó Maior. Porém aqui encontramos os mais diversos acordes e cadências para as mais diferentes tonalidades, por exemplo: Mi menor, Si menor, Sol Maior, Lá Maior e menor, Dó Maior e menor, Dó # Maior e menor, Fá # Maior e menor, Ré Maior e menor, para citar alguns. Tem até um acorde de Ré bemol Maior (como napolitana de Dó menor).

Então duas imagens me vêm à cabeça, a primeira delas partituras atonais da Segunda Escola de Viena que costumam vir sem armadura de clave (os quartetos de Béla Bártok também vêm assim). A segunda imagem é cinematográfica, uma imagem forte com luz chapada ou estourando, retratando alguma cena realisticamente crua com uma câmera desorientada sem saber onde se fixar. Como o nosso Evangelista aqui, desorientado nos acordes, sem saber em qual tonalidade se fixar.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 58a. Und da sie an die Stätte kamen (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Und da sie an die Stätte kamen,
mit Namen Golgatha,
das ist verdeutschet Schädelstätt,
gaben sie ihm Essig zu trinken
mit Gallen vermischet;
und da er’s schmeckete,
wollte er’s nicht trinken.
Evangelista
E então eles chegaram a um local
de nome Gólgota,
que é, em nossa língua, “lugar da caveira”,
deram a ele vinagre para beber
com fel misturado;
e quando ele provou,
ele não quis beber.

Bach: St. Matthew-Passion - 58a. Und da sie an die Stätte kamen mit Namen Golgatha

Começamos o recitativo com um descorado Dó Maior. A frase inicial und da sie an die Stätte kamen (e então eles chegaram a um local) é parcialmente ascendente, parando de subir ao chegar num local plano. O nome do local era Gólgota, descrito com um trítono entre baixo e voz e um acorde de Fá 7. A tradução de Gólgota, Schädelstätt (lugar da caveira), usa o mesmo acorde porque ambas as palavras significam a mesma coisa. Bach apenas troca as notas entre baixo e voz, preservando o trítono e criando outro na movimentação do baixo contínuo. Tenebroso, não é mesmo? Mas o Gólgota era um lugar de muito sofrimento em Jerusalém, pois era o local onde criminosos eram executados dolorosamente, muitas vezes na presença da própria família.

Bach: St. Matthew-Passion - 58a. Gaben sie ihm Essig zu trinken mit Gallen vermischetCom uma cadência para Sol Maior, ofereceram a Jesus vinagre (Essig) lá no agudo, misturado com algo totalmente oposto no grave: fel (Gallen). Detalhe: o lá bemol cantado em Gallen não faz parte da tonalidade de Sol, assim como fel e vinagre não são itens que deveriam ser misturados. O resultado é uma dissonância em vermischet (misturado), que Jesus provou (schmeckete) com um trítono e um acorde de 7ª diminuta, mas não tomou (er es nicht trinken) com outro trítono e outro acorde de 7ª diminuta, finalizando com uma cadência para Ré menor. Que bebida era essa, mais uma crueldade com Jesus? Não não, longe disso.

Os soldados romanos tinham como bebida favorita uma mistura chamada Posca. Tratava-se de um vinho azedo misturado com água e ervas, e isso explica porque alguns evangelistas relatam que os soldados ofereceram vinho a Jesus, e outros relatam que ofereceram-lhe vinagre. O fel, ou mirra segundo o Evangelho de São Marcos, é um líquido que pode ser usado como entorpecente, e assim a mistura de fel com posca era oferecida aos crucificados como uma espécie de sedativo, para diminuir a dor da crucificação. Jesus recusou a bebida porque queria ficar consciente até o fim.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 58a. Da sie ihn aber gekreuziget hatten (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Da sie ihn aber gekreuziget hatten,
teilten sie seine Kleider
und warfen das Los darum;
auf dass erfüllet würde,
das gesagt ist durch den Propheten:
“Sie haben meine Kleider
unter sich geteilet,
und über mein Gewand
haben sie das Los geworfen”.
Und sie sassen allda und hüteten sein.
Evangelista
Então depois de o crucificarem,
eles dividiram suas roupas
e lançaram a sorte [sobre elas];
para que se pudesse cumprir
o que foi dito pelo profeta:
“Eles dividiram minhas roupas
entre si
e sobre minha túnica
eles lançaram a sorte”.
E todos sentaram ali e ficaram de guarda.

