Os segredos da Paixão segundo São Mateus – 5. Tentação e Prisão de Jesus

José Joaquim da Rocha: O beijo de Judas e Pedro cortando a orelha de Malchus
José Joaquim da Rocha: O beijo de Judas e Pedro cortando a orelha de Malchus

Vamos retomar hoje nossa análise da magistral Paixão segundo São Mateus de Bach. Esta já é a quinta parte da análise; nos posts anteriores, discutimos primeiro um histórico da composição, e depois seguimos Jesus até Betânia onde ele foi ungido; no post seguinte Jesus realizou sua última ceia com os apóstolos, para em seguida caminhar com eles até o Monte das Oliveiras para orar. Aqui ouviremos o conteúdo dramático de suas orações, a traição de Judas e por fim a prisão de Jesus. Peço desculpas se este post saiu um pouco mais longo que os demais, mas o fato é que aqui há um número incrível de curiosidades sobre a Paixão segundo São Mateus que precisam ser comentadas. Leiam abaixo, e depois me digam o que acharam!

21. Rezitativ (Mt 26,39): Und ging hin ein wenig

Bach: Paixão segundo São Mateus – 21. Und ging hin ein wenig (Bostridge – Selig – Herreweghe):

Evangelist
Und ging hin ein wenig,
fiel nieder auf sein Angesicht
und betete und sprach:
Evangelista
E avançando um pouco,
prostrou-se com o rosto por terra
e orou, dizendo:
Jesus
Mein Vater, ist’s möglich,
so gehe dieser Kelch von mir;
doch nicht wie ich will,
sondern wie du willst.
Jesus
Meu Pai, se for possível,
afaste este cálice de mim;
porém não se faça o que eu quero,
e sim o que você quer.

Bach: St. Matthew-Passion - 21. Und ging hin ein wenig, fiel nieder auf sein Angesicht

Jesus tinha acabado de dizer a alguns discípulos, “fiquem aqui que eu vou logo ali para orar”. Por isso a frase ging hin ein wenig (avançando um pouco) é ascendente, indicando na melodia a direção para onde foi Jesus. Fiel nieder (prostrou-se, ou literalmente “caiu por terra”) têm as notas caindo para o grave, com o rosto (Angesicht) lá embaixo.

A oração de Jesus revela o dramático conflito que se passa em seu íntimo. Ele sabe que sofrerá de modo bárbaro nas próximas horas; por outro lado ele também sabe que, se ele quiser, ele pode livremente renunciar a esse suplício… e também à vontade de Deus. Pelas palavras de Mateus, entendemos que Jesus está mesmo inclinado a desistir de tudo (se for possível) apesar de continuar pedindo para que se cumpra o desejo de Deus, e por isso chamamos esse episódio de “a grande tentação”. E Bach, como ele descreve tudo isso na música?

Bach: St. Matthew-Passion - 21. Ist's möglich, so gehe dieser Kelch von mir
(clique para ampliar)

O Mi bemol Maior inicial confere um tom sóbrio e nobre ao Mein Vater (meu Pai). O pedido de Jesus parece ser algo bom, e por isso o ouvimos em uma cadência para um tom maior; porém ist’s möglich (se for possível) tem um trítono e um acorde diminuto, denunciando pelas dissonâncias que o pedido apenas “parece” ser bom. Olhem lá o cálice, na melodia em formato de “V” das palavras dieser Kelch (este cálice), igual como já vimos lá no nº 11. Entretanto a segunda parte da oração (não se faça o que eu quero) está numa outra tonalidade, Sol menor, mostrando não só a tristeza (o tom menor) que será aceitar a vontade de Deus, mas também colocando os desejos de Deus e de Jesus em lados diferentes. Além disso, nicht wie ich will (não como eu quero) é cantado com notas do acorde diminuto, o mesmo acorde dissonante que ouvimos no acompanhamento dessas palavras. Definitivamente, a vontade de Deus é a opção mais difícil e dolorosa.

22. Rezitativ (Bass): Der Heiland fällt vor seinem Vater nieder

O comentário à primeira oração de Jesus é uma página terrível em dissonâncias! Basta ler a tradução para ver que a música não poderia ser diferente.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 22. Der Heiland fällt vor seinem Vater nieder (Henschel – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Der Heiland fällt vor seinem Vater nieder,
Dadurch erhebt er mich und alle
Von unserm Falle
Hinauf zu Gottes Gnade wieder.
Er ist bereit,
Den Kelch, des Todes Bitterkeit zu trinken,
In welchen Sünden dieser Welt
Gegossen sind und hässlich stinken,
Weil es dem lieben Gott gefällt.
O Salvador cai de joelhos diante de seu Pai,
e assim ele levanta a mim e a todos
de nossas quedas,
reconduzindo-nos à graça de Deus.
Ele está disposto
a beber o cálice amargo da morte,
no qual os pecados deste mundo
estão derramados e cheiram mal,
porque isto agrada ao Deus amado.
Bach: St. Matthew-Passion - 22. Der Heiland fällt vor seinem Vater nieder
(clique para ampliar)

O acompanhamento de cordas, sempre descendente, descreve Jesus caindo de joelhos ou se prostrando. O único trecho onde as cordas sobem está após a recondução à graça de Deus (Gottes Gnade): “elementar meu caro Watson”, diria Sherlock Holmes. Se o baixo solista faz menção a quedas (fällt nieder, Falle) a voz é descendente, e se ele menciona levantamentos (dadurch erhebt er, hinauf) a voz é ascendente, sem esquecer da melodia em “V” na expressão den Kelch (o cálice).

