Os segredos da Paixão segundo São Mateus – 2. Jesus em Betânia

Semana passada iniciamos aqui no blog uma série de posts sobre a Paixão segundo São Mateus de Bach. O primeiro post foi inteiramente dedicado à história de composição da obra, detalhes das primeiras performances e uma apresentação geral da estrutura. Mas é neste post que começaremos a ouvir a música (e que música!), número a número, trecho a trecho. Som na caixa, maestro!

Anônimo: Cópia de "Cristo carregando a cruz", de Hieronimus Bosch
Anônimo: Cópia de “Cristo carregando a cruz”, de Hieronimus Bosch

1. Chor 1+2 mit Choral: Kommt, ihr Töchter

Bach: Paixão segundo São Mateus – 01. Chor mir Choral (1) (Philippe Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Durante esta introdução instrumental as duas orquestras tocam juntas, em uníssono, com exceção de um pequeno diálogo entre sopros, lá no final deste trecho, alternando a orquestra 1 e orquestra 2. Aliás, repare que nessa belíssima gravação de Philippe Herreweghe, podemos perceber a orquestra 1 à esquerda e a orquestra 2 à direita. Mas se pudéssemos desmontar a música, o que encontraríamos?

Baixo + Melodia 1 + Melodia 2:

O ritmo do baixo contínuo parece evocar uma procissão: seriam os fiéis indo para igreja? Uma procissão fúnebre? Jesus carregando a cruz na Via Dolorosa? Ou todas as opções anteriores? E acima dele, duas melodias que se entrelaçam.

Então a orquestra 2 silencia por completo e ouvimos somente o coro 1 acompanhado da orquestra 1:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 01. Chor mir Choral (2) (Philippe Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Kommt, ihr Töchter, helft mir klagen. Venham, filhas, ajudem-me a lamentar!

A referência à palavra “filhas” é em relação às Filhas de Sião, aqui empregada como sinônimo de fiéis ou cristãos. O coro 1 assim personifica um grupo de fiéis convidando os demais cristãos para assistirem a celebração da Paixão de Cristo.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 01. Chor mir Choral (3) (Philippe Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Sehet! Wen? Den Bräutigam.
Seht ihn! Wie? Als wie ein Lamm.
Vejam! Quem? O noivo.
Vejam-no! Como? Como um cordeiro.
O Lamm Gottes unschuldig
Am Stamm des Kreuzes geschlachtet.
Oh inocente Cordeiro de Deus,
No tronco da cruz sacrificado,

Aqui começa um jogo de perguntas e respostas entre o coro/orquestra 1 (à esquerda) e o coro/orquestra 2 (à direita). O “noivo” é Jesus, conforme ele mesmo se descreveu na Parábola das 10 Virgens; quanto ao cordeiro, era costume na época de Jesus o sacrifício de cordeiros para perdão dos pecados, e por isso a comparação entre os dois. Explicarei isto melhor no próximo post, na análise do nº 11.

Então entendemos melhor o que está acontecendo: o coro 1 está “vendo” Jesus atravessando a cidade com sua cruz às costas, e o coro 2 (Quem? Como?) representa o povo se aglomerando para vê-lo.

Josefa de Óbidos: Cordeiro Pascal
Josefa de Óbidos: Cordeiro Pascal

Além destes dois coros, no trecho acima surge um terceiro coro cantando os primeiros versos do coral luterano O Lamm Gottes, unschuldig, de Nikolaus Decius (1529), escolhido pelo compositor por falar também do sacrifício do cordeiro. No player abaixo é possível ouvir este coral por completo numa outra harmonização feita por Bach em Fá Maior, catalogado como BWV.401:

Bach: O Lamm Gottes, unschuldig BWV 401 (Nordic Chamber Choir – Nicol Matt):

O Lamm Gottes unschuldig
Am Stamm des Kreuzes geschlachtet,
Allzeit erfund’n geduldig,
Wiewohl du warest verachtet.
All’ Sünd’ hast du getragen,
Sonst müssten wir verzagen.
Erbarm’ dich unser, o Jesu!
Oh inocente Cordeiro de Deus,
No tronco da cruz sacrificado,
O tempo todo sempre paciente,
mesmo quando foi desprezado,
Suportou todos os nossos pecados,
Sem você teríamos nos desesperado.
Tem piedade de nós, oh Jesus!

