Os segredos da Paixão segundo São Mateus – 3. A Última Ceia

Hans Leonhard Schaeufelein: A Última Ceia
Hans Leonhard Schaeufelein: A Última Ceia

Olá pessoal, vamos continuar nossa análise da Paixão segundo São Mateus do mestre Johann Sebastian Bach. O primeiro post foi apenas uma introdução onde discutimos a origem desta magnífica obra; a coisa começou pra valer só no último post, onde vimos (ou melhor, ouvimos) Jesus sendo ungido em Betânia. Neste post aqui continuaremos com os números 7 a 13, com a história da Santa Ceia.

7. Rezitativ (Mt 26,14-16): Da ging hin der Zwölfen einer

Jesus tinha muitos seguidores, e dentre eles havia doze discípulos especiais, doze apóstolos selecionados pelo próprio mestre e que estavam sempre com ele. Bem… nem sempre:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 07. Da gind hin der Zwolfen einer (Bostridge – Vanhulle – Herreweghe):

Evangelist
Da ging hin der Zwölfen einer,
mit Namen Judas Ischarioth,
zu den Hohenpriestern und sprach:
Evangelista
Então um dos Doze,
aquele chamado Judas Iscariotes,
foi aos chefes dos sacerdotes e disse:
Judas
Was wollt ihr mir geben?
Ich will ihn euch verraten.
Judas
O que vocês querem me dar?
Estou disposto a traí-lo.
Evangelist
Und sie boten ihm dreissig Silberlinge.
Und von dem an suchte er Gelegenheit,
dass er ihn verriete.
Evangelista
E ofereceram a ele trinta moedas de prata.
E desde então ele procurava
uma oportunidade para o trair.
Bach: St. Matthew-Passion - 07. Da gind hin der Zwolfen einer
(clique para ampliar)

Pra começo de conversa, Judas Iscariotes já nos é apresentado com uma dissonância, um trítono entre voz e baixo, assim como quem diz: “este sujeito não parece ser um cara muito legal”. E na sequência a coisa toda só piora, mas antes permitam-me explicar um artifício técnico importante na harmonia musical.

Acorde de sétima diminutaVocês lembram no post anterior, quando eu falei da dissonância conhecida como trítono? Então imaginem um acorde formado por dois trítonos juntos: este é o acorde de sétima diminuta. Ele tem a particularidade de ter todas as notas separadas pelo mesmo intervalo, portanto não adianta inverter o acorde (alterar a ordem das notas): ele sempre vai soar da mesma forma. Um outro acorde dissonante, porém um pouco menos, é o acorde diminuto: ele soa como se tivessem removido uma das notas do acorde de sétima diminuta.

Simon Ushakov: detalhe de "A Última Ceia"
Simon Ushakov: detalhe de “A Última Ceia”, mostrando Judas e seu inseparável saquinho de moedas

Sabendo de tudo isso, voltemos ao Judas: quando ele diz ich will ihn euch verraten (literalmente “eu quero traí-lo para vocês”) ele canta as mesmas notas do acorde diminuto ouvido no baixo; além disso o baixo contínuo também se move com um trítono. Gente, isso é muito tenebroso! Mas feio mesmo é a sétima diminuta que está embaixo das trinta moedas de prata (dreissig Silberlinge). Só que para Bach, somente apresentar um acorde dissonante aqui era muito pouco: ele torce o acorde para o anotar da forma mais horrorosa possível (os músicos diriam, “uma sétima diminuta na segunda inversão”). Trinta moedas é mesquinho demais!

E não é só isso: Judas buscava uma oportunidade para trair Jesus, e essa oportunidade (Gelegenheit) também é descrita com dois trítonos. É dissonância que não acaba mais!

O Evangelho de São João é um pouco mais direto do que o de Mateus, e nos apresenta Judas como “o ladrão que cuidava da bolsa do grupo”. Pensando assim, ele deve ter aceito as trinta moedas com alegria, pois não era pouco dinheiro: era o valor de um escravo na época. Ou, colocando a mesma informação de outra forma, poderíamos dizer que Jesus foi vendido pelo preço de um escravo…

8. Arie (Sopran): Blute nur

O comentário a este trecho do Evangelho não poderia ser mais apropriado:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 08. Blute nur (Rubens – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Blute nur, du liebes Herz!
Ach! ein Kind, das du erzogen,
Das an deiner Brust gesogen,
Droht den Pfleger zu ermorden,
denn es ist zur Schlange worden.
Sangra, amado coração!
Ah! um filho que você criou,
que em seu peito foi amamentado,
ameaça matar seu protetor,
pois em serpente ele se tornou.