O restante do recitativo é uma numerosa coleção de dissonâncias. São trítonos, acordes diminutos e sétimas diminutas em inversões horrorosas, distribuídas fartamente entre voz, baixo contínuo e cordas – clique ali na partitura para dar uma olhada. As dissonâncias só dão trégua lá no último verso, weil es dem lieben Gott gefällt (porque isto agrada ao amado Deus), sendo substituídas por uma harmonia clássica com uma cadência bem amável.

23. Arie (Bass): Gerne will ich mich bequemen

Bach: Paixão segundo São Mateus – 23. Gerne will ich mich bequemen (Henschel – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Gerne will ich mich bequemen,
Kreuz und Becher anzunehmen,
Trink ich doch dem Heiland nach.
Denn sein Mund,
Der mit Milch und Honig fliesset,
Hat den Grund
Und des Leidens herbe Schmach
Durch den ersten Trunk versüsset.
Com prazer eu me confortarei
em tomar a cruz e a taça,
bebendo como fez meu Salvador.
Pois sua boca,
da qual flui leite e mel,
transformou o motivo
e a amarga vergonha do sofrimento
em doce, através do primeiro gole.

Bach: St. Matthew-Passion - 23. Der mit Milch und Honig fliessetA instrumentação desta ária é bem espartana: apenas primeiros e segundos violinos em uníssono, além do baixo contínuo. E reparem como a melodia dos violinos é tortuosa, com saltos difíceis e síncopes: é uma boa descrição dos sofrimentos de “cruz e taça”. Algo bem diferente é a parte central, onde a melodia antes tortuosa se torna doce. Aqui há um detalhe na palavra fliesset (flui), um zigue-zague fluindo para baixo. Lembrando novamente, como no nº 15, a expressão “leite e mel” significa a palavra de Deus proferida por Jesus.

Andrea Mantegna: Cristo no Monte das Oliveiras (detalhe)
Andrea Mantegna: Cristo no Monte das Oliveiras (detalhe)

24. Rezitativ (Mt 26,40-42): Und er kam zu seinen Jüngern

Bach: Paixão segundo São Mateus – 24. Und er kam zu seinen Jüngern (Bostridge – Selig – Herreweghe):

Evangelist
Und er kam zu seinen Jüngern,
Und fand sie schlafend,
und sprach zu ihnen:
Evangelista
E voltou para seus discípulos
e encontrou-os dormindo,
e disse a eles:
Jesus
Könnet ihr denn nicht eine Stunde
mit mir wachen? Wachet und betet,
dass ihr nicht in Anfechtung fallet.
Der Geist ist willig, aber
das Fleisch ist schwach.
Jesus
Vocês não puderam nem por uma hora
vigiar comigo? Vigiem e orem,
para não caírem em tentação.
O espírito está pronto, mas
a carne é fraca.

Bach: St. Matthew-Passion - 24. Und fand sie schlafendAo jardim do Getsêmani, Jesus levou três discípulos e pediu para eles vigiarem. Mas acabou encontrando-os dormindo no chão, como mostram as notas graves de schlafend (dormindo). O Evangelho de São Lucas acrescenta que eles caíram no sono não por cansaço, e nem por menosprezo ao pedido de Jesus, e sim porque foram “vencidos pela tristeza” – o que poderia explicar o acorde diminuto ouvido no baixo.

Bach: St. Matthew-Passion - 24. Der Geist ist willig, aber das Fleisch ist schwach

O pito que Jesus passa em seguida traz várias informações, tanto musicais quanto extra-musicais. Wachen (vigiar) está lá em cima no agudo, vigiando tudo. Wachet und betet (vigiem e orem) é cantado com um acorde de 7ª diminuta, explicando que este não é um pedido fácil de atender neste momento. Fallet (caírem) cai em notas graves, e por fim temos um trítono em willig (pronto), mostrando que o espírito está pronto para o sacrifício, mas o acorde de Sol 7 não encontra resolução pois o corpo é fraco (schwach), e aqui temos uma dissonância inesperada.

A alma quer mas o corpo tem medo: eis a grande luta que se passa no íntimo de Jesus, e por isso a oração é tão importante, pois anima o espírito e dá forças para o corpo seguir em frente. Quando ele diz que a carne é fraca, ele também está se referindo ao sono que deixa os discípulos inconscientes e inertes para a ação das próximas horas. Vigiar e orar, portanto, também significa não se deixar vencer pela apatia da tristeza, a causa do sono.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 24. Zum andernmal ging er hin (Bostridge – Selig – Herreweghe):

Evangelist
Zum andernmal ging er hin,
betete und sprach:
Evangelista
E outra vez ele avançou
e orou, dizendo:
Jesus
Mein Vater, ist’s nicht möglich,
dass dieser Kelch von mir gehe,
ich trinke ihn denn,
so geschehe dein Wille.
Jesus
Meu Pai, se não for possível
que este cálice passe por mim,
então eu o beberei,
fazendo assim sua vontade.