Todos estes sete versos estão espalhados pelo movimento inicial da Paixão segundo São Mateus, o que não nos impede de agrupá-los didaticamente no próximo player para mostrar que toda a estrofe também é cantada aqui na Paixão:

Bach: Paixão segundo São Mateus – Montagem de O Lamm Gottes unschuldig (Philippe Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Veja que interessante: o movimento inicial da Paixão (Kommt ihr Töchter) está em Mi menor, enquanto que o coral O Lamm Gottes está em Sol Maior. Bitonalismo em Bach? Quase: ele encaixou os versos do coral quando as harmonias de Kommt ihr Töchter passeavam pelos acordes de O Lamm Gottes, criando essa tensão de alguém pisando em ovos.

É interessante notar que, até 1742, O Lamm Gottes não era cantado: a melodia ficava restrita aos dois órgãos, soando escondida debaixo de tanta música. Foi somente na revisão de 1743 que Bach adicionou o terceiro coro reforçando a melodia coral. Continuando com o movimento:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 01. Chor mir Choral (4) (Philippe Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Sehet! Was? Seht die Geduld. Vejam! O que? A sua paciência.
Allzeit erfund’n geduldig,
Wiewohl du warest verachtet.
O tempo todo sempre paciente,
mesmo quando foi desprezado,

As orquestras juntam-se novamente para repetir o trecho anterior, um pouco mais resumido, mas logo o grupo 2 se cala para mais um jogo de perguntas e respostas. Ao final, as orquestras se reúnem mais uma vez.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 01. Chor mir Choral (5) (Philippe Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Sehet! Wohin? Auf unsre Schuld. Vejam! Para onde? Para nossa culpa.
All’ Sünd’ hast du getragen,
Sonst müssten wir verzagen.
Suportou todos os nossos pecados,
Sem você teríamos nos desesperado.

Aqui acontece algo curioso: as orquestras ficam trocando 3 por 3 notinhas, enquanto o coro 2 (Wohin? Wohin?) fica completamente perdido, algumas vezes cantando até com o acompanhamento da outra orquestra.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 01. Chor mir Choral (6) (Philippe Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Sehet ihn aus Lieb und Huld
Holz zum Kreuze selber tragen.
Vejam-no, por amor e clemência
Ele mesmo carrega sua cruz.
Erbarm’ dich unser, o Jesu! Tem piedade de nós, oh Jesus!

Por fim o coro 2 (o povo, à direita na gravação) entende a mensagem e aceita o convite do coro 1 (os fiéis, à esquerda), juntando-se a eles pouco a pouco. E quando todo mundo entra em acordo, os dois coros e as duas orquestras retomam o tema inicial…

Bach: Paixão segundo São Mateus – 01. Chor mir Choral (7) (Philippe Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Kommt, ihr Töchter, helft mir klagen.
Sehet! Wen? Den Bräutigam.
Seht ihn! Wie? Als wie ein Lamm.
Venham, filhas, ajudem-me a lamentar!
Vejam! Quem? O noivo.
Vejam-no! Como? Como um cordeiro.

… concluindo em Mi Maior! Afinal, por que um coro de lamentação em modo menor teria um “final feliz” em modo maior? Porque na era barroca o modo menor era considerado uma dissonância, e terminar assim era como deixar a peça sem conclusão, em suspensão. Reservem esta informação para quando formos analisar o último movimento, o nº 68!