Bach: St. Matthew-Passion - 08. Blute nur

O acompanhamento que ouvimos nas flautas e violinos (os intervalos de segunda descendentes) usam um motivo que arquetipicamente significa choro e lamento. Digo “arquetipicamente” porque é difícil rastrear sua origem; ele vem sendo usado desde Monteverdi (piango significa “eu choro”)…

Monteverdi: Hor che il ciel e la terra e il vento tace (Rinaldo Alessandrini – Concerto Italiano):

… e podemos encontrá-lo até mesmo em várias óperas de Verdi:

Verdi: Aida – Cena do julgamento (Obraztsova – Abbado – Teatro alla Scalla):

Somando com as síncopes, temos um quadro completo de lamento e quase podemos sentir as gotas de sangue citadas no poema. Tudo muda, claro, nas duas primeiras frases da seção central, onde as frases soam mais doces…

Bach: St. Matthew-Passion - 08. Es ist zur Schlange worden… até encontrarmos as palavras ermorden (matar) e Schlange (serpente) serpenteando pela partitura. Cuidado com os trítonos presentes em ambas as palavras: a serpente é venenosa e pode matar!

9. Rezitativ (Mt 26,17-22): Aber am ersten Tage

Bach: Paixão segundo São Mateus – 09a. Aber am ersten Tage (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Aber am ersten Tage der süssen Brot
traten die Jünger zu Jesu
und sprachen zu ihm:
Evangelista
Então no primeiro dia dos pães doces
aproximaram-se os discípulos de Jesus
e disseram a ele:

Dentre todas as combinações possíveis de sequências de acordes, uma das mais tradicionais é a sequência tônica-dominante (ou I-V): não tem erro, esses dois acordes seguidos sempre vão soar bem. Adicionalmente pode-se alterar a ordem das notas do segundo acorde para que o baixo soe mais melódico, sem grandes saltos. É o que Bach faz aqui (I-V6), para descrever a doçura dos pães doces (süssen Brot), que em português nós conhecemos melhor como pães ázimos.

Matzá, o pão ázimo, saindo do forno (foto de Ariel Palmon)
Matzá, o pão ázimo, saindo do forno (foto de Ariel Palmon)

A festa dos pães ázimos fazia parte das celebrações da Páscoa. Durante 7 dias, começando no equivalente à quinta-feira santa dos dias atuais, era proibido comer pão fermentado, e só se podia comer um pão feito sem fermento, o tal “pão ázimo” ou “pão asmo”. Isto era feito para se lembrar de que quando o povo hebreu fugiu do Egito, houve pouco tempo para se preparar a comida para a fuga. A receita do pão ázimo, porém, é bem mais antiga e fazia parte de uma velha tradição da agricultura. Naquele tempo, o fermento era obtido conservando-se uma parte do pão preparado no dia anterior, e quando se iniciava uma nova colheita, era preparado um “pão novo” para não se misturar o produto da colheita anterior com o da nova colheita. Com as festividades da Páscoa, essa tradição acabou sendo incorporada à cultura judaica.

Retornando à música, vale lembrar mais uma vez a “hierarquia” das notas que comentei lá no nº 4: a palavra Jesu é cantada em notas mais agudas (ou mais altas) do que a palavra Jünger (discípulos).

Bach: Paixão segundo São Mateus – 09b. Wo willst du dass wir dir bereiten (Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Chor 1
Wo willst du, dass wir dir bereiten,
das Osterlamm zu essen?
Coro 1
Onde você quer que nós preparemos
para comer o cordeiro da Páscoa?