Ging er hin (ele avançou) é novamente ascendente, Jesus avançou na mesma direção de antes. Sob betete (orou) há um acorde diminuto bastante doloroso e que desloca a harmonia, antes em tonalidades bemóis, para as tonalidades com sustenidos. Sim, a conclusão é que Jesus está rumando para abraçar a cruz, o sustenido em alemão conforme já comentamos lá no nº 17.

Bach: St. Matthew-Passion - 24. Ist's nicht möglich, dass dieser Kelch von mir gehe
(clique para ampliar)

A segunda oração de Jesus tem uma melodia muito parecida com a da primeira oração, com algumas diferenças sensacionais! Antes mein Vater (meu Pai) foi chamado em Mi bemol Maior, mas aqui a oração é mais sofrida, em tom menor, e mais apelativa, um semitom acima: Mi menor. O texto de Mateus também indica uma mudança de pensamento de Jesus: antes ele estava inclinado a desistir de tudo (se for possível), traduzido por Bach em um tom maior, Si bemol Maior; na segunda oração, Jesus está conformado em aceitar seu sacrifício (se NÃO for possível), o que Bach traduz num tom menor, Si menor. Mais ainda: na primeira oração, os desejos de Jesus e de Deus estavam representados por tonalidades diferentes, mas aqui o Si menor permanece firme até o final, porque a opção de Jesus é a mesma de Deus.

Aos curiosos e aos estudantes de harmonia, eu adicionei às duas orações uma análise harmônica para que vocês possam descobrir o porquê da segunda oração soar tão mais dramática. Na verdade Bach substitui acordes diminutos por sétimas diminutas, e adiciona sétimas às dominantes simples, além de jogar tudo para uma tonalidade menor: pronto, aí está a receita para transformar lágrimas em sangue.

Sebastiano Conca: Cristo no Jardim do Getsêmani
Sebastiano Conca: Cristo no Jardim do Getsêmani

25. Choral: Was mein Gott will, das g’sheh’ allzeit

Antes de ouvirmos o coral luterano que comenta a segunda oração de Jesus, prestem atenção nesta outra harmonização que Bach fez do mesmo coral ao final da cantata Ihr werdet weinen und heulen BWV.103:

Bach: Cantata Ihr werdet weinen und heulen BWV.103 – 6. Choral (Holland Boys Choir – Netherlands Bach Collegium – Pieter Jan Leusink):

Trata-se do coral luterano Was mein Gott will, das g’scheh allzeit, de Albrecht von Preussen (versos, 1547) e Claudin de Sermisy (melodia, 1528). Pelo que vocês ouviram, é um coral bem bonitinho e feliz, e a letra da primeira estrofe contribui para isso: “o que meu Deus desejar, é o melhor para mim”, e “confie em Deus que ele não o abandonará”. Mas, se é pra ser assim… por que os últimos versos desta harmonização aqui na Paixão soam tão instáveis, cromáticos e sofridos?

Bach: Paixão segundo São Mateus – 25. Was mein Gott will das gscheh allzeit (Philippe Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Was mein Gott will, das g’scheh’ allzeit,
Sein Will’, der ist der beste;
Zu helfen den’n er ist bereit,
Die an ihn glauben feste;
Er hilft aus Not, der fromme Gott,
Und züchtiget mit Massen.
Wer Gott vertraut, fest auf ihn baut,
Denn will er nicht verlassen.
O que meu Deus desejar, seja feita sempre,
Sua vontade, ela é a melhor;
Ele está disposto a ajudar aqueles
que nele creem firmemente;
Ele nos ajuda na aflição, o piedoso Deus,
e nos castiga com moderação.
Quem em Deus confia, se apóia nele,
pois ele não o abandonará.

Sim, o coral comenta o trecho que acabamos de ler do Evangelho, e reflete o estado íntimo de Jesus: “o espírito está pronto”, ouça minhas palavras, “mas a carne é fraca”, dentro de mim a harmonização soa insegura. Não percebeu a diferença entre os corais? Ouça novamente aqui somente os dois últimos versos na cantata BWV.103 e na Paixão BWV.244:

Bach: Comparação das harmonizações do BWV.103 (Leusink) com BWV.244 (Herreweghe):

Jesus quer cumprir a vontade de Deus, mas ao mesmo tempo pergunta pela possibilidade de deixar de cumpri-la. O coral, assim, é um perfeito retrato dessa situação.

26. Rezitativ (Mt 26,43-50): Und er kam und fand sie aber schlafend

Bach: Paixão segundo São Mateus – 26. Und er kam und fand sie aber schlafend (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Und er kam und fand sie aber schlafend,
und ihre Augen waren voll Schlafs.
Und er liess sie und ging abermals hin
und betete zum drittenmal
und redete dieselbigen Worte.
Evangelista
E ele voltou, mas encontrou-os dormindo,
e seus olhos estavam cheios de sono.
E deixou-os e novamente avançou
e orou pela terceira vez
e repetiu as mesmas palavras.