James Tissot: Exortação aos apóstolos
James Tissot: Exortação aos apóstolos

2. Rezitativ (Mt 26,1-2): Da Jesus diese Rede

Nos capítulos anteriores da Bíblia, Mateus, o evangelista, havia acabado de narrar um discurso de Jesus com algumas parábolas. Então quando a Paixão começa no capítulo 26, na verdade não é um começo e sim a continuação da história:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 02. Da Jesus diese Rede (Bostridge – Selig – Herreweghe):

Evangelist
Da Jesus diese Rede vollendet hatte,
sprach er zu seinen Jüngern:
Evangelista
Quando Jesus terminou estas palavras,
ele disse aos seus discípulos:
Jesus
Ihr wisset, dass nach zweien Tagen
Ostern wird, und des Menschen Sohn
wird überantwortet werden,
dass er gekreuziget werde.
Jesus
Vocês sabem que daqui a dois dias
será a festa da Páscoa, e o Filho do Homem
será entregue
para ser crucificado.
Bartolomé Esteban Murillo: As duas Trindades
Bartolomé Esteban Murillo: As duas Trindades

Com frequência veremos nos recitativos uma espécie de “hierarquia”: os nomes das pessoas importantes estarão mais acima (no agudo) do que as demais. Aqui, por exemplo, o Evangelista canta a palavra Jesus com notas mais agudas do que Jüngern, mostrando melodicamente quem é o mestre e quem são os discípulos.

Jesus canta com acompanhamento de três grupos de cordas: os primeiros violinos, os segundos violinos e as violas. Esse acompanhamento gera uma espécie de “halo”, aquela auréola que vemos com frequência nas pinturas de santos. Importante notar que o número 3 (os três grupos de cordas) tem um significado especial na religião cristã: a Santa Trindade (Pai, Filho e o Espírito Santo).

Bach: St. Matthew-Passion - 02. Ostern wirdSobre a palavra Ostern (Páscoa), alguns detalhes merecem especial atenção porque serão de importância vital para toda esta análise da Paixão segundo São Mateus. Primeiro, entre a voz (Dó #) e o baixo (Sol) há um intervalo muito dissonante conhecido como “trítono”. Era chamado de diabolus in musica pelos compositores medievais, e sua utilização ficou proibida por muitas décadas; aqui na Paixão ele aparecerá em vários momentos especiais, e quase sempre para marcar coisas ruins, dolorosas ou tristes. Ora, o que haverá de errado nesta festa da Páscoa? Está lá na voz: o símbolo de sustenido (#), em alemão, tem o mesmo nome de cruz, o instrumento de crucificação que levou Jesus à morte.

Então surge uma questão: por que Bach marcaria um sinal (#) que não se pode “ouvir” na música? (Se ele tivesse escrito Ré bemol, o som seria praticamente o mesmo sem usar o símbolo de sustenido). Simples e óbvio: quem vai ler o sinal # é o músico. E para um cantor alemão, ao ver a “cruz” ao lado da palavra Páscoa, a associação será imediata. Para os mais céticos, poderíamos até enquadrar esse sinal como um “sinal de interpretação”, igual como as indicações que Vivaldi escreveu na partitura das Quatro Estações.

Hoje quando falamos em Páscoa lembramos dos coelhos de chocolate, mas para os judeus do tempo de Jesus a festa da Páscoa era a mais importante celebração anual de sua religião. Ela lembrava a noite em que seu povo saiu do Egito e deixou de ser escravo. Eram 7 dias de festa, um feriadão em que era proibido trabalhar.

Bach: St. Matthew-Passion - 02. Dass er gekreuziget werdePor último, a ênfase de Jesus na palavra gekreuziget (crucificado): não só a melodia é bastante cromática e dolorosa de cantar, mas as notas subindo e descendo formam um padrão já conhecido por musicólogos como “Melodia cruciforme“, pelo seu formato de cruz.

Gosto sempre de lembrar que Bach não é Wagner, o leitmotiv só será inventado muito tempo depois, portanto novas ocorrências da “melodia cruciforme” não querem dizer absolutamente nada. O que é digno de nota, porém, é ela marcar presença em palavras-chave como esta, “crucificar”: é como se Bach estivesse “pintando palavras” na partitura.