Como se estivessem (e estão!) falando do mesmo assunto, os discípulos iniciam este coro com os mesmos acordes do recitativo anterior (I-V6-VI…), e por isso ele soa tão doce quanto a festa dos pães ázimos. Por ser uma pergunta, o coro termina em aberto, na dominante (V); a conclusão lógica, na tônica (I), vem na resposta de Jesus:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 09c. Er sprach (Bostridge – Selig – Herreweghe):

Evangelist
Er sprach:
Evangelista
Ele disse:
Jesus
Gehet hin in die Stadt zu einem
und sprecht zu ihm:
“Der Meister lässt dir sagen:
Meine Zeit ist hier,
ich will bei dir die Ostern halten
mit meinen Jüngern.”
Jesus
Vão à cidade procurar certo homem
e digam a ele:
“O Mestre mandou lhe dizer:
Meu tempo está próximo,
eu gostaria de celebrar a Páscoa com você
junto com meus discípulos.”

Bach: St. Matthew-Passion - 09c. Gehet hin in die StadtA melodia da frase gehet hin in die Stadt (vão à cidade) sobe em direção à cidade de Jerusalém que ficava sobre um monte. E tal como no recitativo nº 2, as palavras de Jesus começam numa tonalidade maior e, numa guinada inesperada, terminam num tom menor (triste). Lá no nº 2 isso aconteceu depois dele profetizar sua crucificação, mas aqui não haveria nenhum motivo para isso…

… a não ser que ele saiba que a ceia será triste. E ele sabe que será. Os discípulos, inocentemente, saem a preparar a ceia numa tonalidade alegre, Dó Maior:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 09c. Und die Jünger taten (Bostridge – Selig – Herreweghe):

Evangelist
Und die Jünger taten,
wie ihnen Jesus befohlen hatte,
und bereiteten das Osterlamm.
Und am Abend setzte er sich zu Tische
mit den Zwölfen.
Und da sie assen, sprach er:
Evangelista
E os discípulos fizeram
como Jesus lhes havia ordenado
e prepararam o cordeiro da Páscoa.
E ao cair da tarde sentou-se à mesa
com os Doze.
E enquanto comiam, ele disse:
Jesus
Wahrlich, ich sage euch:
einer unter euch wird mich verraten.
Jesus
Em verdade eu digo a vocês:
um de vocês irá me trair.

Bach: St. Matthew-Passion - 09c. Und am AbendNovamente as notas mais agudas da frase do Evangelista caem na palavra Jesus, indicando a hierarquia. Mas pictórica mesmo é a descrição de und am Abend, o cair da tarde descendente terminando num torcido Dó 7: a noite não será muito tranquila. E realmente, quando Jesus anuncia a traição, não só há um trítono e um acorde de 7ª diminuta embaixo da palavra verraten (trair), mas a frase musical como um todo soa como se estivesse interrompida.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 09d. Und sie wurden sehr betrübt (Bostridge – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Evangelist
Und sie wurden sehr betrübt
und huben an, ein jeglicher unter ihnen,
und sagten zu ihm:
Evangelista
E eles ficaram muito tristes
e começaram um a um
a lhe perguntar:
Chor 1
Herr, bin ich’s?
Coro 1
Senhor, serei eu?

Bach: St. Matthew-Passion - 09d. Und sie wurden sehr betrübtEu nem precisava explicar como a música descreve os discípulos ficando tristes, mas sei que dentre os leitores do blog há muitos músicos e estudantes que entendem do assunto, e um deles poderia dizer: “o adjetivo ‘triste’ é muito subjetivo e depende da interpretação do cantor”. Por isso eu revelo os segredos que estão escondidos na partitura: o trecho anterior havia terminado em Dó menor, e o primeiro acorde deste trecho aqui é um Si bemol menor, que soa muito escuro por estar muito distante do Dó Maior (5 bemóis de distância!). Não só isso: sob palavra betrübt (triste) há um acorde de 7ª diminuta que deixa tudo bem mais doloroso.

Lembram de como foi bonita a última turba, com os discípulos perguntando “onde quer que preparemos a Páscoa”? Agora comparem com esta aqui, os discípulos todos perdidos e perguntando com vozes desencontradas “Senhor, serei eu?”. A harmonia embaixo é repleta de acordes de sétima sem resolução, exatamente como perguntas sem resposta, porém o mais interessante aqui está em contar quantas perguntas Herr bin ich’s? há no texto: exatamente onze. Se são doze os discípulos, um deles não se perguntou se seria ele o traidor…

10. Choral: Ich bin’s, ich sollte büssen

Enquanto os discípulos se perguntam, “serei eu o traidor?”, Bach faz a platéia responder “sou eu”, usando a quinta estrofe do coral O Welt, sieh hier dein Leben de Paul Gerhardt (versos, 1647) e Heinrich Isaac (melodia, 1490).