Bach: St. Matthew-Passion - 26. Und ihre Augen waren voll SchlafsPrestem bastante atenção: depois de vários recitativos em tonalidades bemóis, voltamos às tonalidades com sustenidos. O último recitativo já havia terminado em Mi menor, tonalidade com 1 sustenido; este aqui inicia em Ré Maior, dois sustenidos na armadura de clave. Por que isso é importante? Aguardem, vocês já vão entender…

Bach: St. Matthew-Passion - 26. Und ging abermals hin und beteteQuando Jesus voltou, encontrou novamente os discípulos caídos no chão, dormindo (schlafend) nos graves. Ihre Augen waren (seus olhos estavam) também desce para os graves, os olhos pesados de sono. A melodia ascendente de und ging abermals hin (e novamente avançou) indica Jesus voltando para o mesmo lugar das outras vezes para orar. Desta vez Mateus não nos dá as palavras exatas da oração de Jesus, mas as dissonâncias de betete (orou) nos dão a entender que a oração não foi menos dramática que as anteriores.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 26. Da kam er zu seinen Jüngern (Bostridge – Selig – Herreweghe):

Evangelist
Da kam er zu seinen Jüngern
und sprach zu ihnen:
Evangelista
Então ele voltou para seus discípulos
e disse a eles:
Jesus
Ach! wollt ihr nun schlafen und ruhen?
Siehe, die Stunde ist hier,
dass des Menschen Sohn
in der Sünder Hände überantwortet wird.
Stehet auf, lasset uns gehen;
siehe, er ist da, der mich verrät.
Jesus
Ah! Vocês vão agora dormir e descansar?
Vejam, é chegada a hora
em que o Filho do Homem
nas mãos dos pecadores será entregue.
Levantem-se, vamos;
vejam, ele está ali, o que vai me trair.

Bach: St. Matthew-Passion - 26. Ach!Jesus voltou da terceira oração arrasado; o Evangelho de São Lucas diz até que seu suor havia se transformado em gotas de sangue. Por isso seinen Jüngern (seus discípulos) é cantado com um trítono acompanhado de um acorde diminuto no baixo contínuo. Problemas com os discípulos? Talvez… mas pelo absurdo que se encontra ali na interjeição ach! (ah!), é evidente que Jesus não está nada bem. O baixo contínuo segura um fá sustenido e pede para montar “manualmente” um acorde inexistente (sol#-si-mi#); o resultado é um acorde de 7ª diminuta que ouvimos também nas cordas, porém com uma nota estranha no baixo, um fá sustenido que não pertence ao acorde. É uma dissonância aterradora!

Bach: St. Matthew-Passion - 26. Siehe, die Stunde ist hierSchlafen (dormir) e ruhen (descansar) são apresentados em notas graves, como manda o figurino. Mas legal mesmo é ali na palavra siehe (vejam): as duas bolinhas pretas no extremo superior da pauta não parecem dois olhos olhando por cima de um muro? Ou é exagero da minha parte? Tudo bem, esqueçam isso e ouçam os violinos subindo para o agudo, são o olhar ou a cabeça dos discípulos se virando para onde Jesus apontou. Quando ele canta die Stunde ist hier (a hora chegou), as harmonias confirmam a tonalidade do trecho, Fá sustenido menor, uma tonalidade com três sustenidos.

Bach: St. Matthew-Passion - 26. Sünder Hände, stehet auf, lasset uns gehen, siehe

Na sequência, a frase in der Sünder Hände (nas mãos dos pecadores) está bem acompanhada de três trítonos e dois acordes de 7ª diminuta, e a conclusão da frase überantwortet wird (será entregue) nos manda para Dó sustenido menor, uma tonalidade já com quatro sustenidos. O excesso de pausas na frase seguinte demonstra falta de ar: stehet auf (levantem-se) subindo, lasset uns gehen (vamos) com trítono e 7ª diminuta, siehe (vejam) trítono, é tão apavorante como se estivéssemos vendo o coisa ruim em pessoa! Der mich (o que me [trairá]) trítono e acorde diminuto no baixo, verrät (trair) finaliza em… Sol sustenido menor, cinco sustenidos!

Perceberam como a música vai acumulando sustenidos (as cruzes em alemão) em poucos compassos? Saímos de Ré Maior, 2 sustenidos, para Sol sustenido menor, 5 sustenidos: literalmente, Jesus está vendo a cruz se aproximando dele!

Bach: Paixão segundo São Mateus – 26. Und als er noch redete (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Und als er noch redete, siehe,
da kam Judas, der Zwölfen einer,
und mit ihm eine grosse Schar
mit Schwertern und mit Stangen,
von den Hohenpriestern
und Ältesten des Volks.
Und der Verräter hatte ihnen
ein Zeichen gegeben und gesagt:
“Welchen ich küssen werde,
der ist’s, den greifet!”
Evangelista
E ele ainda falava, vejam,
quando chegou Judas, um dos doze,
e com ele uma grande multidão
com espadas e com paus,
enviada dos sumos sacerdotes
e dos anciãos do povo.
E o traidor tinha dado a eles
um sinal e dito:
“Aquele a quem eu beijar,
é ele, prendam-no!”

A partir deste trecho, o Evangelista tem notas mais agudas, intervalos largos e maior quantidade de semi-colcheias, o que resulta nesse tom de nervosismo que ouvimos no áudio. Nesta gravação em especial, Philippe Herreweghe acelera um pouco mais o tempo, exaltando ainda mais o caráter de urgência e alarmismo das palavras do tenor.