3. Choral: Herzliebster Jesu

Para comentar o trecho anterior do Evangelho, Bach escolheu a primeira estrofe do coral Herzliebster Jesu, versos de Johann Heermann (1630) e melodia de Johann Crüger. Curiosamente esta mesma melodia retornará lá nos números 19 e 46. Mais curioso ainda, na Paixão segundo São João de Bach este aqui também é o primeiro coral cantado na obra (nº 3, O Grosse Lieb, o Lieb ohn alle Masse), porém lá Bach escolheu a sétima estrofe ao invés da primeira.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 03. Herzliebster Jesu (Philippe Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Herzliebster Jesu,
was hast du verbrochen,
Dass man ein solch scharf
Urteil hat gesprochen?
Was ist die Schuld,
in was für Missetaten
Bist du geraten?
Amado Jesus,
O que você cometeu
para que você receba
tão severa sentença?
Qual é a culpa
de quais ações más
você cometeu?

Ambos os coros 1 e 2 assumem a voz dos fiéis, ao perguntarem para Jesus sobre a profecia de sua morte dita no recitativo anterior. Quanto à música, reparem nas estranhas harmonias colocadas por Bach embaixo da palavra Missetaten (más ações): precisa explicar? :-)

4. Rezitativ (Mt 26,3-13): Da versammelten sich

Bach: Paixão segundo São Mateus – 04a. Da versammelten sich (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Da versammelten sich
die Hohenpriester und Schriftgelehrten
und die Ältesten im Volk
in dem Palast des Hohenpriesters,
der da hiess Kaiphas. Und hielten Rat,
wie sie Jesum mit Listen griffen
und töteten. Sie sprachen aber:
Evangelista
Então se reuniram
os sumos sacerdotes e os escribas
e os anciãos do povo
no palácio do sumo sacerdote,
chamado Caifás. E decidiram em conselho
que prenderiam Jesus com esperteza
para matá-lo. Mas diziam:

Na época de Jesus, os romanos dominavam a região da Palestina, e somente eles tinham o direito de condenar alguém à morte. Por isso havia a necessidade de uma “esperteza” ao prender Jesus: era necessário acusá-lo de algo político, algo que fosse contra os interesses de Roma. E quem são estes que queriam matar Jesus?

Bach: St. Matthew-Passion - 04a. Da versammelten sich die Hohenpriester und Schriftgelehrten und die Ältesten im Volk

Os sumos sacerdotes eram o grupo que efetivamente comandava a sociedade judaica, coordenando os cultos e gerenciando todo o sistema de comércio que existia em volta do Templo. Os escribas eram os alfabetizados que podiam ler e interpretar as escrituras, geralmente a seu favor. Já os anciãos do povo eram grandes proprietários de terra, ricos, e que queriam manter o status quo. Bach mostra na melodia a hierarquia entre eles: lá em cima os sumos sacerdotes, os escribas como braço direito e os anciãos lá embaixo.

Quando todos eles se reúnem, Bach junta o Coro 1 com o Coro 2 para cantar. Depois do próximo trecho, os dois coros só cantarão novamente juntos como turba lá no nº 36.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 04b. Ja nicht auf das Fest (Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Chor 1+2
Ja nicht auf das Fest,
auf dass nicht ein Aufruhr werde im Volk.
Coro 1+2
Não [vamos fazer isso] durante a festa,
para não provocar tumulto no povo.

Aqui, reparem na palavra A-a-a-aufruhr e como Bach mistura as vozes para mostrar o tumulto no povo.

O primeiro dia da festa começava na tarde do que hoje, para nós, é a quinta-feira santa. Neste dia, cordeiros eram sacrificados no Templo para serem preparados para a ceia pascal, que acontecia no início do segundo dia (ou seja, na noite de quinta, pois o dia para os judeus começava com o pôr do sol e não à meia-noite). Com a vinda de várias famílias para Jerusalém para o sacrifício do cordeiro, a população da cidade aumentava em cerca de 10 vezes do dia para a noite. Até mesmo o governador romano Pôncio Pilatos, que não era judeu, vinha da Cesaréia, a capital romana da Judéia que ficava no litoral, para Jerusalém. E assim qualquer tumulto provocado “durante a festa” (isto é, na quinta-feira santa) seria bastante amplificado pela população presente.