Bach: Paixão segundo São Mateus – 10. Ich bins ich sollte büssen (Philippe Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Ich bin’s, ich sollte büssen,
An Händen und an Füssen
Gebunden in der Höll’.
Die Geisseln und die Banden,
Und was du ausgestanden,
Das hat verdienet meine Seel’.
Sou eu, eu deveria expiar,
pelas mãos e pelos pés
amarrado no inferno.
Os flagelos e as amarras,
e tudo o que você sofreu,
é o que merecia minha alma.

E reparem nas dissonâncias sob as palavras büssen (expiar [pecado]) e ausgestanden (sofreu). Quem gostou desse coral vai gostar de saber, ele retornará mais uma vez, lá no nº 37.

11. Rezitativ (Mt 26,23-29): Er antwortete und sprach

Bach: Paixão segundo São Mateus – 11. Er antwortete und sprach (Bostridge – Selig – Herreweghe):

Evangelist
Er antwortete und sprach:
Evangelista
Ele respondeu, dizendo:
Jesus
Der mit der Hand mit mir
in die Schüssel tauchet,
der wird mich verraten.
Des Menschen Sohn gehet zwar dahin,
wie von ihm geschrieben stehet;
doch wehe dem Menschen,
durch welchen des Menschen Sohn
verraten wird.
Es wäre ihm besser,
dass derselbige Mensch
noch nie geboren wäre.
Jesus
Aquele que comigo
mergulha a mão no prato,
é quem vai me trair.
O Filho do Homem se vai,
conforme está escrito sobre ele;
mas ai daquele
por quem o Filho do Homem
será traído.
Seria melhor
que esse homem
não tivesse nascido.

Bach: St. Matthew-Passion - 11. In die Schüssel tauchetA frase mit mir in die Schüssel (comigo no prato) desce e sobe, desenhando um prato tal como aquele vaso lá no nº 4. E logo em seguida, tauchet mergulha para os graves, como a mão de Judas no prato comunitário. Como na época não havia talheres ainda, era normal todos comerem no mesmo prato com as mãos.

Bach: St. Matthew-Passion - 11. Des Menschen Sohn gehet zwar dahin

Para não perder o costume, verraten (trair) tem trítonos na melodia e entre voz e baixo. Doch wehe (ai daquele) tem um tratamento ainda mais dissonante, com a voz cantando notas do acorde diminuto e o contínuo sustentando um acorde de 7ª diminuta. Já a frase gehet zwar dahin (se vai) é ascendente, para os céus, indicando a direção para onde o Filho do Homem irá depois de ressuscitar.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 11. Da antwortete Judas (Bostridge – Selig – Vanhulle – Herreweghe):

Evangelist
Da antwortete Judas, der ihn verriet,
und sprach:
Evangelista
Então respondeu Judas, que o traía,
perguntando:
Judas
Bin ich’s, Rabbi?
Judas
Serei eu, Mestre?
Evangelist
Er sprach zu ihm:
Evangelista
Ele lhe respondeu:
Jesus
Du sagest’s.
Jesus
É você quem diz.

Bach: St. Matthew-Passion - 11. Der ihn verrietMais um trítono descreve a frase der ihn verriet (que o traía): as referências ao traidor são sempre cercadas de dissonâncias. E quando Jesus confirma a identidade do traidor, o acompanhamento de violinos faz quase uma citação do nº 8, Blute nur, a ária que comentou a traição do Judas agora há pouco.

Segundo o Evangelho de São João, neste momento Judas saiu para tratar da traição, e assim Jesus ficou somente com 11 discípulos durante o restante da noite. Os discípulos não estranharam a saída do colega, pois acharam que Judas iria cuidar das finanças relativas à ceia.