Bach: St. Matthew-Passion - 58a. Da sie ihn aber gekreuziget hattenNa primeira frase, da sie ihn aber gekreuziget hatten (então depois de o crucificarem), temos dois trítonos e um acorde dissonante de 7ª diminuta. Muita tristeza espalhada em várias expressões com notas do acorde diminuto: teilten sie, Los darum, dass erfüllet. Continuamos perdidos nas tonalidades: em teilten sie seine Kleider (eles dividiram suas roupas) cadência para Mi menor; das gesagt ist durch den Propheten (o que foi dito pelo profeta) cadência para Si menor; haben sie das Los geworfen (eles lançaram a sorte) cadência para Ré Maior.

Bach: St. Matthew-Passion - 58a. Und sie sassen allda und hüteten sein

Tanto und über mein (sobre minha) quanto Gewand (túnica) são ascendentes, como ascendentes eram as referências ao manto púrpura dos recitativos nºs 53 e 55. Und sie sassen (e eles sentaram) é descendente, seguindo o movimento de se sentar. E a frase und hüteten sein (e ficaram de guarda) é muito parecida com aquela outra do beijo de Judas, a frase não-melódica sem amor lá do nº 26, porém o significado aqui é que os guardas estavam ali de serviço e não por prazer. A ordem era sempre permanecer no local até os condenados morrerem, e é óbvio que nem todos gostavam desse serviço, por isso ouvimos uma cadência para Lá menor.

A maioria das pinturas antigas mostra Jesus pregado na palma das mãos, porém a mão não tem estrutura física forte o suficiente para aguentar o peso do corpo, na prática o prego rasgaria a mão por entre os ossos dos dedos. Jesus foi pregado nos pulsos, por entre os ossos do pulso.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 58a. Und oben zu seinem Haupte (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Und oben zu seinem Haupte
hefteten sie die Ursach
seines Todes beschrieben, nämlich:
“Dies ist Jesus, der Juden König”.
Und da wurden zween Mörder
mit ihm gekreuziget,
einer zur Rechten und einer zur Linken.
Evangelista
E acima de sua cabeça
eles pregaram a causa
de sua morte por escrito, onde se lia:
“Este é Jesus, o Rei dos Judeus”.
E então foram dois assassinos
com ele crucificados,
um à direita e outro à esquerda.

Bach: St. Matthew-Passion - 58a. Oben zu seinem Haupte hefteten sie die Ursach beschrieben

A nota mais aguda aqui é Haupte (cabeça), acompanhado e cantado nas notas de um acorde diminuto. Em Ursach seines (causa de sua [morte]) o Evangelista canta a nota que faltava para completar o acorde de 7ª diminuta, e resolve a dissonância com um Dó # menor em beschrieben (escrito). Ao final da frase, em König (rei) temos o Dó # Maior, o mesmo acorde que marcou a condenação de Jesus no recitativo nº 50, coroado com cruzes (sustenidos) em todas as notas.

Bach: St. Matthew-Passion - 58a. Einer zur Rechten und einer zur Linken

Com Jesus, dois outros assassinos foram crucificados (gekreuziget) também com um trítono entre voz e baixo. Um assassino ficou à direita (zur Rechten) – e o órgão ou cravo do baixo contínuo toca um segundo acorde à direita do primeiro, ascendente – e outro assassino à esquerda (zur Linken) – e o mesmo instrumento toca um segundo acorde à esquerda do primeiro, descendente. E tome cadência para Fá # menor.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 58b. Der du den Tempel Gottes zerbrichst (Bostridge – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Evangelist
Die aber vorübergingen, lästerten ihn
und schüttelten ihre Köpfe und sprachen:
Evangelista
Mas os que passavam por ali, o insultavam
e balançavam a cabeça e diziam:
Chor 1+2
Der du den Tempel Gottes zerbrichst,
und bauest ihn in dreien Tagen,
hilf dir selber.
Bist du Gottes Sohn,
so steig herab vom Kreuz.
Coro 1+2
Você, que destrói o templo de Deus
e o constrói em três dias,
ajude-se a si mesmo!
Se você é o filho de Deus,
então desça da cruz.