Bach: St. Matthew-Passion - 26. Judas, der VerräterRepararam na nota aguda de Schaar (multidão)? É como se o Evangelista estivesse gritando apavorado “salve-se quem puder”! Eis que surge Judas, o traidor (Verräter), inevitavelmente acompanhado de trítonos e acordes dissonantes de 7ª diminuta, e o sinal combinado por ele é cantado com notas mais graves, como se ele tivesse combinado com os guardas através de sussurros.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 26. Und alsbald trat er zu Jesu (Bostridge – Selig – Wörner – Herreweghe):

Evangelist
Und alsbald trat er zu Jesu und sprach:
Evangelista
E logo se aproximou de Jesus e disse:
Judas
Gegrüsset seist du, Rabbi!
Judas
Salve, Mestre!
Evangelist
Und küssete ihn.
Jesus aber sprach zu ihm:
Evangelista
E o beijou.
Jesus porém disse a ele:
Jesus
Mein Freund, warum bist du kommen?
Jesus
Meu amigo, por que você veio?
Evangelist
Da traten sie hinzu
und legten die Hände an Jesum
und griffen ihn.
Evangelista
Então os outros se aproximaram
e colocaram as mãos em Jesus
e o prenderam.

Bach: St. Matthew-Passion - 26. Und küssete ihnA melodia de trar er zu Jesu (se aproximou de Jesus) parece se encaminhar para um outro acorde, mais agudo ou agressivo, mas Judas chegou de mansinho, saudou Jesus e o beijou. Agora tentem procurar algo de errado nesta frase, und küssete ihn (e o beijou); não tem nada, nem trítonos, nem dissonâncias, nem acordes de sétima, está tudo bem certinho. Só falta o principal para um beijo: amor. A melodia não soa amorosa porque está cheia de saltos grandes.

Mas quando Jesus diz mein Freund (meu amigo), melódico, aí entendemos como teria soado um beijo com amor. É de partir o coração, não tem uma só vez que eu ouça este trecho e minha visão não fique turva de lágrimas.

Hans Holbein o Jovem: A Paixão (detalhe)
Hans Holbein o Jovem: A Paixão (detalhe)

27. Arie (Duett: Sopran und Alt) mit Chor: So ist mein Jesus nun gefangen

Como comentar os eventos recém-narrados? O que dizer depois disso tudo? Bach então faz uma grande loucura: ele remove o baixo contínuo da música.

Na música barroca, toda melodia precisa, sempre, vir acompanhada de uma harmonia que a sustente. O responsável por isso é o baixo contínuo, um grupo formado por um ou vários instrumentos que fazem um trabalho discreto porém essencial para a música. Quando Bach remove o baixo contínuo neste dueto, ele está retirando o chão do mundo barroco e virando tudo de cabeça pra baixo. É como se estivéssemos vendo um carro sem rodas, um prédio sem fundação ou uma mesa sem pernas; como por milagre, a música flutua no ar:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 27. So ist mein Jesus nun gefangen (Rubens – Scholl – Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Solisten
So ist mein Jesus nun gefangen.
Mond und Licht
ist vor Schmerzen untergangen,
Weil mein Jesus ist gefangen.
Sie führen ihn, er ist gebunden.
Solistas
Assim meu Jesus é capturado.
A lua e as estrelas
de tanta dor se esconderam,
pois meu Jesus foi capturado.
Eles o levam, ele vai amarrado.
Chor 2
Lasst ihn, haltet, bindet nicht!
Coro 2
Deixem-no, esperem, não o amarrem!

É um dueto de soprano e contralto com acompanhamento de duas flautas, dois oboés e cordas, cortado de tempos em tempos por apelos de soltura vindos de toda a orquestra 2 e coro 2.

Bach: St. Matthew-Passion - 27. So ist mein Jesus nun gefangen
(clique para ampliar)

Quando a soprano canta a palavra gefangen (capturado), inicialmente ela oscila presa na região das notas lá# e si; mas quando o coro 2 grita lasst ihn! (deixem-no), a melodia voa livre do fá# grave ao fá# agudo. O mesmo acontece depois, quando o contralto canta a mesma palavra e o coro intervém pela segunda vez, lasst ihn! (deixem-no).

Bach: St. Matthew-Passion - 27. Mond und Licht ist vor Schmerzen untergangen

Mond und Licht (lua e estrelas) no agudo lá em cima… que se esconderam (untergangen) nos graves de tanta dor. E no último verso, gebunden (amarrado) por várias vezes é cantado numa nota longuíssima, amarrando a melodia numa única nota por até cinco tempos.

Subitamente os dois coros e as duas orquestras se unem num gesto inédito de fúria descontrolada:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 27. Sind Blitze sind Donner (Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

Chor 1+2
Sind Blitze, sind Donner
in Wolken verschwunden?
Eröffne den feurigen Abgrund, o Hölle,
zertrümmre, verderbe,
verschlinge, zerschelle
Mit plötzlicher Wut den falschen Verräter,
das mördrische Blut!
Coro 1+2
Estão os raios, estão os trovões
nas nuvens desaparecidos?
Abra seu abismo de fogo, oh inferno,
destrua, esmague,
devore, aniquile
com súbita fúria o vil traidor,
o sangue assassino!

Jesus sempre ensinou a perdoar quem te magoa e amar até o próprio inimigo, mas nessa hora os fiéis do coro, com raiva por não verem os céus virem socorrê-los, esquecem os ensinamentos cristãos e pedem inferno e punição para o traidor. Não se preocupem com este pecado, isto não ficará sem resposta!