Pascal Dagnan-Bouveret: A Última Ceia
Pascal Dagnan-Bouveret: A Última Ceia

Bach: Paixão segundo São Mateus – 11. Da sie aber assen (Bostridge – Selig – Herreweghe):

Evangelist
Da sie aber assen, nahm Jesus das Brot,
dankete und brach’s
und gab’s den Jüngern und sprach:
Evangelista
Enquanto comiam, Jesus tomou o pão,
deu graças e o partiu
e deu a seus discípulos dizendo:
Jesus
Nehmet, esset; das ist mein Leib.
Jesus
Tomem e comam, este é o meu corpo.
Evangelist
Und er nahm den Kelch und dankete,
gab ihnen den und sprach:
Evangelista
E tomou o cálice e deu graças,
oferecendo a eles e dizendo:
Jesus
Trinket alle daraus;
das ist mein Blut des neuen Testaments,
welches vergossen wird für viele,
zur Vergebung der Sünden.
Ich sage euch:
Ich werde von nun an nicht mehr
von diesen Gewächs
des Weinstocks trinken,
bis an den Tag, da ich’s neu trinken werde
mit euch in meines Vaters Reich.
Jesus
Bebam todos dele;
este é o meu sangue do novo testamento,
que será derramado para muitos,
para o perdão de seus pecados.
Eu digo a vocês:
de agora em diante, eu nunca mais
deste fruto
da videira beberei,
até o dia em que eu beba o vinho novo
com vocês no reino do meu Pai.

Bach: St. Matthew-Passion - 11. Er nahm den Kelch und dankete

Então temos o ponto alto da Última Ceia, que é a instituição da Eucaristia. Musicalmente, dankete (deu graças) eleva e em seguida abaixa primeiro o pão e depois o cálice, mostrando na melodia o gesto de dar graças. Digno de nota também é o formato de cálice da melodia nas palavras nahm den Kelch (tomou o cálice); veremos novamente este mesmo padrão de letra V nas próximas referências a cálices, nos números 21, 22 e 24.

Papa Bento XVI elevando a hóstia
Papa Bento XVI elevando a hóstia (foto de Fábio Pozzebom/Agência Brasil)

Aqui é o único ponto de toda a Paixão segundo São Mateus onde Jesus efetivamente “canta”. Basta fazer uma comparação com outros trechos onde Jesus “fala” nos recitativos, e veremos que aqui a melodia soa como se fosse um arioso. Alguns poderiam perguntar: mas por que todo esse tratamento diferenciado? O que tem a Eucaristia de especial?

Bem, nos recitativos anteriores vimos que, na Páscoa, um cordeiro era sacrificado, preparado e comido na ceia. Jesus toma o lugar deste cordeiro ao ser sacrificado durante a Páscoa e, tal como o cordeiro, o corpo de Jesus também precisa ser comido como forma de lembrar este sacrifício perfeito. A Eucaristia então é a repetição desta cena da Última Ceia, como forma de recordação do sacrifício do Cordeiro de Deus.

Antes de Jesus, era comum sacrificar animais para o perdão dos pecados. Porém com o sacrifício do próprio Filho de Deus, todos os demais sacrifícios deixaram de ser necessários. Podemos ainda fazer um outro paralelo interessante: nesta nova sociedade que Jesus quer fundar, batizada por ele de Reino de Deus, só é possível vencer o egoísmo ao doar (tomai, comei) a si mesmo (corpo e sangue) para os outros, pensando no bem de todos.

12. Rezitativ (Sopran): Wiewohl mein Herz in Tränen schwimmt

O comentário a tudo isso mistura a tristeza da partida de Jesus com a gratidão pelo mistério da Eucaristia:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 12. Wiewohl mein Herz (Rubens – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Wiewohl mein Herz
in Tränen schwimmt,
Dass Jesus von mir Abschied nimmt,
So macht mich doch
sein Testament erfreut:
Sein Fleisch und Blut, o Kostbarkeit,
Vermacht er mir in meine Hände.
Wie er es auf der Welt mit denen Seinen
nicht böse können meinen,
So liebt er sie bis an das Ende.
Embora meu coração
nade em lágrimas
quando Jesus se despede de mim,
ainda assim me enche
de alegria o seu testamento.
Sua carne e seu sangue, ó preciosidade,
ele deixou para mim em minhas mãos.
Assim como no mundo aos seus [discípulos]
não pôde desejar mal algum,
assim ele os amará até o fim.