Bach: St. Matthew-Passion - 58a. Und schüttelten ihre KöpfeSendo um local retirado, afastado do centro, os que passavam por lá só poderiam estar com más intenções, como mostram as notas do acorde diminuto de vorübergingen (passavam por ali). Aliás, o trítono para lästerten (insultavam) deixa explícito quais intenções eles tinham. E schüttelten (balançavam) faz realmente o movimento de balanço na voz, reparem.

Bach: St. Matthew-Passion - 58b. So steig herab vom KreuzA turba que segue é em Si menor, apesar de iniciar e terminar no acorde da dominante Fá # Maior. Ambos os coros zombam daquele episódio citado com as falsas testemunhas no julgamento do nº 33. Inclusive bauest (constrói) tem o mesmo movimento ascendente que tinha lá no recitativo. A direção das vozes em so steig herab (então desça) é autoexplicativa, e aqui há vários cruzamentos de vozes para representar a cruz. O último acorde então, um Fá # Maior com a palavra Kreuz (cruz), tem todas as notas marcadas com cruzes (fá# lá# dó#).

Bach: Paixão segundo São Mateus – 58d. Andern hat er geholfen (Bostridge – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Evangelist
Desgleichen auch
die Hohenpriester spotteten sein,
samt den Schriftgelehrten und Ältesten,
und sprachen:
Evangelista
Do mesmo modo também
os sumos sacerdotes zombavam dele,
junto com os escribas e os anciãos,
e diziam:
Chor 1+2
Andern hat er geholfen,
und kann sich selber nicht helfen.
Ist er der König Israels,
so steige er nun vom Kreuz,
so wollen wir ihm glauben.
Er hat Gott vertrauet,
der erlöse ihn nun, lüstet’s ihn;
denn er hat gesagt: “Ich bin Gottes Sohn”.
Coro 1+2
A outros ele ajudou,
e não pode a si mesmo se ajudar.
Se ele é o Rei de Israel,
que ele desça agora da cruz,
assim nós acreditaremos nele.
Ele confiou em Deus,
que Ele o liberte agora, se Ele o desejar;
pois ele disse: “Eu sou o Filho de Deus”.
James Tissot: O que nosso Salvador viu da Cruz
James Tissot: O que nosso Salvador viu da Cruz

Até aqui Bach não esquece a hierarquia, com Hohenpriester (sumos sacerdotes) e Schriftgelehrten (escribas) acima de Ältesten (anciãos) nos graves. Spotteten sein (zombavam dele) tem um trítono entre voz e baixo, e as harmonias fazem uma cadência para Mi menor, a tonalidade principal da turba seguinte.

Esta turba em particular é a segunda maior de toda a Paixão segundo São Mateus, com 20 compassos – só perde para uma outra que ouviremos no recitativo nº 66, no próximo post. Ela é bem parecida com a turba anterior, apesar dos temas musicais serem diferentes. O que não a impede de reutilizar a idéia descendente de so steige er (que ele desça), também aqui com cruzamentos de vozes.

Após uma pequena pausa, as vozes se juntam para cantar so wollen wir ihm glauben (assim nós acreditaremos nele) com uma cadência bem bonitinha para Dó Maior… Tão bonitinha que soa até hipócrita no meio de tanto contraponto cromático, não acham? Há várias passagens nos Evangelhos onde os fariseus pedem “um milagre” para acreditarem em Jesus, e este invariavelmente responde que não adiantará nada, seus corações estão duros, eles jamais acreditarão nele com milagre ou sem milagre.