James Tissot: A refeição na casa do Fariseu
James Tissot: A refeição na casa do Fariseu

Bach: Paixão segundo São Mateus – 04c. Da nun Jesus war zu Bethanien (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Da nun Jesus war zu Bethanien,
Im Hause Simonis des Aussätzigen,
trat zu ihm ein Weib,
die hatte ein Glas mit köstlichem Wasser
und goss es auf sein Haupt,
da er zu Tische sass.
Evangelista
Estando Jesus em Betânia,
em casa de Simão, o leproso,
aproximou-se dele uma mulher,
ela tinha um vaso com um perfume caro
e o derramou sobre sua cabeça,
quando ele estava sentado à mesa.

Naquele tempo, as pessoas com lepra (hanseníase) viviam segregadas da sociedade, pois todos tinham medo de pegar a doença. Porém os efeitos psicológicos da separação e do abandono eram em si muito piores que os sintomas da doença, que não é fatal; atualmente sabe-se que apenas 5% da população é suscetível ao bacilo de Hansen. Além disso, quem determinava se a pessoa tinha ou não lepra eram os sacerdotes, portanto era bom não se meter com eles! Um dos motivos para os sacerdotes quererem matar Jesus era porque ele curava os leprosos e convivia com eles, incluindo-os novamente na sociedade.

Bach: St. Matthew-Passion - 04c. Simonis des AussätzigenE Bach aqui apronta mais uma vez. Seguindo a narração do tenor, ele monta uma cadência para Fá Maior, mas na palavra Aussätzigen (leproso) surge um trítono em cima de um inesperado acorde de Lá 7. Ouça neste próximo player uma simulação da cadência correta, por exemplo, se Jesus estivesse na casa de Simão o Saudável, e compare depois com Simão o Leproso:

Simão o saudável e Simão o leproso:

E na frase seguinte Bach descreve mais três palavras:

Bach: St. Matthew-Passion - 04c. Und goss es auf sein Haupt

A melodia desce e sobe com a frase die hatte ein Glass (ela tinha um vaso), como se descrevesse a forma de uma bacia ou prato. Ou vaso. Ao derramar um líquido, ele naturalmente escorre para baixo, e por isso a melodia de und goss es auf se dirige para os graves. Mas a cabeça de Jesus não estava no chão, estava lá em cima, lá onde Bach colocou as notas de Haupt (cabeça).

Bach: Paixão segundo São Mateus – 04d. Wozu dienet dieser Unrat (Bostridge – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Evangelist
Da das seine Jünger sahen,
wurden sie unwillig und sprachen:
Evangelista
Seus discípulos ao verem isso
se indignaram e disseram:
Chor 1
Wozu dienet dieser Unrat?
Dieses Wasser hätte mögen teuer verkauft
und den Armen gegeben werden.
Coro 1
Para que esse desperdício?
Este perfume poderia ser vendido bem caro
e o dinheiro dado aos pobres.

Bach: St. Matthew-Passion - 04d. Da das seine Jünger sahenNeste trecho, Bach dá ao Evangelista notas bem dissonantes para cantar (fá-ré-sol#), dando a idéia de que os discípulos não gostaram nada de ver aquela cena. Então a orquestra 1 começa com um tadadatatidada, sugerindo a agitação dos discípulos sussurando em voz baixa entre si. Por fim a “lição de moral” Dieses Wasser hätte mögen surge em forma de uma fuga, aquela forma musical cheia de regras que aqui na Paixão será usada para simbolizar a aridez da lei dos judeus, rígida e sem vida. Notem também como a harmonia se complica embaixo da palavra Armen (pobres).

O Evangelho de São João também narra esse episódio, porém atribui estas palavras a Judas, o discípulo traidor. João ainda acrescenta que Judas cuidava do dinheiro do grupo, e aproveitava-se disso para desviar uma parte do dinheiro para seu próprio bolso.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 04e. Da das Jesus merkete (Bostridge – Selig – Herreweghe):