Bach: St. Matthew-Passion - 27. Sind Blitze, sind Donner

Várias vezes os coros cantam a palavra Blitze (raio), sempre com duas notas curtas como relâmpagos. Mas para Donner (trovão) é dedicado um turbilhão de notas nas vozes mais graves: Dooooooooonner (trovããããããããão). E assim vão se alternando relâmpagos e trovões sempre nessa ordem, Blitze primeiro e Donner depois, até chegarmos num acorde de Ré Maior (a dominante de Sol Maior) e uma pausa. Pela lógica, o acorde depois da pausa deveria ser Sol Maior, porém, sem nenhuma preparação (repito: sem NENHUMA preparação), a música modula para Fá # Maior, um semitom abaixo. Para a época barroca, este tipo de transformação era inaceitável e totalmente contra as regras de harmonia… ou seja, é a própria descrição de inferno para Bach!

28. Rezitativ (Mt 26,51-56): Und siehe, einer aus denen

Na continuação da narração, o Evangelista continua tão apavorado quanto antes:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 28. Und siehe einer aus denen (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Und siehe, einer aus denen,
die mit Jesu waren, reckete die Hand aus
und schlug des Hohenpriesters Knecht,
und hieb ihm ein Ohr ab.
Evangelista
E veja, um daqueles
que estavam com Jesus, estendeu a mão
e golpeou o empregado do sumo sacerdote
e cortou-lhe uma orelha.

Bach: St. Matthew-Passion - 28. Er reckete die Hand aus und schlug des Hohenpriesters Knecht

Bach coloca a palavra Hand (mão) no tempo forte e em cima da nota do baixo contínuo; aus (para fora, de “estender para fora”) sobe para o agudo e num contratempo: estender a nota para fora do tempo forte não parece como estender a mão para fora do corpo? Und schlug des (e golpeou o) desce a nota que estava no agudo, como se descesse a faca na orelha do sujeito. E ele naturalmente gritou de dor, pois und hieb [ab] (e cortou) tem um trítono: “AI!, disse o guarda”.

O Evangelho de São João, ao contar este episódio, nos dá a identidade das pessoas envolvidas nesta briga: o discípulo que feriu é Pedro, e o nome do empregado ferido é Malco.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 28. Da sprach Jesus zu ihm (Bostridge – Selig – Herreweghe):

Evangelist
Da sprach Jesus zu ihm:
Evangelista
Então disse Jesus a ele:
Jesus
Stecke dein Schwert an seinen Ort;
denn wer das Schwert nimmt,
der soll durchs Schwert umkommen.
Oder meinest du,
dass ich nicht könnte meinen Vater bitten,
dass er mir zuschickte mehr
denn zwölf Legion Engel?
Wie würde aber die Schrift erfüllet?
Es muss also gehen.
Jesus
Meta a sua espada em seu lugar;
pois aquele que usa a espada,
pela espada morrerá.
Ou você pensa
que eu não poderia pedir ao meu Pai
para ele me mandar mais
de doze legiões de anjos?
Mas como se cumpririam as escrituras?
Então assim deve acontecer.
Bach: St. Matthew-Passion - 28. Stecke dein Schwert an seinen Ort
(clique para ampliar)

O lugar de guardar a espada é embaixo, na bainha, lá para onde se dirige a frase an seinen Ort (em seu lugar). Pois aquele que usa da espada (Schwert) – e Bach o descreve com um acorde de sétima dominante (Fá # 7) que, pela lógica, deveria ser seguido da tônica (Si menor) – pela espada (Schwert) morrerá, e Bach, ao invés de resolver o acorde dissonante, surpreende-nos com um acorde mais dissonante ainda, uma 7ª diminuta. E não só isso: este acorde de 7ª diminuta deve resolver num Fá #, o mesmo acorde que o precedeu, mostrando musicalmente o círculo vicioso da vingança que gera mais vingança. Por isso Jesus pede para Pedro guardar a espada, pois ao usá-la ele se torna um opressor igual aos que ele combate. Esta reprimenda também vale para os fiéis do coro que, agora há pouco, pediram inferno, aniquilamento e destruição de Judas.

Ah sim, após esta frase de Jesus, os violinos tocam um trinado (seria o corpo ferido tendo convulsões antes da morte?) e uma frase descendente, rumando aos graves em direção à sepultura.

Bach: St. Matthew-Passion - 28. Ich nicht könnte meinen Vater bittenNa frase seguinte, quando Jesus fala na hipótese de pedir ajuda ao Pai, a melodia que ele usa é a mesma das orações nos nºs 21 e 24. Ou seja, o “afaste de mim esse cálice”, na prática, seria como pedir para uma legião de anjos (Legion Engel) virem salvá-lo, e aí teríamos um final angelical em Lá Maior; mas a opção de Jesus é outra, é por um final triste em Fá # menor, para cumprir as escrituras.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 28. Zu der Stund sprach Jesus (Bostridge – Selig – Herreweghe):

Evangelist
Zu der Stund’
sprach Jesus zu den Scharen:
Evangelista
Nessa hora
disse Jesus à multidão:
Jesus
Ihr seid ausgegangen
als zu einem Mörder,
mit Schwertern und mit Stangen,
mich zu fahen;
bin ich doch täglich
bei euch gesessen
und habe gelehret im Tempel,
und ihr habt mich nicht gegriffen.
Aber das ist alles geschehen,
dass erfüllet würden
die Schriften der Propheten.
Jesus
Vocês saíram
como se eu fosse um assassino,
com espadas e com paus,
para me prender;
mas todos os dias
eu estive sentado com vocês
e ensinei no templo,
e vocês não me prenderam.
Porém tudo isso aconteceu,
para que se cumprissem
as escrituras dos profetas.