Bach: St. Matthew-Passion - 12. Wiewohl mein Herz in Tränen schwimmt

Dois oboés d’amore fazem um acompanhamento ondulante, desenhando um mar de lágrimas para o coração nadar. Isto não é algo alegre: veja o trítono sob a palavra schwimmt (nadar). Outra dissonância, um acorde de 7ª diminuta, aparece sob a palavra böse (mal), o que não é de se estranhar, certo?

Se Jesus ao partir sobe aos céus, ele deixa seu testamento aqui embaixo, comigo, na terra; isso explica porque meine Hände (minhas mãos) têm notas graves. Já a frase final, bis an das Ende (até o fim), é auto-explicativa descendo em escala até a nota Dó, a nota-base da tônica Dó Maior.

13. Arie (Sopran): Ich will dir mein Herze schenken

Bach liga esta ária ao recitativo anterior usando a mesma instrumentação (oboés d’amore e contínuo), mas a figura de acompanhamento é citação direta de algo que ouvimos nos violinos durante as palavras de Jesus, compare:

Bach: St. Matthew-Passion - 13. Ich will dir mein Herze schenken

Acompanhamentos dos nºs 11 e 13:

E aqui, a ária completa:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 13. Ich will dir mein Herze schenken (Rubens – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Ich will dir mein Herze schenken,
Senke dich, mein Heil, hinein.
Ich will mich in dir versenken;
Ist dir gleich die Welt zu klein,
Ei, so sollst du mir allein
Mehr als Welt und Himmel sein.
Quero meu coração lhe oferecer,
mergulhe nele, meu Salvador.
Quero em você afundar;
O mundo para você é tão pequeno,
então seja só para mim
mais que o mundo e o céu.

Bach: St. Matthew-Passion - 13. In dir versenken

Reparem que a solista canta várias vezes a palavra hinein (dentro, de “mergulhar para dentro”), e todas as vezes a melodia aponta para baixo, para os graves. Na parte central da ária, versenken (afundar) também mergulha para os graves.

E assim concluímos mais um trecho dessa gigantesca obra-prima chamada Paixão segundo São Mateus. Continuaremos ainda este mês falando sobre a ida de Jesus e seus discípulos ao Monte das Oliveiras, e o que aconteceu no caminho até o jardim do Getsêmani; tudo isso estará no próximo post. Até mais!

Este post pertence à série “Os segredos da Paixão segundo São Mateus”:
1. Introdução, história da composição e estrutura
2. Jesus em Betânia
3. A Última Ceia
4. No caminho para o Monte das Oliveiras
5. Tentação e Prisão de Jesus
6. Jesus diante de Caifás
7. O destino de Pedro e Judas
8. O julgamento diante de Pilatos
9. A Crucificação
10. Morte e Sepultamento
Tradução da Paixão segundo São Mateus, de Bach

15 Respostas

  1. Suzete Garcia
    |

    Que trabalho bem feito! Obrigada pelas postagens.

  2. Denison Rosario
    |

    acompanhei tudo direitinho…muito detalhista, parabens…

  3. Vítor
    |

    Fascinante.

  4. Denison Rosario
    |

    Falando em Bach, muita gente pensa que foi Mendelssohn que o fez renascer com esta obra aqui apresentada. Após a morte de Bach, muitas de suas obras foram postas de lado, embora ele próprio e algumas de suas peças nunca fossem esquecidas. Parece que todos concordam que ele foi negligenciado até que Mendelssohn o reviveu com a Paixão Segundo São Mateus. Isso não é verdade. Mesmo porque seus filhos, mesmo tendo uma atitude ambivalente quanto ao pai, fizeram sua parte ao propagar sua música. Na verdade, todos os filhos de Bach espalharam seu nome e sua fama. Christian que introduziu a música do velho pai para os muitos regentes da época e Carl P. Emanuel supriu de muito material o primeiro biógrafo de Bach, Johann Nikolaus Forkel.