Evangelist
Da das Jesus merkete, sprach er zu ihnen:
Evangelista
Então Jesus percebeu e disse a eles:
Jesus
Was bekümmert ihr das Weib?
Sie hat ein gut Werk an mir getan.
Ihr habet allezeit Arme bei euch,
mich aber habt ihr nicht allezeit.
Dass sie dies Wasser hat
auf meinen Leib gegossen, hat sie getan,
dass man mich begraben wird.
Wahrlich, ich sage euch:
Wo dies Evangelium geprediget wird
in der ganzen Welt,
da wird man auch sagen
zu ihrem Gedächtnis, was sie getan hat.
Jesus
Por que vocês afligem essa mulher?
Ela fez uma boa ação para comigo.
Vocês terão sempre os pobres com vocês,
mas eu não estarei com vocês para sempre.
Se ela derramou esse perfume
sobre meu corpo, ela assim o fez
para que eu possa ser sepultado.
Em verdade eu digo a vocês:
onde quer que este Evangelho seja pregado
em todo o mundo,
também será contado,
para memória dela, o que ela fez.

Bach: St. Matthew-Passion - 04e. Begraben wirdNovamente a palavra Arme (pobre) é descrita com uma dissonância, uma 7ª menor: definitivamente ser pobre, para Bach, não era uma coisa muito boa. Também como da outra vez, a palavra gegossen (derramado) é cantada numa melodia descendente. Mas interessante mesmo são as duas melodias cruciformes com a palabra begraben (sepultar), uma na voz e outra nos primeiros violinos, e ambas se dirigindo para os graves: onde mais Bach colocaria uma sepultura?

Quando uma pessoa morria naquele tempo, o corpo era limpo e purificado com um perfume (bálsamo) antes de ser enrolado num lençol e posto numa sepultura. Jesus sabe que, quando morrer, não haverá tempo para estas preparações todas. Veremos tudo isso com mais detalhes na análise do nº 66.

5. Rezitativ (Alt): Du lieber Heiland du

Conforme eu havia comentado no post anterior, de tempos em tempos Bach interrompe a narração do Evangelho para adicionar recitativos (ariosos) e árias tecendo comentários à história. O texto é do libretista Picander, e veja que lindo é este comentário: ele sugere que os fiéis, ao invés de perfume, derramem as próprias lágrimas para ungir Jesus.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 05. Du lieber Heiland du (Scholl – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Du lieber Heiland du,
Wenn deine Jünger
töricht streiten,
Dass dieses fromme Weib
Mit Salben deinen Leib
Zum Grabe will bereiten;
So lasse mir inzwischen zu,
Von meiner Augen Tränenflüssen
Ein Wasser auf dein Haupt zu giessen!
Você, meu amado Salvador,
Enquanto seus discípulos
tolamente discutem
vendo esta piedosa mulher
com unguento o seu corpo
para a sepultura preparar,
permita-me, enquanto isso,
que dos meus olhos um fluxo de lágrimas
verta sobre sua cabeça como uma unção.

Bach: St. Matthew-Passion - 05. Ein Wasser auf dein HauptO acompanhamento das flautas descreve ou o perfume, ou as lágrimas derramando. Bach ainda toma emprestadas três outras idéias musicais da última narração do Evangelho (nº 4): as notas graves para representar a sepultura (Grabe), o perfume derramando (ein Wasser auf… zu giessen) com uma escala descendente, e a cabeça (Haupt) lá em cima.

6. Arie (Alt): Buss’ und Reu’

Para associar musicalmente o recitativo (arioso) anterior com esta ária, Bach não só repete a mesma instrumentação (flautas, órgão e contínuo) mas também adapta aquele acompanhamento que antes lembrava o perfume derramando:

Bach: St. Matthew-Passion - 06. Buss und Reu

Bach: Paixão segundo São Mateus – 06. Buss und Reu (Scholl – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Buss’ und Reu’
Knirscht das Sündenherz entzwei,
Dass die Tropfen meiner Zähren
Angenehme Spezerei,
Treuer Jesu, dir gebären.
Penitência e remorso
dilaceram meu coração culpado,
Que as gotas das minhas lágrimas
em agradável perfume
se tornem para você, fiel Jesus.

Bach: St. Matthew-Passion - 06. Dass die Tropfen meiner ZährenE as lágrimas, para onde foram? Elas estão lá na parte central da ária: somente nas duas vezes que o solista fala em Tropfen (gotas), as flautas tocam arpejos descendentes em staccato.