No final todas as vozes e instrumentos se juntam em uníssono para caçoar o que Jesus afirmou, ich bin Gottes Sohn (eu sou o Filho de Deus), pois na lógica dos sacerdotes, Deus jamais viria ajudar quem o blasfemou. Já o uníssono é uma maneira musical de dizer que todos estão contra Jesus. Até mesmo os outros dois crucificados, ouça:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 58e. Desgleichen schmäheten ihn (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Desgleichen schmäheten ihn
auch die Mörder,
die mit ihm gekreuziget wurden.
Evangelista
Do mesmo modo insultavam-no
também os assassinos,
os que com ele foram crucificados.
Simon Vouet: A crucificação
Simon Vouet: A crucificação

Schmäheten ihn auch (insultavam-no também) tem as notas do acorde diminuto e Mörder (assassinos) vem num acorde de 7ª diminuta. Só gente boa, hein…

Lembram das tonalidades bemóis usadas para simbolizar o sofrimento de Jesus? Ihm (ele) é descrito com um Ré bemol Maior, tonalidade com 5 bemóis na armadura – teremos bemóis ainda mais escuros no próximo post, aguardem! Aqui o Ré bemol é usado apenas “de passagem”, finalizando com uma cadência para o Dó menor de 3 bemóis.

59. Rezitativ (Alt): Ach Golgatha, unsel’ges Golgatha!

Muitos bemóis aparecem aqui também no comentário à crucificação de Jesus. A tonalidade gira em torno de Lá bemol Maior, 4 bemóis, com uma breve passagem em Mi bemol menor, 6 bemóis, sinal de muito sofrimento e tristeza ampliado ainda mais com o som fechado dos oboés da caccia e com uma série de dissonâncias, acompanhe:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 59. Ach Golgatha unsel’ges Golgatha (Scholl – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Ach Golgatha, unsel’ges Golgatha!
Der Herr der Herrlichkeit
muss schimpflich hier verderben,
der Segen und das Heil der Welt
Wird als ein Fluch ans Kreuz gestellt.
Dem Schöpfer Himmels und der Erden
Soll Erd’ und Luft entzogen werden;
Die Unschuld muss hier schuldig sterben:
Das gehet meiner Seele nah;
Ach Golgatha, unsel’ges Golgatha!
Ah Gólgota, infeliz Gólgota!
O Senhor da Glória
deve, de modo ultrajante, perecer aqui,
a bênção e salvação do mundo
foi colocada como uma maldição na cruz.
Ao criador de céus e terras
devem terra e ar ser retirados;
o inocente deve aqui morrer como culpado:
isto comove a minha alma;
Ah Gólgota, infeliz Gólgota!

Bach: St. Matthew-Passion - 59. Dem Schöpfer Himmels und der Erden

Como sempre, algumas palavras ganham destaque no poema. Fluch (maldição) tem um trítono entre voz e baixo sobre um acorde diminuto. Himmels (céus) obviamente fica acima de Erden (terras), assim como Erd’ (terra) fica abaixo de Luft (ar). E sterben (morrer) morre lá nos graves. Ah Gólgota…

Entrada da Catedral São Paulo Apóstolo de Blumenau / SC (foto de Amancio Cueto Jr)
Entrada da Catedral São Paulo Apóstolo de Blumenau / SC (foto de Amancio Cueto Jr)

60. Arie (Alt) mit Chor: Sehet, Jesus hat die Hand

Mas não fiquem tristes, porque com a morte de Jesus vem a salvação. É por isso que a ária seguinte tem um tom feliz e não tanto lamentoso. Em vez de lamentar por Jesus morrendo na cruz, o contralto o vê de braços abertos para nos receber e nos abraçar.

A melodia da ária é baseada no acompanhamento que ouvimos nos oboés da caccia do nº 59, veja:

Bach: St. Matthew-Passion - 60. Sehet, Jesus hat die Hand

Acompanhamento do nº 59 e melodia do nº 60:

E aqui vocês conferem a ária inteira:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 60. Sehet Jesus hat die Hand uns zu fassen ausgespannt (Scholl – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Solo
Sehet, Jesus hat die Hand,
Uns zu fassen ausgespannt, kommt!
Solo
Vejam, Jesus estendeu a mão
para nos abraçar, venham!
Chor 2
Wohin?
Coro 2
Para onde?
Solo
In Jesu Armen.
Sucht Erlösung, nehmt Erbarmen,
Suchet!
Solo
Para os braços de Jesus.
Procurem redenção, tomem misericórdia,
Procurem!
Chor 2
Wo?
Coro 2
Onde?
Solo
In Jesu Armen.
Lebet, sterbet, ruhet hier,
Ihr verlass’nen Küchlein ihr, bleibet!
Solo
Nos braços de Jesus.
Vivam, morram, descansem aqui,
seus pintinhos abandonados, fiquem!
Chor 2
Wo?
Coro 2
Onde?
Solo
In Jesu Armen.
Solo
Nos braços de Jesus.