    Ainda que até o Romantismo a música era uma arte que se executava o que era feito na época, não se ouvia música antiga, mesmo assim, a música de Bach tinha tal poder que se mantinha vivo entre os músicos profissionais, depois de sua morte. A música de Bach continuou sendo tocada nas cerimônias das Igrejas de Leipzig, Mozart e Haydn chegaram a ser apresentados à música de Bach, Beethoven cresceu com o Cravo bem Temperado, o organista inglês Samuel Wesley, muito antes de Mendelssohn, propagava e tocava a música de Bach, Johann Baptist Cramer já tocava Bach em público antes de 1800, no que foi seguido por outros pianistas, entre os quais, Boely, Lipavsky e o famoso John Field, que influenciou Chopin.

    Quem quer que se dê ao trabalho de consultar os periódicos e livros do final do século XVIII vai encontrar inúmeras referências do famoso Bach. O mito de seu total abandono deve ser esquecido hoje. É uma mentira. Não foi a Paixão segundo São Mateus que reviveu Bach; sua música nunca morreu! E mesmo a linhagem dos Bach ainda existe. Desde 1937 até os dias de hoje, funciona uma Associação dos familiares de Bach na Thuringia. Porém, nenhum dos descendentes do século XX foi ou é músico profissional.

  5. Amancio Cueto Jr.
    |

    Calma Denison, nem oito nem oitenta. Realmente Bach não estava “morto” ao final do século XVIII, como vc mesmo disse ele era conhecido por várias pessoas, geralmente especialistas (músicos e compositores). Mas o grande público nunca tinha ouvido falar dele. O “famoso Bach” da época era o Johann Christian; seu pai representava a música velha e decrépita, e era tido mais como “músico matemático” do que compositor. A coisa foi mudando aos poucos no século XIX, a primeira edição do Cravo bem Temperado é de 1801, a Paixão seg. São João foi redescoberta na década seguinte, e assim aos poucos as outras obras foram ressurgindo. A re-estréia da Paixão seg. São Mateus com Mendelssohn realmente não foi o começo da “onda Bach”, mas talvez tenha sido o fato mais marcante desse movimento. Mendelssohn também foi o responsável por redescobrir Israel no Egito, de Händel, e foi o primeiro a batalhar pela edição das obras completas de Bach – coisa que só surgiu a partir de 1851.

  6. Denison Rosario
    |

    obrigado pelas informações, Amancio, que por sinal, não anulam as minhas…e nem corrigem…apenas, acrescentam…

  7. Amancio Cueto Jr.
    |

    Sim, as informações estão corretas… mas as conclusões são levemente diferentes, às vezes divergentes.

  8. Elisangela Martins
    |

    Simplesmente de tirar o fólego…tô AMAAAAANDO os posts!

  9. irumar tedesco
    |

    Lindo, lindo, pena que não tenho conhecimento de música. Mas vale pelo trabalho profundo de Amancio. Muito obrigada.

  10. Suzete Garcia
    |

    Trabalho estupendo. Obrigada e parabéns.

  11. Louis
    |

    Oi, euterpianos.

    Li todos os posts e comentários da série (fiquei obcecado, realmente; e não é por acaso que escrevo esta mensagem às 7 da manhã, rs, pois passei a noite aqui, só parando para ver o primeiro episódio da nova temporada de Mad Men :P), e notei que muito foi dito sobre a recepção da obra, mas não vi este artigo ser citado: http://www.critique-musicale.com/bachfr.htm ( em inglês: http://www.critique-musicale.com/bachen.htm ) Desde que o li, há uns dois anos, não consigo imaginar discussão sobre este assunto que não passe por ele, afinal o autor faz uma revisão dos possíveis motivos musicais, sociais e filosóficos, que teriam levado à revalorização da obra de Bach, desde sua vida até fins do século XX. Espero que vocês gostem. (:

    Abraços.

  12. Amancio Cueto Jr.
    |

    Olá Louis, eu não conhecia esse artigo, parece ser muito muito bom. Obrigado pela indicação!

  13. Emerson Coelho
    |

    Sigo lendo esta análise magnífica.
    Estou muito impressionado.

  14. Suzete
    |

    Magnífica é mesmo o adjetivo para este estudo monumental.
    Junto meus parabéns também.
    bj
    suzete

  15. Flavio J. Morsch
    |

    Amancio,
    Teu exaustivo, riquíssimo, minucioso e acurado trabalho sobre a Matthäus Passion mereceria o Nobel da Paz.

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