Bach: St. Matthew-Passion - 28. Ihr seid ausgegangen als zu einem Mörder

Ihr seid ausgegangen (vocês saíram) é ascendente, na mesma direção que o grupo de Jesus caminhou subindo o Monte das Oliveiras. Einem Mörder (um assassino) está bem descrito com um trítono e um acorde diminuto, bem como Stangen (paus) com um trítono e um acorde de 7ª diminuta: uma paulada daquilo deve doer. As dissonâncias diminuem a partir da palavra gesessen (sentado), pois a explicação de Jesus tem lógica. Aliás, ele só está sendo preso à noite porque seus opressores, lá no nº 4, combinaram não fazê-lo durante o dia para não provocar tumulto.

Bach: Paixão segundo São Mateus – 28. Da verliessen ihn alle Jünger (Bostridge – Herreweghe):

Evangelist
Da verliessen ihn alle Jünger
und flohen.
Evangelista
Então o deixaram todos os discípulos
e fugiram.
Giuseppe Cesari: Cristo feito prisioneiro (detalhe)
Giuseppe Cesari: Cristo feito prisioneiro (detalhe)

Por fim, a melodia de verliessen (deixaram) sobe, indo embora, e alle Jünger (todos os discípulos) tem as notas do acorde de 7ª diminuta, concluindo este trecho do Evangelho numa dolorida cadência para Dó # menor.

29. Choral: O Mensch, bewein dein Sünde gross

E finalmente chegamos ao número final da primeira parte da Paixão segundo São Mateus. Originalmente era um simples coral luterano, Jesum lass ich nicht von mir, a sexta estrofe do coral Meinen Jesum lass’ ich nicht. A letra diz algo como “eu não devo me separar de Jesus” e, portanto, casaria muito bem com o próximo número, o nº 30, que abre a segunda parte da Paixão e que veremos com detalhes no próximo post. Ouça o coral original:

Bach: Jesum lass’ ich nicht von mir BWV.244a (Nordic Chamber Choir – Nicol Matt):

Na revisão de 1742, Bach substituiu este número por uma grande fantasia coral baseada na primeira estrofe do coral luterano O Mensch, bewein dein Sünde gross, com versos de Sebald Heyden (1525) e melodia de Matthias Greitter. Aqui você ouve só o coral, numa harmonização simples de Bach catalogada como BWV.402:

Bach: O Mensch, bewein’ dein Sünde gross BWV.402 (Nordic Chamber Choir – Nicol Matt):

Não é a coisa mais linda do mundo? E em cima desta melodia Bach ainda ergueu todo um monumento com acompanhamento de flautas, oboés e cordas. Repare que parte da melodia da flauta foi usada no recitativo anterior, quando o Evangelista cantou Da verliessen ihn alle Jünger (então o deixaram todos os discípulos):

Bach: St. Matthew-Passion - 28. Da verliessen ihn alle Jünger

Da verliessen ihn alle Jünger – Acompanhamento do nº 29:

Sim: o acompanhamento do coral é que foi usado no recitativo e não o contrário. Digo isso porque esse número é anterior à composição da Paixão segundo São Mateus: ele originalmente abria a segunda versão da Paixão segundo São João e substituiu o coro inicial Herr unser Herrscher na apresentação de 1725. Bach depois voltou atrás e devolveu Herr unser Herrscher ao seu lugar definitivo, e moveu O Mensch bewein para cá, o final da primeira parte desta paixão. Existe ainda a hipótese desse coral ter sido escrito para uma outra obra mais antiga, a tão falada “Paixão de Weimar” de 1717 cuja partitura não foi encontrada até hoje. O estilo da música realmente nos lembra do Bach de tempos anteriores, ouça:

Bach: Paixão segundo São Mateus – 29. O Mensch bewein dein Sünde gross (Philippe Herreweghe – Collegium Vocale Gent):

O Mensch, bewein’ dein’ Sünde gross,
Darum Christus sein’s Vaters Schoss
Äussert und kam auf Erden.
Von einer Jungfrau rein und zart
Für uns er hie geboren ward,
Er wollt’ der Mittler werden.
Oh homem, chore seu grande pecado,
pelo qual Cristo deixou o colo de seu Pai
e veio para a terra.
De uma virgem pura e doce
para nós ele aqui nasceu,
ele quis ser o intercessor.
Den Toten er das Leben gab
Und legt’ dabei all’ Krankheit ab,
Bis sich die Zeit herdrange,
Dass er für uns geopfert würd,
Trüg’ uns’rer Sünden schwere Bürd’
Wohl an dem Kreuze lange.
Aos mortos ele deu a vida,
e afastou todas as doenças,
até que chegasse o tempo
em que para nós fosse sacrificado,
levando de nossos pecados o pesado fardo
bem preso à sua cruz.

As duas orquestras e os dois coros tocam juntos, sem distinção entre os dois grupos, denunciando que a fantasia não fora originalmente escrita para essa dupla formação. A melodia coral está nos sopranos, e os versos funcionam como um pedido de perdão depois do mesmo coro ter condenado Judas no nº 27 e ter recebido uma advertência de Jesus no nº 28.