Este par recitativo-ária abre a sequência final da segunda parte da Paixão, que veremos com detalhes no próximo post. Vocês devem lembrar, na primeira parte também tivemos um par recitativo-ária com esta mesma função, os nºs 19 e 20, uma ária para tenor com intervenções do coro 2. Aqui também temos isso, porém as intevenções do coro 2 são brevíssimas e não interrompem a melodia dos oboés da caccia da orquestra 1 e do contralto solista do coro 1.

Na partitura, o coro e orquestra 1 são anotados em cima, e o coro e orquestra 2 são anotados embaixo. Ou seja, quem folheia estas páginas da partitura ou do manuscrito vê a seguinte imagem:

Vejam! Jesus está de braços abertos para nos abraçar.
Vejam! Jesus está de braços abertos para nos abraçar. (clique para ampliar)

Não descarto a hipótese dessa imagem ser um exemplo de pareidolia, aquele fenômeno psicológico que nós temos de “ver” formas em padrões aleatórios, como desenhos em nuvens e rostos em árvores. Outro dia eu li um depoimento de um aluno de Helmuth Rilling, contando que o famoso maestro mostrou essa página ao aluno e disse: “Não parece uma cruz?”. Mas o tom de voz dele não era “veja, Bach é um gênio!”, e sim “eu vejo uma cruz aqui, e isso não me deixa esquecer que estou regendo a história da crucificação de Jesus Cristo”.

Mas não deixa de ser curioso que, na página da imagem logo acima, o solista canta um Armen (braços) antes da intervenção do coro e outro Armen (braços) depois, com Jesu no meio.

Além destas imagens, a ária pinta também outras palavras: sterbet (morram) é sempre descendente, ruhet (descansem) vem numa nota longa descansando, e a referência a Küchlein (pintinhos) quase explica o cacarejar dos oboés da caccia.

Bach: St. Matthew-Passion - 29. O Mensch bewein / 60. Sehet, Jesus hat die Hand
(clique para ampliar)

E bem próximo do final há uma citação clara do nº 29, O Mensch bewein, ouça:

Comparando 29. O Mensch bewein com 60. Sehet Jesus hat die Hand (Herreweghe):

É a única vez que o baixo contínuo toca semicolcheias em toda a ária. A citação talvez queira lembrar do abandono dos discípulos comentado no nº 29, convidando-os para voltarem para debaixo dos braços de Jesus, aqui.

Pessoal, animem-se! Falta apenas um post, o próximo, para concluirmos toda a série da Paixão segundo São Mateus de Bach. E quem chegar ao final ganhará de presente um magnífico número coral, aquele que encerra a obra com chave de ouro. Espero revê-los em poucos dias, hein!

Este post pertence à série “Os segredos da Paixão segundo São Mateus”:
1. Introdução, história da composição e estrutura
2. Jesus em Betânia
3. A Última Ceia
4. No caminho para o Monte das Oliveiras
5. Tentação e Prisão de Jesus
6. Jesus diante de Caifás
7. O destino de Pedro e Judas
8. O julgamento diante de Pilatos
9. A Crucificação
10. Morte e Sepultamento
Tradução da Paixão segundo São Mateus, de Bach

Uma resposta

  1. Elisangela martins.
    |

    Achei um pouco difícil concluir a leitura sem “travar” algumas vezes, devido a uma mistura de sentimentos. Quando o texto fala sobre a dor da crucificação, não passa somente a ideia, mas também a sensação profunda.
    Como sempre análise brilhante!

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