Por hoje é só, pessoal! Continuaremos no próximo post com a Santa Ceia e a profecia da traição de Judas. Até lá!

Este post pertence à série “Os segredos da Paixão segundo São Mateus”:
1. Introdução, história da composição e estrutura
2. Jesus em Betânia
3. A Última Ceia
4. No caminho para o Monte das Oliveiras
5. Tentação e Prisão de Jesus
6. Jesus diante de Caifás
7. O destino de Pedro e Judas
8. O julgamento diante de Pilatos
9. A Crucificação
10. Morte e Sepultamento
Tradução da Paixão segundo São Mateus, de Bach

14 Respostas

  1. Denison Rosario
    |

    acompanhei tudo com a partitura e o disco e gostei muito do seu trabalho. Parabéns…

  2. F. S. Monteiro
    |

    Grande trabalho, parabéns! Pequena correcäo: as traducöes de dois versos (Sehet! Was?… e Sehet! Wohin?…) estäo trocadas. Abs.

  3. Amancio Cueto Jr.
    |

    Obrigado, F.S.! Acabei de corrigir a tradução, obrigado por avisar!

  4. Heber Fiori
    |

    Nálise interessante, parabéns!

  5. Eisangela Batista.
    |

    Amancio,
    como ouvinte comum (citação do 1° post), me sentia como parte do público. agora sob a ótica dessa análise me sinto como um penetra da orquestra que não toca nada, muito menos canta, mas que compreende a essência da Obra.
    Mui Grata. ; )

  6. Matheus Macedo
    |

    Isso é lindo demais…
    Muito grato a vocês por enriquecerem a minha vida de tal forma.
    Abraços!

  7. Suellen
    |

    Parabéns pelo adorável trabalho! Impressionante sua dedicação em traduzir para o público uma obra tão maravilhosa.

  8. Sophia Prado
    |

    Quanta riqueza… Obrigada por compartilhar conosco esses conhecimentos!

  9. João Carlos
    |

    Um trabalho à altura de Bach. Parabéns.

  10. Marcia de Albuquerque
    |

    agradeço este trabalho, estou encantada, realmente gostando de musica, mas com dificuldade para acompanhar a complexidade de algumas obras, estou há horas seguindo, subindo e descendo na tela. Ainda não terminei, mas vou até o final.
    muito grata.

  11. Manoel Otávio
    |

    Obrigado, professor!
    Sua orientação esclarece e ilumina nosso percurso por essa obra magnífica.

  12. Rafaela Beatriz
    |

    Olá! Deveriam repostar nessa Semana Santa! Estou encantada com as análises e gostaria de saber se vocês não postam junto as referências das informações, o que acho muito importante. Muito obrigada pelo trabalho, amei e estou indicando para vários amigos! Um abraço.

  13. Amancio Cueto Jr.
    |

    Olá Rafaela! Pois saiba que minha esposa diz a mesma coisa todos os anos: que eu deveria repostar a série anualmente na Semana Santa. Mas veja que não faz muito sentido, pois o texto seria o mesmo, talvez com alguns mínimos acréscimos, e tudo o que já foi postado até hoje no blog está disponível para acesso para todo mundo. Basta usar o mecanismo de busca, ou o Google, ou mesmo consultar a lista de posts do blog.

    Quanto às referências, isso realmente é um problema para mim. Muita coisa eu guardo apenas de memória, então eu sei que eu li em algum lugar mas não vou lembrar onde. Mas, se serve de consolo: cerca de 90% do conteúdo desta série eu tirei da própria partitura da Paixão segundo São Mateus, estudando-a com a tradução do lado, tocando partes no teclado e analisando-a com os (parcos) conhecimentos que eu tenho de harmonia e word painting. A originalidade do trabalho explica um pouco a falta de referências.

  14. Mário Conceição
    |

    É verdadeira paixão o que sinto quando oiço as obras de Bach!Tenho agora com a ajuda deste blog entender melhor as Obras deste Mestre.Agradeço a vossa ajuda!
    Mário.

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