Matthias Stom: A prisão de Cristo
Matthias Stom: A prisão de Cristo

No tempo de Bach, quando as paixões musicais eram apresentadas nos cultos de Sexta-feira Santa em Leipzig, no intervalo entre a primeira e a segunda parte acontecia o sermão do pastor. Considerando que a celebração começava às 13h15 e incluía a execução de outros corais durante a cerimônia, podemos supor que tudo levava de 4 a 5 horas – ainda assim, bem menos tempo do que a leitura completa de toda esta análise, do primeiro ao décimo post. Por isso é bom irmos encerrando por aqui para não cansar tanto; vamos fazer aquela pausa habitual de alguns dias e continuaremos semana que vem com o julgamento de Jesus por Caifás e os sumos sacerdotes. Até mais!

Este post pertence à série “Os segredos da Paixão segundo São Mateus”:
1. Introdução, história da composição e estrutura
2. Jesus em Betânia
3. A Última Ceia
4. No caminho para o Monte das Oliveiras
5. Tentação e Prisão de Jesus
6. Jesus diante de Caifás
7. O destino de Pedro e Judas
8. O julgamento diante de Pilatos
9. A Crucificação
10. Morte e Sepultamento
Tradução da Paixão segundo São Mateus, de Bach

11 Respostas

  1. Elisangela Martins
    |

    Quaisquer termos que eu tentasse usar, não iriam expressar a emoção que tem sido acompanhar esta série. ;D

  2. SILVANA
    |

    Muito bom!!!!! Uma verdadeira aula de música. Obrigada.

  3. Heber Fiori
    |

    Parabéns pelo post ^^ Excelente

  4. Leonardo T. Oliveira
    |

    ABSURDO o que Bach fez com o coral “O Mensch, bewein dein Sünde gross” pra fechar essa primeira parte.

    E parabéns cinco vezes até agora pela análise brilhante!

  5. Denison Rosario
    |

    Muito bom trabalho, recompensado pelo nosso reconhecimento emocional e intelectual.

  6. Denison Rosario
    |

    Agora, não entendo estas caveirinhas e desenhos infantis de cálices…tem que fazer desenhos? Não poderia ser só as partituras e textos? Fica a dica…

  7. Amancio Cueto Jr.
    |

    (risos)
    Um diabinho = trítono (diabolus in musica).
    Uma caveira completa = acorde de 7ª diminuta.
    “Meia caveira” (a caveira sem a mandíbula) = acorde diminuto.
    Os demais desenhos são auto-explicativos e economizam legendas. É muito mais convincente desenhar o cálice na partitura do que explicar que a melodia tem formato de cálice. Minha partitura, edição grande da Dover, está toda cheia desses rabiscos e desenhos; fazer a análise desse jeito foi a maneira que eu encontrei para mostrar as coisas que eu via na partitura. Peço desculpas se isso desagrada a você ou a algum outro leitor, mas é que nem sempre podemos contar com um Rafael para pintar a Capela Sistina, às vezes temos de nos contentar com um Michelangelo mesmo.

  8. Elisangela Martins
    |

    Eu acho GENIAL esses desenhos!!!
    Confesso que no começo fiquei curiosa com relação a eles, mas a medida que acompanhava o desenrolar dos posts, percebi o quanto eles auxiliaram-me na compreensão da análise.
    Ao meu ver, uma partitura é muito técnica e sem vida, a emoção só aparece quando ela é executada. Mas dessa forma toda desenhada, ganha expressão e beleza.
    D+

  9. Alessandro
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    Acham que Bach iria modificar melodias pra fazer desenhos na partitura? Naquela época. Interessante a análise musical, mas achei forçado ver tantos desenhos.

  10. Amancio Cueto Jr.
    |

    Olá Alessandro,

    Essa técnica de desenhar palavras na partitura é conhecida como Word Painting, e ela não é exclusividade de Bach. A word painting foi bastante explorada por outros compositores como Monteverdi, Händel e até Schubert. Aqui nestes links é possível ver alguns exemplos (não esqueça de verificar as referências na parte de baixo das páginas):
    Em inglês: http://en.wikipedia.org/wiki/Word_painting
    Em espanhol: http://es.wikipedia.org/wiki/Figuralismo

    Aqui, um artigo interessante (em inglês) falando do uso da word painting em Aus Liebe, a ária nº 49 da Paixão:
    http://www.bach.org/bach101/passions/st_matthew_passion2.html

    Aqui, um maravilhoso artigo em português da prof. Yara Borgez Caznok sobre a formação de imagens na escrita musical. Recomendo!
    http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0101-31062009000100010&script=sci_arttext

    Só não entendi o que vc quis dizer com “modificar melodias”. Bach compôs a Paixão segundo São Mateus do zero; é até interessante imaginarmos Bach sentado à mesa com a partitura em branco na frente e pensando, “um deles estendeu a mão e golpeou o empregado do sumo sacerdote: que notas vou colocar aqui para o tenor cantar estas palavras?”.

  11. Leonardo T. Oliveira
    |

    Fora que não é tão difícil desenhar uma cruz ou um cálice com a melodia, e Bach fazia coisas muitíssimo mais difíceis, como esta: http://www.youtube.com/watch?v=xUHQ2ybTejU

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